quinta-feira, 30 de junho de 2011

LUTERO E A REVOLTA DOS CAMPONESES

Lutero numa tela de Cranach,
1527 - Wartburg-Stiftung,
Eisenach
O desafio de Lutero à Igreja não atraiu apenas a burguesia e os príncipes. Os camponeses da Alemanha, enfurecidos com a desigualdade social, foram arrebatados por idéias utópicas de um mundo justo, governado pelo espírito de Cristo. Panfletos pregando a abolição das instituições capitalistas, a subordinação dos governantes a um conselho eleito pelo povo e o confisco da riqueza dos mosteiros alimentavam a chama dessa insatisfação. No fim de 1524 cerca de 30.000 camponeses na Alemanha meridional se recusavam a pagar imposto ao governo, dízimos ou direitos feudais. Sob influencia dos protestantes zuinglianos de Zurique, foram redigidos doze artigos propondo reformas radicais. Transcrevo abaixo o terceiro artigo, porque sobre ele Lutero fará uma declaração surpreendente:
Tem sido costume até agora que os homens nos detenham como sua propriedade, o que é lamentável, sabendo-se que Cristo nos redimiu e comprou a todos com o precioso derramamento de Seu sangue [...] portanto está de acordo com as Escrituras que sejamos livres, e assim seremos...[1].
Inicialmente Lutero apoiou o grupo, mas depois explicou que a liberdade que o cristão deve gozar é a espiritual. O recurso utilizado por Lutero é típico entre alguns "valorosos condutores de ovelhas": se a interpretação literal não agrada, espiritualize-a! Pois é, mas no texto abaixo, escrito pelo reformador alemão, a interpretação literal se mostrou muito conveniente: 
Abraão e os outros patriarcas não tinham escravos? Lede o que São Paulo ensina a respeito dos criados? Portanto o vosso terceiro artigo é inoperante face ao Evangelho. Esse artigo deveria tornar todos os homens iguais... e isso é impossível. Pois um reino terreno não pode sobreviver se nele não houver uma desigualdade de pessoas, de modo que algumas sejam livres e outras presas, algumas soberanas outras súditas [2].
Mas citações como essa a gente só encontra em livros escritos por quem está do lado de fora da igreja. Uma pena...

Notas:
[1] DURANT, Will. A Reforma, 2002, p. 322.
[2] Id. ibid., p. 323

quarta-feira, 29 de junho de 2011

HISTÓRIA DA TEOLOGIA: UMA PEQUENA BIBLIOGRAFIA

No próximo semestre começo a lecionar história da teologia (apenas período da Reforma) no STBC. Como não dá para “pegar o bonde” no meio do caminho, vou precisar iniciar meus estudos pela patrística. Saí em busca de livros. Surpresa ruim: há pouca coisa de conteudo em português. Notícia boa: há muitas obras de qualidade em espanhol. Eis o que encontrei sobre o assunto:

GIBELLINI, Rosino. A teologia do século XX. São Paulo: Loyola, 1998.

O livro cobre desde a teologia dialética de Karl Barth à teologia ecumênica de Hans Küng. O autor não deixa de fora temas interessantes como a teologia negra e feminista. Leitura obrigatória para quem leciona teologia do século XX.  

ILLANES, Jose Luis; SARANYANA, Josep Ignasi. Historia de la teologia. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1995.

Ambos são professores da Universidade de Navarra, Espanha. Illanes leciona teologia dogmática e fundamental e Teologia Espiritual. Saranyana dá aula de história da teologia. No trabalho dos dois padres a teologia reformada recebe pouca atenção, apesar disso é tratada com bastante imparcialidade.

VILANOVA, Evangelista. Historia de la teologia cristiana : de los orígenes ao siglo XV, Tomo I. Barcelona: Editorial Herder, 1987.

VILANOVA, Evangelista. Historia de la teologia cristiana: prerreforma, reforma e contrarreforma - Tomo II. Barcelona: Editorial Herder, 1989.

VILANOVA, Evangelista. Historia de la teologia cristiana - Tomo III. Barcelona: Editorial Herder, 1992.

Trabalho magistral do monge e teólogo beneditino Evangelista Vilanova, considerado um dos maiores historiadores do cristianismo. Foi professor da faculdade de teologia da Cataluña por 25 anos. A obra, em três volumes, não deixa passar nada em branco.  De todos os livros que examinei, este é o mais completo. Cada volume tem cerca de 1000 páginas!

WILL, Durant.  A Reforma: história da civilização europeia de Wyclif a Calvino: 1300-1564. Rio de Janeiro: Record, 2002.

