domingo, 21 de agosto de 2016

AUTOQUÍRIA EM TOM MENOR

À sombra de um jambeiro,
absorta em vil melodia,
repousou sob morena doçura,
embalada por pensamentos febris.

Na acidez da sinfonia,
assaltada pelas sombras do pensamento,
gemeu um artelho enlutado,
encarcerado no anel fulvo da agonia.

Em cicuta encharcada a língua,
deitada em rósea relva,
cerrou a pupila abatida,
para nunca jamais voltar a brilhar.



Jones Mendonça

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

JOGOS OLÍMPICOS E CIRCUNCISÃO

Em 2 Macabeus 4,18 há uma referência aos “jogos quinquenais”, celebrados em Tiro, cidade fenícia ao norte de Israel. Os jogos, disputados por atletas nus e dedicados a divindades estrangeiras, não agradou aos judeus mais piedosos. O escândalo foi registrado no primeiro livro de Macabeus:
Construíram, então, em Jerusalém, uma praça de esportes, segundo o costume das nações. [Os judeus, querendo ocultar suas circuncisões] restabeleceram seus prepúcios [puxando-os sobre a glade?] e renegaram a aliança sagrada [e então] Matatias inflamou-se de zelo e seus rins estremeceram.

O que vem depois dessa indignação? Uma guerra!


Jones F. Mendonça

terça-feira, 16 de agosto de 2016

BOBINHO E A ESSÊNCIA DAS COISAS

Atormentado por um sonho noturno Bobinho iniciou uma alucinante jornada em busca da essência das coisas. Queria encontrar a verdade profunda projetada para além dos sentidos.  Não se empolgava com o dossel estrelado, com a textura da derme nua, com a curva dos caracóis, com a flagrância dos manacás. “Tudo aparência”, dizia gritando pelos caminhos. Aos 40 anos enfiou-se numa caverna e pôs-se a meditar. Passava horas tentando ouvir o som das pedras. Perdia noites apalpando neblina e alisando fumaça. Investigava sem cessar a quadratura do círculo lunar. Queria sentir o gosto inebriante das galáxias distantes. Após 40 anos de solidão e ascese, Bobinho finalmente descobriu a essência e o sentido de sua existência: era um tonto!



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

OS ENTULHOS DA ALMA

Sofrência não se contentava em acumular memórias amargas. Suas dores mais profundas eram cultivadas na mobília da casa. Na cômoda guardava em estojo estofado o anel de um noivado acabado. Na parede o diploma de uma profissão que jamais exerceu. No porão o dileto gato, agora empalhado. Na estante o retrato do pai que nunca a amou. Foi aconselhada a desintegrar tudo num rito solene. A celebrar vida nova em fogo festivo. Mas optou pela agonia perpétua, pela conservação da amargura.  Insistia em manter suas âncoras no passado sombrio. Mórbido desejo, aspiração doentia.  Ao preservar nos cômodos do lar suas relíquias tóxicas mais sagradas, perdeu-se nos destroços do passado. Ao continuar derramando lágrimas nas subterrâneas cisternas da alma, afogou-se em suas próprias recordações.




Jones F. Mendonça

terça-feira, 9 de agosto de 2016

ENTRE A RAZÃO E A PAIXÃO

Toda a análise precisa estar assentada em elementos racionais. Sempre. Nenhum médico, nenhum engenheiro, nenhum contador faz análise sob o impulso das paixões. Assim também deve ser no âmbito das relações humanas. O olho investigativo ganha potência na frieza da razão. Mas a análise, por sua vez, conduz ao diagnóstico, que exige uma solução. No fim de tudo será preciso decidir. E toda a decisão, embora leve em conta a emoção, os afetos, precisa necessariamente considerar a análise racional. O pranto e o desespero têm lugar nos desastres, nunca na prevenção dos desastres.



Jones F. Mendonça

BOBINHO E AS ABELHAS

Bobinho passava horas observando o voo daquela abelha. Mexia as asinhas: Ah, que lindo! Lambuzava-se no pólen: soltava um suspiro. Zumbia em ziguezague: seu olho apertava uma lágrima. Absorto em suas observações românticas do mundo animal, Bobinho rompeu o limite da sensatez e teve seu nariz golpeado pelo aguilhão peçonhento.

Diagnóstico: percepção romântica da realidade. Remédio: doses diárias de lucidez.



