terça-feira, 15 de setembro de 2020

INVOLUÇÃO COGNITIVA

1. O ser humano, desde os tempos mais remotos, faz indagações a respeito das origens. A religião sempre se inquietou com essas questões e tentou, a seu modo, explicar as origens dos deuses (como na teogonia de Hesíodo), do mundo (como o Enuma Elish mesopotâmico), da humanidade (como no relato do Gênesis), do mal (teodiceia), etc.

2. Na Antiga Grécia, buscando respostas fundamentadas na razão, os primeiros filósofos dedicaram-se a localizar um princípio originário único capaz de explicar do mundo. A partir dessa nova orientação investigativa nasceu a ciência moderna: a astronomia, a zoologia, a química, a biologia, etc. Mas a sede, a busca incessante pelas origens não parou por aí.

3. O psicólogo canadense Merlin Donald propôs recentemente uma interessante teoria para explicar a origem do sistema cognitivo humano. Ele diz que o desenvolvimento da capacidade de externalização da memória, pela escrita, age diretamente em nosso sistema cognitivo, promovendo uma relação dialética entre cérebro e cultura.

4. Focando nessa “externalização da memória”, podemos pensar em três grandes revoluções dos nossos sistemas culturais para armazenar conhecimento: a) a invenção da escrita; b) da prensa tipográfica, e c) das novas tecnologias digitais. Eis aqui o grande paradoxo.

5. Ao mesmo tempo em que apontam para o avanço do sistema cognitivo humano e grande capacidade de desenvolvimento tecnológico, as tecnologias digitais têm sido usadas para disseminar o terraplanismo, teorias conspiracionistas, ideologias antivacina, fundamentalismos religiosos e obscurantismos científicos.

6. Se a gente não segurar esse pessoal, em breve estaremos de volta à Idade da Pedra.

7. Os pontos 5 e 6 são apenas uma piada.

 

Jones F. Mendonça

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

OS LÁBIOS NA BÍBLIA

1. A palavra hebraica traduzida por “lábio” (safhah) possui campo semântico bastante amplo na Bíblia Hebraica. Seu sentido primário, como parte carnuda que delineia a boca, aparece, por exemplo, em Cantares 4,11: “teus LÁBIOS (saphah) são como o fio de escarlata”.

2. Dependendo do contexto, pode indicar a fala, o idioma: “em toda a terra havia um só LÁBIO” (ou seja, uma só fala, cf. Gn 11,1). "Lábio" também indica linguagem em Gn 11,7: "desçamos e confundamos os lábios deles...". 

3. Em alguns casos "saphah" serve para indicar a margem de um rio: “largou-o no LÁBIO do rio” (ou seja, na linha d’água que margeia o rio, cf. Ex 2,3). O livro de Provérbios classifica certas pessoas como tendo “lábios ardentes” (Pv 26,23). O que seria isso? 

4. Alguns tradutores, sem saber exatamente o que significa “lábio ardente”, traduzem a expressão como “lábios amorosos”. Outros por “lábios amistosos”. E outros ainda por “palavras fingidas”. Bem, pessoalmente estou mais inclinado a pensar que a expressão indica o "caluniador", o "fofoqueiro" ("nirgan", cf. v. 22). 



Jones F. Mendonça

DIVAGAÇÕES

1. Em setembro de 1517 Lutero escrevia as pouco conhecidas 99 teses contra a escolástica. Suas principais críticas dirigiam-se a filosofia de Aristóteles, acolhida pela teologia do final da era medieval como fundamento da doutrina da Igreja. Os escolásticos giravam ao redor de Aristóteles como mariposas hipnotizadas pela luz. O tal do Aristóteles, caso nunca tenha ouvido falar dele, foi um filósofo do século IV a.C. Aliás, um baita de um filósofo. Lutero – debochado que era – tratava-o como “enganador de inteligências”. Duas eram as razões: 

2. A primeira: os teólogos escolásticos usavam a lógica de Aristóteles para expor os dogmas de fé da Igreja. A doutrina da trindade, esbravejava o monge indignado, não pode ser exposta nos termos da lógica. Lutero, neste ponto, era um fideísta, ou seja, via a lógica como uma mosca na sopa da teologia. Mas a implicância de Lutero não se dirigia apenas à lógica de Aristóteles. Sua teologia da depravação total entrava em choque direto com a ética de Aristóteles, tão na moda. Esta é a segunda razão. Explico. 

3. Embora não gostasse de Aristóteles, Lutero tinha muita afinidade com a filosofia de Platão, mestre de Aristóteles (Pois é, a filosofia sempre agiu como uma espécie de chiclete nos sapatos dos teólogos). Bem, Lutero propôs uma visão muito pessimista do ser humano, visto, em seu estado natural, como “cavalo de Satanás”. Os escolásticos, tão criticados por ele, vislumbravam uma antropologia mais otimista. Achavam que essa teologia de depravação total era um exagero, coisa meio mórbida, de mau gosto. 

4. Outro teólogo que não engoliu a filosofia aristotélica foi Nicolau de Cusa. Nicolau achava que a lógica de Aristóteles não subsistia em questões divinas. Não entendeu? Dou um exemplo: de acordo com a lógica de Aristóteles – que a gente ainda usa na escola – duas realidades contrárias não podem coincidir: “dia” não pode ser simultaneamente “noite”. Parece óbvio, não? Mas Nicolau dizia que Deus está cima de qualquer oposição e que, portanto, deve ser tratado como “coincidentia oppositorum” (coincidência dos opostos). Sim, esses caras “viajavam” muito. 

5. Mas doidão mesmo era Calvino. O teólogo tinha grande apreço pela ideia da Providência divina, coisa que, ao que parece, foi tomada dos estoicos, grupo de filósofos que fez muito sucesso no primeiro século (você já deve ter notado até aqui que os teólogos não deixam os filósofos em paz). Calvino dizia, vejam só, que Adão e Eva pecaram porque Deus determinou por sua Providência que pescassem. Ao mesmo tempo insistia em afirmar que eles pecaram por sua própria culpa. É ou não uma teologia muito louca? 



Jones F. Mendonça

LUTERO E CALVINO NAS ONDAS DO HUMANISMO

1. Em 1509, enquanto Lutero conquistava seu diploma de bacharel em Bíblia pela Faculdade de Wittenberg, Erasmo de Roterdã - seu futuro desafeto - debochava do declínio moral do clero inspirado no sarcasmo de Luciano de Samósata, escritor latino do II século. Estava na moda ler os clássicos, que começaram a chegar fresquinhos do Oriente pelas traduções dos árabes muçulmanos. Calvino, por exemplo, chegou a publicar em 1532 um comentário sobre o “de Clementia”, de Sêneca, um filósofo estoico. Voltemos a Erasmo.

2. No texto irônico produzido por Erasmo, intitulado “O elogio da loucura”, o Papa da época (Júlio II) é barrado por São Pedro nas portas do céu e é tratado pelo apóstolo como “Júlio, o imperador que voltou do inferno”. Que ousadia, não! Uma das razões da recusa de Pedro era o gosto de Júlio pela espada, daí sua fala: “Batina de padre, mas armadura ensanguentada por baixo”. Para quem não sabe este Papa aparece no filme “Lutero” (2004, direção de Eric Till). Na cena ele surge todo imponente vestindo uma armadura. Lutero faz cara de queM viu e não gostou.