Apesar deste livro não ser sobre a história da teologia, é uma obra que não pode faltar na estante de quem pretende compreender bem o que foi a Reforma. Com mais de 800 páginas, o livro é recheado de citações valiosas, como uma carta de Calvino a Farel tratando sobre as “loucuras teológicas” publicadas por Miquel de Servet. Nas lojas o livro não sai por menos de R$80,00. Na Estante Virtual encontrei por R$35,00.

OLSON, Roger. História da teologia cristã. São Paulo: Editora Vida, 2001.

Apesar de muito citado, este é o único livro cujas páginas não consegui examinar. Vou ficar devendo um comentário sobre ele. 

terça-feira, 28 de junho de 2011

SÉRGIO, O HOMEM QUE QUERIA SALVAR O MUNDO

O canal fechado Max está transmitindo o documentário “Sérgio”, uma biografia do comissário de direitos humanos da ONU, Sérgio Vieira de Mello, morto num atentado terrorista ao quartel general da ONU em Bagdá promovido pela Al Qaeda em agosto de 2003. O trabalho foi baseado no livro “Chasing the Flame: Sérgio Vieira de Mello and the Fight to Save the World”’, da jornalista Samantha Power. Sérgio era cotado para ser o sucessor de Kofi Annan na direção da ONU.

Indicado ao Oscar de melhor documentário em 2009, “Sérgio” conta a trajetória profissional do diplomata brasileiro e reconstrói cenas dramáticas do seu resgate após o desmoronamento do prédio onde estava na capital do Iraque. Com a explosão ele acabou preso num local de difícil acesso ao lado de Gil, outro funcionário da ONU. Gil foi retirado dos escombros após horas do trabalho incansável de dois bombeiros militares americanos que tiveram que cortar suas pernas com um serrote improvisado devido a falta de equipamento adequado. O depoimento do bombeiro incumbido dessa tarefa é perturbador. Sérgio Vieira, resgatado depois, não resistiu aos ferimentos. O documentário insinua que houve descaso por parte do governo americano, considerando que mesmo após mais de três horas de trabalho nenhum equipamento chegou ao local. Sérgio Vieira estudou na Sorbonne na época da guerra do Vietnã e sempre criticou o imperialismo americano, chegando a participar de protestos enquanto aluno da universidade francesa.  

O documentário também destaca a atuação impecável do diplomata em diversas situações de conflito ao redor do mundo, como no Timor Leste, Camboja, Líbano, Ruanda e Bósnia. Sempre elegante bem humorado e carismático, procurou dialogar com o povo e com os líderes locais dos países onde atuou, buscando conhecer suas dificuldades, aflições e aspirações.

Se você possui TV por assinatura com pacote que inclui o canal Max, não deixe de assistir. É uma ótima pedida para as noites de inverno.

Jones F. Mendonça

sexta-feira, 24 de junho de 2011

APONTAMENTOS DE HERMENÊUTICA: A INTERPRETAÇÃO BÍBLICA NA ERA MEDIEVAL

São Gregório (1797), de Francis-
co de Goya e Lucientes. Museu
Romântico de Madrid.
Anterior (apontamentos de hermenêutica: Santo Agostinho e São Jerônimo).

Passando por Agostinho e Jerônimo e a entrando definitivamente na Idade Média, a primeira grande figura que se destacou como intérprete da Bíblia foi Gregório Magno (540-604), considerado último dos grandes Pais Latinos e o primeiro Papa medieval[1].  Eleito em 590, o Papa Gregório Magno (ou Gregório, o Grande) acreditava que o enigma e a alegoria seriam formas que Deus toma para mostrar o homem a verdade[2]. Apesar disso, buscou enfatizar a necessidade do equilíbrio entre o método literal e alegórico:
se entendemos tudo ao pé da letra, perdemos o critério. Se cremos que tudo é alegoria espiritual, somos igualmente presas de indiscrição tola. Mas ler as páginas dos santos pregadores, e algumas vezes na história em conformidade com o sentido literal e outras vezes investigar o sentido espiritual da letra[3].
Quando alegorizava, Gregório era tão criativo quanto Orígenes. No seu comentário ao livro de Jó, por exemplo, os três amigos são os hereges, os sete filhos de Jó são os 12 apóstolos, as 7.000 ovelhas são pensamentos inocentes, os 3000 camelos são as concepções vãs, as 500 juntas de bois são virtudes e os 500 jumentos são tendências lascivas[4].