Jones F. Mendonça 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

DIABRURAS MEDIEVAIS: SATÃ PROCESSA JESUS CRISTO

Página 23r
Num manuscrito intitulado “Peccatorum Consolatio, seu Processus Luciferi contra Jesum Christum” (1382), Lúcifer processa Jesus Cristo por ter transgredido a lei descendo ao Inferno. O julgamento é conduzido por ninguém menos que Salomão (o rei com um cetro). No primeiro julgamento Moisés (que aparece com chifres, à esquerda) é o conselheiro de Jesus Cristo. Belial aconselha o Diabo.

Mais adiante vão surgindo novos personagens, como Isaías e até Aristóteles. O trabalho, considerado herético, foi colocado no Index Librorum Prohibitorum, relação de livros condenados pela igreja católica.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 2 de agosto de 2016

DECÊNCIA FEMININA NO CRISTIANISMO PRIMITIVO

Clemente de Alexandria (150-215), num tratado sobre as vestimentas das mulheres cristãs (Pedagogo, Livro II, 11), recomenda que se evitem apetrechos “supérfluos”, afinal, ele diz, “a Escritura declara que os supérfluos são do diabo”. Tingimento de cabelos, coloração dos olhos, da boca e da face, são alguns dos “supérfluos” citados pelo teólogo.

A prática do tingimento de roupas também recebe dura crítica: “o uso das cores não é benéfico, afinal não são úteis contra o frio”. O ideal, ele continua, “são as roupas brancas e simples”. As vestes, ele explica, servem unicamente para cobrir o corpo, jamais para serem admiradas. A base para tal ensinamento viria do profeta Daniel: “o Ancião sentou-se. Suas vestes eram brancas como a neve” (Dn 7,9). E finaliza: “as roupas que são como flores devem ser abandonadas”.

Por fim Clemente se debruça sobre o tamanho das saias das mulheres: “Não é conveniente ter o vestido acima dos joelhos, como, segundo dizem, fazem as moças de Esparta. Pois não é decoroso que a mulher descubra determinadas partes de seu corpo”. Tal modo de se vestir poderia despertar elogios embaraçosos, tais como “suas coxas são bonitas”. O rosto também precisa estar coberto com um véu, mas nunca de cor roxa, tonalidade que na opinião do teólogo “inflama os desejos”.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 28 de julho de 2016

LUTERO E SUAS 97 TESES CONTRA A ESCOLÁSTICA

Entre agosto e setembro de 1517 Lutero escreveu suas bem pouco conhecidas 97 teses contra os escolásticos (não confundir com as 95 contra as indulgências, publicadas em 31/10/1517). Nelas – principalmente as teses 37 a 53 – Lutero critica ferozmente Aristóteles (384-322 a.C.) e os teólogos escolásticos: 
41. Quase toda a “Ética de Aristóteles” é a pior inimiga da graça. Contra os escolásticos.
43. É um erro dizer que, sem Aristóteles, ninguém se torna teólogo. Contra a opinião geral.
47. Nenhuma fórmula silogística subsiste em questões divinas. Contra o cardeal Pedro d’Ailly.
49. Se uma fórmula silogística subsistisse em questões divinas, o artigo sobre a Trindade seria conhecido, em vez de ser crido.
As teses 47 e 49 revelam – com o perdão do anacronismo –  um Lutero “fideísta”, por criticar a possibilidade de uma exposição das verdades divinas em termos racionais. Em relação à tese 41 cabe uma explicação: Lutero considerava a Ética de Aristóteles (Nicomaqueia e Eudêmica) um obra pagã, uma vez que acentuava o papel das potencialidades humanas, suficientes para as virtudes. Tal conceito, usado por teólogos escolásticos como base para a ética cristã, era visto por Lutero como uma afronta a doutrina da graça.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 27 de julho de 2016

LUTERO: “ARISTÓTELES, AQUELE PALHAÇO!”

Hortus deliciarum
Diante da inquietante questão: “como alcançar a justiça diante de Deus?”, teólogos medievais foram buscar respostas na filosofia de Aristóteles (no habitus aristotélico). A solução encontrada: Deus infunde no fiel um “habitus” (hábito) sobrenatural que exige do indivíduo um esforço por torná-lo efetivo. Desse modo, quanto maior o esforço individual no exercício dos dons divinos, mais merecedor de graça será o fiel.

