quinta-feira, 24 de julho de 2014

PARA ULTRA-ORTODOXOS JAVÉ AINDA É O SENHOR DA GUERRA (MAS NÃO DO DINHEIRO)

Shalon Cohem, líder do Shas, um partido religioso de Israel, disse que o país não precisa de um exército para protegê-los, afinal “É Deus todo-poderoso que luta por Israel”. Uri Regev, o diretor-geral da Hiddush - organização que defende a liberdade religiosa e a igualdade -, não perdeu tempo: 
Se o país não precisa de um exército, então não há dúvida de que as yeshivas (escolas religiosas) e estudantes da Torá não precisam de auxílio financeiro [...]. A partir de agora eles podem colocar a sua fé no Senhor quando se trata de pedir dinheiro para financiar os seus sistemas de ensino. Vamos ajudar os ultra-ortodoxos a fazer fervorosas orações para que o dinheiro comece a crescer em árvores.

Falou o que não devia, ouviu o que não desejava.

Leia no The Jerusalem Post (link já traduzido pelo Google):  



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 23 de julho de 2014

A PALESTINA NUNCA EXISTIU?

Não dá para compreender os conflitos que atualmente assolam o Oriente Médio  sem conhecer a história da ascensão e queda do Império Otomano e a divisão de parte de seu território entre a Grã-Bretanha, a Itália e a França. Ao contrário dos judeus vindos da Europa, acostumados com a noção de Estado-Nação, os habitantes árabes da Palestina (até o final da Primeira Guerra Mundial) viviam em vilas ou cidades multi-religiosas e sem fronteiras pertencentes ao Império Otomano. O fato de não possuírem (como os judeus que migraram para a Palestina) a noção que o mundo moderno tem de "Estado nacional" implica na negação da existência do povo palestino? 

Uma excelente explanação a respeito do tema pode ser lida no Blog de Guga Chacra


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 18 de julho de 2014

AS CARTAS DE AMARNA, OS REIS CANANEUS E A FORMAÇÃO DE ISRAEL

Em 1887, cerca de 350 tabuletas de argila foram encontrados em el Amarna, capital do faraó Akhenaton. Elas foram escritas em caracteres cuneiformes na linguagem diplomática, o acadiano. A maior parte dessas correspondências foi datada para os reinados de Amenhotep III (1402-1364) e Akhenaton (Amenhotep IV, 1350-1334). Atualmente encontram-se expostas em museus europeus (200 em Berlim, 80 no Museu Britânico e vinte em Oxford). 

Esses documentos refletem a ativa correspondência entre a administração egípcia e seus representantes em Canaã e Amurru. Também revelam o estado das relações internacionais entre o Egito e as grandes potências do Oriente Médio (Babilônia, Mitani e Assíria) e os países menores, como Arzawa no oeste da Anatólia. 

Um dos problemas enfrentados pelos reis cananeus no final do século XIV a.C. era a ameaça que vinha dos ‘apiru (pessoas de origem variada, fora da ordem social - os hebreus?), como atesta este carta escrita pelo rei Abdu-Heba, de Jerusalém: 
Os ‘apiru saqueiam os territórios do rei. Se houver arqueiros [aqui] este ano, todos os territórios do rei permanecerão [intactos]; mas se não houver arqueiros, os territórios do rei, meu Senhor, estarão perdidos! 

Uma excelente obra que relaciona as cartas de Amarna ao contexto político, social e econômico de Canaã no Bronze Recente, pode ser encontrada em “Para além da Bíblia”, de Mario Liverani (aqui, aqui e aqui). As cartas de Amarna estão disponíveis (em inglês), neste site.


