terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O MURO DAS LAMENTAÇÕES E A SEGREGAÇÃO DO ESPAÇO PÚBLICO

Numa decisão considerada histórica, o governo de Israel aprovou projeto que viabiliza a oração conjunta entre homens e mulheres no Muro das Lamentações.

Atualmente as orações são realizadas em seções separadas por uma espécie de cerca (48m reservados aos homens e 17m às mulheres). A ideia é criar uma terceira seção mista (81m), controlada por uma comissão composta por judeus reformistas.

A novidade desagradou grupos de judeus ultra-ortodoxos como os membros do partido Shas (dizem que a medida “prejudica a tradição”).  Com uma justificativa diferente, mas igualmente contra a criação de um terceiro pavimento, aparece Eilat Mazar, respeitada arqueóloga israelense.

De acordo com Mazar, as obras para a criação do novo espaço poderiam ser desastrosas, uma vez que serão realizadas na última área remanescente onde os sinais da destruição do Segundo Templo, há pouco menos de 2.000 anos, podem ser testemunhados.

Para Anshel Pfeffer, do jornal israelense Haaretz, a decisão de criar um terceiro espaço representa uma derrota para os progressistas e não uma vitória. Para ele, a aceitação de uma zona de oração isolada revela a “submissão do governo à hegemonia fundamentalista”.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

MACABEUS, ESPORTES E PREPÚCIOS

Há, no livro deuterocanônico de 1 Macabeus (1,14-15), uma passagem muito curiosa:
Construíram [alguns judeus helenistas], então, em Jerusalém, uma praça de esportes, segundo os costumes das nações, restabeleceram seus prepúcios e renegaram a aliança sagrada.
Como assim “restabeleceram seus prepúcios”?

Expiando, no Google Livros, algumas páginas de “Amor e sexo na Grécia Antiga”, de Reinholdo Aloysio Ullmann (EDIPUCRS, 2007, p. 70), deparo-me com isto:
A infibulação, contrariamente à castração, era muito comum na Grécia. Puxava-se o prepúcio sobre a extremidade do pénis e era amarrado com uma corda. Qual a finalidade? Evitar que, nos exercícios de ginástica e congêneres, aparecesse a glande. Tal tipo de infibulação só podia ser ocasional e não permanente.
“Renegar a aliança sagrada”, para os tradicionalistas macabeus, seria algo parecido com a infibulação?


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

HOLOCAUSTOS

Um povo que foi subjugado tantas vezes (Egito, Assíria, Babilônia, Pérsia...). Que lutou em tantas ocasiões por sua liberdade (Macabeus, Zelotes, Bar Kokhba). Que foi perseguido por suas crenças e por suas tradições na Europa cristã e nas terras sob domínio islâmico. Um povo que que foi moído pelas lâminas do nazismo...

Agora coloniza terras palestinas na Cisjordânia.
Converteu sua agonia na agonia dos outros. 



Jones F. Mendonça

O VATICANO E A EVANGELIZAÇÃO DOS JUDEUS

Boa parte da imprensa (UOL, Reuters, Exame, G1) noticiou que o Vaticano produziu um documento orientando os católicos “a não tentarem converter judeus”. Não é bem assim:
A Igreja, portanto, deve entender o evangelismo aos judeus, que acreditam no único Deus, de uma maneira diferente daquela direcionada àqueles que pertencem a outras religiões ou que tenham outras filosofias de vida.
Na verdade o documento não proíbe a evangelização, apenas orienta que isso "deve ser feito de uma maneira diferente". Sobre a salvação dos judeus "sem uma confissão explícita de Cristo", o documento diz que é "mistério insondável do Divino".

O texto guarda uma boa dose de ambiguidade. Leia-o na íntegra no site do Vaticano (em italiano):



Jones F. Mendonça

sábado, 23 de janeiro de 2016

FRAGMENTOS ESCATOLÓGICOS: CONSELHEIRO E TOURO SENTADO


Massacre de Wounted Knee
A proclamação da República, em 1889, foi vista por Antônio Conselheiro como a encarnação do próprio Anticristo. Em suas palavras: “o Satanás trouxe a República [mas] Belos Montes será o campo de Jesus... Os republicanos não devem ser poupados, pois são todos do Anticristo”. Como sabemos o movimento de resistência liderado por Conselheiro foi sufocado pelo governo na famosa “guerra” (ou massacre?) de Canudos.