Isso explica a fórmula católica: "as obras cooperam com a graça". Lutero, grande crítico da teologia escolástica, chama Aristóteles de “aquele palhaço que, com sua máscara negra, enganou a igreja”. Em outro texto: “Aristóteles está para a teologia assim como as trevas estão para a luz” (97 teses contra a escolástica, tese 50). O reformador, como se vê, não tinha papas na língua. 

A imagem acima (hortus deliciarum) retrata a ascensão do cristão até Deus pela “escada das virtudes”. Se o esforço não é suficiente há uma solução: “quem cair pode retomar a escalada graças ao remédio da penitência”. A penitência e os demais sacramentos funcionavam como uma espécie tônico fortificante, capaz de infundir graça e virtude nos fiéis.  Daí a importância da missa: “domingo sem missa, semana sem graça”. Em suma: sem missa não há alegria; sem missa não há recebimento de graça, de virtudes capazes de ajudar o fiel em sua ascensão aos céus.  



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 25 de julho de 2016

SALMO ANATÔMICO (SL 38)

2 Sobre mim abateu-se tua mão,
3 Nada está ileso em minha carne...
Nada há de são em meus ossos...
4 Minhas iniquidades ultrapassam-me a cabeça,
7 Meus rins ardem em febre...
8 Meu coração rosna...
10 a luz dos meus olhos já não habita comigo...
13 como um surdo, não escuto...
17 estou a ponto de cair.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 21 de julho de 2016

RESPONDA HONESTAMENTE

Quando o assunto é o número de armas de fogo por habitante, os EUA são campeões. Em segundo lugar vem o Iêmen, um país mergulhado em tripas e sangue. Se liberarem as armas aqui no Brasil, você acha que ficaremos mais parecidos com os EUA o com o Iêmen?



Jones F. Mendonça

BETÂNIA, PARA ALÉM DO JORDÃO


Cristãos bizantinos acreditam que este é o local onde Jesus foi batizado por João Batista: “Betânia, do outro lado do Jordão, onde João batizava” (Jo 1,28).  Escavações feitas a partir de 1996 descobriram mais de 20 igrejas, cavernas e piscinas batismais que datam do período romano. A área, conhecida como Wadi Kharrar, fica na Jordânia.

Veja mais fotos aqui


Jones F. Mendonça

A HISTÓRIA DEUTERONOMISTA E OS REIS DE ISRAEL

Novo artigo no The Bible and Interpretation: “The Deuteronomistic History and Israel'sKings”, escrito por Alison L. Joseph, do Swarthmore College, Filadélfia: 
A perspectiva do Dtr [historiador deuteronomista: Js-Rs] é clara: o culto israelita deve ser centralizado. Desse modo, ele usa Jeroboão como uma ferramenta literária para construir uma imagem modelo para julgar os reis do norte. Como rivais ao trono de Davi, os reis do norte quase sempre são julgados negativamente: os reis maus são como Jeroboão. O padrão pelo qual eles são medidos tem pouco a ver com o seu comportamento mais abrangente como reis. O Dtr está preocupado com as suas ações a favor e contra o culto centralizado e a fidelidade ao pacto deuteronomista [culto a Javé e fidelidade à Lei]. Apesar do delito de outros reis – o esvaziamento do tesouro do templo (Jeoás, 2 Rs 12,18), a guerra contra o outro reino (Asa, 1 Rs 15,16), e até mesmo a idolatria (Omri, 1 Rs 16, 25-26) - para o Dtr Jeroboão permanece como figura do mal por excelência.

Jones F. Mendonça

IDEOLOGIA

O mesmo sujeito que pede o fim da ideologia na escola, defende o retorno da disciplina "Educação moral e cívica". Ora, o que é um livro de EMC senão ideologia da capa à contracapa?

A coerência tem caminhado aos tropeços.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 20 de julho de 2016

O SERMÃO DO MONTE LUCANO

Bem aventurados são os miseráveis, os famintos, os que choram, os rejeitados, diz o sermão do Monte em Lc 6,20-22. Por outro lado, malditos são os ricos, os saciados, os que se deleitam no riso festivo, os que recebem as mais pomposas honrarias. Como entender o sermão do monte lucano?

Repare que após as bendições surge uma promessa: “no céu será grande a vossa recompensa; pois do mesmo modo seus pais tratavam os profetas” (v. 23). Em suma: são benditos porque sofrem com a injustiça, assim como os antigos profetas. Lucas identifica os oprimidos com os profetas.

