sexta-feira, 17 de abril de 2015

PADRE FÁBIO DE MELO: LATRIA, HIPERDULIA E EXCOMUNHÃO

O Padre Fábio de Melo jamais será excomungado por criticar a adoração a Maria. A razão é muito simples. Na doutrina católica o culto que se presta a Maria é apenas culto de hiperdulia, nunca de latria, reservado apenas às três pessoas da Trindade (Concílio de Niceia II, 787 d.C.). Mais que isso: no catolicismo Maria é sempre intercessora, nunca mediadora (papel reservado a Jesus). Tá, eu sei que uma coisa é a teoria e outra é a prática. Também sei que a esmagadora maioria dos fiéis não conhece essas sofisticadas sutilezas teológicas, mas é o que está escrito.

Por fim: você pode achar todas essas distinções uma grande bobagem, mas entenda uma coisa: o padre cantor nunca será excomungado por suas críticas à adoração a Maria. Ele não é bobo, sabe escolher bem as palavras...



Jones F. Mendonça

sábado, 11 de abril de 2015

ZÉ BOBINHO E LUTHER KING

Tese do Zé Bobinho: "a melhor maneira de combater o racismo é não falar sobre ele". Puxa, deviam ter dito isso para o Luther King. Perdeu um tempo danado discursando, fazendo passeatas. Até morreu pela causa. Podia ter permanecido entre os muros da igreja, quem sabe discutindo o sexo dos anjos ou a intensidade do brilho do ouro celeste. Teria salvado sua vida! Mas não, cismou de sair por aí denunciando a segregação racial. Zé Bobinho é realmente um cara genial. Demonstrou como foi inútil o ativismo do pastor batista.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 9 de abril de 2015

AMBRÓSIO E A DANÇA

Ambrósio (340-397), arcebispo de Milão, querendo dissuadir as cristãs a evitarem a dança, citou o seguinte exemplo bíblico:
João, o precursor de Cristo, sendo degolado por vontade de uma dançarina, é um exemplo de que as seduções da dança fazem mais mal do que a loucura de um sacrilégio (Da virgindade, Livro III, capítulo V).
Leia "Da virgindade", de Ambrósio aqui.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 8 de abril de 2015

MISOGINIA NO CRISTIANISMO PRIMITIVO

Basta dar uma rápida olhada nos textos escritos pelos primeiros cristãos para perceber como era forte a visão da mulher como “isca de Satanás” e “portão do diabo”. Cipriano (bispo do séc. III), por exemplo, dizia que os demônios ensinaram as mulheres 
a pintar os olhos espalhando uma substância negra ao seu redor, e a tingir as bochechas com um enganoso vermelho, e a mudar o cabelo com cores falsas, e a expulsar toda a verdade do rosto e da cabeça com o ataque de sua corrupção (Do vestuário das virgens, 14).
A investida anticosmética de Cipriano tem como argumento principal o seguinte: uma vez que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, não devemos nos atrever a mudar o que Deus fez. Tratar-se-ia, portanto, de uma “agressão à obra divina e uma prevaricação da verdade”.

E pensar que em pleno século XXI o argumento que contrapõe o “natural” (divino)  ao “antinatural” (diabólico) ainda faz sucesso.

Leia o texto completo “Do vestuário das virgens”, de Cipriano, aqui (em inglês).



Jones F. Mendonça

terça-feira, 7 de abril de 2015

SOBRE BESTAS E CABELO DE MULHER

Leio Vegécio, escritor romano do século IV, autor de “Compêndio da arte militar”. No livro IV, capítulo II desta obra, Vegécio dá orientações a respeito da importância do nervo de boi numa guerra, usado em arcos de bestas. A questão que ele discute é: “e quando não há nervos disponíveis?” A solução apresentada pelo escritor latino é um tanto quanto inusitada: 
Os nervos podem ser substituídos por crinas de cavalos e mesmo pelos cabelos das mulheres, como prova a experiência romana.
Vegécio cita como exemplo o cerco ao Capitólio. Nessa ocasião, diante da falta de nervos, as damas da cidade teriam cortado seus cabelos e doado a seus maridos combatentes, que puderam consertar suas armas de guerra. Com tal artifício, o inimigo teria recuado.  Vegécio conclui (dito com minhas palavras): “é melhor ser uma careca livre ao lado do marido, que uma escrava bela no leito do inimigo”.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 2 de abril de 2015