Jones F. Mendonça

APRENDA A LER HIERÓGLIFOS

Lições introdutórias, fontes, exercícios, documentos como a Estela de Metnephah e a história de Sinuhe, aqui


Jones F. Mendonça

A GUERRA EM GAZA FOI UMA ESCOLHA DE ISRAEL E DO OCIDENTE

Resumo da análise de Nathan Thrall, do Instituto Crisis Group, publicada no New York Times (17/07/2014):

Diante do enfraquecimento da aliança do Hamas com a Síria e o Irã; do fim do apoio da irmandade muçulmana que governava o Egito (caiu após um golpe em julho de 2013) e o consequente fechamento dos túneis que abasteciam Gaza com suprimentos e armas, o Hamas se viu cada vez mais isolado, passando a ser alvo de protestos populares em Gaza. A alternativa encontrada pela liderança do grupo foi abrir mão do controle oficial do território, daí a aliança entre o grupo islâmico e a OLP. No intuito de minar o acordo, Israel suspendeu o salário de 43 mil funcionários públicos que trabalhavam para o governo do Hamas em Gaza. O Hamas, encurralado e sem nada a perder, buscou através da violência o que não foi possível pela via política. Ele conclui: 
The current escalation in Gaza is a direct result of the choice by Israel and the West to obstruct the implementation of the April 2014 Palestinian reconciliation agreement.



Jones F. Mendonça

sábado, 12 de julho de 2014

CRUZADAS INACABADAS

Desde que os EUA invadiram o Iraque, em 2003, o número de cristãos no país tem diminuído. Antes da intervenção militar: um milhão e meio de cristãos. Depois da intervenção: menos de quatrocentos mil. Lembro-me bem, em 2003 muitos cristãos aplaudiram a ação militar argumentando que com a queda de Saddan Russein as barreiras de impedimento para o trabalho missionário dos cristãos cairiam.  George Bush convenceu a todos de que se tratava de uma guerra entre o “bem” e o “mal”. Ingênuos...

Leia a respeito da situação dos cristãos no Iraque News:


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 11 de julho de 2014

MAGIA E ADIVINHAÇÃO NA ANTIGA PALESTINA E SÍRIA

Quem lê com atenção a Bíblia hebraica percebe que as antigas tradições de Israel, após ganharem a forma escrita, passaram por um processo redacional contínuo ao longo dos séculos.  Os textos, retocados e moldados de acordo com a teologia da época, deixaram “impressões digitais” que podem ser percebidas por quem conhece o hebraico e os antigos costumes dos povos que viviam no território ocupado pelos israelitas e em seu entorno.

No caso específico da profecia é possível notar resquícios de antigas práticas mágicas e divinatórias do Oriente Próximo. São diversos os exemplos, tais como a taça de adivinhação de José (Gn 44,5); o carvalho dos adivinhadores (Jz 9,37); a adivinhação com flechas (2Rs 14,13-20 e Ez 21,21); o uso dos terafins e do éfode para consultar Javé (Jz 17,5; Os 3,4; 1Sm 23,9); a consulta aos mortos (Is 29,4; 1Sm 6,2) e o êxtase delirante (Nm 11,25; 1Sm 10,5-6; 1Sm 19,24; 1Sm 18,10; 1Rs 18, 26.28-29; 2Rs 3,15).

Em busca de paralelos entre a religião de Israel e a de outros povos que viveram na região encontrei essa magnífica obra: 
JEFERS,Ann. Magic & divination in ancient Palestine & Siria. Leiden: New York:Köln: E. J. Brill, 1996.
Eis uma pequena descrição (como aparece na introdução do livro): 
Magia e adivinhação, como parte de um sistema de ideias, certamente existiu numa fase inicial da história israelita. Não podemos, porém, ignorar o fato de que há muitos vestígios de magia e adivinhação deixados nos textos atuais que não podem ser facilmente explicados pelo uso de obras literárias críticas. [...] De imediato, várias questões se apresentam: O que são magia e adivinhação? Como é que o mundo acadêmico as entendeu? Que método hermenêutico podemos aplicar para lidar com tantas camadas e textos ideológicos?
Boa leitura!



