sábado, 28 de março de 2015

PARA ALÉM DA BÍBLIA, DE MARIO LIVERANI, PARTE IV [APONTAMENTOS]

Fiz este mapa com informações da figura 6, pg. 61. Clique para ampliar

Continuação (leia o post anterior clicando aqui).

Crise multifatorial
No segundo capítulo de seu “Para além da Bíblia”, Mário Liverani discorre sobre a sociedade palestina do primeiro período do Ferro (século XII a.C.). Esse novo período, quando confrontado com o período do Bronze Recente (séculos XIV e XIII), destaca-se pelo desenvolvimento de grande inovação tecnológica e de assentamentos.

Fatores climáticos e migrações
Além da crise socioeconômica de longa data, da crise demográfica em curso, da indiferença da população camponesa pela sorte dos palácios reais e das recentes carestias, a crise final do Bronze Recente e seu colapso veio pela presença de movimentos de caráter migratório impulsionado pelo processo de mudança climática: 1) na zona árida do deserto do Saara e do deserto da Arábia; 2) Na parte norte do mediterrâneo, particularmente na região da Anatólia.

Somado a essas migrações aparecem os chamados “Povos do mar”, que se espalharam por toda a costa do Mediterrâneo oriental, sendo detidos no Egito. No túmulo do faraó Ramsés III aparece o registro da chegada dos invasores: 
Os setentrionais em suas ilhas estavam em dificuldade e se moveram em massa, todos ao mesmo tempo. Ninguém resistiu perante eles; de Khati (império Hitita) a Qode (Cilícia), Karkemish (cidade do Eufrates, no norte da Síria), Arzawa (reino da Ásia Menor), Alashiya (Chipre) foram devastadas. Dirigiram-se enfim para o Egito [...]. A força deles era constituída de filisteus  de Zeker, de Shekelesh, de Danuna e de Weshesh, países que se uniram para pôr a mão no Egito, até o último confim. Os ânimos deles eram de confiança, cheios de projetos (ARE IV 64 = ANET, p. 262).

Bloqueados no delta do Nilo, os Povos do mar estabeleceram-se em grande número na costa meridional da Palestina ou no interior próximo. O povo mais importante, os filisteus, formou uma aliança política de cinco cidades, uma pentápole: Gaza, Ascalom, Ashdod, Gat e Eqron.

Queda do sistema regional
A invasão dos Povos do mar repercutiu em vários níveis no destino histórico da Palestina. Houve uma mudança no quadro político regional, provocando, por exemplo, o desmoronamento de duas potências que dividiam a soberania da faixa siro-palestina: Egito e Khati (cidade hitita, conhecidos na Bíblia como heteus, cf. 2Rs 7,6).

A Assíria e a Babilônia, limitadas a seus núcleos mínimos possíveis devido às invasões dos arameus, permitiram que a Palestina ficasse livre de intervenções estrangeiras pela primeira vez depois de meio milênio, situação que durará até o surgimento do império neo-assírio. A partir desse novo cenário, Liverani destaca: 
Os pequenos reis palestinos, habituados a uma relação de vassalagem em relação ao senhor estrangeiro, não terão mais outra entidade superior de referência senão suas divindades, e readaptarão toda a fraseologia, a inocografia e as cerimônias construídas para exprimir suas relações com o faraó para exprimir agora sua relação com a divindade citadina ou nacional (p.68).

Crise dos palácios
Muitos palácios reais e cidades palestinas foram destruídos durante as invasões ou depois delas, podendo ser atribuídas tanto aos Povos do mar como às tribos “proto israelitas”, intervenções egípcias, guerras locais ou revoltas de camponeses. Sem seu núcleo paladino, as cidades se reduziram em dimensão e complexidade organizativa. O maior interesse na autodefesa impulsionou a construção de muros nas pequenas cidades sobreviventes.