A interpretação alegórica foi uma tendência predominante na Idade Média, com raras exceções. É possível citar pelo menos três nomes que contribuíram para o abandono do sentido espiritual das Escrituras:

Rashi[5] (1040-1105) - principal representante do movimento exegético medieval francês, exerceu grande influência sobre as interpretações judaica e cristã. Apesar de não negar que o texto bíblico pode possuir vários significados, deu ênfase à interpretação literal (peshat) do texto[6].

Tomás de Aquino (1225-1274) - célebre teólogo dominicano, também privilegiou o sentido literal das Escrituras. Mas da mesma forma que Rashi, não rompeu definitivamente com a tradição. Na sua magistral “Suma Teológica” afirmou que: “A primeira significação, segundo a qual as palavras designam certas coisas, corresponde ao primeiro sentido, que é o sentido histórico ou literal”[7]. Mas a seguir comenta: “A significação pela qual as coisas significadas pelas palavras designam ainda outras coisas é o chamado sentido espiritual [que] por sua vez [...] se divide em três sentidos diferentes [...] sentido alegórico, [...] sentido moral [...] sentido anagógico”[8].

Nicolau de Lira (1279-1340) – Rejeitou a Vulgata e voltou-se para os textos em hebraico. Ainda que não abandonado os quatro sentidos das Escrituras, deu decidida preferência ao sentido literal, insistindo que os outros sentidos deveriam estar fundamentados no literal. Influenciado por Rashi e Tomás de Aquino, acabou influenciado Lutero, que fez amplo uso dos seus comentários[9].  O reflexo do pensamento de Nicolau de Lira em Lutero podem ser resumidos numa frase muito conhecida na época que dizia: “Si lyra non lyrasset, Lutherus non saltasset”[10] (Não tivesse Lira tocado sua lira, Lutero não teria dançado).

Notas:
[1] SCHÜLER, Arnaldo. Dicionário enciclopédico de teologia, p. 313.
[2] LÓPEZ-CASANOVA, Arcádio. Quaderns de Filologia: estudis literalis, vol. V, p. 224.
[3] S. GREGORIO MAGNO, Homilias sobre Ezequiel, Libro I, hom. 3,4, em PL 76, 807; ed. P. GALLARDO – A. MELQUÍADES, o. c. p. 262 apud LEDESMA, Juan Pablo. El “De itinere deserti” de San Idelfonso de Toledo, p. 156.
[4]Paul Lee Tan, The interpretaion of Prophecy, 37-38 apud GARLAND, Anthony Charles, A testimony of Jesus Christ, volume I, p. 60.
[5]Acrônimo de Rabbi Shlomo Ben Itzakh.
[6] GOÑI, Carlos. Introducción general a la Bíblia, p. 462.
[7]AQUINO, Tomás. Suma Teológica, Prima Pars, qu. I, art. 10, p. 154.
[8]Id. ibid.
[9]D’AUBIGNÈ, Jean Henri Marle. History of the reformation in the sixteenth century, p. 66. 
[10]COCHRAN, John. Catalogue of manuscripts, in different languages on theology, english and... Harvard College Library, 1829, p. 136. 



quinta-feira, 23 de junho de 2011

O AMOR E A DOR, A ORDEM E O CAOS

O canal fechado HBO está transmitindo o incrível documentário francês "A terra vista de cima" (vu du ciel), apresentado pelo fotógrafo Yann Arthus-Bertrand. Dia desses assisti a um episódio que mostrava a dificuldade que alguns ambientalistas estavam encontrando para reinserir ursos numa reserva florestal francesa. Os ursos dão grandes prejuízos aos criadores de ovelhas da região, por isso eles fizeram um protesto lançando sangue nas paredes do prédio da prefeitura. Era preciso resolver o impasse: ou os ursos ou as ovelhas. Os líderes do protesto tinham bons argumentos para recusar os ursos, mas eles também não merecem viver? A natureza nos traz muitos problemas (animais ferozes, bactérias, insetos, tempestades, vulcões), mas será que a solução está na eliminação desses incovenientes ou precisamos aprender a conviver com eles? Como reflexão, dois poemas. O primeiro de Lou Salomé. O segundo de Carlos Drummond de Andrade. 



Sei que tens de visitar tudo o que há sobre a terra,
Onde nada é imune à tua passagem: 
E seria bela a vida sem ti.    
Mesmo assim – também tu [a dor] mereces ser vivida[1].

Amar solenemente as palmas do deserto.        
O que é entrega ou adoração expectante,                                               
E amar o inóspito, o áspero,                                                                           
Um vaso sem flor, um chão de ferro,                                                      
E o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina[2].



