domingo, 9 de setembro de 2018

BOBINHO E AS VERDADES LÍQUIDAS

Bobinho tem nas mãos um copo preenchido 50% com água. Querendo provar que a verdade é relativa lança a pergunta: “este copo está meio cheio ou meio vazio?”.

A resposta é óbvia. Se Bobinho esvaziou o copo depois de enchê-lo, está meio vazio. Se o encheu estando ele vazio, está meio cheio. A verdade, a resposta certa, está na intenção, na ação de quem manipulou o copo e a água.

Olhando apenas para o copo com água, sem conhecer sua história, eu diria apenas que ele está 50% preenchido com água. Não está nem meio cheio, nem meio vazio.



Jones F. Mendonça

CHURRASCO DE LEVIATÃ NO BANQUETE CELESTE

Muita gente já ouviu falar do Leviatã, criatura bíblica que aparece em diversos livros, como Jó (41,1) e Salmos (74,14). Nos Salmos, ao lado do Taniiym (v.13), ele é descrito como tendo diversas cabeças. O Talmude – coleção de escritos considerados sagrados para o judaísmo – explora a imagem desse monstro marinho com histórias das mais fantásticas.

Por exemplo, de acordo com a tradição talmúdica, Deus fez um Leviatã macho e um Leviatã fêmea no quinto dia da criação. Mas Ele teria percebido que se animais de tão grande porte se reproduzissem “teriam destruído todo o mundo”. O que fazer? Para evitar isso, Deus teria castrado o macho e matado a fêmea. Por fim, salgou sua carne – acreditem – para ser digerida no banquete dos justos no advento do Messias (BB 74a).

Para aqueles que interpretam (erroneamente) a figura do Leviatan como sendo o capiroto, o que temos aqui seria um churrasco de Satanás!

Leia mais histórias curiosas sobre o Leviatã na Enciclopédia Judaica.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

PERGAMINHOS HEBRAICOS ESCAPAM DO FOGO NO MUSEU

Acabo de saber, via The Times of Israel, que o pergaminho iemenita da Torá (Pentateuco) pertencente ao acervo do Museu Nacional e datado para o final da era medieval, não estava no museu no momento do incêndio:
An ancient Torah scroll once owned by a Brazilian emperor had been removed from Brazil’s National Museum for restoration prior to the massive fire that engulfed the building in Rio on Sunday”.
O jornal israelense destaca a reputação do imperador como vigoroso patrocinador do aprendizado, da cultura e das ciências; sua notável capacidade de aprendizado de outros idiomas (incluindo o hebraico) e admiração pela cultura judaica, algo raro na época.

A notícia também foi publicada no DW


Jones F. Mendonça

sábado, 1 de setembro de 2018

CHRISTUS PATIENS: DEVOÇÃO E FASCINAÇÃO PELO DEUS VIOLENTADO

Um artigo meu acaba de ser publicado na UNITAS, Revista Eletrônica de Teologia e Ciência das Religiões. O tema do dossiê: Bíblia e violências, organizado por Osvaldo Luiz Ribeiro. O título do artigo: “Christus Patiens: devoção e fascinação pelo Deus violentado”. Eis o resumo do artigo:
A morte violenta de um judeu carismático no primeiro século é vista por uma multidão de cristãos ao redor do mundo como evento central da sua fé. Embora as Escrituras e a teologia cristã posterior tenham se esforçado em converter a execução deste judeu em expressão de triunfo, a arte e a literatura religiosa que floresceram a partir do século XI passaram a valorizar o aspecto negativo dessa morte, destacando Cristo como homem de dores, como corpo dilacerado entregue voluntariamente à morte. Este artigo busca apresentar as raízes teológicas desse tipo de devoção, algumas de suas manifestações na arte e na literatura cristã, e elementos que demonstram o fascínio e devoção que o flagelo de Cristo ainda desperta nos cristãos do mundo moderno.

