quinta-feira, 28 de julho de 2016

LUTERO E SUAS 97 TESES CONTRA A ESCOLÁSTICA

Entre agosto e setembro de 1517 Lutero escreveu suas bem pouco conhecidas 97 teses contra os escolásticos (não confundir com as 95 contra as indulgências, publicadas em 31/10/1517). Nelas – principalmente as teses 37 a 53 – Lutero critica ferozmente Aristóteles (384-322 a.C.) e os teólogos escolásticos: 
41. Quase toda a “Ética de Aristóteles” é a pior inimiga da graça. Contra os escolásticos.
43. É um erro dizer que, sem Aristóteles, ninguém se torna teólogo. Contra a opinião geral.
47. Nenhuma fórmula silogística subsiste em questões divinas. Contra o cardeal Pedro d’Ailly.
49. Se uma fórmula silogística subsistisse em questões divinas, o artigo sobre a Trindade seria conhecido, em vez de ser crido.
As teses 47 e 49 revelam – com o perdão do anacronismo –  um Lutero “fideísta”, por criticar a possibilidade de uma exposição das verdades divinas em termos racionais. Em relação à tese 41 cabe uma explicação: Lutero considerava a Ética de Aristóteles (Nicomaqueia e Eudêmica) um obra pagã, uma vez que acentuava o papel das potencialidades humanas, suficientes para as virtudes. Tal conceito, usado por teólogos escolásticos como base para a ética cristã, era visto por Lutero como uma afronta a doutrina da graça.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 27 de julho de 2016

LUTERO: “ARISTÓTELES, AQUELE PALHAÇO!”

Hortus deliciarum
Diante da inquietante questão: “como alcançar a justiça diante de Deus?”, teólogos medievais foram buscar respostas na filosofia de Aristóteles (no habitus aristotélico). A solução encontrada: Deus infunde no fiel um “habitus” (hábito) sobrenatural que exige do indivíduo um esforço por torná-lo efetivo. Desse modo, quanto maior o esforço individual no exercício dos dons divinos, mais merecedor de graça será o fiel.

Isso explica a fórmula católica: "as obras cooperam com a graça". Lutero, grande crítico da teologia escolástica, chama Aristóteles de “aquele palhaço que, com sua máscara negra, enganou a igreja”. Em outro texto: “Aristóteles está para a teologia assim como as trevas estão para a luz” (97 teses contra a escolástica, tese 50). O reformador, como se vê, não tinha papas na língua. 

A imagem acima (hortus deliciarum) retrata a ascensão do cristão até Deus pela “escada das virtudes”. Se o esforço não é suficiente há uma solução: “quem cair pode retomar a escalada graças ao remédio da penitência”. A penitência e os demais sacramentos funcionavam como uma espécie tônico fortificante, capaz de infundir graça e virtude nos fiéis.  Daí a importância da missa: “domingo sem missa, semana sem graça”. Em suma: sem missa não há alegria; sem missa não há recebimento de graça, de virtudes capazes de ajudar o fiel em sua ascensão aos céus.  



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 25 de julho de 2016

SALMO ANATÔMICO (SL 38)

2 Sobre mim abateu-se tua mão,
3 Nada está ileso em minha carne...
Nada há de são em meus ossos...
4 Minhas iniquidades ultrapassam-me a cabeça,
7 Meus rins ardem em febre...
8 Meu coração rosna...
10 a luz dos meus olhos já não habita comigo...
13 como um surdo, não escuto...
17 estou a ponto de cair.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 21 de julho de 2016

RESPONDA HONESTAMENTE

Quando o assunto é o número de armas de fogo por habitante, os EUA são campeões. Em segundo lugar vem o Iêmen, um país mergulhado em tripas e sangue. Se liberarem as armas aqui no Brasil, você acha que ficaremos mais parecidos com os EUA o com o Iêmen?



Jones F. Mendonça

BETÂNIA, PARA ALÉM DO JORDÃO


Cristãos bizantinos acreditam que este é o local onde Jesus foi batizado por João Batista: “Betânia, do outro lado do Jordão, onde João batizava” (Jo 1,28).  Escavações feitas a partir de 1996 descobriram mais de 20 igrejas, cavernas e piscinas batismais que datam do período romano. A área, conhecida como Wadi Kharrar, fica na Jordânia.

Veja mais fotos aqui


Jones F. Mendonça

A HISTÓRIA DEUTERONOMISTA E OS REIS DE ISRAEL

Novo artigo no The Bible and Interpretation: “The Deuteronomistic History and Israel'sKings”, escrito por Alison L. Joseph, do Swarthmore College, Filadélfia: 
A perspectiva do Dtr [historiador deuteronomista: Js-Rs] é clara: o culto israelita deve ser centralizado. Desse modo, ele usa Jeroboão como uma ferramenta literária para construir uma imagem modelo para julgar os reis do norte. Como rivais ao trono de Davi, os reis do norte quase sempre são julgados negativamente: os reis maus são como Jeroboão. O padrão pelo qual eles são medidos tem pouco a ver com o seu comportamento mais abrangente como reis. O Dtr está preocupado com as suas ações a favor e contra o culto centralizado e a fidelidade ao pacto deuteronomista [culto a Javé e fidelidade à Lei]. Apesar do delito de outros reis – o esvaziamento do tesouro do templo (Jeoás, 2 Rs 12,18), a guerra contra o outro reino (Asa, 1 Rs 15,16), e até mesmo a idolatria (Omri, 1 Rs 16, 25-26) - para o Dtr Jeroboão permanece como figura do mal por excelência.

