segunda-feira, 2 de maio de 2016

FÍLON DE ALEXANDRIA E OS SETE DIAS DA CRIAÇÃO

Fílon de Alexandria (25 a.C. – 50 d.C.), judeu helenista, ao explicar que os dias da Criação são simbólicos, usa e abusa de concepções platônicas e pitagóricas. Analogias com o número sete são um tanto curiosas:
Mas a natureza se delicia com o número sete. [...] sete são as secreções [do corpo]: lágrimas, muco do nariz, saliva, líquido seminal, os dois tipos de avacuação [urina e fezes], e o suor que sai de todas as partes do corpo (Interpretação Alegórica I, IV, 8).
O sete, afinal, não é tão delicioso como supõe Fílon.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 29 de abril de 2016

DEUS E O TEMPO EM AGOSTINHO E FÍLON

Geralmente se atribui a Agostinho (354-430 d.C.) a ideia de que o tempo só passou a existir a partir da Criação. Assim, não faria sentido perguntar pelo que Deus fazia ANTES de criar o mundo. Mas o judeu Fílon de Alexandria (Interpretação alegórica I, I, 2) já dizia isso no início do primeiro século. Veja: 
É preciso confessar que o tempo é uma coisa posterior ao mundo. Por isso, seria dito corretamente que o mundo não foi criado no tempo, mas esse tempo teve a sua existência em consequência do mundo.
Leia "Interpretação alegórica I", de Fílon, aqui:



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 15 de abril de 2016

ECBÁTANA NOS MONTES ZAGROS


Incrustada nos montes Zagros (Irã, antiga Pérsia) está Hamadan (antiga Ecbátana), citada no livro bíblico de Esd 6,2:
O rei Dario mandou então fazer uma pesquisa nos arquivos da Babilônia, onde se guardavam os tesouros. Encontrou-se um rolo na cidadela de Ecbatana, na província da Média.
Veja no Google Maps.



Jones F. Mendonça

A BÍBLIA E OS ÓSTRACOS DE ARAD

Questão discutida entre acadêmicos: os livros mais antigos do Antigo Testamento foram redigidos antes ou depois da destruição de Judá e sua capital Jerusalém pelos babilônios em 586 a.C.?

Aos interessados no assunto, sugiro esta matéria publicada no Haaretz (segue trecho):
Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Tel Aviv diz ter provas de que antiga Judá teve uma alta taxa de alfabetização e um sistema educacional sofisticado, tornando possível a redação do mais antigo núcleo da Bíblia no período do Primeiro Templo.
Leia mais aqui.

Uma opinião mais cautelosa (do prof. Rollston), aqui.

Jones F. Mendonça

O "PORTÃO DOS INFERNOS" AINDA ESTÁ DE PÉ (AINDA BEM)

Vários jornais estão anunciando a destruição de um dos 15 portões da antiga Nínive (moderna Mossul) pelo estado Islâmico: o portão de Mashqi. Mas as fotos mostram, de forma equivocada, o magnífico portão de Nergal, deus dos infernos, guardado por um imponente Lamassu. É o "copia e cola" do jornalismo...

Veja os 15 portões de Nínive aqui:



Jones F. Mendonça

MOISÉS COM CHIFRES NO TEXTO E NA ARTE

“A morte de Moisés”, por Alexandre Cabane (1850), como retratando em Ex 34,29. Repare que Moisés aparece com cornos, com chifres de luz.

Ex 34,29, traduzido de forma literal, diz: “E Moisés não sabia que ‘tinha chifres’ [hebraico = qaran] a pele de seu rosto” (umoshé lo-yada ki karan or panav). Jerônimo traduziu o texto para o latim assim: “cornuta esset facies sua”. Isso explica o Moisés chifrudo retratado pelos artistas renascentistas.

Mas será que Moisés foi realmente retratado com chifres no texto bíblico? No hebraico qeren – substantivo da mesma raiz verbal qaran (QRN) - é empregado com sentido “poder”, “força”, como em 1Sm 2,1: “o meu chifre [=qeren] se exalta em meu Deus”, ou seja, “meu poder se exalta em meu Deus”. Ou ainda no Sl 132,17: “em Ali farei brotar um chifre [=qeren; força, descendência] para Davi.

Infelizmente a forma verbal “qaran” só aparece em Ex 34, dificultando a tradução. Há quem pense que a imagem dos chifres evoque raios de luz. Talvez indique de seu rosto saia poder. Uma última hipótese, mais polêmica, sugere que Moisés realmente é retratado no texto com chifres, tal como Baal, por exemplo. Será?