Leia aqui

Jones F. Mendonça


segunda-feira, 27 de agosto de 2018

DAS RESSIGNIFICAÇÕES JUDAICAS E CRISTÃS

O judaísmo, desde cedo, aprendeu a exercitar a prática da ressignificação de seus textos sagrados. O texto abaixo, presente em Gn 49,11-12, fala de abundância (de vinho, de leite), mas será ressignificado mais tarde, como veremos. Os versos identificados pela mesma letra são sinônimos:
(A) “Liga à vinha seu jumentinho,
(A) à cepa o filhote de sua jumenta,
(B) lava sua roupa no vinho,
(B) seu manto no sangue das uvas,
(C) seus olhos estão turvos de vinho,
(C) seus dentes brancos de leite”.
O Targum, interpretação judaica preservada em aramaico, vê no texto uma alusão à vingança do messias:
[O Messias] desceu e organizou a batalha contra os seus adversários...Suas vestes, imersas em sangue, são como o sumo de uvas...Seus dentes, mais puros que o leite (Targum do Pseudo-Jonathan).
A expressão “sangue de uvas” - ou seja, “vinho”, como sugerem os versos anterior e posterior - converteu-se no sangue dos adversários do Messias. Os “dentes brancos de leite” em símbolo de sua pureza.

Mas a primeira reinterpretação de Gn 49,1-12 talvez já apareça em Is 63,1-8, que vê em uvas esmagadas uma referência aos povos destruídos pelo Messias no dia da vingança:
(A) Is 63,3 Pisei as uvas na minha ira,
(A) na minha cólera as esmaguei.
(B) O seu sangue salpicou as minhas vestes;
(B) com isto sujei toda a minha roupa.
(A) Is 63,6 Na minha ira calquei aos pés os povos,
(A) na minha cólera os despedacei
(B) e derramei por terra o seu sangue.
O texto será ressignificado também pelos cristãos. O livro do Apocalipse retoma a imagem do “manto embebido em sangue”, usado pelo “Verbo de Deus” no dia do juízo (19,13). Justino de Roma, um cristão do II século, viu na passagem uma alusão à encarnação do Verbo:
Fala-se também do "sangue da uva", para dar a entender que aquele que havia de aparecer teria certamente sangue, mas não de sêmen humano, e sim de virtude divina (Apologia I, 32).
A preocupação com o sentido do texto em seu contexto original finalmente aparece em Calvino:
Ele agora fala da situação do território reservado aos filhos de Judá. Tão grande seria a abundância de videiras ali, que em todos os lugares eles se apresentariam tão prontamente quanto os arbustos.
Mas o reformador não deixa passar em branco uma observação moral em relação à expressão “olhos turvos de vinho”:
Não parece apropriado, que uma profusão de intemperança ou extravagância deva ser considerada uma bênção. Embora a fertilidade e a riqueza sejam aqui descritas, ainda assim o abuso delas não é sancionado”.
Jones F. Mendonça

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

PRETÉRITOS PERFEITOS

Tonta cultiva uma espécie de saudosismo doentio. Perde horas imersa em seu intestino de melancolias: sonha com suas fitas cassete da década de 80; lembra emocionada os cafunés da tia Mafalda; morre de saudade dos banhos mornos e coloridos de permanganato de potássio. É comum vê-la suspirando pelos cantos: “no meu tempo era tão bom...”. Certo dia pôs a tocar LP do Nirvana ao contrário. Diziam que ouviria conselhos atrozes do próprio Satanás. Mas era um juízo bom: “Acorda, Tonta, teu tempo é agora!”


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

O BILAU DE ABRAÃO SOB O SOL DO MEIO-DIA

A primeira tradução (oral) dos textos bíblicos do AT para outro idioma – o aramaico – é o Targum. Mas o targum não se limita a traduzir. É nítido o esforço que dispensa visando preencher lacunas do texto. Por exemplo: por que cargas d’água Abraão aparece sentado na entrada da tenda “no calor do dia”, em Gn 18,1? A resposta do Targum: porque Abraão estava sentindo muita dor, incapacitado, uma vez que havia sido circuncidado no final do capítulo anterior. Justificam a ociosidade do patriarca a partir da “dor no bilau”. Criativos esses rabinos...



Jones F. Mendonça

domingo, 5 de agosto de 2018

CONFISSÕES

Pôs no bolso um verso curto,
escrito em papel rasgado.
Garrancho de letra,
traste de grafia.

Nas linhas tortas,
do bilhete abortado,
dizia coisas adormecidas
nas entranhas do coração.