Os Estados Unidos conheceram um fenômeno de resistência semelhante. Tudo começou com a crescente influência de um movimento religioso chamado “Ghost dance” (dança fantasma) entre os índios Sioux na Reserva Indígena de Pine Ridge (Dakota). Os nativos começaram a achar que suas seguidas derrotas para as tropas americanas deviam-se ao abandono dos costumes tradicionais. A solução: a rejeição dos costumes dos brancos e a luta armada. Acreditavam que em seguida os deuses criariam um mundo novo, o “paraíso das manadas de búfalos”. Mas a resistência sioux não acabou bem: Touro Sentado (visto como o líder da seita) foi morto e as tropas do governo massacraram os índios da reserva de Wounded Knee.

Esses dois movimentos estão repletos de pontos em comum: 1) fundamentação religiosa, 2) explicação do sofrimento a partir da ameaça da mudança dos costumes, 3) extermínio do inimigo para preservar os valores tradicionais, 4) anúncio da chegada de um reino escatológico, 5) florescimento na virada do século (final do século XIX). Minha pergunta: teria a religião sioux recebido influência do milenarismo cristão dos colonizadores (neste caso a virada do milênio teria desempenhado um papel importante) ou não há qualquer relação entre os dois fenômenos?


Jones F. Mendonça

domingo, 17 de janeiro de 2016

DAVI E BETSHEBA NA BÍBLIA MACIEJOWSKI

Clique para ampliar

Acima uma cena da história de Davi e Batsheba num manuscrito medieval, a Bíblia Maciejowski (1255, Paris). Como se pode ver, os monges não eram tão puristas como geralmente se pensa.

Cena 01: Davi dá ordens a um de seus servos para que traga Batsheba que está se banhando (com os seios à mostra) num cômodo à direita;
Cena 2: Davi (assanhadinho) no leito com Batsheba;
Cena 3: [se interpretei corretamente:] Davi enviando Urias ao campo de batalha.

Mais imagens da Bíblia Maciejowski aqui.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

MARCHA TURCA, INFLUÊNCIA OTOMANA (SONATA K331)

O vídeo mostra a execução da “marcha turca” (Alla turca) de Mozart nos dedos nervosos de Olga Jegunova. Trata-se de belo um exemplo da influência da música militar otomana (dos janízaras) na música clássica europeia.




Jones F. Mendonça 

SOBRE A ESSÊNCIA DAS RELIGIÕES

Leio neste dia chuvoso: “O império Otomano: das origens ao século XX”, de Donald Quataert. Lá na posição 340 (leio no Kindle), ele explica que o sistema político dos otomanos, classificado por ele como “multiétnico e multirreligioso” 
exigia [...] a proteção dos súditos no exercício de sua religião, fosse ela o islamismo, o judaísmo ou o cristianismo, de qualquer vertente – sunita ou xiita, ortodoxa ou católica grega, armênia ou síria. Este requisito baseava-se no princípio islâmico da tolerância (grifo nosso) com os "povos do livro", isto é, os judeus e os cristãos.
Mas ainda há quem insista que o islamismo é, “em essência”, uma religião violenta e intolerante. Ainda não entendeu que as religiões dançam conforme a música (na verdade, conforme o compasso do maestro).



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

AGOSTINHO AOS DONATISTAS: SE NÃO VÊM PELO AMOR, VIRÃO PELA DOR

Deparei-me hoje com uma carta de Agostinho de Hipona escrita no início do 5º século. Atormentado pela insubmissão dos donatistas (seita cismática fundada por Donato, bispo da Numídia), Agostinho acaba concluindo que medidas mais duras devem ser tomadas no combate à heresia: 
Na verdade, é melhor que os homens sejam levados a adorar a Deus através do ensino que por medo da punição ou da dor. Mas [...] muitos só são alcançados quando compelidos inicialmente pelo medo ou pela dor, para depois serem influenciados pelo ensino (Carta 185,6,21). 
A inspiração vem de Pv 23,14, citado na carta logo a seguir: 
“Quanto a ti, deves bater-lhe com a vara, para salvar-lhe a vida do inferno”[1].
(Na vulgata: tu virga percuties eum et animam eius de inferno liberabis)
Teria vindo dessa carta de Agostinho o famoso provérbio popular: “Quem não vai a Deus pelo amor, vai pela dor?”