Curioso é que em 34,33 Moisés cobre o rosto com um “masveh”, termo traduzido por “véu”, sugerindo que a ideia era impedir que o brilho de seu rosto ofuscasse os “filhos de Israel”. Ocorre que a palavra também só aparece neste capítulo. O objeto seria mesmo um véu? Por que Moisés precisava esconder o rosto? O que ele escondia? Chifres? Raios de luz?

Você tem um palpite?



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 7 de abril de 2016

NUMINOSUM NO FACEBOOK

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Jones F. Mendonça

PROCURA-SE SACERDOTE RITUALMENTE PURO

O Instituto do Templo, instituição empenhada em reconstruir o templo de Jerusalém destruído em 70 d.C. pelos romanos, está em busca de homens (judeus) ritualmente puros para exercer o ofício de sacerdote. Ficou animadinho? Bem, se você nasceu num hospital ou visitou um cemitério em algum momento de sua vida, esqueça!

Leia mais aqui.


Jones F. Mendonça

JESUS COM ENXADA EM CÉU DOURADO

Esta tela, de Jacopo di Cione (1365-1398 / 1400), mostra Jesus ressurreto em sua primeira aparição (à Maria Madalena, cf. Jo 20,17). O céu dourado é influência da arte bizantina. Mas por que Jesus é retratado segurando uma enxada?




Leia mais aqui.



Jones F. Mendonça

MATEMÁTICA E ARTE

ARS QUBICA from Cristóbal Vila on Vimeo.

O FUTURO NO FÍGADO ESQUADRINHADO

Modelo de fígado babilônico em argila utilizado para instruir alunos na arte divinatória (1900-1600 a.C.). A prática de consulta do fígado de animais pelos babilônios com o propósito de prever o futuro é mencionada em Ez 21,21:

"Com efeito, o rei da Babilônia se deteve na encruzilhada, no começo dos dois caminhos, a fim de recorrer à sorte. Agitou as flechas, consultou os terafins e observou o fígado".

A imagem em altíssima resolução aqui.  

Mais imagens e informações sobre o artefato no British Museum aqui.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 4 de abril de 2016

EXORCISMO, ORIFÍCIOS E TREPANAÇÃO

Em seus Diálogos, o papa Gregório Magno (século VI) conta a história de uma freira que ficou possuída após comer uma alface em cujas folhas se escondia um demônio (Dial. 1.4.8).

Na Antiguidade (e atualmente entre os melanésios) alguns curandeiros praticavam a trepanação, abrindo orifícios na cabeça do paciente para que os demônios pudessem sair.

Nesta figura, do século XV, você vê São João Boaventura exorcizando uma mulher que expele um demônio pela boca (repare nos olhos “virados” da mulher).



Veja a imagem em seu contexto original na BibliotecaNacional da França (selecione a folha 84r no canto inferior direito).


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 1 de abril de 2016

NOLI ME TANGERE

Você saberia dizer (sem colar!) que cena bíblica é retratada nas obras abaixo? Todas têm o mesmo título latino: "Noli me tangere".



Os autores das obras com suas respectivas datas:

-Caracciolo, 1620
-Bronzino, 1561
-Tiziano 1511-12



Jones F. Mendonça

terça-feira, 29 de março de 2016

A FALHA SIRO-AFRICANA [GEOGRAFIA BÍBLICA]

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A imagem mostra o norte da África (destaque para o Egito) e a costa oriental do Mediterrâneo (Israel/Cisjordânia, Líbano, Síria, Turquia). Repare na grande fenda (a falha siro-africana, a região mais baixa do planeta) que vai do sopé do Hermon ao Mar Vermelho, causada pelo encontro entre duas placas tectônicas, a arábica e a africana.

Do norte para o sul: Monte Hermon, Mar da Galileia, Rio Jordão, Mar Morto e os Golfo de Áqaba (à direita) e de Suez (à esquerda). Entre os dois golfos do Mar Vermelho está o deserto do Sinai (o monte Sinai fica mais ao sul, por isso não aparece na imagem).



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 25 de março de 2016

COELHINHOS NUMA MISSA MEDIEVAL

Coelhinhos [da páscoa?] celebrando uma missa na margem (marginália) de um  manuscrito do século XIV. Dê uma boa expiada no manuscrito visitando esta página da British Library. 