Notas:
[1]Halevy, Daniel. Nietzsche, uma biografia, p. 215.
[2] CAMILO, Wagner. Drummond: da rosa do povo à rosa das trevas, p. 230. 

quarta-feira, 22 de junho de 2011

PARA OUVIR AO VOLANTE: JET-ARE YOU GONNA BE MY GIRL

YAHWEH, DEUS DOS RAIOS, TROVÕES E GRANIZO

Tempestade de granizo em South Dakota, EUA. (via Big Picture)

O Salmo 18 descreve de maneira fantástica a intervenção de Yahweh para livrar Davi de Saul. O texto é, sem dúvida, uma dos mais belos exemplos da poesia hebraica. Logo no início do Salmo Davi invoca a Yahweh, revelando sua angústia:
Cadeias do Sheol me cingiram, e tramas de morte me surpreenderam.
Yahweh, ao ouvir o clamor do seu servo, sai do seu palácio real para acudi-lo:
Então, a terra se abalou e tremeu, vacilaram também os fundamentos dos montes e se estremeceram, porque ele se indignou.

Ele abriu os céus e desceu; nuvens escuras estavam sob os seus pés.
[...]
Com o fulgor da sua presença as nuvens se desfizeram em granizo e raios,
quando dos céus trovejou o Senhor, e ressoou a voz do Altíssimo. 
E que Israel saiba: Yahweh, e não Baal, é o Senhor da tempestade!

MARTIN NOTH E A ANFICTIONIA DE ISRAEL

O nome de Martin Noth é geralmente lembrado como criador da hipótese de que o Israel pré-estatal, como em algumas cidades gregas, vivia sob uma anfictionia, confederação de tribos unidas pela crença numa mesma divindade. No caso de Israel essa divindade seria Yahweh. Exemplos de anfictionias gregas são a anfictionia pilaico-délfica (Apolo); a aliança de 12 tribos jônias (Posêidon );  a dodecápole de Acaia  (Posêidon) e os doze povos da Etrúria[1]. Esse modelo parecia perfeito para resolver uma variedade de problemas ligados às origens de Israel. Mas os pressupostos de Noth foram abalados pela primeira vez em 1976 com a monografia “As tribos de Israel”, de C. H. J. De Geus. Seu trabalho demonstrava que o paralelismo de Noth era inexato e inapropriado:

  • As anfictionias gregas eram de cidades, não de tribos;
  • Uma anfictionia de Yahweh deveria ter um nome formado com Yahweh;
  • No Antigo Testamento falta um termo comparável ao conceito anfictionia[2].
De Geus negava que Israel tivesse um passado nômade, e defendia que os primeiros semitas ocidentais eram autóctones da Palestina (sedentários e agrícolas). Resumindo, para Geus, não ouve uma incursão na palestina (como apresentado na Bíblia), mas um movimento migratório dentro da própria Palestina (nomadismo interno). Outro defensor do nomadismo interno é Israel Finkelstein. O ataque de Geus à hipótese da sedentariação e seus numerosos argumentos a favor da natureza autóctona do Antigo Israel constituíram uma contribuição permanente ao debate posterior.

Notas:
[1] DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos, p. 72.
[2] Cf. GUNNEWEG, Antonius. Teologia bíblica do Antigo Testamento, p. 131.


 Jones F. Mendonça

terça-feira, 21 de junho de 2011

AS ORIGENS DO FUNDAMENTALISMO ISLÂMICO

Na segunda década do século XX, sob as os escombros do Império Otomano, nasceu a república Turca. Uma figura que destaca nesse cenário é Mustafá Kemal Ataturk, considerado o pai da Turquia moderna. Ataturk deu início à guerra de independência, que culminou em 1923 com a proclamação da república. Na busca por um estado democrático secular ele aboliu o califado e a poligamia. Também substituiu o fez (banete usado pelos povos do oriente) pelo chapéu e o alfabeto árabe pelo latino. Países islâmicos como o Egito de Nasser e o Irã do Xá Reza Pahlevi também tentaram se adequar ao novo mundo instaurando um estado secular. O Egito nacionalizou a economia, tomou posse da imprensa e aboliu o parlamento. No Irã o Xá sonhou transformar o país numa potência militar e industrial do dia para a noite. As conseqüências foram catastróficas. Muitos árabes espalhados pelos países muçulmanos, perdidos nesse processo de fragmentação, viram nas suas escrituras sagradas a única solução para restabelecer a ordem: a instauração da Shari’a, a lei islâmica. Eis alguns nomes que destacaram na construção da ideologia religiosa anti-ocidental.