Jones F. Mendonça

ZÉ DIREITINHO E ARISTÓTELES

 “Todos são iguais perante a lei sem distinção de qualquer natureza”, reza nossa Constituição (art. 5º). Zé Direitinho não perde tempo: “então o sistema de cotas é inconstitucional, uma vez que privilegia certa classe social e/ou racial”. Mas o que Zé Direitinho não sabe é que desde Aristóteles a justiça comporta dois modos de proceder: 1) O tratamento desigual dispensado aos desiguais; 2) a busca pela definição de onde e quando o tratamento desigual de desiguais é justo.

Tá, é até possível que surjam opiniões diferentes quanto ao “onde” e ao “quando” o tratamento desigual de desiguais deve ser dado. Mas ignorar esse princípio revela uma definição caduca de justiça.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 25 de março de 2015

APEDREJAMENTO, INFIDELIDADE, ALEGORIA E TOQUE DE SHOFAR

Yossef, um judeu do século III a.C., desconfia que sua esposa não é virgem. Orientado por seus pais ele leva o caso aos anciãos da cidade. Ele sabe que se a acusação for tomada como falsa será açoitado, multado em cem ciclos de prata e proibido de repudiar sua mulher (Dt 22,19). Mas se a acusação for confirmada o que acontece é o seguinte: 
Se, porém, esta acusação for confirmada, não se achando na moça os sinais da virgindade, 21 levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão até que morra; porque fez loucura em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai. Assim exterminarás o mal do meio de ti (Dt 22,20-21).

E pensar que muitas mulheres foram salvas do apedrejamento graças a indivíduos como Fílon de Alexandria (50 d.C.), um dos pioneiros na alegorização das Escrituras. Acontece que numa leitura alegórica “apedrejar” pode significar simplesmente “fazer um furo no coração petrificado pelo pecado com o toque do shofar”. Na exegese judaica medieval, além do sentido simples ou literal (peshat), o texto podia ter até três sentidos (remez, drash e sod). Em suma, a "interpretação criativa" é um péssimo método de interpretação, mas pelo menos pode salvar vidas.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 23 de março de 2015

PALESTINA 2015

Com as negociações paralisadas entre palestinos e israelenses o número de colonos israelenses na Cisjordânia já ultrapassa 350.000. O crescimento constante de assentamentos em todo o território ocupado da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental é considerado uma violação do direito internacional pela maioria dos líderes mundiais. A solução para o conflito parece ter se tornado mais distante após declarações feitas pelo primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu, que afirmou que se eleito não permitirá a criação de um Estado palestino.

Veja muitas fotos em alta resolução, mapas e informações sobre os assentamentos no New York Times.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 17 de março de 2015

HISTÓRIA SOCIAL DO ANTIGO TESTAMENTO

Aos interessados no tema “história social do AT”, sugiro uma lida no texto de Rainer Kessler (Escribir una historia social del antiguo Israel?), publicado em 2004 e disponível no site da Pontificia Universidad Xaveriana, Bogotá. Segue um breve resumo: 
O projeto de uma história social do Antigo Israel tem a intenção de superar as limitações da exegese tradicional em métodos literários e o entendimento da história de Israel como história de acontecimentos. Seu sujeito é a história social do Antigo Testamento em sua mudança histórica. Suas fontes são a geografia, a arqueologia, a epigrafia, os textos bíblicos, a sociologia e a antropologia. Com a ajuda dessas fontes buscam-se reconstruir a história social do povo de Israel para entender melhor os textos da Bíblia.

Jones F. Mendonça 

sábado, 7 de março de 2015

quinta-feira, 5 de março de 2015

BOATO

Na fila do banco e um sujeito dispara: “Olha, o Exército está pronto para tomar o poder!”. Começa um ti-ti-ti.

Saio do banco, paro para comer um pastel e um senhor de terno diz em tom preocupado: “Estamos às portas de uma guerra civil”. Rostos assustados discutem táticas para estocar alimentos.

Sem paciência, afasto-me e sento-me para comer: “Andam dizendo que Dilma vai confiscar a poupança!”, afirma uma mulher descabelada. O desespero é geral.

Uma madame de vestido vermelho não perde tempo: “Olha, acabo de ler na Veja que o irmão do cunhado do Lula está financiando o Daesh, grupo terrorista que degola pessoas sem piedade”. E continua: “dizem que virão ao Brasil lutar pelo PT contra os caminhoneiros grevistas”.