3. O Renascimento e o humanismo tiveram influência direta sobre a Reforma. Foi a partir dos trabalhos de Lourenzo Valla, um famoso humanista, que Lutero pôde elaborar críticas severas à tradição católica. Bem, mas embora tenha sido instruído a partir de uma formação humanista, nunca foi humanista. Enfim, surfou nas ondas do humanismo, mas não mergulhou em suas águas. Uma pena...

  

Jones F. Mendonça

A MORTE EM SEIS PERSONAGENS BÍBLICOS

1. Seis personagens bíblicos pedem sua própria morte em momentos de grande angústia: 1) Jeremias açoitado pelo sacerdote Pasur (20,14); 2) Jó moribundo, diante de três amigos, após ter perdido tudo (3,3); 3) Elias, à sombra de uma árvore, perseguido pela rainha Jezabel (1Rs 19,4); 4) Tobias humilhado e cego (3,6); e 5) Matatias indignado pela profanação do Templo (1Mac 2,13).

2. O sexto personagem pede a morte por uma razão bem estranha: “eu sabia que tu és um Deus de piedade e de ternura... é melhor para mim a morte do que a vida” (Jn 4,3). O tema principal de Jonas não é a Providência Divina, que move céus e mares para que seus planos se concretizem. É sobre um religioso, que se via como membro de um povo escolhido, e que não aceitava o perdão divino estendido aos "não eleitos".

 

Jones F. Mendonça

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

COLUNAS DO PERÍODO DO SEGUNDO TEMPLO DESENTERRADAS EM JERUSALÉM

Arqueólogos descobriram em Jerusalém os capiteis de uma construção do século VIII, tempo do reinado de Ezequias. A datação foi feita a partir do modelo arquitetônico proto-eólico das colunas. Até o momento permanece desconhecida a identidade do dono da propriedade e a razão que levou alguém a enterrar cuidadosamente os capiteis. Os motivos curvos esculpidos nas rochas representam uma tamareira, associada à "árvore da vida", símbolo comum no Antigo Oriente Próximo. Leia mais sobre a descoberta aqui. Caso esteja interessado nos capiteis, clique aqui

  

Jones F. Mendonça



sexta-feira, 28 de agosto de 2020

COLONIALIDADES CONSERVADORAS

1. Quando um conservador de peso como o britânico Roger Scruton expõe as razões de sua postura conservadora, não é difícil entendê-lo, embora não necessariamente seja possível concordar com ele. Scruton diz querer preservar as coisas boas da cultura de seu país: a pintura (como a de William Blake), a literatura (como a de Charles Dickens) a música (como a de Gustav Holst), a imponência, a elegância e a história do Palácio de Westminster (sede do Parlamento britânico), o aconchego e o charme dos antigos povoados e até mesmo a tradição do chá, da monarquia e da fé anglicana. De fato, tudo muito elegante (e que, por vezes, esconde estruturas muito perversas). 

2. Como somos um país jovem, miscigenado e herdeiro de uma longa experiência de colonialidade, o conservadorismo que aqui se espalha ainda não conseguiu impor uma identidade (nem bom gosto). Para alguns, ser conservador é proferir grosserias a cada dois minutos (gostam de dizer que o importante é ser politicamente incorreto). Para outros é sentir saudade de Kichute e bala Juquinha. Há quem defina o conservador a partir da adoção de uma (importada) barba ao estilo nórdico lenhador. Para outros, como Pondé, é compreender que “mulher gosta é de apanhar”. E pensar que Scruton vive dizendo que a marca do conservadorismo é a busca pela beleza. Por aqui a coisa está mais para capa de botijão de gás bordado em crochê. 



Jones F. Mendonça

domingo, 16 de agosto de 2020

HÁ RACISMO EM LAMENTAÇÕES DE JEREMIAS?

1. O livro bíblico de Lamentações expõe poeticamente dois momentos vividos pelos jovens de Jerusalém: antes da invasão babilônica eram “mais alvos que o neve” e “mais brancos que o leite” (assim é traduzido na maioria das versões). Depois da invasão ganharam aspecto “escuro” (4,18). É possível que alguém veja aqui evidência de racismo. Será?

2. Duas razões para rejeitar essa visão: a palavra hebraica traduzida por “alvo” (zakakh) não indica cor, mas “pureza”. Veja: “nem os céus são zakakh aos seus olhos” (Jó 15,15). A palavra traduzida por “branco” é tzahah, termo que aparece uma única vez na Bíblia Hebraica. Seu significado é obscuro. No texto surge como sinônimo de zakakh. É provável que indique a natureza ofuscante do branco e não a cor em si.

3. Repare, ainda no verso 7, que os mesmos jovens são apresentados como “vermelhos como os corais” e “brilhantes como safira”. Como podem ser simultaneamente “brancos” e “vermelhos”? Bem, o que se tem em vista aqui não é a cor, mas o brilho, o aspecto reluzente, a pureza, o valor. Caso retornemos ao verso 2 veremos outra comparação: os nobres eram “como ouro” (reluzentes), agora “são como barro” (ressequidos e sem brilho). 

4. Para compreender um texto escrito há mais de dois mil anos é preciso entrar na cabeça dos seus escritores. É claro que essa tarefa não é fácil e que não é possível reconstruir todo o universo do autor do texto. Uma boa dose de humildade diante do texto é sempre importante. Mas não precisamos radicalizar e achar que a tarefa é difícil a ponto de embarcarmos nessa conversa de “leitura criativa”. Isso Malafaia e Feliciano já fazem com muita maestria.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

CONSIDERAÇÕES SOBRE A POESIA HEBRAICA

Cerca de 30% do Antigo Testamento foi escrito em forma poética. Ela aparece nos oráculos proféticos, nas orações, nos cantos fúnebres, nas celebrações de vitória, etc. Assim como a poesia mesopotâmica a poesia hebraica não trabalha com rimas, mas com paralelismos: o verso “b” reforça a ideia presente no verso “a”.

Veja como a compreensão do paralelismo ajuda a interpretar um verso de Cantares. Eis o verso (tradução NVI):

 “Pois o amor é tão forte quanto a morte, e o ciúme é tão inflexível quanto a sepultura” (Ct 8,6).

Destaco dois problemas com esta tradução: 1) algumas palavras estão mal traduzidas; 2) O tradutor não levou em conta o paralelismo. Abaixo proponho minha tradução. Veja que dispus os versos em paralelo:

A – “FORTE (1) como a MORTE (2) é o AMOR (3);
B – ATROZ (1’) como o SHEOL (2’) é a PAIXÃO (3’).

Veja como agora tudo faz sentido: forte/atroz; amor/paixão; morte/sheol.

Algumas considerações: 1) sheol não é “sepultura”, mas “mundo dos mortos”. Nos poemas o sheol era quase que personificado como uma força impetuosa, sempre disposta a tragar vidas. 2) a palavra hebraica que traduzi por “paixão” indica simplesmente uma pulsão: dependendo do contexto pode indicar ciúme, inveja ou amor ardente (paixão ou zelo). Aqui escolhi paixão por uma razão muito simples: o paralelismo exige que seja um sinônimo de “amor”. “Ciúme”, neste caso, não faz qualquer sentido.