Nota: [1] No texto hebraico “sheol” é mundo dos mortos e não inferno. A mensagem do provérbio é clara: “a vara não mata” (v. 13), mas, pelo contrário, “livra a néfesh (=vida) do sheol” (=da morte, cf. v. 14)”.  



Jones F. Mendonça

sábado, 9 de janeiro de 2016

CONSIDERAÇÕES SOBRE O SELO DE EZEQUIAS

Em dezembro de 2015 a universidade Hebraica de Jerusalém anunciou a descoberta de um selo em Jerusalém contendo a inscrição "Ezequias, filho de Acaz, rei de Judá". Embora outros selos semelhantes já tenham sido encontrados, este foi o primeiro descoberto por uma equipe de arqueólogos profissionais.

No selo aparecem dois símbolos egípcios bem conhecidos: um Ankh e um disco solar. A flor de lótus é outro símbolo que também aparece em selos do rei judaíta. Você pode estar se perguntando: “o que esses símbolos religiosos estrangeiros estão fazendo num selo israelita?”

Aos interessados no tema, vale conferir esta matéria publicada no Haaretz, assinada por Julia Fridman, com a colaboração do epigrafista Christopher Rollston, da Universidade George Washington.



Jones F. Mendonça

SOBRE JUDEUS, SULTÕES E PAPAGAIOS DE PIRATA

Quando os judeus fugiram da inquisição espanhola, no final do século XV, foram recebidos e protegidos por Bayazid II, sultão (ou califa) do Império Otomano. Aliás, o sultão fez questão de dizer que a Europa cristã estava perdendo gente de primeiríssima qualidade.

Qual a importância disso? Quando alguém vier com essa conversa de que os judeus são inimigos eternos dos muçulmanos, peça licença e saia de fininho, porque esse sujeito é um papagaio de pirata dotado de bico, penas e chapeuzinho com ossos.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

O SALTÉRIO STUTTGARTER E OS TUMORES DE JAVÉ


Por mais estranho que possa parecer, esta pintura ilustra o Salmo 78,66 num manuscrito medieval (Saterio Stuttgarter), produzido na França do século IX.

Eis o que diz o salmo: "Deus [...] feriu seus opressores pelas costas e para sempre entregou-os à vergonha". 

O "pelas costas" possivelmente se refere aos "tumores" (interpretados como hemorroidas) citados em 1Sm 5,6.9. 

O que se lê, em latim, acima da imagem, é: "obprobrium sempiternum dedit illis" (entregou-lhes ao opróbrio perpétuo). 


Jones F. Mendonça

UMA BORRACHA NO SALTÉRIO STUTTGARTER


Esta pintura enigmática ilustra o Salmo 16 no Saltério Stuttgarter, manuscrito medieval do século IX. A ilustração não tem nenhuma relação aparente com o Salmo ou qualquer outra cena das Escrituras. Note que no centro da imagem alguns traços foram cuidadosamente apagados a fim de tornar a cena menos escandalosa.

Dê uma boa espiada no Saltério Stuttgarter aqui


Jones F. Mendonça

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A IGREJA, O IMPÉRIO E OS JUDEUS

Nesta pintura, de Camilo Procaccini (séc. XVI), Ambrósio, bispo de Milão, impõe-se diante do imperador Teodósio I, após ter ordenado um massacre na cidade de Tessalônica em 390.

A atrito ocorreu poucos anos após Teodósio ter assinado um Édito tornando o cristianismo a religião oficial do império. O imperador cedeu às pressões da igreja, vestiu-se com saco de penitência e foi perdoado.

O fato dos judeus não terem a mínima intenção de abandonar a sua fé e seguir a religião oficial do império causou descontentamento em muitos cristãos. No final de 388 cristãos fanáticos atearam fogo numa sinagoga na cidade de Calínico, na Mesopotâmia.