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 10 de julho de 2014

ROBÔ ESCRIBA

O Haaretz (10/07/14) noticiou que um robô escriba criado recentemente na Alemanha é capaz de escrever em um rolo de 80 metros em apenas três meses. Um rabino ou um sofer - um escriba judeu - leva quase um ano para fazer o mesmo trabalho. Mas o texto escrito pelo robô não pode ser usado em uma sinagoga. Quem explica o motivo da rejeição ao robô é o Rabino Reuven Yaacobov: 
Para que a Torá seja santa tem que ser escrita com uma pena de ganso em pergaminho. O processo tem que ser cheio de significado; o escriba precisa fazer orações enquanto está escrevendo.

Entrará no rol das máquinas inúteis...



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 7 de julho de 2014

BOBINHO AO CUBO

Zé Bobinho quer demonstrar que o cristianismo dos primeiros séculos não era sexista. Começa seu texto dizendo que o termo “sexismo” foi cunhado em meados do século XX, logo não poderia haver sexismo nos primeiros séculos. Cita quatro autores defendendo essa tese (três deles são americanos).

Constrói seu texto citando e citando e citando autores diversos. Não transcreve nem analisa textos escritos no período patrístico, mas apenas as opiniões dos “especialistas”: “os Pais da Igreja davam grande valor à mulher”, diz o primeiro.  “As mulheres sempre desempenharam um papel importante na educação cristã”, diz o segundo. Acha que seu trabalho ficou muito bem fundamentado.

É ou não um bobinho ao cubo?



Jones F. Mendonça

PROFETAS E PROFECIAS NO ANTIGO ORIENTE PRÓXIMO

Continuo minha leitura a respeito do profetismo israelita. Os livros que tenho consultado mencionam a existência de "profetas" (apilum ou muhhûm e muhhûtum) nos povos vizinhos de Israel. Leio aqui e ali alguma citação de textos que registram a existência de atividade profética em cidades do Oriente próximo. Fiquei curioso e fiz uma busca no Google. Encontrei este livro: 

NISSINEN, Martti. Prophets and prophecy in the ancient Near East. Atlanta: Society of Bibical Literature, 2003. 

Nas páginas 47 e 48 aparece o relato que descreve um profeta em transe no templo. O conselho divino (Annunitum = Ishtar em seu aspecto guerreiro) deve ser entregue a Zimri-Lim, rei de Mari (fiz uma tradução livre): 

5 In the temple of Annunitum,
three days ago, Šelebum went into
trance and said:
7 “Thus says Annunitum: Zimri-
Lim, you will be tested in a revolt!
Protect yourself! Let your most
favored servants whom you love
surround you, and make them stay
there to protect you! Do not go
around on your own! As regards
the people who would tes[t you]:
those pe[ople] I deli[ver up] into
your hands.”

5 No templo de Annunitum,
há três dias, Šelebum entrou em
transe e disse:
7 "Assim diz Annunitum: Zinri-
Lim, você será testado em uma revolta!
Proteja-se! Mantenha seu servos
mais favorecidos, aqueles que você ama,
ao seu redor, e faça com que fiquem
para protegê-lo! Não saia
por conta própria! Quanto
às pessoas que estão te testando:
eu as entregarei nas tuas mãos".

De modo geral os textos consistem em instruções relativas à cidade, à guerra, à provisão de animais para o sacrifício e observância de ocasiões sacrificiais. O livro (em PDF, em inglês) pode ser encontrado aqui

quarta-feira, 2 de julho de 2014

AS ORIGENS DO PROFETISMO ISRAELITA

Leio a respeito das origens do profetismo israelita. Concentro-me no momento na seguinte obra:

FOHRER, Georg. História da religião de Israel. São Paulo: Edições paulinas, 1982.