CASTLE OF GLASS - LINKIN PARK

PÁSCOA, PÃES ÁZIMOS E SACERDOTES

A festa da Páscoa, de Dieric Bouts, 1464-67
No livro do Êxodo, capítulo 12, versos 1 a 20, Moisés dá a seguinte orientação a respeito da páscoa: Um cordeiro ou cabrito deve ser morto na tarde do décimo quarto dia (12,6) do primeiro mês, sendo seu sangue aspergido nos umbrais das portas. O ritual é acompanhado por uma refeição que inclui carne assada, pão sem fermento e ervas amargas (12,8). Originalmente páscoa e pães ázimos eram duas comemorações distintas, relacionadas com o ritmo da natureza (oriundas do ambiente cananeu). Mais tarde foram interpretadas a partir do evento do Êxodo.

O texto destaca que a festa dos pães sem fermento (matzah) deve ser comemorada como “estatuto perpétuo” (huqqat olam, cf. 12,14). Para eliminar o risco do uso de fermento (e de uma severa punição), os israelitas deviam tirá-lo de suas casas: 
Êx 12,19-20  Por sete dias comereis pães ázimos; logo ao primeiro dia tirareis o fermento das vossas casas, porque qualquer que comer pão levedado, entre o primeiro e o sétimo dia, esse será cortado de Israel. 20 Nenhuma coisa levedada comereis; em todas as vossas habitações comereis pães ázimos.
Mas o povo parece não ter dado ouvidos às orientações de Moisés, pois em 12,39 é dito que o pão “não se tinha levedado”, não pela ausência de fermento, mas porque não houve tempo para isso. Veja: 
Ex 12,34 Ao que o povo tomou a massa, antes que ela levedasse...

Êx 12,39 E cozeram a massa que levaram do Egito, bolo amargo, pois ela não se tinha levedado (hametz), porquanto foram expulsos do Egito; e não puderam retardar a partida, nem haviam preparado comida.
Como explicar tamanha contradição? A solução pode ser encontrada a partir do seguinte procedimento: leia Ex 11,1-10 e depois salte para 12,21. Entenda o trecho que vai de 12,1-20 como inserção sacerdotal tardia com o propósito de ressaltar a importância da páscoa como “estatuto perpétuo” a “todas a gerações”, num dia fixo, o 14 de Nissan (12,14). Num outro momento da história de Israel surge uma nova mudança: a Páscoa passa a ser celebrada em apenas "no lugar que Javé elohim escolher" (Dt 16,5-6), ou seja, Jerusalém. 


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O SACRIFÍCIO DE PÁSCOA E O INSTITUTO DO TEMPLO




Desde a destruição do templo de Jerusalém, no ano 70 d.C., os sacrifícios formam suspensos no judaísmo (com exceção do kapparot, feito por uma minoria religiosa).

Nas ruínas do antigo Templo, ampliado e embelezado por Herodes a partir do século I a.C., foi construído um templo religioso muçulmano (uma mesquita), obra no século VII d.C. Atualmente são proibidas orações e atos religiosos judaicos no monte do Templo, que é controlado pela Waqf da Jordânia, país vizinho de Israel.

Em 1987 foi fundado o Instituto do Templo, organização que recolhe fundos para concretizar a visão do profeta Ezequiel a respeito da reedificação da antiga “casa de Deus”. No vídeo acima você poderá observar uma simulação do sacrifício de páscoa organizado pelo Instituto. Observe que os organizadores do ritual buscaram simular o cenário ideal, erguendo uma grande tela com a imagem do santuário judaico que esperam que seja construído no local onde atualmente está a mesquita de Al Aqsa.