Teodósio instruiu os líderes cristãos a reconstruírem a sinagoga e a punir os incendiários. Ambrósio não gostou e saiu-se com essa: 
Não é adequado que pessoas sejam punidas com tanta severidade pela queima de um edifício, e muito menos pela queima de uma sinagoga, uma casa de incredulidade, uma casa de impiedade, um receptáculo de loucura, que até Deus tem condenado (Epístola 40,14).
A postura de Ambrósio marca tanto o início do antijudaísmo eclesiástico como da intromissão da igreja nos assuntos pertencentes à esfera política, julgando as ações dos poderes públicos.



Jones F. Mendonça

GEOGRAFIA EM ATOS [MITILENE E ASSOS]

Ao fundo a cidade de Mitilene (na ilha grega de Lesbos) a partir de Assos (na atual Turquia), conforme At 20,14:
Quando [Paulo] nos alcançou em Assos, recolhemo-lo a bordo e prosseguimos para Mitilene.




Jones F. Mendonça

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

A “TZELA” DE ADÃO EM GN 2: COSTELA OU BÁCULO?

Para Ziony de Zevit, professor de literatura bíblica e línguas semíticas na American Jewish University, Gn 2 relata Eva sendo criada a partir do baculum de Adão, osso presente no pênis da maioria dos mamíferos, como no cão, na baleia e no guaxinim. Diante da ausência do osso nos homens e da incerteza quanto ao real sentido da palavra hebraica tzela (=lado, mas geralmente traduzida por costela em Gn 2,21-22), Zevir conclui: Eva foi feita a partir do báculo de Adão e não de sua costela.

Mas Elon Gilad, num artigo publicado no Haaretz (29/12/15), discorda de Zevit. A primeira evidência do erro de Zevit estaria no próprio texto: “Javé Elohim [...] tomou uma de suas tzelaot” (’ahat mitzal‛otaiv). Ora, o texto sugere que Adão tinha várias tzelaot (plural de tzela), elemento que enfraquece a tese de Zevit. A segunda razão para negar a tese de Zevit vem de textos sumerianos. Gilad explica que
O mito sumeriano de Enki e Nihursag (um deus central e sua esposa, a deusa-mãe), que antecede à Bíblia Hebraica, conta uma história que apresenta seres viventes sendo gerados a partir de uma costela. Enki fica doente e sua mãe dá à luz a dois deuses de suas costelas, a fim de curá-lo.
A terceira razão apresentada por Gilad é lingüística: “tzela [...] tem cognatos que significam costela em praticamente todas as línguas semitas que conhecemos”.

Leia o texto completo de Gilad publicado no Haaretz aqui.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

Quando a esquerda israelense se opôs aos “métodos de interrogatório não convencionais” contra palestinos suspeitos de terrorismo, a direita classificou o protesto como traição. Agora, quando os mesmos métodos são usados contra um suspeito judeu, a mesma direita faz alarde dizendo que os interrogatórios dirigidos pelo Shin Bet são desumanos.

Leia no J. Post.



Jones F. Mendonça

ARTE E CORPO

Você olha para esta tela de Luca Signorelli (A flagelação, 1502) e pensa: esse sujeito à esquerda está acoitando ou sambando? O que Signorelli tinha na cabeça quando pintou esses lencinhos caindo no quadril dos verdugos?



E o que dizer desta tela de Bacchiacca (A flagelação de Cristo, 1512/15)?



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

DANÇA MACABRA EM ISRAEL

No dia 31 de julho um terrorista judeu matou três membros de uma família palestina em Duma, na Cisjordânia. Dentre os mortos está um bebê de 18 meses. Mas isso não é tudo. O esfaqueamento do bebê, acreditem, foi comemorado num casamento onde eram exibidas facas, rifles, pistolas e coquetéis molotov.

E meio ao gozo insano é possível ouvir uma canção inspirada num trecho do livro bíblico de Juízes (Jz 16,28):

com um só golpe
eu me vingue dos palestinos [no texto original, “filisteus”]
por causa dos meus dois olhos.


Um suspeito do crime cometido em Duma foi detido e está sendo interrogado pelo serviço de segurança interna de Israel, o temido Shin Bet. Como está usando “métodos não convencionais de interrogatório” (como vem fazendo há anos com suspeitos palestinos) o Shin Bet está sendo alvo de protestos inflamados em Israel.