 

Jones F. Mendonça

VERDE É PODER

Na Bíblia, a palavra hebraica “eytan” é traduzida simultaneamente por “poderoso” (Jó 12,19), “caudaloso” (Sl 74,15), “verde” (Jr 49,19) e “seguro” (Nm 24,21). Como pode ser isso? Explico: seu sentido primário indica algo que é permanente. Por desdobramento serve para classificar pessoas “poderosas” (permanentes em sua posição), cursos d’água “caudalosos” (rios permanentes, que não se esgotam com a seca), a vegetação “verde” (que permanece viçosa nos períodos de estiagem) ou “segurança” (algo que permanece, apesar da instabilidade).


 Jones F. Mendonça

terça-feira, 4 de agosto de 2020

O VERDE NA BÍBLIA

A palavra “verde”, em nosso idioma, não serve apenas para indicar uma cor. Dou um exemplo: “na carroça havia mato SECO e mato VERDE”. Verde, aí, indica um mato viçoso, contrário de seco. Não é cor.

Uma palavra hebraica geralmente traduzida por “verde” é “yereq”. Eis um exemplo: “tenho dado todas as ervas VERDES como mantimento” (Gn 1,30). Não é difícil perceber que “yereq”, ao menos aí, não indica a cor, mas outro tipo de qualidade da erva: sua viçosidade.

Rastreei todas as ocorrências de “yereq” na Bíblia Hebraica. Sempre aparece associada aos vegetais. Nunca indica uma característica visual de um tecido, de uma pedra, de um objeto qualquer. Então fico pensando se os hebreus tinham ou não uma palavra para designar a cor verde. Acho que não.

Certamente tinham palavras específicas para o preto (qadar, shahor), para o branco (laban), para o azul (tekelet) e para algumas variações do vermelho (adom, shaniy, argaman). Mas para o verde, parece que não.

Um fundamentalista poderia me indagar: “ora, mas no que esse tipo de análise vai contribuir para minha salvação”. Eu diria: nenhuma. Até porque não estou falando de religião, mas de idiomas, de cores e de como os hebreus percebiam o mundo.


Jones F. Mendonça


O CORAÇÃO DO REI DAVI

No texto hebraico do Antigo Testamento há uma expressão cujo sentido não é claro e que só aparece associada a Davi: “golpear o coração”. São dois os episódios em que aparecem: Davi “golpeia o [seu] coração” após cortar a orla do manto de Saul (1Sm 24,5) e, de novo, “golpeia [seu] coração” após ordenar o recenseamento do povo (2Sm 24,10). Qual seria o sentido disso? Os tradutores se dividem. Ele teria sofrido uma “dor no coração”, ou sentido “o coração bater forte”, ou um “descompasso no coração” ou até mesmo “remorso”. Quer saber a verdade? Ninguém sabe com certeza o que significa. Talvez indique remorso, medo, pavor, arrependimento... Não é fácil a vida do tradutor.

 

Jones F. Mendonça


quinta-feira, 9 de julho de 2020

DAVI E ABISAG: DUAS TESES

1. Logo na abertura do segundo livro dos Reis, Davi é apresentado como um idoso impotente, tanto sob a perspectiva política como sexual. Repare que já no v. 5 Adonias, o filho mais velho, aparece se gabando de que ocupará o trono de seu pai, cuja morte se anuncia. Mas Davi não tem forças para repreendê-lo (v. 6). O texto evidencia sua fraqueza política. 

2. Sua potência sexual também vai de mal a pior. O v. 1 diz que ele não “podia mais se aquecer”. O termo hebraico traduzido por aquecer é “yaham”, verbo que possui evidente conotação sexual, como revela Gn 30,39: “Eles se aqueciam [acasalavam], portanto, diante das varas...”, ou o Sl 51,5: “Eis que eu nasci na iniquidade, minha mãe se aqueceu [acasalou] no pecado”. 

3. Para “aquecer” Davi, seus servos saem em busca de uma bela jovem virgem e escolhem Abisag. Mas nem a beleza de Abisag é capaz de despertar Davi, afinal – diz-nos do texto – “ele não a conheceu” (v. 5). E por que não a “conheceu”?  O texto sugere que estava definitivamente impotente. Esta é a explicação nr 1. Há uma explicação alternativa ao texto, mais tradicional.

4. Pela perspectiva nr 2, a “falta de aquecimento” de Davi teria a ver com alguma enfermidade física. O rei estaria acometido de uma doença que alterava sua temperatura corporal. Para aquecê-lo o cobriam com vestes, tal como diz o v. 1. A finalidade desta bela donzela também seria livrá-lo do frio, deitando-se ao seu lado durante a noite. O fato de não ter se relacionado sexualmente com a bela “enfermeira” indicaria o alto grau de moralidade do rei. 

5. Não sei o que você acha, mas pessoalmente custo a acreditar na tese da “enfermeira formosa” e do “rei respeitador”. Ao que parece, o trecho “por mais que lhe pusessem cobertas” foi um acréscimo. Veja como ficaria o v.1 sem as "cobertas": "O rei Davi estava velho, com idade avançada [por mais que lhe pusessem cobertas], por isso não conseguia se aquecer". O problema era a impotência, mas alguém tentou sugerir que era frio. 




Jones F. Mendonça

A BÍBLIA COMO ELA É: INTRIGAS NA CORTE DO REI DAVI

1. O primeiro livro de Reis descreve uma grande trama política sendo armada no final da vida de Davi. Adonias, o herdeiro legítimo na ordem de sucessão, tentou costurar apoio político, mas só conseguiu trazer para seu lado o general Joabe e e Abiatar o sacerdote. Sim, foi pouco. 

2. Salomão, o filho mais novo, recebeu apoio do sacerdote Zadoque, do profeta Natã, de Simei (homem influente na corte), de Benaia (chefe da guarda real) e toda guarda pessoal de Davi. O texto sugere Natã como grande arquiteto dessa aliança. 

3. Mas o apoio mais importante de Salomão veio Bat-sheba, sua mãe. Foi ela, seguindo conselho do profeta Natã, quem convenceu Davi a tomar uma atitude. Disse mais ou menos assim ao rei: “se Adonias assumir o trono, eu e Salomão estaremos fritos!” (1Rs 1,21). Mas ela queria deixar o rei realmente assustado.

4. Então contou a Davi que Adonias armara um baita “churrasco” na tentativa de conquistar apoio para sua ascensão ao trono. Davi, mesmo velho e impotente sexualmente, “bateu na mesa” e tomou uma decisão: “tragam uma mula, levem Salomão a Giom e façam com que Zadoc e Natã o unjam rei” (1,33-34). Não devemos subestimar um rei no limite de suas forças. 

5. Quando soube que Salomão havia sido ungido rei, Adonias e seus aliados entraram em pânico. Sentiram cheiro de sangue. Adonias até tentou se casar com Abisag, a “enfermeira” virgem e formosa do harém de Davi, mas o plano deu errado. Salomão percebeu suas intenções e encarregou Benaías do serviço: Adonias morreu em 2,25. Mas e os demais traidores?

6. Antes de morrer Davi deu algumas orientações a Salomão: elimine Joabe: não é confiável (2,5); dê um sumiço em Simei: sujeito traiçoeiro (2,8). Os dois acabaram assassinados pela mão do mesmo Benaías, agora elevado ao posto de chefe do exército (2,34; 2,46). Salomão deu ao traidor sacerdote Abiatar um destino menos trágico: o exílio (2,26).