Zé Bobinho, meio perdido e pronto para repassar os boatos, sai correndo para postar tudo no ZapZap.  

É, está realmente difícil viver no Brasil...



Jones F. Mendonça

sábado, 28 de fevereiro de 2015

SUGESTÕES DE LEITURA NO BIBLE STORY DAILY

Algumas sugestões de leitura para esta semana, no Bible Story Daily: 


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

ARJUNA NA TERRA DE MANIQUEU

Arjuna foi convidado a discursar na terra de Maniqueu. Esqueceu-se de que lá tudo é preto ou branco, duro ou mole, alto ou baixo. Tentou explicar o que era o cinza: Pow! Um soco no olho. Quis dizer que há substâncias nem tão duras e não tão moles: Paf! Um pescotapa. Meio tonto esforçou-se, trêmulo, a dar exemplos de coisas médias, nem tão altas e nem tão baixas: Pá! Um tiro no peito. Pobre Arjuna. Morreu incompreendido nesse mundo bidimensional, bipolar e doentio de Maniqueu.



Jones F. Mendonça

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O SER E O SANGUE

Na solidão do instante,
sob o triunfo do medo:
sangue, saliva, suor.
Agonia que flui no abismo do ser.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O EVANGELHO DE MARCOS NA PATRÍSTICA

Trecho do artigo publicado no The Bible and Interpretation, por Michael Kok: 
Quais são as razões para o fato de Marcos ter sido negligenciado [no período patrístico]? Além de suas deficiências gramaticais e estilísticas, Marcos pode ter sido considerado incompleto por ocultar histórias sobre aparições do nascimento e pos-mortem de Jesus, bem como os seus ensinamentos éticos no Sermão do Monte que se tornaram familiares pelos outros evangelhos. Na verdade Mateus reproduz mais de 90 por cento do conteúdo do Marcos, mas também insere um rico material adicional e revisa ou omite um número de passagens que podem ter sido teologicamente problemáticas (Mc 2,21; 3,19b-20; 6,5; 7,19b.32-35; 7,33-34; 8,22-26; 10,18). O procedimento de Lucas é semelhante, embora suas omissões sejam mais extensas (por exemplo, Marcos 6, 45-8, 26), terminando por reproduzir apenas 51 por cento de conteúdo de Marcos. 


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

E SE A BÍBLICA FOSSE LIDA COMO O ALCORÃO DOS RADICAIS ISLÂMICOS

Trecho do texto de Zack Hunt, publicado no Huff Post Religion:
Nós podemos ler a Bíblia exatamente como lemos o Alcorão e chegar a conclusões sobre o cristianismo muito semelhantes às que fazemos sobre o Islã, tido como religião do ódio, da violência e da opressão. Por exemplo, Deuteronômio 3, 3-7, Josué 6, 20-21 , e 1 Samuel 15, 3 sancionam o genocídio dos infiéis. 1 Reis 18,40 sugere que também devemos matar os líderes infiéis de outras religiões. Êxodo 21, 1-11 autoriza a posse de escravos.  Precisa de um pouco de dinheiro extra? Êxodo 21, 7 sugere vender sua filha como escrava sexual. E se nós realmente queremos provar a Deus que nos submetemos à Sua vontade, Juízes 11, 29-40 nos diz que sacrificar nossos filhos é uma forma justa de demonstrar nossa fidelidade.


Jones F. Mendonça

domingo, 8 de fevereiro de 2015

DO HERMON AO EGITO - GEOGRAFIA BÍBLICA NO GOOGLE EARTH PRO

Ando fuçando o Google Earth Pro, agora disponível de forma gratuita. Com a ferramenta "Movie maker" é possível gravar vídeos das viagens virtuais (resolução até 1920 x 1080). O programa permite que você escolha a altitude, o ângulo de visão em relação ao solo, o giro da "câmera", a velocidade de deslocamento e a inserção dos nomes dos lugares escolhidos (você pode escolher até mesmo o tipo e o tamanho da fonte a ser utilizada). Abaixo minha rápida viagem por Israel e Egito (não escolhi uma definição muito alta a fim de facilitar o carregamento):

video

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

CREATIVUM

Lápis ligeiro, cavalgando em celulose. 
Rédeas rotas, atadas aos sonhos.
Pegadas dissonantes, assimétricas, surreais.
Desbravando terras, sem parar jamais. 