Jones F. Mendonça

NOTÍCIAS DO ORIENTE


1. Acabo de ler no Haaretz que a Autoridade Palestina é um novo membro oficial do Tribunal Penal Internacional. O que isso significa? Bem, a partir de agora líderes israelenses podem enfrentar acusações de crimes de guerra em território palestino.

2. Tanto o Haaretz como o Jerusalém Post publicaram uma notícia que provavelmente vai causar certa preocupação em Israel: O Irã está fornecendo ogivas guiadas por foguetes ao Hezbollah, grupo paramilitar xiita com base no Líbano (será verdade?). Caso ocorra uma guerra entre Israel e o grupo libanês, milhares de foguetes podem despencar em Israel diariamente, fazendo muitas baixas.

3. Centenas de pessoas participaram de um “ensaio” do sacrifício de páscoa no bairro de Kiryat Moshe, em Jerusalém. Após o abate, o sangue foi derramado num altar e o cordeiro foi mostrado à multidão depois de ter sido esfolado. Seus órgãos foram colocados sobre o altar e um grande espeto foi inserido em seu corpo. O ritual é uma espécie de ensaio, na expectativa de que o governo de Israel autorize a presença de judeus no monte do Templo, atualmente proibida com o propósito de evitar tumultos. A matéria, também publicada no Haaretz, está disponível apenas para assinantes. 


Jones F. Mendonça 

terça-feira, 31 de março de 2015

PARECEM BORBOLETAS, VOAM COMO BORBOLETAS, MAS...

FOGO, FEIJÃO E EXEGESE

Ela escreve: 
“Délcio, coloque o feijão no fogo.
Maria”.
O pequeno bilhete é fixado na geladeira. Passam-se mil anos e é achado nas ruínas de uma construção. Surgem interpretações diferentes:

A exegese fundamentalista: “é para por a semente de feijão no calor de uma chama. Feijão talvez seja uma espécie de milho que estoura quando aquecido”.

A exegese alegórica: “o feijão representa nossas imperfeições; o fogo, a chama de nossa auto-avaliação”.

A exegese tipo PARDES: “o texto possui quatro sentidos: 1) a semente de feijão deve ser colocada na chama (peshat); 2) toda a 'semente' dos animais deve ser cozida antes de ser consumida (remez); 3) A semente, para brotar, precisa do calor, ou seja, do cuidado humano, o que nos ensina que devemos amar nossos filhos (Drash); 4) A soma das consoantes das palavras 'feijão' e 'semente', em hebraico, resulta em nove, que é o número dos leprosos que não agradeceram a Jesus pela cura (Sod)".

A exegese confessional: “Embora num primeiro momento o texto pareça ter sido escrito por uma mulher, é mais provável que tenha vindo pelas mãos de um homem, afinal, mulheres não devem dar ordens aos homens (Cl 3,18). Não é impossível o uso do nome 'Maria' para homens no início do século XXI”.

Pode parecer inacreditável, mas há pessoas muito bem instruídas que interpretam a Bíblia com tais métodos.


Jones F. Mendonça

domingo, 29 de março de 2015

PARA ALÉM DA BÍBLIA, DE MÁRIO LIVERANI - PARTE V [APONTAMENTOS]

"Beyt David" (Casa de Davi) - Estela
de Tel Dan
...Continuação (leia o post anterior aqui).

Mário Liverani considera o século XII a.C. um período de transição na Palestina. Uma série de migrações impulsionadas por mudanças climáticas mudou o cenário político e social da região. Egito (norte da África) e Khati (Anatólia) perderam o controle da Palestina; a Assíria e a Babilônia, ocupadas com as invasões arameias, permitiram que a Palestina ficasse livre de interferências estrangeiras pela primeira vez depois de meio milênio. As cidades ganharam uma dimensão reduzida, cercadas por muros, revelando o maior interesse pela autodefesa.