Após as maldições uma advertência: “Ai de vós, quando todos vos bendisserem, pois do mesmo modo seus pais tratavam os falsos profetas” (v. 26). Em suma: são malditos porque são honrados como os falsos profetas. Lucas identifica os opressores com os falsos profetas.

Lucas até insere no capítulo 16 uma parábola que serve muito bem como ilustração para o sermão do Monte. Trata-se da parábola do rico e Lázaro. O mendigo é um despossuído (pobre), alguém que deseja comer das migalhas que caem da mesa (está faminto), que sofre em suas úlceras (tem boas razões para chorar) e que é desprezado pelos homens (é um rejeitado).

O rico, por outro lado, veste-se de púrpura e linho fino (é rico), tem diante de si uma mesa repleta de delícias (está saciado), regozija-se em uma vida cheia de requinte (sim, tem boas razões para rir) e goza de respeito entre os homens (é honrado).

O tema do “reverso da moeda”, da “recompensa futura como resultado do sofrimento presente” ou do “salário igual para trabalhos desiguais” aparece nos evangelhos com muita força em diversas parábolas. Quer mostrar que o Reino de Deus não é regido por critérios humanos. Não é Reino onde a honra é alcançada por méritos. É Reino onde o peão, pode virar patrão. A mensagem é tão desconcertante que a maioria dos sermões usa como base o texto de Mateus, que contém um sermão do Monte bem mais ameno. 


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 18 de julho de 2016

O IRMÃO DO FILHO PRÓDIGO

Jacob Steinhardt, 1962
O capítulo 15 de Lucas conta a famosa parábola do filho pródigo. Talvez seja preciso lembrá-lo de que ela é contada para uma dupla plateia: fariseus e pecadores (15,1). O foco da parábola não é a natureza esbanjadora e irresponsável do filho mais novo (um típico pecador).  Tampouco a virtude do mais velho: justo, trabalhador, responsável e obediente (a imagem de um fariseu). Trata, todavia, do ressentimento do mais velho, orgulhoso de suas virtudes, sempre à espera de uma retribuição à altura de suas boas ações: “jamais transgredi teus mandamentos, onde está minha recompensa?” (Lc 15,29). Embora já tivesse tudo (v.31), via-se como um despossuído, como um injustiçado.

A reação do filho mais velho lembra o lamento de Jonas, indignado com o perdão divino concedido aos ninivitas: “Por isso fugi apressadamente para Társis; pois eu sabia que tu és um Deus de piedade e de ternura, lento para a ira, e rico em amor e que se arrepende do mal” (Jn 4,2). Vivem repetindo por aí que Jonas fugiu por medo dos “terríveis ninivitas”. Não era por medo, era por orgulho, por indiferença, por falta de compaixão por aqueles que ele via como inferiores, como “gentalha”. Jonas queria mesmo é que o fogo descesse do céu e consumisse aqueles “pecadores dos infernos” (como Tiago e João em Lc 9,54).

Tanto o livro de Jonas como a parábola do filho pródigo sofreram uma adulteração perversa. Originalmente criticavam a arrogância dos religiosos (judeus exclusivistas do período pós-exílico/fariseus). Mas ambos tiveram suas mensagens convertidas em sermões moralistas. Jonas tornou-se o pregador virtuoso que anuncia a mensagem divina apesar da dureza de seu coração. O filho pródigo geralmente é evocado para destacar o sofrimento experimentado por aqueles que ousam desafiar as regras morais impostas pela religião.

Puseram tudo ao avesso.


Jones F. Mendonça

domingo, 17 de julho de 2016

PLATÃO E A CRIAÇÃO DA BÍBLIA HEBRAICA

Na sequência do seu trabalho de 2006, “Berossus e Genesis” e “Manetho e Êxodo”, Russell E. Gmirkin retoma a sua teoria de que o Pentateuco foi escrito por volta de 270 a.C. usando fontes gregas encontrados na Grande Biblioteca de Alexandria. 

Neste novo trabalho Plato and the Creation of the Hebrew Bible (Routledge, 320 páginas), um número impressionante de paralelos legais são apresentados entre as leis do Pentateuco e as leis atenienses, especificamente com aquelas presentes na obra platônica “Leis” (aprox. 350 a.C.). 