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A VIDA DOS JUDEUS EXILADOS EM TABLETES DE ARGILA

Segue trecho de matéria divulgada no Haaretz (29/01/2015):
Uma pouco conhecida coleção de mais de 100 tabletes de argila em escrita cuneiforme que remonta ao Exílio Babilônico, ocorrido há cerca de 2.500 anos atrás, foi revelado esta semana, o que permite um vislumbre da vida cotidiana de uma das mais antigas comunidades de exilados do mundo.
Leia mais aqui


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O PAPIRO P46 ESTÁ COMPLETO

Em junho do ano passado o Center for the Study of New Testament Manuscripts (CSNTM) concluiu a digitalização do Papiro 46 (P46), o mais antigo papiro das cartas de Paulo e do livro de Hebreus (em 86 folhas, datado para 200 d.C.). Para ler a notícia completa no site da CSNTM, clique aqui. Para contemplar as imagens em altíssima resolução, clique aqui. 


Jones F. Mendonça

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

UM TERREMOTO, E NÃO ROMA, TERIA DERRUBADO MUROS DE JERUSALÉM

Se você foi a Jerusalém ou conhece a cidade graças aos recursos do Google Street View (como eu), certamente já reparou nas enormes pedras que aparecem nos arredores do Muro das Lamentações. Desde que foram descobertas na década de 70 houve certo consenso de que estariam ali por conta da ação do exército romano, em 70 d.C., que destruiu a cidade após uma revolta judaica. Mas essa teoria está sendo posta em xeque pelo arqueólogo britânico Shimon Gibson. Para ele o posicionamento das pedras é o resultado da ação de um terremoto ocorrido em 363 d.C., durante o governo do imperador Juliano. Considerando o valor simbólico que as pedras têm para a tradição judaica, a tese de Gibson tem provocado certo desconforto nos círculos religiosos mais conservadores.

A matéria completa, publicada no jornal israelense Haaretz, só está disponível para assinantes, mas você pode ler trechos e observar algumas imagens aqui.

Uma opinião diferente, por Leen Ritmeyer, aqui

Jones F. Mendonça

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

JESUS EM CINCO FASES

Leio pacientemente “O Jesus histórico, um manual”, de Gerd Theissen (Loyola, 2004, 651 páginas). Passarei a postar a partir de hoje um pequeno resumo, sempre acrescentando informações tomadas de outras obras. Quando possível, um link conduzindo o leitor a um texto clássico será inserido. Como o professor de Heidelberg distingue cinco fases na pesquisa sobre a vida de Jesus, seguirei sua metodologia:

Primeira fase: Herman Samuel Reimarus (1694-1768) e Daniel Friedrich Strauss (1808-1874).

Reimarus foi o primeiro a fazer distinção entre o que Jesus disse e ensinou e a pregação dos seus seguidores expressa nos evangelhos e demais escritos neotestamentários: “Considero uma grande causa separar totalmente o que os apóstolos apresentam em seus escritos daquilo que Jesus de fato disse e ensinou em sua vida”. Para Reimarus, o centro da pregação de Jesus está na iminência do reino dos Céus (que é terreno) e no consequente chamado à penitência. Jesus seria então uma figura judaica profético-apocalíptica, e o cristianismo uma invenção dos apóstolos, que teriam roubado o corpo do Nazareno e inventado a ressurreição para dissimular o malogro do mestre (teoria da fraude objetiva).  Os escritos de Reimarus foram publicados após sua morte por iniciativa de Gotthold Ephaim Lessing (Fragmentos anônimos, 1774-79).