7. O último verso do capítulo 2 encerra a rede de intrigas: “E a realeza então consolidou-se nas mãos de Salomão”. E a paz voltou a reinar no palácio. 




Jones F. Mendonça

terça-feira, 7 de julho de 2020

HEBRAICO: O REGISTRO MAIS ANTIGO

Na disputa pelo registro mais antigo contendo uma inscrição em hebraico há quatro candidatos: O calendário de Gezer (séc. X a.C.), o óstraco de Qeiyafa (séc. X a.C.), o abecedário de Tel Zaiyt (século X a.C.) e o abecedário de Izbet Sartah (séc. XII a.C.). Os epigrafistas quebram a cabeça para saber se essas inscrições foram feitas em fenício ou em hebraico porque tanto um idioma quanto o outro usaram simultaneamente o mesmo alfabeto (até o séc. IX) e porque as inscrições foram preservadas de maneira muito fragmentada. Interessados no assunto devem ler este artigo, publicado no Biblical Archaeology Society. Quem discute a questão é ninguém menos que Christopher Rollston.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 24 de junho de 2020

JEREMIAS E OS "CALCANHARES" DE JERUSALÉM

O capítulo 13 do livro do profeta Jeremias anuncia a chegada de um inimigo que vem do Norte (Babilônia), apresentado como instrumento da ira divina contra seu povo. No verso 22 o povo pergunta: “qual a razão destas coisas?”. Javé responde:

“Por causa da multidão das tuas iniquidades se descobriram as tuas vestes, e VIOLENTARAM TEUS CALCANHARES”.

Um leitor ingênuo haverá de se perguntar: “qual o significado da expressão ‘violentaram teus calcanhares’?”. Bem, a NTLH capturou o eufemismo e traduziu o verso assim:

“Por que arrancaram as minhas roupas? Por que abusaram de mim?”.

“Calcanhares”, aí, é uma referência à parte posterior do corpo, ao dorso, mais especificamente às nádegas. Este capítulo, aliás, está impregnado de linguagem sexual. No verso 37, por exemplo, Jerusalém é comparada a uma mulher adúltera que “relincha (matzalah = gritos de gozo) em vergonhosa prostituição”.


Jones F. Mendonça

SOBRE POETAS, MITOS, LIBERDADE E FILOSOFIA

No século VIII a.C., enquanto profetas bíblicos como Amós denunciavam as injustiças cometidas pelo rei e pelos sacerdotes do norte de Israel, Hesíodo escrevia sua Teogonia, texto poético destinado a explicar a origem dos deuses e dos fenômenos cósmicos. Ainda não era uma busca fundamentada na razão, mas já revelava preocupação com as causas primeiras. Não seria exagero dizer que foram os poetas, com sua linguagem mítico-fantástica, que abriram caminho para o desenvolvimento das cosmogonias filosóficas e, portanto, da filosofia.  Uma segunda contribuição foi a religião grega, livre de dogmas rígidos, de textos sagrados revelados e de guardiões da “reta doutrina”. Esse modo de articular a religião favoreceu o desenvolvimento do livre pensamento e do debate de ideias. A autonomia das cidades, seu grau de bem-estar e liberdade política, foram o solo fértil para que as sementes da filosofia finalmente germinassem.  


Jones F. Mendonça

terça-feira, 23 de junho de 2020

POLÍTICA A ASCESE

Tudo começou com sua adesão ao “não vai ter Copa”. Dizia ser inadmissível perder seu tempo com futebol num momento político tão delicado. Para não parecer hipócrita suspendeu suas assinaturas de streaming: abandonou os seriados. Mas queria suprimir todas as distrações: desinstalou o Candy Crush, vendeu sua mesa de sinuca, doou os gatos, cancelou a viagem de lua de mel. Achou pouco. Ainda lhe restavam gotas de prazer. Suspendeu o sexo com a mulher, abandonou a família, transformou-se em pessoa amarga. Sua boca e sua alma eram agora incapazes de esboçar um mínimo sorriso. Aos 81 anos descobriu em Jean de Santeuil a cura para sua doença: “Castigat ridendo mores” (corrige os costumes sorrindo). Mas já era tarde demais: tinha vocação para tolices.



Jones F. Mendonça

AS COISAS FEDORENTAS NA BÍBLIA

O verbo hebraico “ba’ash” significa “cheirar mal”, “ser fedorento”, “malcheiroso”. Quando o rio se converte em sangue, em Ex 7,17, suas águas “cheiram mal” (ba’ash). Mas este é seu significado primário. Em boa parte das vezes “ba’ash” aparece como metáfora. Veja:

“Jacó disse a Simeão e a Levi: ‘vocês me transformaram num FEDORENTO ( = pessoa repugnante) entre os habitantes da terra’” (Gn 34,30).

Um substantivo derivado do verbo é “beosh”. Ele aparece em Is 34,3: “dos seus cadáveres subirá o MAU CHEIRO” e em Am 4,10: “Fiz subir às vossas narinas o MAU CHEIRO de vossos acampamentos”.


Jones F. Mendonça


O MAU HÁLITO DE JÓ

Traduzido literalmente, Jó 19,17a fica assim: “MEU ESPÍRITO tornou-se repugnante à minha mulher”. Na maioria das vezes que “meu espírito” aparece em Jó, a tradução mais indicada é “minha vida”, como em Jó 6,4: “o ardente veneno suga o meu espírito” ( = “meu ânimo” > “minha vida”). Assim teríamos: “minha vida tornou-se repugnante à minha mulher”.

Mas a palavra traduzida por “espírito” também pode significar “alento”, “fôlego”, por isso há quem traduza assim: “MEU HÁLITO tornou-se repugnante à minha mulher”. Neste caso a referência seria ao “bafo”, ao cheiro ruim que saía da boca dele. A questão seria facilmente resolvida se tivéssemos certeza que a continuação do verso diz que seu MAU CHEIRO afugenta seus próprios filhos. Assim, teríamos:
  • A - hálito ruim > mulher
  • B - cheiro ruim > filhos (a parte B reforçaria o que é dito em A)
Mas a parte “b” de Jó 19,17 é um caso à parte. A tradução “mau cheiro”, presente em boa parte das Bíblias, baseia-se numa suposição. Enfim, para sabermos a tradução correta da parte “a” (“vida” ou “hálito”?), precisamos traduzir corretamente a parte “b” (e vice versa). Não é fácil a vida dos tradutores.



Jones F. Mendonça

SOBRE A IDADE MÉDIA

Meu primeiro contato com algum tipo de rejeição ao termo “Idade das Trevas” usado para qualificar a Idade Média foi em uma obra sobre a história da arte (“Idade Média”, aliás, já carrega dimensão pejorativa). O livro destacava a beleza, a singularidade e a sofisticação da arquitetura medieval. Encontrei o mesmo tipo de crítica num livreto sobre a filosofia medieval. As autoras, católicas, insistiam em destacar aspectos positivos desse período tão controverso que durou cerca de mil anos. Fui forçado a rever meus conceitos. A abandonar alguns rótulos.