Jones F. Mendonça

IDEOLOGIA

O mesmo sujeito que pede o fim da ideologia na escola, defende o retorno da disciplina "Educação moral e cívica". Ora, o que é um livro de EMC senão ideologia da capa à contracapa?

A coerência tem caminhado aos tropeços.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 20 de julho de 2016

O SERMÃO DO MONTE LUCANO

Bem aventurados são os miseráveis, os famintos, os que choram, os rejeitados, diz o sermão do Monte em Lc 6,20-22. Por outro lado, malditos são os ricos, os saciados, os que se deleitam no riso festivo, os que recebem as mais pomposas honrarias. Como entender o sermão do monte lucano?

Repare que após as bendições surge uma promessa: “no céu será grande a vossa recompensa; pois do mesmo modo seus pais tratavam os profetas” (v. 23). Em suma: são benditos porque sofrem com a injustiça, assim como os antigos profetas. Lucas identifica os oprimidos com os profetas.

Após as maldições uma advertência: “Ai de vós, quando todos vos bendisserem, pois do mesmo modo seus pais tratavam os falsos profetas” (v. 26). Em suma: são malditos porque são honrados como os falsos profetas. Lucas identifica os opressores com os falsos profetas.

Lucas até insere no capítulo 16 uma parábola que serve muito bem como ilustração para o sermão do Monte. Trata-se da parábola do rico e Lázaro. O mendigo é um despossuído (pobre), alguém que deseja comer das migalhas que caem da mesa (está faminto), que sofre em suas úlceras (tem boas razões para chorar) e que é desprezado pelos homens (é um rejeitado).

O rico, por outro lado, veste-se de púrpura e linho fino (é rico), tem diante de si uma mesa repleta de delícias (está saciado), regozija-se em uma vida cheia de requinte (sim, tem boas razões para rir) e goza de respeito entre os homens (é honrado).

O tema do “reverso da moeda”, da “recompensa futura como resultado do sofrimento presente” ou do “salário igual para trabalhos desiguais” aparece nos evangelhos com muita força em diversas parábolas. Quer mostrar que o Reino de Deus não é regido por critérios humanos. Não é Reino onde a honra é alcançada por méritos. É Reino onde o peão, pode virar patrão. A mensagem é tão desconcertante que a maioria dos sermões usa como base o texto de Mateus, que contém um sermão do Monte bem mais ameno. 


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 18 de julho de 2016

O IRMÃO DO FILHO PRÓDIGO

Jacob Steinhardt, 1962
O capítulo 15 de Lucas conta a famosa parábola do filho pródigo. Talvez seja preciso lembrá-lo de que ela é contada para uma dupla plateia: fariseus e pecadores (15,1). O foco da parábola não é a natureza esbanjadora e irresponsável do filho mais novo (um típico pecador).  Tampouco a virtude do mais velho: justo, trabalhador, responsável e obediente (a imagem de um fariseu). Trata, todavia, do ressentimento do mais velho, orgulhoso de suas virtudes, sempre à espera de uma retribuição à altura de suas boas ações: “jamais transgredi teus mandamentos, onde está minha recompensa?” (Lc 15,29). Embora já tivesse tudo (v.31), via-se como um despossuído, como um injustiçado.

A reação do filho mais velho lembra o lamento de Jonas, indignado com o perdão divino concedido aos ninivitas: “Por isso fugi apressadamente para Társis; pois eu sabia que tu és um Deus de piedade e de ternura, lento para a ira, e rico em amor e que se arrepende do mal” (Jn 4,2). Vivem repetindo por aí que Jonas fugiu por medo dos “terríveis ninivitas”. Não era por medo, era por orgulho, por indiferença, por falta de compaixão por aqueles que ele via como inferiores, como “gentalha”. Jonas queria mesmo é que o fogo descesse do céu e consumisse aqueles “pecadores dos infernos” (como Tiago e João em Lc 9,54).

Tanto o livro de Jonas como a parábola do filho pródigo sofreram uma adulteração perversa. Originalmente criticavam a arrogância dos religiosos (judeus exclusivistas do período pós-exílico/fariseus). Mas ambos tiveram suas mensagens convertidas em sermões moralistas. Jonas tornou-se o pregador virtuoso que anuncia a mensagem divina apesar da dureza de seu coração. O filho pródigo geralmente é evocado para destacar o sofrimento experimentado por aqueles que ousam desafiar as regras morais impostas pela religião.