Hassan El Banna (1906-49) – Fundou a Irmandade muçulmana em 1928 durante o período colonial. Tinha como meta o restabelecimento da ordem desfeita pelo fim do califado otomano de Istambul. O grupo chamava para si a responsabilidade pela dimensão política do Islã. Os irmãos muçulmanos tinham um slogam bem conhecido na órbita islâmica: “O corão é nossa constituição” e “o islã é um sistema completo e total”. Defendia que a solução para os muçulmanos está na implantação de um Estado islâmico, que aplique a chari’a (lei baseada nas Escrituras Sagradas do Islã), como teria feito o califa do antigo império otomano. O movimento teve aceitação entre a pequena burguesia urbana de origem modesta imbuída de uma visão religiosa do mundo.  O grupo soube politizar essa religiosidade. A irmandade foi desmantelada em 1954 pelo recém-criado Estado de Nasser. A irmandade faz parte do reformismo dentro das escolas sunitas.

Sayyid Qutb (1906-1966) – Filósofo enforcado em 29 de agosto de 1966 no Egito de Nasser. Foi influenciado pelos irmãos muçulmanos, e tinha como pano de fundo o seguinte cenário: a Turquia não era mais o Império Otomano e os estados árabes não eram mais colônias européias. Pregava uma ruptura radical com a ordem estabelecida, defendendo a substituição do ideal nacionalista, nascido na luta contra o colonialismo, pelo Estado islâmico. Teve relativa aceitação entre os jovens, mas afastou a maior parte dos intelectuais religiosos e da classe média. Criou um estilo de escrita simples e despojado, distante da complexa retórica dos ulemás (doutores da lei islâmica) e foi autor de duas grandes obras: “À sombra do Corão”, seu comentário corânico, e “Marcos do Caminho”, um “manual prático” do movimento islâmico. Elaborou o conceito de jahiliyyah, a barbárie anterior ao islã. Ela precisava ser destruída assim como fez o Profeta, defendia Qutb, dando lugar ao Estado muçulmano. Influência sob o universo sunita.

Abul Ala Mawdudi (1903-79) – Suas teorias e conceitos serviram para adaptar a ideologia islâmica às novas condições políticas criadas com o advento dos estados independentes não-religiosos. No final dos anos 20 publicou seu primeiro livro em urdu, língua derivada do sânscrito consagrada como língua oficial do Paquistão: “A Jihad no Islã”. Mawdudi declarava que a política era parte integrante da fé islâmica e do Estado islâmico. Fundou um partido chamado “Jama’at-e islami”, que tinha muitos pontos comuns com o modelo lenilista. Não conseguiu atingir as camadas mais pobres, pouco conhecedoras da língua urdu.  Influência sob o universo sunita.

Huholla Khomeini (1902 - 1989) – Popularmente conhecido como Aiatolá Khomeini, fez oposição ao Xá do Irã, Mohammed Reza Pahlavi, com base em conceitos antimodernistas. A reforma agrária iniciada pelo Xá prejudicava o clero, grande proprietário de terras, previa o voto para as mulheres e o juramento solene sobre um livro sagrado que não fosse necessariamente o Corão. Khomeini fez forte oposição a essas medidas. Em seu exílio na cidade santa xiita de Nadjaf, no Iraque, escreveu um livro que reunia uma série de conferências que continham a essência das futuras decisões a serem tomadas pela República islâmica a partir de 79. A obra recebeu o título de “Por um governo islâmico”. Khomeini conseguiu mobilizar verdadeiras redes de adeptos e discípulos, obtendo um sucesso sem precedentes no universo árabe. Seu principal objetivo era destruir a monarquia para instituir um governo islâmico sob a liderança do sábio xiita

Referências bibliográficas:
KEPEL, Gilles. Jihad: expansão e declínio do islamismo. Rio de Janeiro: Bibliex, 2003, 572 páginas.
LIBERO. Chiara. Turquia. São Paulo: Manole, 1998.


Jones F. Mendonça

JIHAD: EXPANSÃO E DECLÍNIO DO ISLAMISMO

KEPEL, Gilles. Jihad: expansão e declínio do islamismo. Rio de Janeiro: Bibliex, 2003, 572 páginas.