Jones F. Mendonça

ISRAEL NO BRONZE TARDIO [MAPA]

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Leio “O Reino esquecido” (Paulus, 2015, 226 p.), obra escrita pelo arqueólogo israelense Israel Finkelstein sobre o reino de Israel do Norte. Além de me atualizar em relação às recentes descobertas produzidas a partir de escavações realizadas no Norte, aproveito para confeccionar novos mapas para meus alunos de geografia bíblica. Fiz o mapa acima a partir da figura 3, pg. 31 (Canaã no Bronze Tardio = 1350-1050 a.C.).

As cidades destacadas em vermelho formavam o que Finkelstein chama de “coalisão de Siquém”, lideradas por Labayu, governante de Siquém que ambicionava controlar o vale de Jezrael (Meguido e Rehov, em azul, acima de Siquém). Se tivesse alcançado seus propósitos, Labayu teria estabelecido uma dominação equivalente às mesmas áreas que alguns séculos depois foram governadas pelo Reino do Norte.

Contra a “coalisão de Siquém” estavam o Egito e seus aliados da “coalisão anti-Siquém” (em azul), formada pelas cidades de Miguido, Rehov, Acsaf, Aco e Hazor (a cidade-Estado mais importante do Norte). Embora Labayu tenha sido capturado e morto, seus filhos deram continuidade às ambições políticas de seu pai. 

Finkelstein sugere ter havido semelhanças entre o contexto no qual estava inserido Labayu e o dos líderes tribais mencionados no livro de Juízes. A história de Abimelec (Juízes 9) poderia ser um resquício dos acontecimentos que tiveram lugar antes da ascensão do Reino do Norte.

Algumas informações sobre o mapa: a reconstrução da divisão territorial de Canaã no Bronze Tardio – antes do estabelecimento de uma unidade política chamada Israel – tem se tornado possível graças a três ferramentas notáveis:

1) A evidência textual – a mais importante são as Cartas de Amarna, do século XIV a.C.. Trata-se de uma série de correspondências diplomáticas registradas em tabletes de argila entre os Faraós Amenófis III e Amenófis IV e governantes das cidades-Estado em Canaã (as cidades aparecem no mapa).

2) A investigação petrográfica – a sede do remetente de uma dada tabuleta pode ser identificada graças ao estudo mineralógico da argila na qual foi registrado o texto. A investigação petrográfica foi capaz de confirmar que Labayu, um rei cananeu citado nas cartas de Amarna, governou a parte norte da região das terras centrais de Canaã.

3) A arqueologia – as escavações podem revelar a arquitetura pública, assim como palácios e templos. O cruzamento das informações coletadas pelos arqueólogos com a evidência textual e petrográfica tem dado resultados extremamente positivos.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

QUE FALTA FAZ ARISTÓTELES

O argumento “negros também venderam negros como escravos”, usado como justificativa para deslegitimar tentativas de reparar injustiças revela uma confusão que se repete em cada canto. A relação “escravizadores” versus “escravos” nunca foi entre “brancos maus” e “negros bons”, mas entre dominadores e dominados. Historicamente, no entanto, o abismo social entre brancos e negros no Brasil é o resultado da dominação da população negra escravizada pela população branca escravizadora.  O racismo é o resultado de uma luta entre classes, não entre etnias. Não é a causa da luta, mas o seu produto.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 31 de julho de 2018

O MITO MESSIAS

Seduzidos pelo canto do seu Messias, todos começaram a imaginar como seria o novo mundo porvir: plantações protegidas por Boitatás, fadas colorindo o céu de Brasília, usinas alimentadas pelo cachimbo do Saci, Forças Armadas comandadas pelo Capitão América, crise financeira sanada com o ouro enterrado no fim do arco-íris. Tudo funcionando com o que há de melhor nos mitos.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 17 de julho de 2018

LÓ, JUDÁ E BOAZ: O CERTO EM LINHAS TORTAS

Muitos leitores mostram-se escandalizados com os artifícios utilizados por algumas mulheres da Bíblia para preservar sua linhagem. Dois casos: 1) Na ausência de outros homens, as filhas de Ló praticam incesto para preservar a linhagem de seu pai (nasce Moab); 2) Tamar finge-se de prostituta e se deita com Judá, seu sogro, para preservar a linhagem de seu marido morto (nasce Farés). 