Recentemente tive contato com a obra do medievalista francês Alain de Libera. Na introdução de sua “filosofia Medieval” (Jorge Zahar, 1990) o autor rejeita duas teses muito difundidas: 1) Toda a filosofia medieval é, no fundo, apenas teologia (Bertrand Russell); 2) A “filosofia medieval” é mero resultado do casamento entre o aristotelismo e as doutrinas judaico-cristãs (Martin Heidegger). Bem, acho que já foi suficientemente destronada a ideia de que a “Idade Média” foi um período essencialmente obscurantista. Mas vamos com calma.

Tenho encontrado aqui e ali, sobretudo no ambiente reformado, pastores fazendo declarações de amor ao medievo. Revelam grande saudade do tempo em que a teologia era a rainha das ciências. Cavando fundo, como bem fazia Nietzsche, filósofo da suspeita, não é difícil descobrir a razão desse anunciado amor: é que sendo a teologia a rainha, serão eles os reis...


Jones F. Mendonça


sexta-feira, 19 de junho de 2020

PRINCÍPIO ARQUITETÔNICO E PRINCÍPIO HERMENÊUTICO

Toda a construção teológica – seja o de um Edir Macedo (barata) ou a de um Rudolf Bultmann (sofisticada) – é norteada por dois princípios: o princípio arquitetônico e o princípio hermenêutico. O primeiro é um tema das Escrituras, o segundo uma filosofia. Dois exemplos:

1) A teologia da prosperidade usa como princípio arquitetônico a prosperidade material (um tema das Escrituras) e como princípio hermenêutico a confissão positiva (uma “filosofia”); 2) A teologia de Bultmann usa como princípio arquitetônico a Palavra de Deus (um tema das Escrituras) e como princípio hermenêutico o existencialismo de Heidegger (uma filosofia).

Assim também foi com Theilhard Chardin (Cristo/evolução), Karl Rahner (encarnação/tomismo transcendental), Bonhoeffer (amor ao próximo/secularização), etc. Quem estiver interessado em ler mais sobre o assunto, sugiro a seguinte obra (muito didática e repleta de exemplos): MONDIN, Battista. Antropologia teológica. São Paulo: Paulinas, 1979.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 15 de junho de 2020

AS DUAS ARCAS DA ALIANÇA: MILITAR E RITUAL

Embora a tradição cristã enxergue no texto do AT referências a uma arca da aliança apenas, tanto a tradição rabínica quanto a crítica das fontes notam a presença de duas arcas: uma arca militar e uma arca sacerdotal. De acordo com o Rabbi Tzemah Yoreh, em artigo publicado no TheTorah, a arca militar teria sido convertida em arca ritual pelos sacerdotes com o propósito de “domar” um objeto mágico problemático, transformando-o em móvel do templo. O mesmo teria acontecido com outros objetos, como o Éfode e o Urim e o Tumim: antes, instrumentos da atividade divinatória; depois, elementos da roupa dos sacerdotes. Leia mais clicando aqui.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 4 de junho de 2020

CAIM E ABEL, POR WILLIAM BLAKE


Um Adão assombrado, uma Eva em prantos, um Abel desfalecido e um Caim arrependido (?) ilustram esta tela fantasmagórica do mestre William Blake (~1805). Muito mais aqui.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 27 de maio de 2020

JAVÉ COM NARIZ INFLAMADO

No hebraico bíblico não há uma palavra específica para “ira”. Quando o texto indica uma pessoa perdendo a paciência com outra, diz assim: “E inflamou-se o nariz de Fulano contra Ciclano”. Dois exemplos:

“E inflamou-se o nariz de Jacó contra Raquel” (Gn 30,2).
“E inflamou-se o nariz de Javé contra Moisés...” (Ex 4,14).

De modo geral os tradutores trocam “inflamou-se o nariz” por “ficou zangado” ou “ficou irritado”. As "Almeidas" preservam o “acendeu-se/inflamou-se”, mas trocam “nariz” por “ira” (“acendeu-se a ira”).

Bem, no fundo o sentido acaba sendo preservado, mas se você quer entrar na cabeça, no mundo dos escritores bíblicos, então precisa entender como os hebreus usavam as palavras.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 21 de maio de 2020

O CÂNTICO DE DÉBORA SEM CORTES

O livro bíblico de juízes, no capítulo 5, contém um dos mais belos poemas da Bíblia. No v.28 a mãe de um general que lutou contra as tribos de Israel lamenta a demora de seu filho. Ela se debruça sobre a janela e diz: “por que tanto tarda o seu carro a vir?”. O leitor já sabe a resposta: o general, filho desta mãe preocupada, está morto. Mas ela alimenta a expectativa por um cenário melhor para seu filho. Leia com atenção (tradução da Bíblia de Jerusalém):

“É que sem dúvida demoram em repartir os despojos:
uma jovem, duas jovens para cada guerreiro!
Finos tecidos bordados e coloridos para Sísara [nome do general],
um enfeite, dois enfeites para meu pescoço!”

Duas observações: o texto não diz “jovens/jovens”, mas “ventre/ventres”. Cada guerreiro toma para si mais de um "ventre", ou seja, mais de uma jovem para que se torne seu objeto de prazer. 

Outra coisa. Os “enfeites” do último verso não são para o “meu pescoço” (da mãe esperançosa). O texto diz claramente “para o pescoço do despojo”, ou seja, para o pescoço das jovens (ou melhor, dos “ventres”) que foram tomadas como despojo.




Jones F. Mendonça

quarta-feira, 20 de maio de 2020

CORCUNDAS, ANÕES, VESGOS E CASTRADOS NO LEVÍTICO

O livro bíblico de Levítico lista no capítulo 21 uma série de características físicas que impedem o ingresso de pessoas no ofício sacerdotal. No verso 20 aparecem alguns exemplos: o corcunda, o anão, o doente dos olhos e a pessoa de testículo esmagado. Bem, eu reproduzi aqui as palavras mais comuns empregadas para traduzir os termos hebraicos que aparecem no verso.  

A palavra traduzida por “corcunda” na verdade indica alguém que é “torcido” (o que seria isso?). A segunda palavra, traduzida por “anão” apenas indica alguém que é mirrado ou magro demais (será que fala mesmo de um anão?). Na sequência aparece uma expressão que significa algo como “olho confuso” (seria um olho lacrimejante? Torto? Embaçado? Um vesgo?!).

O exemplo mais curioso aparece na dobradinha: “testículo esmagado”. O problema é que elas surgem na Bíblia apenas neste verso. A palavra traduzida por “testículo” possui a mesma raiz da palavra hebraica para “cacho” (seria uma referência aos “TESTÍCULOS”?). A palavra traduzida por “esmagado” vem da mesma raiz de um verbo que aparece em Is 38,21: “bolo de figos -----” (ESMAGADOS?). Neste caso a referência seria a um eunuco?

Eu sei que você tem na sua casa uma Bíblia antiga, de estimação, talvez uma Almeida. E que você jura que este verso na tradução dela é a mais correta. Mas não se engane. A grande verdade é que o sentido original desses termos talvez tenha se perdido no tempo.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 12 de maio de 2020

O BEIJO DE JUDAS NA ARTE MEDIEVAL

Fonte: Wikimedia Commons
Nesta ilustração, do século XV, os eventos associados à prisão de Jesus se concentram numa só cena, prática comum na arte medieval: 1) Judas denuncia a identidade de Jesus com um beijo (Lc 22,47); 2) Um dos discípulos percebe a arapuca, saca sua espada e corta a orelha do servo do sumo sacerdote (Lc 22,50); 3) Jesus cura a orelha do servo (Lc 22,51); 4) Jesus se entrega às autoridades judaicas (Lc 22,53). O evangelho de João oculta o beijo, mas dá nomes ao “discípulo sangue quente” (Pedro) e ao servo do sumo sacerdote (Malco, cf. Jo 18,10).