O crescimento do elemento tribal
A configuração de uma nova ordem na Palestina foi acentuada pela ação de grupos pastoris. Liverani considera plausível – após rejeitar certos exageros - “uma contribuição de marginalizados e de debandados para o reforço de grupos pastoris e para o crescimento de sua autoconsciência” (p. 70). A gravitação das vilas agropastoris deslocou-se dos palácios para as tribos, que absorviam foragidos (habiru), com reivindicações socioeconômicas “antipalatinas”, dando às tribos (unidas pela comunhão parental) uma dimensão e uma força nova.  Como em populações aramaicas da Síria (Bit Adini, Bit Agushi, onde Bit significa “casa de” no sentido de estirpe), em Israel aparecem as expressões “estirpe de Davi” (Judá) e “estirpe de Omri (Israel).

Mudança tecnológica
A ruptura de tradições culturais, o surgimento de novos ambientes sociopolíticos e de novas ordens econômicas facilitaram a adoção de algumas inovações tecnológicas (vindas de dentro e de fora). Liverani dá destaque: 1) À metalurgia do ferro (lâminas de trabalho e de combate); 2) Ao alfabeto (o cuneiforme babilônico era acessível a poucos especialistas); 3) À domesticação do dromedário (área arábica) e do camelo (área iraniana), com capacidade de transporte muito maior que a do asno, permitido que os comerciantes atravessassem grandes espaços desérticos (surgimento das primeiras cidades na trilha das caravanas); 4) Às inovações técnicas da navegação, permitindo a exploração dos tráfegos mediterrâneos pelos fenícios “pré-coloniais” e gregos “homéricos”; e 5) Às inovações técnicas no campo da agricultura e das infra estruturas agrícolas, especialmente nos planaltos centrais da Palestina. Uma famosa passagem bíblica alude ao desmatamento nas montanhas: 
“Receberás a montanha, embora seja uma floresta, desmatá-la-ás e será tua até as extremidades” (Js 17,18).

Além de todos esses itens, Liverani também dá destaque às inovações hídricas: obras de canalização, poços mais profundos, cisternas com rebocos mais à prova d’água e canais subterrâneos. Ele finaliza explicando que todas essas inovações (ferro, alfabeto, domesticação do dromedário/camelo, navegação, agricultura, inovações hídricas) não se desenvolveram de repente nem ao mesmo tempo. Todas juntas caracterizaram o período do Ferro em relação ao período do Bronze e devem ser levadas em conta para compreender a diferente ordem territorial e a diferente cultura material.

Horizontes ampliados
A nova ocupação territorial da Palestina estendeu-se aos planaltos e às estepes semi-áridas, situação bem diferente da ocupação no Bronze recente, concentrada nas áreas facilmente utilizáveis. A dimensão dos assentamentos nas cidades diminuiu, mas nas vilas cresceram e se fortificaram. Todo o território foi ocupado de maneira mais homogênea e a zona habitada dilatou-se de modo extraordinário. A Palestina, terra marginal e fraco anel da “meia lua fértil”, acabou se vendo no centro de uma vasta rede de vias e trocas comerciais. Ainda assim, destaca Liverani: “a marginalidade da Palestina muda nas circunstâncias, mas permanece na substância” (p. 80).



Jones F. Mendonça

sábado, 28 de março de 2015

PARA ALÉM DA BÍBLIA, DE MARIO LIVERANI - PARTE IV [APONTAMENTOS]

Preparei este mapa seguindo o modelo da figura 6, pg. 61. Clique para ampliar

Continuação (leia o post anterior clicando aqui).

Crise multifatorial
No segundo capítulo de seu “Para além da Bíblia”, Mário Liverani discorre sobre a sociedade palestina do primeiro período do Ferro (século XII a.C.). Essa nova fase, quando confrontada com o período do Bronze Recente (séculos XIV e XIII), destaca-se pelo desenvolvimento de grande inovação tecnológica e de assentamentos.