Há ligações interessantes entre o livro de Rute e essas duas histórias. Veja: Rute é moabita, povo que segundo Gn 9,37 descende do incesto entre as filhas de Ló e seu pai. Os anciãos de Belém desejam a Boaz, em Rt 4,12, uma casa semelhante a de Farés, fruto de uma relação incestuosa entre Tamar e seu sogro Judá (Gn 38). 

Para o escritor sapiencial, Deus escreve certo em linhas tortas.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 16 de julho de 2018

ENCONTROS AMOROSOS NO ANTIGO TESTAMENTO

Um verbo muito comum utilizado no AT para sugerir que um homem teve relações sexuais com uma mulher é “Yadá” (conhecer): Adão “conhece” Eva (Gn 4,1); Caim “conhece” sua mulher (4,17); os homens de Sodoma querem “conhecer” os mensageiros divinos hospedados na casa de Ló (19,5), etc.

Mas yadá não significa “conhecer profundamente” como insistem muitos comentaristas bíblicos. Yadá é simplesmente "conhecer", tal como em Is 1,3: "o boi conhece o seu dono". Nos casos citados no parágrafo anterior, Yadá é utilizado como metáfora. Aliás, há uma outra, pouco conhecida.

Nesta semana, traduzindo o livro bíblico de Rute, encontrei por acaso uma expressão tão comum quanto yadá para se referir ao encontro ardente entre homem e mulher: “vayyabo eleyha” (algo como “veio até ela”). Em Rt 4,13 Boaz toma Rute como esposa, “vai até ela” e ela engravida.

A expressão reaparece com o mesmo sentido em Gn 29,23 (Lia e Jacó), 30,3-4 (Bila e Jacó), 38,2 (Judá e Sué), 38,18 (Tamar e Judá), Jz 16,1 (uma prostituta e Sansão) e 2Sm 12,24 (Bat-shebá e Davi). Em Jz 13,6, a mãe de Sansão diz que um homem de Elohim "veio até mim". O texto estaria sugerindo algo mais que um encontro?

Em alguns casos o verbo aparece associado a nomes próprios femininos (e não a um pronome). Dois exemplos: Abraão “vai até” Hagar (Gn 16,4) e Jacó “vai até” Raquel (29,30). Hagar engravida após o “encontro”. Raquel não engravida porque é estéril.

A única ocorrência do verbo “ir” indicando o movimento de um homem em direção a uma mulher fora do contexto sexual ocorre em Jz 4,22: Baraque “vai até Jael” (uma mulher guerreira), para que ela lhe mostre o corpo de Sísera morto com uma estaca na fronte.

Então que fique claro: no AT, quando um homem “vai até” uma mulher, provavelmente planeja algo além de um encontro casual.




Jones F. Mendonça

sexta-feira, 13 de julho de 2018

"DAI A CÉSAR": ANACRONISMO OU CONFLAÇÃO?

Lançando mão dos estudos na área da numismática, Matthew Ferguson apresenta uma série de argumentos sugerindo que o dito “Dai a César o que é de César”, atribuído a Jesus (Mc 12,17; Mt 22,21; Lc 20,25), não foi proferido pelo Nazareno. O autor cita, por exemplo, uma monografia sobre administração tributária na Palestina romana de 63 a.C a 70 d.C. (To Caesar What's Caesar's), escrita por Fabian Udoh:
Udoh aponta que um número significativo de denários só é encontrado na Palestina após 69 d.C., particularmente a partir do reinado de Vespasiano. [...] Antes deste tempo, a principal moeda de prata na Palestina (usada para a tributação) era o shekel de Tiro.

Os autores dos Evangelhos do NT teriam sentido a necessidade de abordar a questão do imposto – um tema controverso no ambiente da comunidade cristã primitiva –, colocando nos lábios de Jesus algo que ele realmente nunca disse.

Duas hipóteses: 1) Anacronismo (tempo): Marcos foi redigido num período pós 70, quando moedas cunhadas com o rosto do imperador já eram comuns na Palestina; 2) Conflação (espaço): Marcos foi redigido antes de 70, mas o dito atribuído a Jesus reflete um problema situado fora da Palestina, numa região na qual as moedas mostravam a face do imperador.