Jones F. Mendonça

domingo, 3 de maio de 2020

AZAZEL E OS RITUAIS APOTROPAICOS

No livro bíblico de Levítico a interpretação de um ritual muito estranho divide exegetas. O bode enviado ao deserto “para azazel” (16,21), significa o quê exatamente? Possibilidades: 1) “Para azazel” indica o local para onde era enviado o bode (cf. tradição rabínica); 2) “Para azazel” indica o papel desempenhado pelo bode (seria um bode “emissário”, o que lembra o ritual judaico moderno do kaparot); 3) “Para azazel” indica o nome do demônio a quem o bode era enviado (é o que pensa, por exemplo, Jacob Milgrom).

Muita gente não se dá conta de que Lv 14 descreve um ritual muito parecido, porém realizado com aves e não com bodes. Também é possível encontrar paralelos entre o ritual israelita e outros, feitos por povos como os eblaítas, hititas, ugaríticos e neoassírios. Caso você queira conhecer um pouco mais o assunto, eu sugiro a leitura deste artigo, publicado no TheTorah.com (o texto é assinado por Noga Ayali-Darshan).

E caso queira assistir a um filme que coloca Azazel como um demônio, sugiro “Possuídos” estrelado por Denzel Washington (o filme é de 98). No filme, inspirado no Levítico, Azazel possui corpos humanos.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 28 de abril de 2020

O “PAVIO CURTO” NA BÍBLIA HEBRAICA

Dia desses, enquanto rastreava a ocorrência e a variação de sentido da palavra hebraica “qatzar” (um verbo que significa, em seu sentido primário “encurtar”), descobri por acaso que quando associada a “nefesh” (sentido primário = garganta, cf. Sl 69,1), significa “perder a paciência”. A dobradinha aparece em quatro textos: Nm 21,4; Jz 10,16; 16,16; Zc 11,8.

1. No caminho o povo perdeu a paciência.
2. Então Javé perdeu a paciência com a angústia de Israel.
3. [Sansão] perdeu a paciência para a morte (o que seria isso? A LXX parece mudar o sentido da expressão. Há conexões interessantes entre esta passagem e Mc 14,34).
4. Mas perdi a paciência com eles [Javé com três pastores].

Uma tradução literal seria algo como “encurtar a garganta”. Ocorre que o sentido de “nefesh” se amplia no texto bíblico. Como é pela garganta que entra o ar, o alimento e também é por ela que flui a voz, “nefesh” passou a significar “vida” (em minha opinião “alma” é um equívoco). Em Gn 2,7, por exemplo, o homem se torna, pelo hálito divino “garganta viva”.

Isso me faz pensar no real sentido da associação entre “qatzar” e “néfesh”. Afinal, por que “encurtar a garganta” indicaria impaciência? Seria uma referência ao fôlego: “fôlego encurtado” = impaciência? Seria uma indicação de desespero: “vida encurtada”, no sentido de que as energias estão se esgotando? Ainda não tenho uma resposta.



Jones F. Mendonça

sábado, 25 de abril de 2020

SÃO JORGE E O DRAGÃO


Muita gente já ouviu falar do Leviatã, criatura bíblica que aparece em diversos livros, como Jó (41,1) e Salmos (74,14). De acordo com a tradição judaica (Talmud), Deus fez um Leviatã macho e um Leviatã fêmea no quinto dia da criação. Mas Ele teria percebido que se animais de tão grande porte se reproduzissem “teriam destruído todo o mundo”. O que fazer? Para evitar isso, Deus teria castrado o macho e matado a fêmea. Por fim, salgou sua carne – acreditem – para ser digerida no banquete dos justos no advento do Messias (BB 74a). Nesta ilustração São Jorge aparece – como na tradição judaica – fazendo um churrasco de Dragão. Deve ser durinha essa carne, viu!


Jones F. Mendonça

JESUS COMO NOVO ADÃO


Nesta tela, de Włodzimierz Kohut (2015), um Jesus no estilo bizantino aparece tipificado como jardineiro. Em sua mão esquerda ele tem um regador, que derrama água em pessoas que “brotam” da terra. Com a mão direita ele faz o sinal do pantocrator (bênção divina). A tradição de representar Jesus como jardineiro é longa na história da arte (inspirada em Jo 20,15).

Há paralelos interessantes entre a narrativa da ressurreição joanina e o relato da criação. Veja que em Jo 20,22 Jesus sopra sobre seus discípulos como Javé em Gn 2,7. 
“Javé elohim... soprou em suas narinas um hálito de vida” (Gn 2,7).“soprou sobre eles e lhes disse: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22).
Ao que parece Jesus é pintado no quarto evangelho como uma espécie de novo Adão, restaurador do Éden (como na interpretação tipológica paulina em 1Co 15,22.45). Em Jo 19,41 o sepulcro e o local do sepultamento são situados num jardim. É no jardim que Jesus morre, é no jardim que Jesus ressuscita. Jesus é o novo Adão no jardim restaurado.


Jones F. Mendonça


sexta-feira, 10 de abril de 2020

NOTAS SOBRE DEUTERONÔMIO 26

Dt 26,12-15 trata do dízimo trienal. O texto determina que o ofertante declare diante de Javé que não contaminou o dízimo a ser entregue ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva.  O verso 14 explica em que situações esse dízimo poderia ser contaminado. São duas as situações: 1) comer parte desse dízimo durante o luto; 2) oferecer parte desse dízimo por um morto.  

Em relação ao ponto 1, Tigay [1] propõe duas possibilidades:
  • Um enlutado fica impuro por estar na mesma tenda que um cadáver por manuseá-lo durante o enterro ou pelo contato com outras pessoas que se tornaram impuras de uma dessas maneiras. Em tais condições qualquer alimento que ele tocasse se tornaria impuro.
  • Um enlutado fica impuro ao usar parte do dízimo em uma refeição fúnebre.
Ele explica que tais recomendações são uma reminiscência de uma prática encontrada nas “Instruções aos Oficiais do Templo” hititas. Em relação ao ponto 2:
  • Os antigos acreditavam que os vivos podem ajudar os espíritos dos mortos no Sheol, fornecendo-lhes comida e bebida. Essa prática foi difundida no mundo antigo e também é atestada entre alguns judeus nos períodos do Segundo Templo e depois, como em Tobias 4,17: “Derrame seu pão e vinho na tumba dos justos e não dê para os pecadores”. Em algumas sepulturas escavadas em Samaria, capital do Reino do Norte, foram encontrados buracos no chão, semelhantes aos encontrados nas tumbas de Ugarit, que serviam de receptáculo para alimentos e bebidas oferecidas aos mortos. A Torá não proíbe essa prática, mas, como o contato com os mortos é profanado ritualmente, proíbe o uso do dízimo por ela.
Um artigo publicado no The Bible and Interpretation (Afterlife and Resurrection Beliefs in the Second Temple Period), citando Joseph S. Park [2], afirma que essa noção é apoiada ainda pelas antigas inscrições das tumbas judaicas.