A polêmica teoria da fraude objetiva foi abandonada por Strauss, que interpretou a ressurreição como um processo inconsciente de imaginação mítica dos primeiros seguidores de Jesus, formado a partir de lendas messiânicas do Antigo Testamento (A vida de Jesus, 1835). A narrativa sobre os malfeitores crucificados ao lado de Jesus, por exemplo, teriam sido elaboradas sob influência de Is 53,12: “ele foi contado entre os pecadores”. Strauss também deve ser lembrado como o primeiro a reconhecer que o Evangelho de João foi estruturado a partir de premissas teológicas e é historicamente menos confiável que os sinóticos. Por outro defendeu uma teoria quase não mais aceita, que atribui a Mateus e Lucas uma data mais antiga que Marcos, que seria um enxerto de ambos (hipótese de Griessbach).



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A VIDA DE JESUS, DE DAVID FRIEDRICH STRAUSS

Leio trechos (aqui e aqui) da obra “A vida de Jesus analisada criticamente” (1835), do exegeta e teólogo alemão David Friedrich Strauss. A principal tese de Strauss: "os evangelhos são a historização do mito Jesus". Strauss foi o primeiro (depois da publicação dos fragmentos de Reimarus) a distinguir o Jesus da fé do Jesus do histórico. A publicação do livro, com sua ênfase no esvaziamento do conteúdo sobrenatural dos evangelhos, foi um escândalo na Alemanha do século XIX. A perspectiva racionalista de Strauss foi adotada mais tarde por Ernest Renan, em seu famoso e não menos polêmico “A vida de Jesus”.  Ecos dos trabalhos de Strauss e Renan podem ser percebidos nos escritos de Nietzsche (1844-1900) e em diversos teólogos modernos que adotam o método histórico-crítico na análise das Escrituras. Abaixo alguns trechos selecionados por mim (fiz uma tradução livre a partir do inglês): 
QUANTO ÀS GENEALOGIAS DE MATEUS E LUCAS: “Jesus, por si mesmo ou por meio de seus discípulos, atuando sobre mentes fortemente dotadas de noções e expectativas judaicas, deixou entre seus seguidores uma convicção tão forte de sua messianidade que não hesitaram em lhe atribuir uma natureza profética de ascendência davídica [...] a fim de, por meio de uma árvore genealógica [...], justificar o seu reconhecimento como Messias”. 
QUANTO A SEU NASCIMENTO EM BELÉM: “Em nenhum outro lugar no Novo Testamento é mencionado o nascimento de Jesus em Belém. Em nenhuma parte a cidade aparece relacionada com seu suposto local de nascimento. Jesus sequer concede a Belém a honra de sua visita [...]. Em nenhuma parte ele apela à sua origem belemita como prova de sua messianidade, embora tivesse bons motivos para fazê-lo, considerando a repulsa que o epíteto “galileu” causava nas pessoas”. [...] a suposição de que Jesus nasceu em Belém é incompatível: [...] Jesus nasceu, não em Belém, mas, [...] com toda a probabilidade, em Nazaré”. 
QUANTO À SUA RELAÇÃO COM JOÃO BATISTA: “Assim, há boas chances de ser histórico: Jesus, atraído pela fama do Batista, colocou-se sob a tutela desse pregador, tendo permanecido algum tempo entre os seus seguidores, sendo iniciado em suas idéias sobre o reino messiânico que se aproximava”.   
QUANTO À SEU BATISMO NO JORDÃO: “a voz celestial e o Espírito Divino pairando sobre Jesus como uma pomba originaram-se a partir das idéias judaicas contemporâneas, tornando-se parte integrante da lenda cristã sobre as circunstâncias do batismo de Jesus. [...] os supostos elementos milagrosos do batismo de Jesus tem apenas valor mítico”.
Quanto a este último ponto, Strauss destaca a ligação feita pelos evangelistas entre a ruah de Javé agitando-se sobre as águas em Gn 1,2 e a bomba que sobrevoa as águas do dilúvio com um ramo de oliveira no bico em Gn 8,11. Estas duas passagens, relacionadas com uma interpretação judaica do Sl 52,2 (Davi é um ramo de oliveira, o Messias é a folha desse ramo), teria servido como pano de fundo para a criação do relato do batismo (pomba-Espírito/águas/renovação do mundo).