Puseram tudo ao avesso.


Jones F. Mendonça

domingo, 17 de julho de 2016

PLATÃO E A CRIAÇÃO DA BÍBLIA HEBRAICA

Na sequência do seu trabalho de 2006, “Berossus e Genesis” e “Manetho e Êxodo”, Russell E. Gmirkin retoma a sua teoria de que o Pentateuco foi escrito por volta de 270 a.C. usando fontes gregas encontrados na Grande Biblioteca de Alexandria. 

Neste novo trabalho Plato and the Creation of the Hebrew Bible (Routledge, 320 páginas), um número impressionante de paralelos legais são apresentados entre as leis do Pentateuco e as leis atenienses, especificamente com aquelas presentes na obra platônica “Leis” (aprox. 350 a.C.). 



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 14 de julho de 2016

DOS BEIJOS ARDENTES E DA ALEGORIA MEDIEVAL

Ricardo de Saint Victor (†1173) tomou nas mãos o livro bíblico de Cantares, coçou a cabeça e disse assim: 
Neste livro fala-se de beijos, de seios, de faces, de pernas... 
Pensou com seus botões: 
não devemos pensar baixamente das Escrituras. [...] de fato, a letra cobre o espírito assim como a palha cobre o trigo. Cabe ao jumento alimentar-se da palha e ao homem alimentar-se do trigo (Richard of Santi-Victor, Sacred Writtings on Contemplation, p. 27).
Trocando em miúdos: quem lê “beijo ardente” (literalmente) come palha, quem lê “paixão piedosa” (alegoricamente) come trigo.

Sei...


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 11 de julho de 2016

MULHER: DE “PORTÃO DO DIABO” A “SACO DE ESTRUME”

Para Tertuliano, a mulher é o “portão do diabo” e “primeira desertora do direito divino” (Do vestuário feminino, Livro II, IV). Odão de Cluny, no século X, encontrou um adjetivo ainda pior: 
Se os homens vissem o que está debaixo da pele, a imagem das mulheres lhes daria náuseas [...]. Quando nem mesmo suportamos tocar um escarro ou um excremento com a ponta dos dedos, como poderíamos abraçar esse saco de bosta?
Voltemos 1200 anos.  O autor do livro da Sirácida, obra judaica do segundo século a.C., tinha opinião semelhante. Mas Ben Sirac situa o defeito feminino na alma, não nos corpo: “Porque das vestes sai a traça e da mulher, a malícia feminina” (42,13). Sobre os perigos da beleza física feminina ele faz um alerta: “Não te deixes prender pela beleza de uma mulher” (25,21).

Calvino, no século XVI, parece ter se inspirado na Sirácida: “Eis apenas um tipo de beleza [feminina] que me seduz – que ela seja casta, prestimosa, econômica, paciente e que zele pela minha saúde”.

Mas há quem veja o feminismo como um movimento impulsionado por uma causa imaginária.



Jones F. Mendonça

CEMITÉRIO FILISTEU DESCOBERTO EM ASHKELON

Matéria publicada no Haaretz (10/07/16), por  Philippe Bohstrom:

“Um enorme cemitério filisteu de cerca de 3000 anos de idade foi encontrado no porto mediterrâneo de Ashkelon. O modo como os corpos foram enterrados prova, pela primeira vez, que os filisteus vieram da região do Mar Egeu, e que tinham laços muito estreitos com o mundo fenício”.

Leia mais aqui.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 5 de julho de 2016

TERTULIANO E A BELEZA FEMININA

Num sermão do segundo século, Tertuliano tenta convencer as mulheres (chamadas de “portão do diabo”) a não se preocuparem tanto com a beleza física. Ele explica: “seus maridos [cristãos] não são atraídos pelas mesmas graças que os gentios” (Do vestuário feminino, Livro II, IV).

Bobinho...



Jones F. Mendonça

DA POLIGAMIA FEMININA EM AGOSTINHO DE HIPONA

Agostinho de Hipona, no século IV/V, achava – como muitos outros de seu tempo – que o único propósito do casamento é a procriação. Com isso em mente ele explica a tolerância divina para com a poligamia masculina e a rejeição da poligamia feminina no AT (dito com minhas palavras):

O homem que se une a várias mulheres (=vários úteros) pode gerar muitos filhos; a mulher (um único útero) que se une a diversos homens não aumenta sua capacidade de gerar filhos. No primeiro caso: procriação. No segundo caso: apenas prazer sexual, concupiscência (Do casamento e da concupiscência, Livro I, X).

Criativo (e astuto) esse Agostinho...



Jones F. Mendonça

sábado, 2 de julho de 2016

DIABO GENTIL

Você dirá que a imagem tem certo tom cômico e que foi feita por algum artista moderno. Mas ela ilustra a página 48R de um missal francês do século XV: "Tornou o diabo a levá-lo, agora para um monte muito alto” (Mt 4,8).



Veja a imagem em seu contexto aqui.


Jones F. Mendonça