Um argumento adicional a favor da hipótese levantada por Udoh é que Paulo não menciona o alegado ensinamento de Jesus a respeito do pagamento de impostos ao defender a prática em Rm 13,6-7: 
É também por isso que pagais os impostos, pois os que governam são servidores de Deus, que se desincumbem com zelo do seu ofício. 7 Dai a cada um o que lhe é devido: o imposto a quem é devido; a taxa a quem é devida; a reverência a quem é devida; a honra a quem é devida.

Leia mais aqui.



Jones F. Mendonça

domingo, 8 de julho de 2018

ICONOCLASTIA PROTESTANTE

Embora Lutero tenha criticado o abuso das imagens, conseguiu perceber nelas certo valor como “memoriais e testemunhos”. Ele chegou a afirmar que, se pudesse, mandaria pintar toda a Bíblia dentro e fora das casas. Mas o reformador acabou vencido por figuras como e Karlstadt e Calvino, radicalmente iconoclastas, e a arte foi expulsa dos templos e entregue à consciência profana e secularizada. Uma pena. As Bíblias ganharam capa preta, “ilustradas” apenas com letras, indicando que o protestantismo é a religião da palavra (ou muçulmanos ao menos fizeram arte com as letras).

Para provar que é possível ser um monoteísta radical e ainda assim valorizar a arte na representação de cenas bíblicas, vale conhecer o trabalho de Marc Chagall (1887-1985), um JUDEU convicto nascido na Bielorrússia.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 19 de junho de 2018

FÍLON DE ALEXANDRIA: A MULHER É O CAMPO, O HOMEM O SEMEADOR

Leio os escritos de Fílon de Alexandria, judeu helenista do primeiro século a.C. Interessam-me suas considerações a respeito da Lei judaica no que concerne à licitude de certas práticas sexuais.

Em Leis III, 32, o sábio judeu aconselha o marido a vigiar o corpo de sua mulher assim como o lavrador habilidoso vigia o campo no qual depositará sua semente. Explica que ele deve abster-se de semear quando o “campo” (a vagina) está “inundado” (pelo sangue da menstruação). Mas por que todo esse cuidado para não “desperdiçar a semente”? Simples: é que Fílon entende (como os filósofos estoicos) que o sexo tem como finalidade única a reprodução: “o prazer sexual não foi dado ao homem para o gozo ou a fruição, mas para a propagação da espécie” (Sêneca em “Consolação à Hélvia”).

Isso explica sua condenação aos homens que se casam com mulheres estéreis mesmo sabendo de sua condição (34). Neste caso o ato sexual seria um inaceitável “desperdício de semente”, algo que ele classifica como “contra a natureza” (pecado da luxúria). Igual condenação ele estende aos jovens que “encaracolam os cabelos”, “maquiam o rosto” e “delineiam os olhos”, “mudando o seu caráter viril” (efeminados). Tal prática, explica Fílon, consiste num “desperdício do poder de propagar a espécie” (39), permitindo que “terras férteis e produtivas permaneçam em repouso”, provocando a “desolação das cidades”.

Entre os primeiros cristãos a visão do sexo como prática restrita à procriação reaparece, por exemplo, em Clemente de Alexandria: “O casamento é o desejo da procriação e não a ejaculação desordenada do esperma que, aliás, é contrária tanto à lei quanto à razão” (Pédagoge, II, 10). Jerônimo chega a dizer (citando Xystus) que “aquele que é muito ardente com sua própria esposa é adúltero” (Contra Joviniano, I, 49). Quando Levy Fidelix, num debate presidencial em 2014, condenou a homossexualidade masculina argumentando que “aparelho excretor não reproduz”, repetiu a velha condenação estoica ao “desperdício de esperma”, repetida pelos judeus helenistas, pelos cristãos dos primeiros séculos e pelo catolicismo moderno.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 15 de junho de 2018

O "JESUS PIMENTINHA" NA ARTE E NA LITERATURA


Nesta tela, de Max Ernst (Virgin Spanking, 1926), o menino Jesus aparece sendo disciplinado por Maria. Repare que o halo despenca de sua cabeça enquanto a mão ameaçadora de sua mãe desce em direção às suas nádegas já avermelhadas.

Embora esta representação ousada tenha causado muito escândalo no início do século XX, já nos primeiros séculos, nos chamados “Evangelhos da infância”, Jesus aparece como uma criança travessa, astuta e até mesmo cruel.