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 14 de julho de 2016

DOS BEIJOS ARDENTES E DA ALEGORIA MEDIEVAL

Ricardo de Saint Victor (†1173) tomou nas mãos o livro bíblico de Cantares, coçou a cabeça e disse assim: 
Neste livro fala-se de beijos, de seios, de faces, de pernas... 
Pensou com seus botões: 
não devemos pensar baixamente das Escrituras. [...] de fato, a letra cobre o espírito assim como a palha cobre o trigo. Cabe ao jumento alimentar-se da palha e ao homem alimentar-se do trigo (Richard of Santi-Victor, Sacred Writtings on Contemplation, p. 27).
Trocando em miúdos: quem lê “beijo ardente” (literalmente) come palha, quem lê “paixão piedosa” (alegoricamente) come trigo.

Sei...


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 11 de julho de 2016

MULHER: DE “PORTÃO DO DIABO” A “SACO DE ESTRUME”

Para Tertuliano, a mulher é o “portão do diabo” e “primeira desertora do direito divino” (Do vestuário feminino, Livro II, IV). Odão de Cluny, no século X, encontrou um adjetivo ainda pior: 
Se os homens vissem o que está debaixo da pele, a imagem das mulheres lhes daria náuseas [...]. Quando nem mesmo suportamos tocar um escarro ou um excremento com a ponta dos dedos, como poderíamos abraçar esse saco de bosta?
Voltemos 1200 anos.  O autor do livro da Sirácida, obra judaica do segundo século a.C., tinha opinião semelhante. Mas Ben Sirac situa o defeito feminino na alma, não nos corpo: “Porque das vestes sai a traça e da mulher, a malícia feminina” (42,13). Sobre os perigos da beleza física feminina ele faz um alerta: “Não te deixes prender pela beleza de uma mulher” (25,21).

Calvino, no século XVI, parece ter se inspirado na Sirácida: “Eis apenas um tipo de beleza [feminina] que me seduz – que ela seja casta, prestimosa, econômica, paciente e que zele pela minha saúde”.

Mas há quem veja o feminismo como um movimento impulsionado por uma causa imaginária.



Jones F. Mendonça

CEMITÉRIO FILISTEU DESCOBERTO EM ASHKELON

Matéria publicada no Haaretz (10/07/16), por  Philippe Bohstrom:

“Um enorme cemitério filisteu de cerca de 3000 anos de idade foi encontrado no porto mediterrâneo de Ashkelon. O modo como os corpos foram enterrados prova, pela primeira vez, que os filisteus vieram da região do Mar Egeu, e que tinham laços muito estreitos com o mundo fenício”.

Leia mais aqui.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 5 de julho de 2016

TERTULIANO E A BELEZA FEMININA

Num sermão do segundo século, Tertuliano tenta convencer as mulheres (chamadas de “portão do diabo”) a não se preocuparem tanto com a beleza física. Ele explica: “seus maridos [cristãos] não são atraídos pelas mesmas graças que os gentios” (Do vestuário feminino, Livro II, IV).

Bobinho...



Jones F. Mendonça

DA POLIGAMIA FEMININA EM AGOSTINHO DE HIPONA

Agostinho de Hipona, no século IV/V, achava – como muitos outros de seu tempo – que o único propósito do casamento é a procriação. Com isso em mente ele explica a tolerância divina para com a poligamia masculina e a rejeição da poligamia feminina no AT (dito com minhas palavras):

O homem que se une a várias mulheres (=vários úteros) pode gerar muitos filhos; a mulher (um único útero) que se une a diversos homens não aumenta sua capacidade de gerar filhos. No primeiro caso: procriação. No segundo caso: apenas prazer sexual, concupiscência (Do casamento e da concupiscência, Livro I, X).

Criativo (e astuto) esse Agostinho...



Jones F. Mendonça

sábado, 2 de julho de 2016

DIABO GENTIL

Você dirá que a imagem tem certo tom cômico e que foi feita por algum artista moderno. Mas ela ilustra a página 48R de um missal francês do século XV: "Tornou o diabo a levá-lo, agora para um monte muito alto” (Mt 4,8).



Veja a imagem em seu contexto aqui.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 29 de junho de 2016

JUDEUS NA FORTALEZA DE HERODES

Após a destruição de Jerusalém, em 70 d.C., um grupo de judeus (sicários com suas famílias), aquartelou-se nesta fortaleza (Massada), na margem ocidental do Mar Morto (ao fundo). Após construírem uma enorme rampa (em destaque), os romanos tomaram a fortaleza e puseram fim à resistência judaica. No sopé da fortaleza ainda há vestígios do acampamento romano.