O autor apresenta a tese de uma dupla origem do profetismo, produto de diferentes ambientes:
Ambiente nômade (profetismo visionário) – não associado a um templo; acúmulo das funções de sacerdote, mágico e chefe de clã; profecia ligada ao sentido da visão e pronunciamento da profecia em estrutura poética. Origem étnico cultural: beduínos árabes. Ex.: Nm 22-24 (Balaão);

Ambiente de terras cultivadas (extático) – associado a um templo ou cortes reais; relacionado com a vegetação e os cultos de fertilidade; profecia com êxtase. Origem étnico cultural: trácios e frígios da Ásia Menor. Ex.: 1Sm 18,10; 19,24 (Saul).

Fiz uma leitura atenta dos textos. Consultei o texto hebraico quando achei conveniente e tomei algumas pequenas notas.

Profetismo nômade - Balaão, exemplo de Foher para o profetismo nômade visionário, foi contratado por Balaq, rei de Moabe, para amaldiçoar os israelitas. Sua atividade profética de fato envolve visão e se expressa de forma poética. Ele precisa ver o objeto de sua maldição (Nm 23,13); diz que seu pronunciamento depende do que Javé lhe mostrar (Nm 23,3) e profere seu mashal (Nm 23,7) em forma poética (veja Nm 24,17). Balaão, no entanto, parece cair em êxtase (hb. nafal) em Nm 24,4, agindo de acordo com as características do “profetismo de terras cultivadas” (Trata-se de um acréscimo posterior?).

Profetismo de terras cultivadas - Saul, primeiro rei de Israel, é visto “profetizando” numa espécie de êxtase estimulado por instrumentos musicais (ele inclusive se despe diante de Samuel! Cf. 1Sm 19,24)). De fato os fenômenos ocorrem num ambiente diferente (a corte e não os campos de Moabe).  A presença do termo hebraico naba (1Rs 18,29) em passagens que descrevem a ação dos profetas de Baal sugerem um profetismo extático. Durante o ritual os profetas dançam, invocam a Baal em altas vozes e retalham seus corpos com lanças.

Para Fohrer as duas formas de profecia do antigo oriente Médio teriam se fundido, como parece sugerir o texto de 1Sm 9,9:
Antigamente em Israel, indo alguém consultar a Deus, dizia assim: Vinde, vamos ao vidente (roeh – profetismo nômade javista); porque ao profeta (naviy – profetismo institucional existente na Palestina) de hoje, outrora se chamava vidente.

Elias, profeta javista, em sua luta contra os cultos de fertilidade, teria introduzido uma concepção nova a fim preservar a viabilidade do javismo numa nova ordem política sem cair no extremismo de Acab. Javé, antigo deus da tormenta e do furor, teria ganhado contornos mais sutis, agora caracterizado por um governo tranquilo, comparável a uma calmaria depois da tempestade (1Rs 19,11). Javé, e não Baal, era quem fertilizava a terra.

Convencido?



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 25 de junho de 2014

EZEQUIEL, O PIERCING E A NVI

Em Ezequiel 16 Jerusalém é comparada a uma menina recém nascida abandonada pelos pais, mais tarde acolhida, cuidada e embelezada com as mais finas jóias e vestes por Yahweh (ou Yahweh Elohim) até que atingisse a idade adulta. Corrompida por sua fama e formosura, a mulher “derramou-se em prostituições” (16,15), quebrando o pacto feito com Yahweh e despertando sua ira. O processo de transformação do bebê abandonado em uma belíssima mulher é detalhadamente descrito pelo profeta. De acordo com a NVI (Nova Versão Internacional), no verso 12 a mulher recebe “um pendente”, brincos nas orelhas e uma linda coroa na cabeça (NVI): 
dei-lhe um pendente, pus brincos em suas orelhas e uma linda coroa em sua cabeça.

A dúvida que fica é: onde foi colocado esse “pendente”? Uma rápida consulta ao texto hebraico revela que a NVI omitiu a expressão “al-appekh”:


Uma tradução literal ficaria assim:

Dei uma argola/anel/pendente sobre teu nariz...

Os tradutores da NVI parecem ter censurado o piercing da moça (omitiram “sobre teu nariz”). Estranho é que em Gn 24,47 esses mesmos tradutores não ocultaram o local no qual foi posto um pendente em Rebeca: 
“Então coloquei o pendente em seu nariz (hanezem al-appah) e as pulseiras em seus braços”.