No evangelho de Tomé da infância, por exemplo, uma criança provoca Jesus e é transformada numa árvore seca. Em outra passagem Jesus é acusado de empurrar um menino de um terraço. Para provar sua inocência, ele a ressuscita.

Os cristãos dos primeiros séculos, criadores de tais narrativas, não viam problemas em aceitar a infância do Filho de Deus com as cores de uma infância comum, repleta de rebeldia, imaturidade e até mesmo de maldade.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 5 de junho de 2018

O PESCOÇO NO ANTIGO TESTAMENTO

O texto hebraico do AT usa a expressão “pescoço duro” para se referir a uma pessoa teimosa, rebelde, difícil de domar: “Pois conheço a tua rebeldia, o teu pescoço duro” (Dt 31,27). O livro de Crônicas diz que Sedecias rebelou-se contra Nabucodonosor “endurecendo seu pescoço” (2Cr 36,13). Isaías repreende Israel dizendo que seu pescoço é um “tendão de ferro” (48,4). Os tradutores, visando ajudar o leitor, trocam pescoço por “cerviz” (pescoço duro = dura cerviz).

O Jó angustiado lamenta que sua vida tranquila tenha sido interrompida quando o Senhor o agarrou pelo pescoço e o triturou (16,12), afinal era sobre o pescoço que os jugos de ferro eram colocados (Dt 28,48) ou, também, os pés do opressor (Js 10,24). “Colocar o pescoço”, revela Nee 3,5, era o mesmo que submeter-se ao serviço de alguém. “Dar o pescoço” (em nossas versões, “dar as costas”), era, ao contrário, desdenhar de alguém (2Cr 29,6).

Mas o pescoço também aparece associado aos afetos. Jacó se lança ao pescoço de Esaú e o beija. José chora após se lançar ao pescoço de Benjamim (45,14) e de Israel, seu pai (46,29), após revelar sua identidade aos seus irmãos.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 24 de maio de 2018

ANJOS CIVILIZADORES


Em sua pintura “E no oitavo dia”, o artista aborígene australiano Lin Onus mostra dois “anjos civilizadores” carregando elementos associados à ideologia colonial inglesa: a terra precisava ser cercada com arame, ocupada com gado, subjugada com arma de fogo, civilizada com Bíblia e purificada com desinfetante.

A mesma ideologia adotada pela bancada Bíblia, Boi e Bala. Nada de novo debaixo do céu...

Tomei conhecimento da obra do artista lendo:




Jones F. Mendonça

ECLESIASTES: COMIDA, BEBIDA, ALEGRIA E PAIXÃO

O místico medieval Thomas de Kempis tomou a primeira frase do livro de Eclesiastes “vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (1,2) como um convite ao desprezo a todas as coisas terrenas. Ocorre que em diversas passagens o livro exalta o “comer” o “beber”, o “alegrar-se”, o “desfrutar a vida com a mulher amada” como dom divino (2,24; 3,12-13.22; 5,18-20; 8,15; 9,7-10; 11,7-10). Como sair dessa “sinuca de bico”?

Bem, Kempis talvez tenha seguido a solução alegórica apresentada pelos antigos rabinos: “todas as referências a comer e beber neste livro representam a Torá e as boas obras” (Qoh.Rab. 2:24; cf. o Targum [Tg. Eccl 2:24]). E assim o “comer” deveria ser entendido como o “comer da Torá” e o “beber” como o “beber das boas obras”.

Só sendo muito tonto para cair nessa conversa...



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 17 de maio de 2018

BENJAMIN, O FILHO "ESQUERDISTA" DE JACÓ

Todos os canhotos mencionados na Bíblia aparecem em contextos militares e pertencem à tribo de Benjamin (Jz 3,15; 20,6; 1Cr 12,2). Estranho, não? Um dado curioso: o texto relata que o filho mais novo de Jacó, ao nascer, teve o nome mudado de Benoni, que significa “filho do meu luto”, para Benjamin, “filho da minha [mão] direita” (Gn 35,18). Ora, se o relato tem caráter etiológico (como eu penso), o menino não deveria ter recebido o nome de Bensemoly (filho da minha mão esquerda)?