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

SOBRE DEUSES E HERÓIS

Thor é uma divindade do panteão nórdico associada à tempestade, ao trovão e à chuva. Nos países de língua inglesa e alemã deu nome ao quinto dia da semana, chamado de “dia de Thor” (Thursday/Donnerstag). O filho de Odin também faz sucesso no cinema, encarnado no corpo do galã Chris Hemsworth.

Ogum é uma divindade africana, senhor da guerra, dos metais, da agricultura e da tecnologia. Uma escola qualquer, numa cidade qualquer, resolveu distribuir revistas em quadrinhos tendo como herói a divindade africana. A ideia era difundir a cultura que herdamos desse continente. Os religiosos da cidade torceram o nariz. Disseram que o governo está incentivando o culto a Satanás.

Thor, deus nórdico, é herói. Ogum, deus africano, é diabo. Como assim?



Jones F. Mendonça

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

BOOGARINS - LUCIFERNANDIS

Na versão da Bíblia escrita em latim a palavra "lucifer" (=portador da luz) aparece apenas três vezes: 1) Em Is 14,12 designa o rei da Babilônia, que é comparado a uma estrela em queda 2) Em Jó 11,17, como símbolo para a luz que brilhará sobre Jó caso ele reconheça seus pecados e os confesse a Deus, 3) Em 2Pe 1,19, como alusão à plena revelação do Cristo que iluminará os corações dos que lhe forem fiéis. Diabo? Nem pensar. 

A banda goiana Boogarins - aparentemente em tom de provocação - deu à sua canção mais conhecida o título de Lucifernandis (Luci Fernandis ou lucifer nandis?). Trata-se de uma espécie de rock-baião-psicodélico. Não sei o que a palavra lucifer faz no título da música, mas que o som que os garotos fazem é pra lá de interessante, ah, isso é!

INQUISIÇÕES DE UM CRISTÃO REFORMADO

O Grande Caçador de Heresias construiu uma máquina do tempo. Foi à Palestina do primeiro século e condenou o comportamento de Jesus. O motivo: o Nazareno bebia vinho, comia com malfeitores e deixou de confrontar uma pecadora, que não só lavou seus pés com lágrimas como os secou com seus cabelos. O pecado: o escândalo. A pena: a fogueira.

O Grande Caçador de Heresias fez nova viagem. Foi à Alemanha do século XVI e reprovou o comportamento de Lutero. O motivo: o monge agostiniano convertia canções populares em hinos sacros, bebia cerveja enquanto traduzia a Bíblia para o alemão e acreditava no poder das bruxas. O pecado: o mundanismo. A pena: o caldeirão de azeite fervendo.

Tantas outras viagens fez o Grande Caçador de Heresias. Condenou, apontou o dedo, fez denúncias. Qualquer comportamento suspeito, por menor que pudesse parecer, ganhava a atenção de seus olhos sempre vigilantes. Certo dia - por um instante - tratou de cobiçar mulher que não era a sua. Lembrou-se de Mt 5,29 e, num movimento impetuoso, arrancou seus olhos com um marcador de Bíblias. Terminou a vida cego dos olhos, como sempre fora do coração.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

SENECA SAEPE NOSTER: ESTOICISMO, CASTIDADE E DEMÔNIOS

O livro deuterocanônico de Tobias na versão de Jerônimo (Vulgata Latina) possui uma passagem muito curiosa a respeito da primeira noite de núpcias de Tobias e Sara. Temendo o demônio Asmodeu, que sempre tira a vida dos pretendentes de Sara, Tobias põe o coração de um peixe sobre a brasa do defumador (seguindo o conselho do anjo Rafael, seu protetor) e ora ao Senhor pedindo-lhe misericórdia e salvação. Após três dias de oração Tobias declara: “vós sabeis, ó Senhor, que não é para satisfazer minha paixão que recebo minha prima como esposa, mas unicamente com o desejo de suscitar uma posteridade”. Só então a união é consumada. No final da história Tobias sobrevive à noite de núpcias derrotando o demônio Asmodeu. Essa declaração, que não aparece em códices gregos do século IV, foi inserida por Jerônimo (347-420 d.C.) com o propósito de fazer apologia à continência sexual.