A construção do texto é basicamente a mesma, o que muda é a presença do artigo antes de “pendente” (hanezem = “o pendente”) e o sufixo pronominal de 3ª p. sing. fem. anexado à palavra nariz (appah= nariz dela).

A ACF (Almeida Corrigida e Fiel) faz algo igualmente curioso. Em Ez 16,12 traduz “pendente na testa”, mas em Is 3,21 traduz por “joias do nariz” (venizmey haaf – no construto). Mais uma vez as palavras são as mesmas: “pendente/argola/anel” (nezem) e “nariz” (af), o que muda é a forma como o texto foi construído.

Quem entende o que vai pela cabeça desses tradutores?


Jones F. Mendonça

terça-feira, 17 de junho de 2014

JOÃO CRISÓSTOMO E A PITONISA DE DELFOS

Para consultar os deuses, os gregos empregavam um método curioso. Uma sacerdotisa virgem, sentada sobre um tripé colocado acima de uma fenda, era afetada pelos os vapores saídos da rocha. Os gases faziam com que a mulher balbuciasse palavras em estado de transe, que eram interpretadas pelos sacerdotes. Há quem pense que o transe era provocado pelos gazes tóxicos aspirados pela pitonisa. Mas João Crisóstomo (347-407) tinha uma opinião diferente:
A pitonisa era uma mulher que se sentava sobre o tripé de Apolo, mantendo as pernas abertas; em seguida, um sopro maléfico surgia de baixo e, infiltrando-se através de seus órgãos genitais, levava essa mulher ao delírio, e ela com o cabelo desgrenhado dava início ao bacanal espumando pela boca (João Crisóstomo, Homilia XXIX sobre I Coríntios).
Se os gases de fato tiveram algum papel no transe da pitonisa é possível pensar em duas hipóteses: Ou ele era desencadeado pelo sopro vulcânico que atingia os órgãos sexuais da mulher reprimida por longos anos de castidade forçada ou o reprimido era João Crisóstomo, que se concentrou nas pernas abertas da mulher e não no gás inalado por sua boca e  nariz. Estou mais inclinado à segunda hipótese. 

O que a arqueologia pode nos dizer a respeito da pitonisa de Delfos? Leia no The Bible History Daily.  


Jones F. Mendonça

domingo, 15 de junho de 2014

MISOGINIA TERTULIANA II

Pois delinquem contra Ele as que martirizam a cútis com maquiagem, mancham suas bochechas de vermelho, perfilam os olhos de preto. Com efeito, a elas desagrada a obra de Deus; nelas próprias repreendem e refutam o artífice de todas as coisas. Inculpam-se, pois, quando corrigem, quando acrescentam, tomando esses aditamentos do artífice adversário, isto é, do diabo.

Contra a participação feminina nos cultos em De praescriptione  haereticorum, 41.
Estas mulheres heréticas – ousadas que são! Não têm nenhuma modéstia; são audaciosas a ponto de ensinar, travar debates, realizar exorcismos, efetuar curas, e talvez até batizar.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 11 de junho de 2014

PEDRO ABELARDO, O “SIC ET NON” E A TEOLOGIA CRÍTICA

Quem lê o “Sic et non” do teólogo escolástico Pedro Abelardo (1079-1142), tem a nítida noção do equívoco de se atribuir aos teólogos dos séculos XVII e XVIII a introdução da dúvida e do questionamento na reflexão teológica. Influenciado pela filosofia de Aristóteles, Abelardo dá passos significativos em direção ao que mais tarde será chamado de crítica bíblica.