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 24 de março de 2016

JERUSALÉM, POR EDWARD LEAR

Jerusalém otomana observada a partir do Monte das Oliveiras numa das telas de Edward Lear (século XIX). Entre o monte e a cidade, o vale de Cedron: 

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Jones F. Mendonça

ISAÍAS SERRADO AO MEIO

O martírio de Isaías num manuscrito medieval (Espéculo Humanae Salvationis, fl 24r) tal como sugere o livro apócrifo da “Ascensão de Isaías” (5,1):


A tradição da morte do profeta sob o reinado de Manassés parece ter deixado reflexos no livro de Hebreus: “Foram lapidados, foram serrados e morreram assassinados com golpes de espada” (11,37).



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 23 de março de 2016

PURIM, MÁSCARAS E VINHO


Na celebração judaica do Purim (dia 12 do mês de adar) é comemorada a salvação dos judeus persas das mãos de Hamã, tal como relatada no livro bíblico de Ester. Além dos trajes curiosos (como na foto acima), há outros detalhes na festa que chamam a atenção, como esta orientação do Talmude: 
No Purim a pessoa é obrigada a beber (vinho) a ponto de não mais ser capaz de distinguir entre “Maldito seja Hamã” e “abençoado seja Mordecai” (Talmud, Meguilá 7b). 



Jones F. Mendonça

sábado, 19 de março de 2016

OS MANUSCRITOS BÍBLICOS E AS GUERRAS NO ORIENTE MÉDIO

Aquisição volumosa e repentina de manuscritos bíblicos desconhecidos dos estudiosos e do público em geral levanta suspeita de que Museu da Bíblia privado dos EUA, a ser inaugurado em 2017, tenha em seu acervo documentos e artefatos contrabandeados do Oriente Médio. A denúncia vem de Joel Baden, professor de Bíblia hebraica na Yale Divinity School. No texto, ele destaca que: 
A maioria dos colecionadores particulares mantém os detalhes de suas compras em sigilo. A prática existe em parte para proteger os vendedores que podem ter razões pessoais para esconder suas identidades, como a dificuldade financeira. Mas isso também protege o vendedor inescrupuloso.
Leia mais aqui.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 18 de março de 2016

JERUSALÉM, AL QUDS

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Consegui este ângulo da cúpula da Rocha em alta resolução num jornal árabe (alquds = nome persa para a cidade de Jerusalém).

Em destaque a Cúpula da Rocha, templo muçulmano construído no final do século VII nas ruínas do famoso templo de Herodes.

Ao fundo, no Monte das Oliveiras, uma belíssima igreja ortodoxa russa com cúpulas igualmente douradas. À sua direita (vista do observador) um cemitério judaico.



Jones F. Mendonça

domingo, 13 de março de 2016

SOBRE COISAS INÚTEIS, VÃS E SEM SENTIDO

“Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, diz Qohelet (ou “o pregador”, em Ecl 1,2). Vaidade aí é hevel = sopro, fumaça, névoa, como em Jó 7,16: “minha vida é um sopro (hevel), ou como em Zc 10,2 “os adivinhos oferecem consolações vãs (hevel)”.

Uma vez que a palavra “vaidade” (=natureza daquilo que é vão, inútil) tem, nos dias de hoje, sentido bastante restrito, geralmente designando alguém que se preocupa demais com sua própria aparência, a tradução clássica “vaidade das vaidades, tudo é vaidade” acaba não reproduzindo bem o sentido do texto hebraico.  

Quem lê o livro com atenção percebe a tônica do seu discurso: “não há nada de novo debaixo do sol” (Ecl 1,9), logo, “tudo, inclusive o que parece novo, inédito, é hevel, névoa”. “Muita sabedoria, muito desgosto” (1,18), por isso “tudo, inclusive a sabedoria, é hevel, neblina”. “Quem ama o dinheiro nunca está farto” (5,10), daí a declaração “tudo, inclusive a riqueza, é apenas fumaça”.

O livro teria tom pessimista e negativo se aconselhasse a abolição da vida, a supressão do prazer ou o desprezo pelo mundo sensível, mas na verdade consiste numa “exaltação da alegria” (8,15; ver ainda 52,24 e 5,18). Embora a vida pareça suspensa sobre o vazio – diria Qohelet - viva-a com todas as tuas forças.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 9 de março de 2016

O REI DAVI COMO EM GAME OF THRONES

Novo seriado produzido pela ABC (“Reis e profetas”) promete contar a história da ascensão do rei Davi ao trono no estilo “Game of Thrones”. O especialista convidado para dar suporte histórico é ninguém menos que Reza Aslan, autor do Best-seller “Zelota, a vida e a época de Jesus de Nazaré”.