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 14 de maio de 2018

MAPA BÍBLICO: A CONQUISTA DE SAMARIA E JERUSALÉM

Produzo meus próprios mapas bíblicos em alta resolução usando o Maps-For-Free.com. A apresentação em relevo proporcionada pelo site é fantástica. Abaixo ilustro a conquista de Samaria e Jerusalém por duas potências mesopotâmicas: a Assíria e a Babilônica. 



Jones F. Mendonça

JOÃO BATISTA, GAFANHOTOS E MEL

Embora o Levítico permita o consumo de gafanhotos (Lv 11,22), há quem ache estranha a dieta de João Batista tal como consta em Mc 1,6: “João... alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre”. Isso porque os ascetas praticavam um estilo de vida estritamente vegetariano. James Tabor sugere “bolo e mel” ao invés de “gafanhoto e mel”. A resposta estaria num costume ebionita (cristãos judaizantes) citado por um cristão do século IV e na semelhança gráfica entre os nomes dos dois alimentos no idioma grego.

Confira o texto completo no Tabor Blog.



Jones F. Mendonça

TEL ELTON E A MONARQUIA UNIDA

Uma construção desenterrada em Tel Eton, 32 km a sudeste de Ashkelon, mesclando elementos característicos de edificações cananeias (depósito de fundação) e israelitas (quatro cômodos), foi matéria no The Times of Israel.  As escavações estão sendo coordenadas por Avraham Faust da Universidade Bar-Ilan.

Leia mais aqui.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 24 de abril de 2018

A “MÃO SOB A COXA” EM GÊNESIS 47,29

Você certamente franze a testa ao ler aquela passagem do AT descrevendo José colocando a “mão por baixo da coxa” de Jacó, seu pai (Gn 47,29). A tradução está correta? Qual a razão deste costume tão estranho?

Bem, a palavra hebraica traduzida por “coxa” é yarek. Ela sempre aparece designando partes do corpo situadas entre a cintura e a virilha. Em alguns casos serve para indicar uma parte muito específica do corpo: os órgãos sexuais.

Ela surge, por exemplo, em Gn 46,26 referindo-se aos descendentes de Jacó: “os descendentes dele eram 66 pessoas...”. Literalmente o texto diz “saíram da coxa (yarek) dele 66 pessoas...”. Não é exatamente “da coxa”, entendeu?

Uma maldição dirigida à mulher infiel pedia que sua “coxa” (yarek) se tornasse falha (nafal) e seu ventre inchasse (Nm 5,21). A punição, como você deve ter notado, é a infertilidade. O texto não está falando da coxa...

Então, para encerrar: “colocar a mão sob a yarek” não é o mesmo que colocar a mão sob a coxa, ou sob a virilha, mas colocar a mão sob os testículos (para que herde a fertilidade do pai). Tá, isso é bem estranho, viu?



Jones F. Mendonça

sábado, 31 de março de 2018

LEITURA DE PÁSCOA

"Crucifixion", de Martin Hengel, foi, por muito tempo, a principal referência no estudo de um dos mais cruéis métodos de execução romana: a crucificação. John Granger Cook foi convidado por Hengel para revisar seu trabalho, mas acabou escrevendo seu próprio livro (The crucifixion in the Mediterranean World). Um trabalho magistral...

Neste ano Mark S. Smith (autor de "O memorial de Deus", 2006, Paulus) publicou um trabalho que tem sido bastante elogiado: "The final days of Jesus: The Thrill od defeat, the agony of victory". Disponível para compra na Amazon.

A resenha pode ser lida aqui



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 28 de março de 2018

A PERSONIFICAÇÃO DA SABEDORIA DIVINA NOS GATHAS IRANIANOS

Investigo o recurso literário da personificação da sabedoria (hokhmah), fenômeno que aparece em Provérbios 1-9, em Jó 28, na Sirácida 24, na Sabedoria de Salomão 7; 18, em Baruc 3 e numa interpolação presente no capítulo 42 do livro apócrifo de Enoque etíope. Interessa-me a origem desse recurso e sua relação com o prólogo do evangelho de João.

Há quem sugira uma influência egípcia (Isis, Maat), canaanita (Asherah) ou mesopotâmica (Astarte, Innana). Mas não encontrei textos religiosos produzidos por tais povos capazes de justificar qualquer orientação nesse sentido (você pode consultar uma coleção deles num trabalho organizado por James Pritchard em “Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament”).