Para solucionar o problema da “aparente contradição nos ditos do santos padres e das Escrituras”, Abelardo apresenta as seguintes soluções: 1) um falso documento foi atribuído de forma equivocada a algum santo (trata-se de um livro apócrifo) ou os copistas cometeram erros; 2) o texto não foi bem compreendido; 3) os erros cometidos pelos santos padres foram corrigidos em textos escritos num período posterior; 4) alguns termos não devem ser interpretados literalmente, pois apenas expressam uma opinião comumente aceita. Abaixo trechos do Sic et non [1]: 
1) Quando nos são apresentadas algumas afirmações dos santos como opostas entre si ou distantes da verdade, convém que examinemos atentamente, para não sermos enganados por falsas atribuições de obras, ou por corrupção do texto. A maior parte dos escritos apócrifos traz o nome de santos como autores, a fim de, com isso, ganhar autoridade; e alguns textos até mesmo da Bíblia foram corrompidos por erro dos copistas (p. 118); 
2) Se, pois, nos escritos dos santos, parece que algo não condiz com a verdade, então é piedoso, conforme a humildade e devido pela caridade [...], que creiamos que esta passagem do texto não foi fielmente interpretada ou foi corrompida, ou nós não a conseguimos compreender (p. 119);
 3) Julgo também que se deve dar não menos atenção ao fato de que os textos tomados dos escritos dos padres podem ser daqueles que por eles foram retratados em outro lugar, tendo sidos corrigidos após terem conhecido a verdade, tal como o fez Santo Agostinho em muitos casos (p. 119); 
4) ...nos Evangelhos constata-se que algumas coisas são ditas mais segundo a opinião dos homens que segundo a objetividade da verdade. Foi o caso, por exemplo, de Maria, mãe do Senhor, quando, segundo o costume e a opinião popular, chamou a José de pai de Cristo (Lc 2,48) (p. 121).

Abelardo finaliza: “se consta, pois, que nem mesmo os profetas e os apóstolos estiveram todos livres do erro [como o Pedro dissimulado em Gálatas], que há de admirar se em tão inúmeros escritos de santos padres haja algumas coisas erradas, devido aos motivos apontados?”.  Mas ao defender a autoridade das Escrituras e dos textos dos primeiros padres expondo explicações para “supostas contradições”, Abelardo põe em relevo questões espinhosas, abrindo precedentes perigosos para a ortodoxia.  

O método de Abelardo para a busca da verdade consiste na confrontação de textos divergentes pelo questionamento (quaestio) e pelo debate e disputa de ideias (disputatio) sob a direção do mestre, a quem cabia a conclusão: 
Depois de colocar estas questões [os pontos de 1 a 4 expostos acima], gostaríamos agora de, como nos propusemos, reunir as sentenças divergentes dos santos padres das quais nos recordamos. Esperamos que estas sentenças, devido às dissonâncias que aparentam ter, suscitem algumas perguntas que provoquem os jovens leitores ao exercício supremo de procurar a verdade, e pela procura os tornem mais sagazes. [...] É que duvidando chegamos à procura, e procurando chegamos à verdade [...] (p. 129).

O retorno às fontes (ad fontes) feito sob a direção de humanistas com Lourenzo Valla e Erasmo de Roterdã e o livre exame e o abandono da alegoria por Lutero, no período da Reforma, dá novo impulso ao surgimento de um método de interpretação bíblica desvinculado da autoridade eclesiástica e cada vez mais comprometido com a razão. Em 1678, com a publicação da História Crítica do Antigo Testamento, por Richard Simon, o uso da inteligência para encontrar o sentido objetivo da Escritura finca definitivamente suas raízes no terreno da pesquisa bíblica. A razão, agora livre das rédeas da ortodoxia, inicia sua impiedosa cavalgada. Mas em pleno século XXI o homem ainda parece preferir a certeza do dogma, que a dúvida suscitada pela razão.   