Clique para ampliar



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 23 de junho de 2016

BÊNÇÃO SACERDOTAL EM AMULETO DE PRATA

Em algum momento entre os séculos VI ou VII a.C. (no tempo do rei Josias) alguém apagou a imagem de uma divindade protetora num amuleto de prata e a substituiu por uma invocação contra o mal usando a seguinte fórmula litúrgica: “‘Yahweh te abençoe e te guarde! Yahweh faça resplandecer o seu rosto sobre ti e te seja benigno!”.

O amuleto foi encontrado em 1979 pelo arqueólogo Gabriel Barklay nas câmaras mortuárias de Ketef Hinnon, a sudeste de Jerusalém. Embora a descoberta não seja capaz de provar que o Pentateuco já estava escrito, demonstra que algumas fórmulas presentes na Bíblia hebraica já circulavam de forma escrita. Antes da descoberta deste amuleto, o mais antigo documento contendo um texto presente na Bíblia era o Papiro de Nash (século I ou II a.C.).


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 16 de junho de 2016

TOBIT: JÓ REDIVIVO

Tobit, homem piedoso e justo, após perder seus bens (1,20), sua saúde (2,10) e ouvir de sua esposa: “de que adiantou tua fidelidade” (2,14), lamenta: “melhor é morrer do que viver” (3,6). Isso não lembra Jó? Tem mais: a fé de Jó é provada por Hassatan (1,6-12; 2,1-7); a fé de Tobit é provada pelo anjo Rafael (12,13).

No final do livro, o Tobit já curado de sua enfermidade exclama: 
Bendito seja Deus! Porque ele me havia punido, e de novo se compadeceu de mim, e agora vejo meu filho Tobias! (11,14b-15).
Este final dispensa comentários. Tobit é quase um Jó redivivo.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 13 de junho de 2016

ARQUEOLOGIA NA LUTHERAN SCHOOL OF THEOLOGY AT CHICAGO

Artefatos arqueológicos do Egito, Síria-Palestina e Mesopotâmia expostos de forma cronológica no site da Lutheran School of Theology at Chicago. Veja aqui.

Na imagem: representação do faraó Sheshonq (século X) ferindo prisioneiros. O faraó é chamado de Sesac no livro de Reis: "No quinto ano do rei Roboão, o rei do Egito, Sesac, atacou Jerusalém (1Rs 14,25).




Jones F. Mendonça

sábado, 11 de junho de 2016

DAS TRADUÇÕES SEM SENTIDO

Sl 74,14 na Almeida Revista e Atualizada: "Tu espedaçaste as cabeças do crocodilo (ro'shey liveiyatan = cabeças do leviatan) e o deste por alimento às alimárias do deserto".

Como assim "cabeças do crocodilo"? Seria um crocodilo cheio de cabeças? É que leviatan não é crocodilo, é isso aí:




Jones F. Mendonça

sexta-feira, 10 de junho de 2016

O COLAPSO NO MEDITERRÂNEO E OS FILISTEUS

Desenho de Emmanuel Rouge feito a partir de um mural no templo
mortuário de Ramsés III

A combinação de uma série de fatores, tais como pragas, terremotos e mudanças climáticas resultou no colapso das civilizações do século XII a.C. que se desenvolveram ao norte e ao leste do Mediterrâneo. Um outro fator foi a invasão dos chamados “povos do mar”, dentre os quais os filisteus, frequentemente citados na Bíblia. No túmulo do faraó Ramsés III foi gravado um dramático registro da chegada dos invasores:  
Os setentrionais em suas ilhas estavam em dificuldade e se moveram em massa, todos ao mesmo tempo. Ninguém resistiu perante eles [...]. A força deles era constituída de filisteus, de Zeker, de Shekelesh, de Danuna e de Weshesh, países que se uniram para pôr a mão no Egito, até o último confim. Os ânimos deles eram de confiança, cheios de projetos (BREASTED, J. H. Ancients records of Egypt, IV 64 = ANET, p. 262).
Mas de onde vieram os filisteus? A teoria mais difundida ligava esse povo às ilhas do mar Egeu. Mas recentes descobertas apontam em outra direção: o sul da Anatólia (atual Turquia). Leia no Haaretz.



Jones F. Mendonça