Fatores climáticos e migrações
Além da crise socioeconômica de longa data, da crise demográfica em curso, da indiferença da população camponesa pela sorte dos palácios reais e das recentes carestias, a crise final do Bronze Recente e seu colapso veio pela presença de movimentos de caráter migratório impulsionado pelo processo de mudança climática: 1) na zona árida do deserto do Saara e do deserto da Arábia; 2) Na parte norte do mediterrâneo, particularmente na região da Anatólia.

Somado a essas migrações aparecem os chamados “Povos do mar”, que se espalharam por toda a costa do Mediterrâneo oriental, sendo detidos no Egito. No túmulo do faraó Ramsés III aparece o registro da chegada dos invasores: 
Os setentrionais em suas ilhas estavam em dificuldade e se moveram em massa, todos ao mesmo tempo. Ninguém resistiu perante eles; de Khati (império Hitita) a Qode (Cilícia), Karkemish (cidade do Eufrates, no norte da Síria), Arzawa (reino da Ásia Menor), Alashiya (Chipre) foram devastadas. Dirigiram-se enfim para o Egito [...]. A força deles era constituída de filisteus  de Zeker, de Shekelesh, de Danuna e de Weshesh, países que se uniram para pôr a mão no Egito, até o último confim. Os ânimos deles eram de confiança, cheios de projetos (ARE IV 64 = ANET, p. 262).

Bloqueados no delta do Nilo, os Povos do mar estabeleceram-se em grande número na costa meridional da Palestina ou no interior próximo. O povo mais importante, os filisteus, formou uma aliança política de cinco cidades, uma pentápole: Gaza, Ascalom, Ashdod, Gat e Eqron.

Queda do sistema regional
A invasão dos Povos do mar repercutiu em vários níveis no destino histórico da Palestina. Houve uma mudança no quadro político regional, provocando o desmoronamento de duas potências que dividiam a soberania da faixa siro-palestina: Egito e Khati (cidade hitita, conhecidos na Bíblia como heteus, cf. 2Rs 7,6).

A Assíria e a Babilônia, limitadas a seus núcleos mínimos possíveis devido às invasões dos arameus, permitiram que a Palestina ficasse livre de intervenções estrangeiras pela primeira vez depois de meio milênio, situação que durará até o surgimento do império neo-assírio. A partir desse novo cenário, Liverani destaca: 
Os pequenos reis palestinos, habituados a uma relação de vassalagem em relação ao senhor estrangeiro, não terão mais outra entidade superior de referência senão suas divindades, e readaptarão toda a fraseologia, a inocografia e as cerimônias construídas para exprimir suas relações com o faraó para exprimir agora sua relação com a divindade citadina ou nacional (p.68).

Crise dos palácios
Muitos palácios reais e cidades palestinas foram destruídos durante as invasões ou depois delas, podendo ser atribuídas tanto aos Povos do mar como às tribos “proto israelitas”, intervenções egípcias, guerras locais ou revoltas de camponeses. Sem seu núcleo paladino, as cidades se reduziram em dimensão e complexidade organizativa. O maior interesse na autodefesa impulsionou a construção de muros nas pequenas cidades sobreviventes.

Continua aqui

Jones F. Mendonça

ZÉ DIREITINHO E ARISTÓTELES

 “Todos são iguais perante a lei sem distinção de qualquer natureza”, reza nossa Constituição (art. 5º). Zé Direitinho não perde tempo: “então o sistema de cotas é inconstitucional, uma vez que privilegia certa classe social e/ou racial”. Mas o que Zé Direitinho não sabe é que desde Aristóteles a justiça comporta dois modos de proceder: 1) O tratamento desigual dispensado aos desiguais; 2) a busca pela definição de onde e quando o tratamento desigual de desiguais é justo.