Mas afinal, que medida tomada por Tobias foi capaz de livrá-lo das garras de Asmodeu: 1) O coração do peixe queimado sobre a brasa do defumador? 2) A oração piedosa? 3) a continência sexual que durou três dias? 

Jerônimo, que chegou a dizer (citando Xystus) que “aquele que é muito ardente com sua própria esposa é adúltero” (Contra Joviniano, I, 49), certamente escolheria a terceira opção. Um manual católico do século XIX, seguindo a interpretação dada por Jerônimo, diz claramente que o livramento na noite de núpcias deu-se “por causa da continência dos recém-casados” (Kirchen-Lexicon, 1899). Justino Mártir (100-165 d.C.), bem antes de Jerônimo, já aconselhava: “Nós, ou nos casamos desde o princípio para a única finalidade de gerar filhos, ou renunciamos ao matrimônio, permanecendo absolutamente castos” (Apologia I, 29).  

Mas é um erro pensar que os cristãos foram os pioneiros na valorização da abstinência sexual. Musonius Rufos (ou Musônio Rufo), professor de filosofia estoica de muitos legisladores romanos, declarava que “o ato sexual tem que ser um ato de procriação” (Sobre a indulgência sexual, Discurso XII). Nesse mesmo texto Musonius também condena a relação sexual entre homens, tida por ele como “coisa monstruosa e contrária à natureza” (o texto lembra Rm 1,26!). Sêneca, outro estoico, escrevendo a sua mãe Hélvia, assim se pronunciou em relação ao prazer sexual: “se refletires que o prazer sexual não foi dado ao homem para o gozo ou a fruição, mas para a propagação da espécie, então a luxúria não te tocou com seu sopro envenenado, aquele outro desejo também passará por ti sem te tocar” (Consolação a Hélvia).

Ao que parece, Paulo e os Pais da igreja, fortemente influenciados pelo ideal de pureza herdado dos filósofos gregos (particularmente dos estoicos), foram os grandes responsáveis pela visão negativa a respeito da atividade sexual no imaginário religioso medieval. Oração e abstinência – pensavam alguns dos primeiros líderes cristãos - são armas poderosas na luta contra os dardos inflamados do diabo. Mas o “remédio” tem efeitos colaterais. Efeitos, aliás, que ainda pipocam com muito vigor no seio da cristandade.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A FENDA DE JAVÉ



Zé Bobinho está tentando compreender o livro do Êxodo, mas está confuso. Em Ex 33,11 Moisés fala com Javé “face a face, como um homem fala com um amigo” (Nm 12,8 chega a dizer que Moisés contemplou a forma - a temunah - de Javé!). Mas em 33,20 o mesmo Javé diz (a Moisés?): “Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum pode ver a minha face e viver”. Na sequência Javé é visto apenas “pelas costas” (em hebraico, ahor = parte de trás) depois de ter passado por cima de uma fenda na rocha.

Trata-se de um texto estranho, não é mesmo?

Para ouvir uma explicação para lá de escandalosa (mas com boa dose de coerência), assista ao debate entre Paulo Nogueira (UMESP) e Osvaldo Luiz Ribeiro (Faculdade Unida), em mesa da ABIB. O primeiro defende uma interpretação focada no leitor, aquele a quem é incumbida a tarefa de “ativar criativamente a memória potencial do texto”, resgatando suas “potencialidades dormentes” e preenchendo “as lacunas do não dito” (quem leu “Hermenêutica Bíblica”, de Croatto, conhece bem esse tipo de abordagem). O segundo, uma interpretação que olhe para o texto como janela para o passado, capaz de revelar o contexto em que ele nasceu e as intenções ocultas (ou perversamente ocultadas) pelas teias do tempo/pena do sacerdote.