Nota:
[1] DE BONI, Luis Alberto. Filosofia medieval: textos. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005, pp. 116-129.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 4 de junho de 2014

DE CULTU FEMINARUM: MISOGINIA TERTULIANA

Tertuliano em De cultu feminarum I,1,1-2: 
Não percebeis que sois, cada uma de vós uma Eva? A maldição de Deus contra esse vosso sexo perdura até mesmo em nossos tempos. Culpadas, deveis suportar suas agruras. Sois o portão do diabo; profanastes a árvore fatídica; fostes vós as primeiras a trair a lei de Deus; enternecestes com vossas lisonjas aquele contra quem o diabo não triunfou pela força. Com demasiada facilidade destruístes a imagem de Deus, Adão. Vós é que sois merecedoras da morte, por vossa causa, o Filho de Deus teve de morrer. 
Et Euam te esse nescis? Viuit sententia Dei super sexum istum in hoc saeculo: uiuat et reatus necesse est. Tues diaboli ianua; tu es arboris illius resignatrix; tu es diuinae legis primadesertrix; tu es quae eum suasisti, quem diabolus aggredi non ualuit; tuimaginem Dei, hominem, tam facile elisisti; propter tuum meritum, id est mortem,etiam filius Dei mori habuit.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 3 de junho de 2014

TEOLOGIAS: RETA DOUTRINA, PENTECOSTAL, NEOPENTECOSTAL

A fé, no protestantismo histórico, se expressa no conhecimento da doutrina, daí a expressão “protestantismo de reta doutrina” cunhada por Rubem Alves. Nesse sentido, bom cristão é quem domina com maestria as sagradas letras, quem conhece os artigos de fé, quem defende a sã doutrina contra os “filhos de Satanás”.

No pentecostalismo o bom cristão é aquele que passa pela experiência do Espírito.  O que conta mais não é o saber, mas o experimentar. A letra – gostam de dizer – mata, mas o Espírito vivifica. Só quem passou pela experiência do batismo do/no Espírito detém uma “unção especial”, tem os charismas potencializados. É “crente plus”.

Entre os neopentecostais crente mesmo é quem dá resultado. Pastor ungido é aquele que acrescenta muitas ovelhas ao rebanho. Crente bom é aquele que é fiel no dízimo, que faz faxina no templo sem cobrar, que vota no candidato do bispo. O Deus verdadeiro é aquele que “alarga as fronteiras” dos que depositam seus bens aos pés dos sacerdotes na “sala do tesouro”. 

Resumindo: Protestantismo histórico: creio porque é verdadeiro. Pentecostalismo: creio porque experimentei. Neopentecostalismo: creio porque dá resultado.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 30 de maio de 2014

ETERNO RETORNO

Lá do alto viu Paulo de Tarso atravessando mares e arriscando a vida pelo Crucificado. Conheceu Clemente Romano, Orígenes, Cipriano, Agostinho. Examinou com atenção os textos de Boécio, Anselmo, Erígena, Alberto, chamado “o Magno”. Acompanhou a igreja entusiasmada com a philosophia aristotelico-tomisticaeObservou a atuação dos guardiões da ortodoxia. A queima de hereges, o incêndio de livros, o falso zelo pela castidade, os pecados do clero.

Viu Occam escrever tratados sobre a separação entre o Estado e a Igreja. Riu dos textos sarcásticos de Erasmo contra o papa. Viu Lutero divulgar suas 95 teses contra as indulgências e leu seus textos anunciando a tão sonhada liberdade. Examinou as Institutas, as confissões doutrinárias, o catecismo da Reforma, a guerra religiosa que queimou hereges que não seguiam a cartilha protestante. Lamentou a morte de camponeses, de judeus, de huguenotes, de católicos, de Servetto. Tudo igual.

Viu nascer pietistas e puritanos zelando pela simplicidade e pureza. Batistas e presbiterianos cultivando um espírito democrático. Estava lá, quando Pentecostais, portando o fogo do Espírito, reuniram multidões num gozo celeste. Frequentou cultos neopentecostais, prometendo dinheiro no bolso e carro novo. Acompanhou o crescimento dos “sem igreja”, decepcionados com a institucionalização da fé.