Em 2006 tive a grata oportunidade de trabalhar num antigo forte em Niterói, RJ, chamado Forte Gragoatá.  É uma belíssima construção debruçada sobre o mar. Na época, estimulado por um programa de incentivo à leitura, fui à biblioteca e acabei me deparando com o livro “Jihad: expansão e declínio do Islamismo”, do professor Gilles Kepel, do Instituto de Estudos Políticos de Paris. Escrito em 2003, o livro apresenta uma retrospectiva da história do fundamentalismo islâmico, desde o surgimento dos primeiros grupos radicais islâmicos, após a queda o Império Otomano em 1923, até o devastador ataque às torres gêmeas em Nova York, no ano 2000.

Kepel é fluente em árabe e teve a oportunidade de percorrer o mundo islâmico reunindo documentos, realizando entrevistas e coletando material inacessível à maioria dos acadêmicos. A riqueza de informações contidas no livro é espantosa. Como o Numinosum também funciona como um grande arquivo pessoal, fiz um breve resumo das origens dos grupos fundamentalistas islâmicos baseado nos primeiros capítulos da obra de Kepel. A história começa com a queda do Império Turco Otomano. Leia aqui

quinta-feira, 16 de junho de 2011

COMO POSTAR TEXTOS EM PDF NO BLOG (VIA SCRIBD)

Recentemente vi no Blog do Martialis que é possível disponibilizar textos em PDF no Blog. Andei pesquisando e descobri que é bem fácil fazer isso. Primeiramente crie uma senha no Scribd. Faça o login e em seguida o upload do seu documento. Quando o upload tiver sido concluído, clique na título do documento e uma nova tela vai aparecer. Aí é só clicar em "incorporar", no lado direito da tela. Uma janela vai abrir com um código HTML. Copie o código e cole na tela  de postagem do sue Blog (editar HTML). Abaixo um exemplo (trecho em PDF da apostila de hebraico que venho preparando para meus alunos):
Apostila de hebraico bíblico

O JESUS JUDAICO NA VISÃO DE ZEV GARBER

Livro: "O Jesus judeu",
de Zev Garber
O The Bible and Interpretation publicou um artigo sobre o Jesus judeu escrito por Zev Garber, professor emérito e presidente de Estudos Judaicos no Los Angeles Valley College. Como Geza Vermes, Garber está atrás do Jesus histórico. Para ele, o Jesus pregado pelo cristianismo "nunca poderia encontrar apoio no judaísmo, uma vez que o Deus-homem da 'união hipostática' é estranha ao ensino do Judaísmo, [que prega] o monoteísmo absoluto". 

Um breve resumo do artigo com um link para baixar o texto completo em PDF você consegue aqui

segunda-feira, 13 de junho de 2011

ISAÍAS 14 E O MITO DE HEYLEL BEN SHAHAR

O livro de Isaías é um clássico da literatura profética. A partir de 14,4b lemos um belíssimo lamento contra o rei da Babilônia. Por culpa de Orígenes (185-254 d.C.)  o texto acabou se tornando uma descrição da queda de Satanás. Com Jerônimo (347-420 d.C.) o adversário ganhou um nome próprio: Lúcifer. 

Aqueles que se interessam pelo tema certamente vão gostar de baixar gratuitamente no site da Society of Biblical Literatute o seguinte livro (em inglês):

Shipp, R. Mark, Of Dead Kings and Dirges: Myth and Meaning in Isaiah 14:4b–21. Academia Biblica 11. Atlanta: Society of Biblical Literature: 2002, 105 pages, 60MB.

Uma breve descrição conteúdo do livro de acordo com o site da SBL (tradução do Numinosum):
Isaías 14:04 b-21 tem atormentado estudiosos durante muitos anos. Nem a sua forma nem seu conteúdo mitológico foram devidamente explorados ou explicados. Este estudo argumenta que a estrutura dessa passagem é a de um canto fúnebre real, conhecida a partir de textos de Ugarit e da Mesopotâmia, e que o poema inteiro deve ser entendido como "mitológico". A “estrela da manhã, filha da aurora” (Heylel ben Shahar), é uma estrela associada à realeza na Mesopotâmia, a estrela de Ishtar nos céus. Outras imagens mitológicas abundam na passagem, como os Rafaim, provavelmente reis mortos, e os motivos de subida e descida. Nesta paródia de uma triste canção, Isaías 14 usa a mitologia e ideologia do lamento real para zombar do rei da Babilônia.
Para baixar o livro gratuitamente (disponível só para alguns países), clique aqui

ISAÍAS: NÚ, DESCALÇO E... COM FOME

"O profeta Isaías", de Raffaello
Sanzio (1511-12), Sant'Agostino,
Roma.