O vídeo com a comemoração foi divulgado ontem (23/dez) pelo Times of Israel. 


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

DAS CONDECORAÇÕES

A condecoração entregue ao valente não foi criada com o propósito de honrá-lo, mas para estimular os demais a exercitarem a coragem e as virtudes que o soberano valoriza. Não é, portanto, um presente, uma dádiva, mas uma isca. Daí a fala de Maquiavel em seu diálogo fictício com Montesquieu na obra de Maurice Joly: 
Tais coisas [as condecorações] não custam quase nada ao príncipe e ele pode tornar as pessoas felizes, melhor até, fiéis, por meio de laços de fita, ninharias de prata ou de ouro. [...] Um homem condecorado é um homem amarrado (Diálogo no inferno, 2009, p. 322).
Tolo é quem não vê. 


Jones F. Mendonça

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

CORTESIA E SUBMISSÃO

Carl Jung, em “psicologia e religião” (Zahar, 1965, p. 22) sobre o real sentido por trás das “formas refinadas de cortesia”: 
“É uma falta de delicadeza conservar a mão esquerda no bolso ou atrás das costas, quando cumprimentamos alguém. Quando se pretende ser particularmente atencioso, cumprimenta-se a pessoa com ambas as mãos. Diante de alguém revestido de grande autoridade inclinamos a cabeça descoberta, ou seja, oferecemos a cabeça desprotegida ao poderoso...”.

Formas de cumprimento no Antigo Egito

Jones F. Mendonça

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

DOS SÍMBOLOS DE PODER

O que é a continência senão um gesto que lembra, a cada instante, o lugar que o militar ocupa na cadeia hierárquica?

Mas a lembrança não vem apenas pelos gestos. É preciso distinguir botões dourados de botões prateados; o número de divisas na manga ou de estrelas nos ombros; a quantidade de listras; as cores das barretas; a forma dos distintivos...

Há tantas normas, tantos símbolos, tanto controle que é quase impossível pensar.

Na Antiguidade tardia, a partir de Constantino, a igreja consolidou uma hierarquia eclesiástica baseada na estrutura administrativa do império. O título papal usado até os dias de hoje “Sumo Pontífice” (Pontifex Maximus), era um antigo título utilizado pelos imperadores romanos. Mas não é só isso.

As cores, a disposição ou o tipo de pálio, de luvas, de estola, de anel, de báculo pastoral, de solidéu são claros símbolos de poder e de distinção social. O culto aos símbolos e a doutrina baseada no apego à tradição foram feitos para durar, para manter a ordem estabelecida.

Não é de se estranhar que as instituições de maior prestígio entre a população sejam o Exército e a Igreja.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

JUNG VERSUS FREUD EM DOIS PONTOS

No imaginário popular, as diferenças metodológicas entre Freud e Jung geralmente são vistas pelo prisma da religião: Freud – visão negativa; Jung – visão positiva. Mas é muito mais que isso. No que diz respeito aos sonhos, por exemplo, há diferenças significativas. Acompanhe:

1. Embora não conhecesse o alfabeto cirílico, um homem começou a divagar enquanto observava anúncios em estações de trem da Rússia. A experiência trouxe-lhe à mente antigas lembranças, incluindo assuntos bem incômodos há muito tempo sepultados na memória. Após ouvir essa experiência relatada por seu paciente, Jung começou a perceber que os complexos podem ser descobertos não apenas pelos sonhos, mas também, por exemplo, a partir de meditações sobre uma bola de cristal, moinhos de orações, um quadro moderno ou até mesmo de uma conversa ocasional a respeito uma banalidade qualquer. 