Observou tudo isso sentado em seu trono celeste. Após cerca de dois mil anos viu-se abatido por um profundo tédio. Pediu a São Jerônimo uma folha de papel, uma caneta, e tratou de escrever poemas.  Multiplicou-os com seu poder e lançou-os na terra sob o estrondo de raios e trovões. Mas era tarde demais. Não conseguiam ler poesia. Foram cegados pela ortodoxia. 


Jones F. Mendonça

sábado, 24 de maio de 2014

LETRAS FÚNEBRES

Enfiaram-lhe adentro dos orifícios do corpo pequenos dogmas infalíveis. Belas letras escritas em ouro no elegante idioma dos latinos. As letras sacras foram parar no estômago, entraram na corrente sanguínea, na pele, nos cabelos, no cheiro que exala de seu corpo vil. Converteu-se, enfim, à doutrina ortodoxa. Por fora, um santo. Por dentro, apenas letras fúnebres...



Jones F. Mendonça

SERVETTO E CASTELLIO, CALVINO E O "CONSELHO DOS SANTOS"

Na Europa do século XVI viveu um espanhol errante chamado Miguel. Nome de anjo, fama de diabo, era visto como herege pelos teólogos protestantes de Genebra. Cria que o Pai era um somente. O Filho e o Espírito eram aspectos diversos de uma mesma pessoa. Rejeitava o credo Atanasiano segundo o qual "não devemos confundir as pessoas nem dividir a substância". Para piorar cismou de dizer que a Palestina é uma terra seca, aparentemente contrariando o texto que diz que por aquelas bandas o leite e o mel brotam em abundância. Calvino subiu nas tamancas: “se aparecer por aqui, não permitirei que saia vivo!” O infeliz acabou capturado e conduzido ao Conselho de Genebra, formado por um tipo de gente capaz de tudo para preservar os papas mortos de papel. Que azar dos infernos. 

O nome completo da vítima: Miguel de Servetto. O nome do algoz: Calvino. A data: 1553. O tipo de execução: as chamas. Se alguém levantou a voz contra isso? Sim, Sebastian Castellio, meu herói.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 20 de maio de 2014

O BEIJO

Tendas rubras que se abrem são os lábios.
Balizas de marfim são os dentes.
A língua é tapete.
Tudo é convite.


Jones F. Mendonça

CONTRA O IDEALISMO

Desde Platão os homens pensam que o mundo é fruto das ideias (idealismo). Todos os projetos humanos sairiam de sua cabeça, do “mundo das ideias”. O erro do idealismo: confundir causa com efeito. O remédio proposto por Marx: compreender que as ideias é que são fruto do mundo e não o contrário. Trata-se de um remédio bem amargo, é verdade.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 16 de maio de 2014

PINTANDO EM NUVENS

O sujeito evangélico usa uma frase do católico G. K. Chesteston para defender a ortodoxia. Esquece-se, todavia, que o protestantismo foi considerado uma heresia cristã pela cúria romana no século XVI. Questão: a tese do pensador católico defendendo a ortodoxia também é legítima quando empregada pelos “hereges”? 

Defender a ortodoxia é como pintar em nuvens. Isso porque ortodoxia e heresia são conceitos do tipo gelo de lago no início da primavera, frágeis que só...



Jones F. Mendonça

AS ÁGUAS MORNAS DO COTIDIANO

Da terra o sol parece girar. Da praia o mar parece findar no horizonte. Do olho o ar parece o nada. Remédio para ver melhor: mergulhar mais fundo e remover a rolha. É que as mornas e turvas águas do cotidiano embaçam os olhos. 


Jones F. Mendonça

PANDEMIA, LEGIÃO E CARDUME

Quem tenta interpretar o mundo a partir de seu próprio mundo incorre em grave erro: toma o particular como se fosse o geral. Transforma endemia em pandemia, vê soldado como se fosse legião, sardinha como se fosse cardume. Remédio: observar o mundo de cima. Ah, mas subir dá tanto trabalho...



Jones F. Mendonça