Fazendo uma busca no Google deparei-me com um artigo escrito por Luiz Sayão   destacando a importância do estudo do hebraico bíblico para quem deseja compreender o texto do Antigo Testamento. Até aí tudo bem. Percorrendo com os olhos as linhas do artigo, eis que Sayão diz o seguinte:
O hebraico é a língua antiga mais preservada que existe. Se Isaías ressuscitasse hoje teria condições de comunicar-se e de pedir um almoço em um restaurante de Jerusalém.
Aqui Sayão exagerou. Se no primeiro século o hebraico falado na Galileia já era ligeiramente diferente do falado em Jerusalém (os galileus tinham dificuldade com as consoantes guturais), imagina comparar o hebraico falado no século VIII (época em que viveu o primeiro Isaías) com o falado hoje em Jerusalém! 


É preciso lembrar que os sinais vocálicos presentes na Bíblia hebraica atual só foram inseridos por volta do século V d.C. por estudiosos que ficaram conhecidos como massoretas. Será que a vocalização das palavras hebraicas feita pelos massoretas era igual a de Isaías? E mais. Será que a vocalização atual corresponde à dos massoretas?

Mas e se Isaías entrasse no restaurante e escrevesse numa folha de papel o seu pedido? Ainda assim não seria compreendido. Os caracteres quadráticos, conforme aparecem na Bíblia hebraica e nos atuais jornais de Israel, só surgiram após o exílio babilônico (século VI a.C.). Isaías escreveu em paleohebraico. A menos que o garçom fosse um epigrafista experiente Isaías iria continuar com fome. E se estivesse nú e descalço como em Is 20,3 sequer teria chance de entrar no estabelecimento! 


Jones F; Mendonça

domingo, 12 de junho de 2011

PALESTINA LIVRE - VÍDEO


O que aconteceria se uma jovem judeu americano protestasse pacificamente contra a política de Israel numa passeata organizada por nacionalistas israelenses? Em qualquer país democrático essa seria uma prática absolutamente legal. Mas não em Israel. A seguir, cenas de violência gratuita. 




Com previsão de lançamento para o início de julho, a música de campanha pelo fim da ocupação israelense em territórios palestinos já está no YouTube. Eis o vídeo:


sábado, 11 de junho de 2011

QUEM FORAM OS CÁTAROS?

São Domingos e os albigenses (1495),
de Pedro Berruguete. Museu
del Prado, Madrid.
Os cátaros (gr. katarós, puros), representaram uma forma de cristianismo que teve origem na cidade francesa de Albi (por isso também eram chamados de albigenses) em meados do século XII. O catarismo criou sua própria hierarquia chegando a eleger um Papa. O movimento foi considerado herético e Inocêncio III proclamou contra eles uma cruzada (1209-1229). Em 1939 foram descobertos vários documentos  sobre os cátaros nos arquivos de Florença e de Praga. A imagem à esquerda retrata uma disputa entre São Domingos e os hereges de Albi. De acordo com uma lenda, milagrosamente só os livros dos cátaros foram danificados pelas chamas. 

O IHU (11-06-11) publicou uma breve análise do catarismo feita pelo cardeal italiano Gianfranco Ravasi. Leia aqui 

UM POUCO SOBRE OS CURDOS NO AL JAZEERA

Os curdos vem sofrendo ao longo da história uma intensa perseguição. No Iraque muitos foram mortos em 1988 sob o regime de Saddan Russein. O Al Jazeera publicou uma interessante matéria sobre a situação atual desse povo na Turquia. O autor é o Dr Behlul Ozkan, professor na Universidade Mamara em Istambul. Leia um trecho (tradução do Numinosum):
Em 1923, quando Mustafá Kemal Ataturk fundou a República da Turquia a partir das cinzas do multi-étnico Império Otomano, havia dois grupos significativos que se opuseram a formação de um Estado-nação secular: islamitas e curdos.

Considerando que os islâmicos apoiaram a continuação da lei sharia e o sultanato e eram contra a ocidentalização da sociedade e da política, os curdos perceberam que não havia lugar para os seus direitos étnicos e culturais do Estado-nação recém-criado turco.
Para continuar lendo, clique aqui.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

PUYEHUE: A FORÇA DO VULCÃO CHILENO

Adoro fotos de vulcões em erupção. Esta, do Puyehue, é uma das mais belas que já vi. 


Imagem via Big Picture

ESSES CÓDIGOS LINGUÍSTICOS...