Notas:
[1] TIGAY, Jeffrey H. The JPS Torah Commentary: Deuteronomy. Fhiladelphia, Jerusalem: Jewish Publication Society of America, 2003, p. 242-244.

[2] Joseph S. Park, Conceptions of Afterlife in Jewish Inscriptions: With Special Reference to Pauline Literature, Wissenschaftliche Untersuchungen zum Neuen Testament (Tübingen: Mohr-Siebeck, 2000), 2:121.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 3 de abril de 2020

UM GALILEU NO MERCADO, UM PROFETA NO RESTAURANTE

Em “As várias faces de Jesus” (Record, 2006, p. 326), Geza Vermes reproduz um típico deboche dirigido ao sotaque do povo do norte de Israel. Ele narra um galileu tentando fazer compras num mercado em Jerusalém. Como tinha dificuldade com as guturais, consoantes pronunciadas na garganta, logo se torna alvo de chacotas:
Ô galileu, tolo, o que tu precisas é de uma coisa para montar (hamâr, um burro), de algo para beber (hamar, vinho), algo para cozer ('amar, lã), ou algo para um sacrifício no Templo (immar, cordeiro)?
O preconceito dirigido aos galileus também é revelado na fala de Natanael: “de Nazaré pode sair algo de bom?” (Jo 1,46). Quando ao sotaque dos nortistas, podemos percebê-lo na fala do sumo sacerdote dirigida a Pedro: “de fato, também tu és um deles; pois o teu dialeto te denuncia” (Mt 26,73; Mc 14,70; Lc 22,59).

Bem, se um galileu do primeiro século tinha dificuldade em se comunicar em aramaico com vendedores de um mercado em Jerusalém (por diferenças consonantais), imagina a dificuldade que Isaías não encontraria para se comunicar em hebraico com um garçom da Jerusalém moderna (diferenças consonantais, vocálicas e novas palavras no vocabulário). As barreiras seriam muito, mas muito, maiores.

Mas em texto publicado no site “prazer da palavra” (A importância do hebraico bíblico), Luiz Sayão diz que “Se Isaías ressuscitasse hoje teria condições de comunicar-se e de pedir um almoço em um restaurante de Jerusalém”. Eu duvido. Duvido muito. Quem estiver interessado ler um artigo sobre a pronúncia do hebraico bíblico, sugiro este artigo, publicado no TheTorah



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 20 de março de 2020

ARTE, PANDEMIA E EXEGESE


Em tempos de guerra, recessão econômica, catástrofes naturais ou epidemias, os artistas sempre encontraram uma maneira de expressar suas angústias, medos e frustrações. Nesta tela (A Guerra, 1896), o artista suíço Arnold Böcklin retrata os quatro cavaleiros mencionados no capítulo 6 do livro do Apocalipse. A imagem foi tomada do profeta Zacarias (1,8), que diz ter visto, em sonho noturno, cavalos coloridos posicionados num vale profundo.

De acordo com o texto, os cavalos/cavaleiros são emissários do Anjo de Javé, encarregados de percorrer e observar a terra*. Javé revela-se irado após tomar conhecimento da paz vivida pelas nações em contraste com o abandono de Jerusalém. Mas o texto não fala em punição para essas nações. Indignado, Javé anuncia a reconstrução de Jerusalém e a restauração de seu Templo, ocorrida em 515 a.C.

O Apocalipse dá novo significado à imagem dos cavalos/cavaleiros. Eles aparecem agora como instrumentos da ira de javé contra seus inimigos. O Apocalipse, aliás, é mestre em ressignificações. Usa a seu modo passagens de Daniel, Ezequiel, Isaías e Jeremias para compor um cenário de terror e angústia, mas também de fé e de esperança.

* “Terra”, em hebraico “eretz”, tem aqui o sentido de “nações”, algo raro, senão único. O termo, sem complemento, geralmente indica a “Terra de Israel”.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 17 de março de 2020

CORONA VIRUS, CORONA VIRO

As diversas diásporas impulsionaram os judeus a traduzirem seus textos sagrados para diversos idiomas, tais como o aramaico (Targum) e o grego (Septuaginta). Acolhida pelos cristãos como “Escritura”, a Bíblia Hebraica também foi traduzida para o latim (Vulgata Latina), juntamente com o Novo Testamento. Por curiosidade fiz buscas na Vulgata pela palavra “corona”, nome do vírus que tem assustado o mundo. Para minha surpresa:

O verso aparece em Pv 12,4 e significa "coroa do homem". O que Malafaia e Feliciano não fariam com essa "descoberta profética"? Caso queira dar uma olhada num manuscrito de Provérbios em latim produzido no século IX, clique aqui.



Jones F. Mendonça

sábado, 7 de março de 2020

PROFETISMO NO ANTIGO ORIENTE PRÓXIMO [LIVROS GRATUITOS]

Uma leitura atenta do Antigo Testamento revela a presença de elementos associados a antigas práticas mágicas e divinatórias do Oriente Próximo. São diversos os exemplos, tais como a taça de adivinhação de José (Gn 44,5); o carvalho dos adivinhadores (Jz 9,37); a adivinhação com flechas e com a dissecação de vísceras (2Rs 14,13-20 e Ez 21,21); o uso dos terafins e do éfode para consultar Javé (Jz 17,5; Os 3,4; 1Sm 23,9); a consulta aos mortos (Is 29,4; 1Sm 6,2) e o êxtase delirante (Nm 11,25; 1Sm 10,5-6; 1Sm 19,24; 1Sm 18,10; 1Rs 18, 26.28-29; 2Rs 3,15). Outra influência recebida pelos antigos israelitas dos povos vizinhos é a maneira como representavam o cosmo.

Aos interessados no assunto, uma boa notícia: o Instituto Oriental da Universidade da Chicago está disponibilizando gratuitamente (em inglês) alguns livros sobre o Antigo Oriente Próximo (o que inclui o Antigo Israel). Dentre eles: "Heaven on Earth: Temples, Ritual, and Cosmic Symbolism in the Ancient World" (Céu na Terra: Templos, Rituais e Simbolismo Cósmico no Mundo Antigo), editado por Deena Ragavan (a obra é ricamente ilustrada) e “Divination and Interpretation of Signs in the Ancient World” (Adivinhação e interpretação de sinais no mundo antigo), editado por Amar Annus. Baixe aqui.

Caso queira um livro específico sobre o profetismo no Antigo Oriente Próximo, visite o site da SBL e baixe gratuitamente (para países com baixa renda per capita, como o Brasil) “Prophets and Prophecy in the Ancient Near East” (Profetas e profecia no Antigo Oriente Próximo), escrito por Martti Nissinen. Baixe aqui:

Boa leitura!


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 4 de março de 2020

ARQUEOLOGIA, ICONOGRAFIA E EXEGESE


Estas são as sandálias do faraó Tutancâmon. Repare que foram ilustradas com representações de inimigos africanos e asiáticos. A antiga expressão bíblica “porei os inimigos debaixo dos meus pés” (como em 1Rs 5,3) também fazia parte do vocabulário dos povos vizinhos, como o Egito e os impérios mesopotâmicos. Nos extremos superior e inferior do calçado há grupos de quatro arcos que, juntamente com os cativos, representam os nove inimigos tradicionais do Egito, pisados simbolicamente pelo faraó quando usava as sandálias.