Jones F. Mendonça

terça-feira, 8 de março de 2016

OS CABELOS DE MADALENA


Curiosa representação medieval e renascentista de Maria Madalena vestida com seus próprios cabelos. A imagem à esquerda, do final do século XV, ilustra um manuscrito destinado à Rainha Bona da Casa de Sforza, segunda esposa de Sigismundo, o Velho. A imagem à direita é obra de Antonio del Pollaiolo, também do século XV.




Jones F. Mendonça

sábado, 5 de março de 2016

BÍBLIA HEBRAICA PARA KINDLE

“O Kindle não reconhece caracteres hebraicos”, é o que eu ouvia aqui e ali. Fiz algumas buscas no Google e encontrei esta versão gratuita da Bíblia hebraica com sinais massoréticos e um índice pra lá de interativo. 

Embora o texto seja exibido no modo retrato (não é possível, por exemplo, buscar o significado das palavras num dicionário) o e-Book conta com um dicionário hebraico no final. Os interessados devem descarregar o arquivo aqui.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

COMBATE MORTAL EM “A VIDA DOS SANTOS”

Você arriscaria uma interpretação para esta imagem?


Sim, parece um sacerdote fazendo o sinal de “paz e amor” a um lutador do game Mortal Kombat cuspindo uma besta de três cabeças. Será?

É claro que não. A imagem retrata o exorcismo de Leão IX. Repare no báculo e na mitra papal. O sujeito de verde está possuído por um demônio (que dá as caras saindo pela boca) e o papa faz o sinal do Pantocrator, símbolo da onipotência divina, a fim de repreendê-lo. O que parecem sinais indicando a trajetória do possuído é na verdade uma costura feita para emendar a folha rasgada do manuscrito.

A imagem ilustra a página 191r do manuscrito “Vida dos santos”, produzido no século XII. Você poderá folhear suas belas páginas ilustradas aqui


Jones F. Mendonça

sábado, 27 de fevereiro de 2016

JERUSALÉM, O IMPERADOR E A LOJA DE DOCES PALESTINA

Em 130, após visitar Jerusalém com seu amante Antinoo, o imperador Adriano decidiu transforá-la numa clássica cidade romana, erradicando deliberadamente seu caráter judaico. Em 132-135 os judeus se revoltaram sob a liderança de Bar Kokhba, que acabou morto pelas tropas lideradas por Júlio Severo.

Resquício dos edifícios de Adriano podem ser vistos, por exemplo, na loja de doces Zalatimo, que incorpora os restos da porta do Templo de Júpiter e a entrada do fórum principal. Eis uma foto do local:


Você pode visitar o site oficial da tradicional loja de doces Zalatimo aqui.

Veja algumas fotos do interior da loja aqui.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O TERMO “PALESTINA” EM “HISTÓRIAS” DE HERÓDOTO E "ANTIGUIDADES" DE JOSEFO

Para quem acredita nessa história de que o termo “Palestina” é invenção do imperador romano Adriano, em 135 d.C., vale consultar Heródoto: 
Esta parte da Síria, com toda a região que se estende até as fronteiras do Egito, chama-se Palestina (Histórias, VII, 89).
Heródoto, para quem não sabe, viveu no século V a.C.

O que Adriano fez foi mudar o nome de Jerusalém para Aelia Capitolina (=cidade de Aelius, ou seja, cidade de Adriano). O nome não colou. Ainda bem, Jerusalém soa bem melhor.

Até mesmo Josefo (37-100 d.C.), um judeu fariseu, não hesitou em usar a designação mais comum para a região: 

“Abraão, agora removido de Gerar da Palestina, levando Sara junto com ele...” (Antiguidades,I, 12). 
Pessoalmente uso o termo Palestina (ou Siro-Palestina) para designar a costa oriental do Mediterrâneo. Há quem não goste do termo porque parece legitimar a relação dos palestinos (árabes que passaram a ocupar a região após a diáspora judaica) com a terra, como se desde Heródoto eles estivesse lá.  Ora, isso não faz qualquer sentido, afinal os palestinos são chamados assim por causa do antigo nome da região e não o contrário. 


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

ALFABETO HEBRAICO [VOCALIZAÇÃO]

UR DOS SUMÉRIOS, UR DOS CALDEUS

1) Ruínas, às margens do Eufrates, Iraque; 
2) Ilustração (por Balage Balogh) representando a cidade tal como era com base em suas ruínas. Destaque para o Zigurate, dedicado ao deus Nin-Gal e Nannar (deus e deusa associados à lua).





Jones F. Mendonça