W. Bousset indicou um caminho diferente: o Irã. De forma mais específica, a personificação de um atributo divino estaria presente nos Gathas, poemas atribuídos a Zaratustra (profeta persa do século VII a.C.). Nos Gathas o “Espírito Benevolente” (Spenta Mainyu) emana do “Senhor da Sabedoria” (Ahura Mazda) e opera em todos os aspectos da existência. Ele age nos homens, instruindo-os.

O problema é que esses textos foram transmitidos de forma oral por séculos, até ganharem a forma escrita (como saber se os textos não foram contaminados com outras crenças?). Outro problema é a tradução (foi escrito em dialeto gáthico, idioma de difícil tradução). Ainda assim penso que seja uma boa pista.

É possível ler 17 capítulos dos Gathas no Zaratustra.com (a tradução para o inglês é obra de Mobou Firouz Azargoshasb). Leia sobre os Spenta Mainyu nos Gathas aqui.  Sobre possíveis conexões entre o zoroastrismo e a Bíblia Hebraica aqui e uma introdução aos Gathas e a tradução de 17 capítulos para o inglês aqui.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 19 de março de 2018

POR QUE MALAFAIA NÃO É UM SOFISTA?

Indivíduos que “ganham” debates “no grito” ou com argumentos falaciosos geralmente são classificados como “sofistas”, termo empregado por Platão para se referir ao ofício criado por Protágoras, discípulo de Demócrito. Sofistas convencem pela força da retórica, não da dialética (ou da lógica). Fizeram sucesso na Grécia Antiga, fazem sucesso hoje, impulsionados por curtidas e compartilhamentos nas redes sociais.

Malafaia não pode ser considerado um sofista por uma razão muito simples: todo o seu discurso está fundamentado em crenças e valores que ele considera (ou pelos menos declara) verdadeiros, eternos e imutáveis. Os sofistas criticados por Platão (Diálogos) e Aristóteles (Elencos Sofísticos) negavam a objetividade da verdade. Ensinavam que a verdade depende da subjetividade humana, que a verdade é relativa (eram relativistas).

Os sofistas ao menos eram coerentes...


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 12 de março de 2018

SOBRE "EROS", "ÁGAPE", "PHILEO" E FIRULAS

Ora, se “ágape” é empregado no NT para expressar o amor mais elevado, incondicional, como muitos insistem, como explicar o uso da palavra neste lamento de Paulo: “Pois Demas me abandonou por amor (ágape) ao mundo presente” (2Tm 4,10). O termo correto não deveria ser “eros”, supostamente - como dizem - “amor egoísta, carnal”?

E se o NT, de fato, faz distinção entre “ágape” (amor incondicional, divino) e “fileo” (amor fraternal, de amigo), como explicar o uso de “fileo” aqui: “pois o próprio Pai vos ama (fileo, Jo 16,27). É verdade que há preferência pelo “ágape” nas relações entre o humano e o divino no NT, mas na prática, “ágape” e “fileo” são intercambiáveis, como no diálogo entre Pedro e Jesus em Jo 21,15-17.

Não há ocorrência do “eros” no NT. Mas a demonização do termo só aparece nos textos dos primeiros padres (nas palavras de Nietzsche, o cristianismo “envenenou o eros”.). Veja o que diz Santo Inácio, por exemplo: “O meu amor (eros) foi crucificado e não há em mim fogo de paixão. [...] Não me atraem o alimento de corrupção e os prazeres desta vida” (Carta aos Romanos, 7,2). Ratzinger acata em parte a crítica nietzschiana em sua “Carta Encíclica Deus Caritas Est”.

Um exercício simples, mas muito útil para desmascarar equívocos cristalizados pela repetição: escolha uma palavra (grega ou hebraica) e localize todas as suas ocorrências no texto bíblico. O contexto vai denunciar a farsa. Não confie em dicionários.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 9 de março de 2018

AINDA O SELO DE ISAÍAS

O epigrafista Christopher Rollston produziu três textos sobre o selo encontrado em Jerusalém (fev/2018) contendo a palavra “Isaías”. Embora didático, o conteúdo é bastante técnico (exige certo conhecimento de hebraico). Aos interessados: 
Rollston não publica imagens em seu Blog, então caso queira dar uma olhada em alguns artefatos que ele cita nos artigos, clique neste link:


Jones F. Mendonça