Para saber mais:

ZAKI, Mey. Legacy of Tutankhamun: Art and History. Giza, Egypt: Farid Atiya Press. 2008, p. 130.

Jones F. Mendonça

A REVOLTA DE CORÉ E O FOGO DE SODOMA


No conhecido episódio de Nm 16,2, Coré, Datan e Abiram desafiam a autoridade de Moisés “colocando-se de pé” diante dele. A oposição é marcada pelo verbo “pôr-se de pé”, “levantar” (qum). Em Gn 18,22 temos uma construção semelhante. Neste caso Abraão “permanece de pé diante das faces de Javé”. O verbo é outro (‘amad), mas num primeiro momento parece expressar a mesma ideia. Será?

Bem, neste caso o texto estaria sugerindo que Abraão permanece de pé “diante das faces” de Javé como que se opondo ao plano divino de destruir Sodoma. Essa oposição parece ser confirmada a partir da (insistente e ousada) intercessão do patriarca a favor de Sodoma (vv. 23-25; 27-29; 30-31; 32). Um confronto como este não seria inédito: Jacó luta com Deus... e vence! (cf. Gn 32,28; Os 12,3-4).

Para confirmar a tese eu precisaria localizar e analisar outras ocorrências do verbo “‘amad” antes da expressão “diante das faces de”. Encontrei quatro casos: Jr 35,19; Zc 3,1; 2Cr 20,13 e 18,20. Em todos eles, “ESTAR DE PÉ diante das faces de” serve apenas para indicar a posição do interlocutor. Nunca indica oposição.

O verbo usado em Nm 16,2 (revolta contra Moisés) possui sentido diferente: não significa “estar/permanecer de pé”, mas “pôr-se de pé”, “levantar”. Enfim, indica movimento, é “levantar-se” de algum lugar (Ex 24,13; Nee 9,3), “levantar” algo (Ex 26,30; 1Rs 16,32) ou “levantar-se” contra alguém ou algo (cf. Gn 4,8; Ex 15,7; Jz 20,5).

Então embora seja verdade que o texto coloca Abraão de certa maneira em oposição aos planos de Javé, esta postura não é acentuada pelo verbo. Não indica postura de confrontação, mas de súplica, de intercessão. Uma sutileza do verbo que faz muita diferença.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 3 de março de 2020

NINROD: AMIGO OU INIMIGO DE JAVÉ?

Os versos 8 e 9 do capítulo 10 do Gênesis dizem que Ninrod foi “poderoso na terra” e “poderoso caçador diante das faces Javé”. A tradição judaica, cristã e até muçulmana veem Ninrod como inimigo de Javé. A evidência estaria na expressão “LePney” = “diante das faces de”, que aparece antes do nome divino. Assim, há quem afirme que ser “grande caçador diante das faces de Javé” indica oposição/enfrentamento. Nm 16,2 e 1Cr 14,8 geralmente são citados como exemplos do uso de “LePney” indicando oposição. Ocorre que a oposição é indicada pelo verbo e não pela preposição. Veja:

Nm 16,2 “levantaram-se (Coré, Datã e Abiram) DIANTE DAS FACES Moisés...”.

1Cr 14,8 “Sabendo disso, Davi avançou DIANTE DAS FACES deles [dos filisteus]”.

“LePney” (diante das faces de) é uma expressão neutra que indica simplesmente que alguém ou algo está diante de outra pessoa ou coisa. Não encontrei um só caso em que alguém está “diante das faces de Javé” em oposição a ele (veja, p. ex. Dt 12,12; 1Sm 1,15; 2Sm 6,14; 1Rs 22,21; 2Rs 19,15; Jr 36,7. Uma exceção talvez seja Gn 18,22). A culpa, segundo alguns, é da LXX, que traduziu “LePney” pelo grego “εναντιον” (cf. Gn 10,9), uma preposição que significaria “que se opõe como adversário”. Rastreei todas as ocorrências da preposição grega e não parece ter esse sentido.

Bem, em minha opinião, o que temos em Gn 10,8-9 é um texto poético, em forma de paralelismo sinonímico:

“Ninrod foi poderoso NA TERRA
Poderoso caçador DIANTE DE JAVÉ”.

“Na terra” e “diante de Javé” expressariam a mesma ideia: as ações de Ninrod eram conhecidas por Javé porque aconteciam “na terra”, “diante de suas faces”. Nesse sentido, o texto não dá a Ninrod nem o título de amigo nem o de inimigo de Javé. O propósito do paralelismo seria destacar a fama do soberano, apresentado como fundador das mais importantes cidades mesopotâmicas.



Jones F. Mendonça

sábado, 29 de fevereiro de 2020

JURAMENTO E TESTÍCULOS SENSÍVEIS

Nos dias atuais, quando alguém quer fazer um juramento, faz isso em nome de algo que considera valioso: jura pela mãe, por Deus, coloca a mão sobre a Bíblia, etc. No Antigo Israel, o juramento usava como valor a capacidade de gerar descendentes, por isso era realizado com “a mão por debaixo dos testículos” (cf. Gn 24,2; 47,29). Josué Gonçalves, em seu livro “Quero casar certo”, faz um comentário correto ao dizer que a mão era colocada sobre os testículos, não sobre a coxa. Mas a explicação que ele dá para o modo como era feito o juramento é prá lá de bizarra (e sem fundamento). Palavras dele: “o servo deveria segurar os testículos do seu senhor. Caso estivesse mentindo, a sensibilidade do seu senhor perceberia algum modo de alteração, na FIRMEZA como segurava os órgãos ou a TEMPERATURA da palma da mão”. E a gente pensa que já viu de tudo.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

OS RINS, O CORAÇÃO OU A CONSCIÊNCIA?

O Sl 16,7 em três versões:

1. “Ele é o meu conselheiro, e durante a noite a MINHA CONSCIÊNCIA me avisa” (NTLH).
2. “Iahweh que me aconselha, e, mesmo à noite, MEUS RINS me instruem” (BJ).
3. “o Senhor me aconselha; na escura noite o MEU CORAÇÃO me ensina!” (NVI).

Afinal, qual versão é a mais fiel ao texto original?

A referência do salmista certamente é aos rins (kilyah), como em Lv 4,9: “os dois rins e a gordura que estão sobre eles...”. Nesse sentido a BJ está correta. Mas a palavra hebraica “rins”, em alguns textos, sobretudo os poéticos, pode ganhar um sentido diferente: “entranhas”, “íntimo”, etc. No Sl 7,9, por exemplo, é dito que “O Senhor sonda o coração (lev) e os rins (kilyah)”, ou seja, sonda o “íntimo”. E íntimo, aí, diz respeito tanto às emoções como aos pensamentos. As Bíblias que preferem traduzir pela equivalência dinâmica tentam resgatar a função atribuída aos rins entre os antigos hebreus. A NVI optou por “coração” e a NTLH por “consciência”. Sendo bem rigoroso, eu optaria por “cérebro”, porque sabemos hoje que as emoções e o aprendizado estão associados a este órgão. Ficaria feia a tradução, mas certamente seria a que mais equivaleria à função dos “rins” imaginada pelo autor do texto.



Jones F. Mendonça