Jones F. Mendonça

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

PAIXÃO, ÊXTASE E EXPERIÊNCIA RELIGIOSA


A escultura “Êxtase de Teresa d’Ávila”, de Bernini (1645 a 1652), é capaz de deixar atônitos os visitantes da capela Cornaro, na Igreja de Santa Maria Vitória, Roma. A freira retratada na obra foi uma mística cristã do século XVI (1515-1582), famosa pela frase: “toda a miséria do presente é suportável pela esperança do beijo divino”.  A escultura de Bernini foi inspirada na autobiografia de Teresa. Eis trecho da (estonteante!) descrição de sua visão: 
Via um anjo ao pé de mim, ao lado esquerdo, em forma corporal [...] Vi-lhe nas mãos um grande dardo de ouro, e na ponta da arma pareceu-me ver um pouco de fogo. E parecia que mo enfiava pelo coração algumas vezes e me chegava até as entranhas. Ao tirá-lo, cuidava eu que as levava consigo e me deixava toda abrasada num grande amor de Deus. A dor era tão forte que me fazia soltar gemidos; e tão excessiva a suavidade que me deixava aquela dor infinita [...]. Não é dor corporal, mas espiritual, embora o corpo não deixe de ter participação e grande. É um trato de amor tão suave que passa entre Deus e a alma que, suplico eu à sua bondade, faça-o gozar a quem pensar que estou mentindo.
Um século depois que Bernini criou a escultura, Chevalier de Brosses, aristocrata francês de passagem por Roma, olhou para a santa e disse: “Bom, se isso é amor divino, eu sei muito bem como é”. 


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

JOSÉ E ASENATH: JESUS E MADALENA?

Diante da postura sensacionalista de boa parte da mídia em relação ao suposto evangelho perdido de Jesus que revela seu casamento com Maria Madalena, reuni aqui o que se tem dito sobre o documento:
1) O manuscrito, com 1450 anos de idade, esteve no Museu Britânico e mais tarde na Biblioteca Britânica desde 1847.
2) Foi escrito em siríaco, um dialeto aramaico falado no sudeste da Turquia desde o primeiro século, mas que só ganhou importância literária após o terceiro século.

3) Argumenta-se que foi traduzido de um texto grego mais antigo. Barrie Willson e Simcha Jacobovici, responsáveis pela publicação do livro, sugerem que seja a tradução de um original do primeiro século, escrito por um dos seguidores de Jesus antes mesmo da redação dos Evangelhos canônicos.

4) A tradução, publicada pela editora Pegasus, foi feita por um dos maiores estudiosos siríacos do mundo, o professor Tony Burke, da Universidade de York, Toronto. 
5) No manuscrito, “Maria Madalena” é a estrela principal - e não “Jesus”. Neste evangelho", ela é chamada de "A Mãe das virgens" e "Nossa Senhora". Willson e Jacobovici levantam a seguinte suspeita: “Será que esses títulos - hoje associados à Virgem Maria - originalmente pertenciam à esposa, não a mãe?”.

6) No item anterior “Maria Madalena” e “Jesus” são colocados entre aspas porque no manuscrito os nomes que aparecem são “José” (filho de Jacó) e “Asenath” (filha de Potifar). A narrativa seria uma alegoria, referência velada a Jesus e Madalena. 
Todas essas informações, é claro, precisam ser submetidas a uma criteriosa análise crítica. Parecem-me um tanto quanto suspeitas as declarações que colocam as origens no manuscrito no primeiro século, tendo como autor um seguidor próximo de Jesus. Que tipo de evidências podem ser apresentadas para legitimar essa declaração?    

Nos Evangelhos, Maria Madalena aparece: 1) na crucificação de Jesus (Mt 27,56; Mc 15,40; Jo 19,25); 2) Sentada diante de sua sepultura (Mt 27,61; Mc 15,47); 3) Novamente no sepulcro, agora para ungir o seu corpo (Mc 16,1), 4) diante do Jesus ressurreto, sendo a primeira a vê-lo (Mc 16,9, Lc 24,10; Jo 20,1.18) e 5) sendo exorcizada por Jesus, que expulsou dela 7 demônios (Lc 8,2).  Madalena é algumas vezes associada à “mulher pecadora” anônima que regou os pés de Jesus com lágrimas, os secou com seus cabelos e depois os ungiu com bálsamo (Lc 7,37-38), embora isso não fique claro no texto.


Jones F. Mendonça