Tá, é até possível que surjam opiniões diferentes quanto ao “onde” e ao “quando” o tratamento desigual de desiguais deve ser dado. Mas ignorar esse princípio revela uma definição caduca de justiça.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 25 de março de 2015

APEDREJAMENTO, INFIDELIDADE, ALEGORIA E TOQUE DE SHOFAR

Yossef, um judeu do século III a.C., desconfia que sua esposa não é virgem. Orientado por seus pais ele leva o caso aos anciãos da cidade. Ele sabe que se a acusação for tomada como falsa será açoitado, multado em cem ciclos de prata e proibido de repudiar sua mulher (Dt 22,19). Mas se a acusação for confirmada o que acontece é o seguinte: 
Se, porém, esta acusação for confirmada, não se achando na moça os sinais da virgindade, 21 levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão até que morra; porque fez loucura em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai. Assim exterminarás o mal do meio de ti (Dt 22,20-21).

E pensar que muitas mulheres foram salvas do apedrejamento graças a indivíduos como Fílon de Alexandria (50 d.C.), um dos pioneiros na alegorização das Escrituras. Acontece que numa leitura alegórica “apedrejar” pode significar simplesmente “fazer um furo no coração petrificado pelo pecado com o toque do shofar”. Na exegese judaica medieval, além do sentido simples ou literal (peshat), o texto podia ter até três sentidos (remez, drash e sod). Em suma, a "interpretação criativa" é um péssimo método de interpretação, mas pelo menos pode salvar vidas.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 23 de março de 2015

PALESTINA 2015

Com as negociações paralisadas entre palestinos e israelenses o número de colonos israelenses na Cisjordânia já ultrapassa 350.000. O crescimento constante de assentamentos em todo o território ocupado da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental é considerado uma violação do direito internacional pela maioria dos líderes mundiais. A solução para o conflito parece ter se tornado mais distante após declarações feitas pelo primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu, que afirmou que se eleito não permitirá a criação de um Estado palestino.

Veja muitas fotos em alta resolução, mapas e informações sobre os assentamentos no New York Times.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 17 de março de 2015

HISTÓRIA SOCIAL DO ANTIGO TESTAMENTO

Aos interessados no tema “história social do AT”, sugiro uma lida no texto de Rainer Kessler (Escribir una historia social del antiguo Israel?), publicado em 2004 e disponível no site da Pontificia Universidad Xaveriana, Bogotá. Segue um breve resumo: 
O projeto de uma história social do Antigo Israel tem a intenção de superar as limitações da exegese tradicional em métodos literários e o entendimento da história de Israel como história de acontecimentos. Seu sujeito é a história social do Antigo Testamento em sua mudança histórica. Suas fontes são a geografia, a arqueologia, a epigrafia, os textos bíblicos, a sociologia e a antropologia. Com a ajuda dessas fontes buscam-se reconstruir a história social do povo de Israel para entender melhor os textos da Bíblia.

Jones F. Mendonça 

sábado, 7 de março de 2015

quinta-feira, 5 de março de 2015

BOATO

Na fila do banco e um sujeito dispara: “Olha, o Exército está pronto para tomar o poder!”. Começa um ti-ti-ti.

Saio do banco, paro para comer um pastel e um senhor de terno diz em tom preocupado: “Estamos às portas de uma guerra civil”. Rostos assustados discutem táticas para estocar alimentos.

Sem paciência, afasto-me e sento-me para comer: “Andam dizendo que Dilma vai confiscar a poupança!”, afirma uma mulher descabelada. O desespero é geral.

Uma madame de vestido vermelho não perde tempo: “Olha, acabo de ler na Veja que o irmão do cunhado do Lula está financiando o Daesh, grupo terrorista que degola pessoas sem piedade”. E continua: “dizem que virão ao Brasil lutar pelo PT contra os caminhoneiros grevistas”.

Zé Bobinho, meio perdido e pronto para repassar os boatos, sai correndo para postar tudo no ZapZap.  

É, está realmente difícil viver no Brasil...