2. Freud buscava os temas emocionais reprimidos (complexos) nos sonhos tal como na experiência descrita acima. Ele não via o sonho como tendo uma mensagem específica, mas apenas como uma espécie de “alfabeto cirílico” capaz de despertar memórias reprimidas. Jung passou a discordar desse ponto. Ele achava que os sonhos têm uma linguagem própria e que a livre associação de Freud por vezes é ineficiente para tingir os complexos. Preferiu concentrar-se nas associações com o próprio sonho, convencido de que ele expressa o que de específico o inconsciente está tentando dizer. A partir dessa descoberta Jung foi abandonando a livre associação de Freud até concluir: “só o material que é parte clara e visível de um sonho pode ser utilizado para a sua in­terpretação”.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

"MATEUS E O ANJO" EM PERSPECTIVA


Muitos artistas retrataram "Mateus e o anjo", mas nenhum deles fez isso como Caravaggio:

1. Um anjo (homem feito) DIZ o que Mateus deve escrever (Mateus e o anjo, 1588, Vincenzo Campi);

2. Um anjo (criança) AUXILIA Mateus em seu trabalho de escrita (Mateus e o anjo, 1645-48, Simone Cantari);

3. Um anjo (oculto nas sombras) SOPRA no ouvido de Mateus as palavras sagradas (Mateus e o anjo, 1661, Rembrandt);

4. Um anjo (menino) DITA a Mateus o que deve ser escrito (Mateus e o anjo, 1635-40, Guido Reni).

5. Um anjo (andrógino) CORRIGE Mateus tocando delicadamente suas mãos (Mateus e o anjo, 1602, Caravaggio);

Quando você compara a 5ª tela com as demais, entende as razões de a Igreja ter recusado a obra. A nova tela de Caravaggio, adequada ao gosto da Igreja, recebeu o título de “A inspiração de São Mateus” (também produzida em 1620).



Jones F. Mendonça

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

AS SEMENTES DA INQUISIÇÃO

O cristianismo era uma religião conhecida por seu pacifismo e por seus mártires entregues às feras no Coliseu de Roma. No século IV, com Constantino, ganhou o status de religio licita. Teodósio I, sucessor de Constantino, deu-lhe ainda maior dignidade: religião oficial.

Um Édito promulgado por Teodósio, em 392, punia com o confisco de bens aqueles que fossem surpreendidos oferecendo libações aos antigos deuses romanos. Em 408, já embalado pela relação amorosa entre religião e Estado, Agostinho (354-430) recorreu aos “reis religiosos e fiéis” em sua luta contra os hereges donatistas (norte da África):
Moral da história 1: as ideias radicais da inquisição (séc. XII) não nasceram de uma hora para outra. 

Moral da história 2: os campos estão floridos... e as sementes são más.


Jones F. Mendonça

sábado, 5 de dezembro de 2015

O SELO DE EZEQUIAS: ALGUMAS QUESTÕES

A existência de Ezequias, rei de Judá entre os séculos VIII e VII a.C. é atestada até mesmo fora da literatura bíblica, como nos anais de Senaqueribe. Quanto a isso, não há o que discutir.

Mas como sou gato escaldado, sei que anúncios de grandes descobertas arqueológicas em Israel, como o novo “selo de Ezequias” (veja também aqui no Blog), geralmente são impulsionadas por interesses escusos (política, financiamento de pesquisa, ideologia religiosa, etc.).

Aos interessados no assunto, vale ler este texto publicado no Blog do Dr. Robert R. Cargill, Professor Assistente de Clássicos e Estudos Religiosos da Universidade de Iowa.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

SELO CONTENDO NOME DO REI EZEQUIAS É DESCOBERTO EM JERUSALÉM

Segue trecho de matéria publicada no Haaretz (02/12/2015): 
Um selo de 2700 anos com o nome do rei bíblico Ezequias foi descoberto em escavações no Monte do Templo em Jerusalém. A impressão oval sobre o selo de argila [...] informa em hebraico antigo: "Pertencente a Ezequias [filho de] Acaz, rei de Judá." Ele também mostra um sol de duas asas [...] ladeado por dois símbolos Ankh que representam a vida.
Embora a existência de selos com o nome do Rei Ezequias já seja conhecida a partir do mercado de antiguidades desde meados da década de 1990 (alguns com um escaravelho alado e outros com um sol alado), esta é a primeira vez que a impressão do selo de um rei israelita ou da Judeia vêm à luz em uma escavação arqueológica científica. 

Uma breve discussão a respeito do Ankh (à direita) e o disco solar (centro) impressos no selo, aqui

 Jones F. Mendonça