"Jesus e a mulher samaritana no poço", Guercino (1640-1641)
Museu Thyssen Bornemisza, Madrid 
No caminho para o trabalho costumo passar numa padaria. Na semana passada, enquanto levava para o caixa meus três pãezinhos numa sacola ouvi um rapaz dizer: "me vê dois reais mais um real de pães". Como?! Ora, se dois mais um são três, por que não dizer simplesmente: "me vê três reais de pães". Já distante do rapaz, mas ainda sendo capaz de ouvi-lo, escutei a explicação: "um real de pãezinhos numa sacola e dois reais numa outra". Ah, agora sim.  Ele estava fazendo uma gentileza para sua vizinha, por isso os saquinhos separados. Como o padeiro era novo, não entendeu o código. 

Fiquei pensado no texto bíblico. Imaginei Jesus no norte da Palestina do primeiro século falando em aramaico a um grupo muito seleto de pessoas, como pescadores. Ele diz algo a um jovem e faz uso de um código linguístico restrito ao universo dos pescadores. Alguém ouve, diz para outra pessoa, que mais tarde é consultada por alguém como Lucas. Ele traduz a fala de Jesus para o grego. O texto é reproduzido manualmente em diversos idiomas por copistas até que ganha a forma impressa no século XV. Mas os papiros, pergaminhos e códex divergem entre si sobre esta passagem. Discute-se o artigo, a preposição, o verbo, o adjetivo. É... agora eu acho que dá para entender o porquê de tanta confusão entre os exegetas... 


Jones F. Mendonça

O NUMINOSUM APOIA A LUTA DOS BOMBEIROS DO RJ

Chegar ao STBC ontem, onde dou aula de hebraico e hermenêutica bíblica, foi uma tarefa quase impossível. Os bombeiros fecharam algumas ruas no meu bairro como protesto pelos baixos salários e os engarrafamentos se estenderam por kilômetros.  Como eu já estava no meio do caminho e era impossível voltar ou seguir adiante, deixei o meu carro onde deu para estacionar e segui à pé. Apesar do transtorno, apoio a causa do "vermelhinhos".  O salário deles é uma vergonha. 


Os professores da rede estadual também não recebem um salário digno. Professores, uni-vos!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

PARA CONHECER O MAXIMALISMO: WALTER VOGELS

Um livrinho bom para quem deseja conhecer os argumentos dos maximalistas bíblicos é: "Abraão e sua lenda", de Walter Vogels. Aliás, todos os livros da "Coleção Bíblica" da Loyola são excepcionais. Temas complexos são abordados com muitas maestria e simplicidade pelos autores. Abaixo um trecho onde Vogels defende a historicidade dos patriarcas:
"Se os autores bíblicos tivessem inventado as tradições dos patriarcas, inspirando-se na religião que eles próprios praticavam, os relatos teriam sido bem diferentes"[1]. 
E que diferenças seriam essas? Vogel argumenta que se os patriarcas tivessem sido inventados ou no século X (cf. Thomas Thompson) ou VI (cf. Van Seters), eles teriam sido descritos observando o sabbat ou as leis concernentes aos alimentos. Mas surpreendentemente, nos diz Vogels, Abraão aparece construindo altares em lugares diversos e plantando árvores sagradas, práticas proibidas pela lei mosaica. Em suma, se os patriarcas são projeção do presente (séc. VI ou X) para um passado distante (séc. XIX), como eles puderam ser descritos em tamanha desarmonia com o modo de vida que se tinha entre os séculos VI e X? 

Mas o leitor deve estar atento. Vogels não pretende provar a historicidade dos patriarcas com tais argumentos. Ele apenas sugere que essa ainda é uma possibilidade real. E desejável...

Nota:
VOGELS, Walter. Abraão e sua lenda, p. 32-33. 


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 8 de junho de 2011

AS ORIGENS DO MONOTEÍSMO BÍBLICO (ARTIGO)

Capa do livro "The Origins of
the biblical Monotheism"
Um dos assuntos mais polêmicos envolvendo a religião do Antigo Israel é a possibilidade deles terem praticado o henoteísmo. O termo foi criado pelo historiador das religiões, Max Muller, e serve para designar um povo que cultua um só Deus, mas sem excluir a possibilidade da existência de outros.

Se você se interessa pelo tema, vale conferir um artigo publicado no "The Bible and Interpretation", intitulado "The origins of Biblical Monotheism: Israel's polytheistic background and the Ugaritic texts". O autor é Mark S. Smith, professor de Bíblia e estudos do Oriente Próximo da Universidade de Nova York. Confira aqui (com tradução do Google).


Jones F. Mendonça