Jones F. Mendonça

sábado, 28 de fevereiro de 2015

SUGESTÕES DE LEITURA NO BIBLE STORY DAILY

Algumas sugestões de leitura para esta semana, no Bible Story Daily: 


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

ARJUNA NA TERRA DE MANIQUEU

Arjuna foi convidado a discursar na terra de Maniqueu. Esqueceu-se de que lá tudo é preto ou branco, duro ou mole, alto ou baixo. Tentou explicar o que era o cinza: Pow! Um soco no olho. Quis dizer que há substâncias nem tão duras e não tão moles: Paf! Um pescotapa. Meio tonto esforçou-se, trêmulo, a dar exemplos de coisas médias, nem tão altas e nem tão baixas: Pá! Um tiro no peito. Pobre Arjuna. Morreu incompreendido nesse mundo bidimensional, bipolar e doentio de Maniqueu.



Jones F. Mendonça

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O SER E O SANGUE

Na solidão do instante,
sob o triunfo do medo:
sangue, saliva, suor.
Agonia que flui no abismo do ser.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O EVANGELHO DE MARCOS NA PATRÍSTICA

Trecho do artigo publicado no The Bible and Interpretation, por Michael Kok: 
Quais são as razões para o fato de Marcos ter sido negligenciado [no período patrístico]? Além de suas deficiências gramaticais e estilísticas, Marcos pode ter sido considerado incompleto por ocultar histórias sobre aparições do nascimento e pos-mortem de Jesus, bem como os seus ensinamentos éticos no Sermão do Monte que se tornaram familiares pelos outros evangelhos. Na verdade Mateus reproduz mais de 90 por cento do conteúdo do Marcos, mas também insere um rico material adicional e revisa ou omite um número de passagens que podem ter sido teologicamente problemáticas (Mc 2,21; 3,19b-20; 6,5; 7,19b.32-35; 7,33-34; 8,22-26; 10,18). O procedimento de Lucas é semelhante, embora suas omissões sejam mais extensas (por exemplo, Marcos 6, 45-8, 26), terminando por reproduzir apenas 51 por cento de conteúdo de Marcos. 


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

E SE A BÍBLICA FOSSE LIDA COMO O ALCORÃO DOS RADICAIS ISLÂMICOS

Trecho do texto de Zack Hunt, publicado no Huff Post Religion:
Nós podemos ler a Bíblia exatamente como lemos o Alcorão e chegar a conclusões sobre o cristianismo muito semelhantes às que fazemos sobre o Islã, tido como religião do ódio, da violência e da opressão. Por exemplo, Deuteronômio 3, 3-7, Josué 6, 20-21 , e 1 Samuel 15, 3 sancionam o genocídio dos infiéis. 1 Reis 18,40 sugere que também devemos matar os líderes infiéis de outras religiões. Êxodo 21, 1-11 autoriza a posse de escravos.  Precisa de um pouco de dinheiro extra? Êxodo 21, 7 sugere vender sua filha como escrava sexual. E se nós realmente queremos provar a Deus que nos submetemos à Sua vontade, Juízes 11, 29-40 nos diz que sacrificar nossos filhos é uma forma justa de demonstrar nossa fidelidade.


Jones F. Mendonça

domingo, 8 de fevereiro de 2015

DO HERMON AO EGITO - GEOGRAFIA BÍBLICA NO GOOGLE EARTH PRO

Ando fuçando o Google Earth Pro, agora disponível de forma gratuita. Com a ferramenta "Movie maker" é possível gravar vídeos das viagens virtuais (resolução até 1920 x 1080). O programa permite que você escolha a altitude, o ângulo de visão em relação ao solo, o giro da "câmera", a velocidade de deslocamento e a inserção dos nomes dos lugares escolhidos (você pode escolher até mesmo o tipo e o tamanho da fonte a ser utilizada). Abaixo minha rápida viagem por Israel e Egito (não escolhi uma definição muito alta a fim de facilitar o carregamento):

video

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

CREATIVUM

Lápis ligeiro, cavalgando em celulose. 
Rédeas rotas, atadas aos sonhos.
Pegadas dissonantes, assimétricas, surreais.
Desbravando terras, sem parar jamais. 


Jones F. Mendonça