terça-feira, 19 de março de 2019

JUDAS NO SÁBADO DE ALELUIA

Imagem: Wikipedia
O antigo costume cristão de agredir uma representação de Judas no sábado de aleluia (conforme imagem) teve sua contraparte na tradição judaica. A vítima dos insultos, neste caso, era Hamã, inimigo mortal dos judeus no livro bíblico de Ester. Na festa do Purim o oficial persa era atado a uma cruz e queimado. A prática desagradava os cristãos, que viam no costume uma zombaria velada ao Cristo crucificado. O código Teodosiano (408 d.C.) atesta a prática com esta proibição:





Jones F. Mendonça

domingo, 17 de março de 2019

A TÚNICA DE JOSÉ: COLORIDA, ADORNADA OU LONGA?

A Bíblia, na versão João Ferreira de Almeida, apresenta Jacó dando a José uma “túnica de várias cores” (Gn 37,3). Na Bíblia de Jerusalém a túnica não é “colorida”, mas “adornada”. Na NVI a túnica não é colorida nem adornada, mas “longa”. Quem tem razão?

No texto hebraico consta “ketonet passiym”, onde ketonet indica claramente uma “túnica” ou “manto”. Passiym é plural de “pas”, termo que só reaparece em 2 Samuel 13,18-19, qualificando a túnica de Tamar, filha do rei Davi. O texto diz que este tipo de veste era especial, reservado à realeza.

Então não importa tanto se a tradução correta de “passiym” é “colorido” ou “longo” (é impossível dizer com certeza, mas meu palpite é “longo”). Certo mesmo é que sendo a túnica uma vestimenta especial, reservada à realeza, não fica difícil entender a razão do descontentamento dos irmãos de José.

Repare que no sonho que vem em seguida (37,5-11) José aparece dominando seus pais e irmãos. Assim, o manto real recebido no verso 3 parece muito apropriado.

Em tempo: A Septuaginta (versão grega da Bíblia) traduz “passiym” por "poikilos" = algo com aspecto "múltiplo". A palavra grega reaparece em 1Pe 4,10: "despenseiros da MULTIFORME graça de Deus" (1Pe 4,10). Talvez por isso a Bíblia de Jerusalém - seguindo a LXX? - tenha traduzido o termo hebraico por "adornado", ou seja, "dotado de múltiplas formas".

Jones F. Mendonça

quinta-feira, 14 de março de 2019

MOISÉS, ZÍPORA E O PINGOLIM MUTILADO

Ex 4,25 diz que Zípora tomou uma pedra afiada e cortou o prepúcio de seu filho. Na sequência ela lança o prepúcio “aos pés de Moisés” (Almeida Atualizada). Mas na Bíblia NVI Zípora não lança o prepúcio cortado. Ela “toca os pés de Moisés” após a pequena incisão (com que finalidade!?). A Bíblia de Jerusalém apresenta outra versão: Zípora teria “ferido os pés do menino” (uma ação igualmente estranha!). Temos, assim, três versões:

1. Zípora “lança o prepúcio aos pés de Moisés” (Almeida);
2. Zípora corta o prepúcio e “toca os pés de Moisés” (NVI);
3. Zípora “fere os pés do menino” (Bíblia de Jerusalém).

Está confuso? Afinal quem tem razão? Fiz uma tradução bem literal:

“E tomou Tziporah uma tzor (um tipo específico de pedra) e cortou o prepúcio do filho dela. TOCOU os PÉS dele (do menino ou de Moisés?) e disse: certamente marido de sangue és tu!”.

Ocorre que “pés” ser usado, alguns casos, como eufemismo para os órgãos genitais. Minha proposta de tradução:
“E tomou Zípora uma pedra afiada e cortou o prepúcio do seu filho. Tocou o pingolim dele (do menino, que neste momento está ensanguentado) e disse: certamente marido de sangue és tu!”.


Jones F. Mendonça

INSULTO E DEBOCHE NA BÍBLIA HEBRAICA

Estamos no ano 701 a.C. O rei assírio Senaqueribe cerca Jerusalém. A fome e a sede levam o povo ao desespero. Um oficial assírio aproxima-se do aqueduto da cidade e de lá começa a insultar o rei Ezequias, sua corte, seu exército e o povo da cidade. Diz, em bom hebraico e em tom de deboche, que o cerco os obriga a “beber a água dos próprios pés” (2Rs 18,27).

Dificilmente você vai encontrar uma tradução como essa: “beber a água dos próprios pés”. A razão é simples: poucos entenderiam seu significado.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 13 de março de 2019

CHRISTUS VICTOR


Nesta pintura de Michelangelo (Juízo Final, Capela Sistina), Jesus - que aparece sem barba - é retratado com um corpo saradão (não aparece tristinho e franzino como nas telas do Barroco). Note que o ferimento na parte lateral de seu corpo é retratado como um mero arranhão. As marcas dos cravos, nas mãos e nos pés, são praticamente um ponto vermelho.

A imagem inteira, em alta resolução, aqui.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 12 de março de 2019

COMO "ELISABET" CONVERTEU-SE EM "ISABEL"

Embora o nome da mãe de João Batista seja grafado como ISABEL nas Bíblias em português (Lc 1,7), seu nome em grego é ELISABET. Mas por que o nome foi mudado?

Bem, Elisabet é a forma grega do hebraico Elishebá' (esposa de Arão – Ex 6,23 - significa "meu Deus jurou"). O nome é formado a partir da junção de um substantivo próprio, um pronome possessivo e um verbo. Veja:

El="Deus"
i=sufixo pronominal "meu".
Shebá'="jurou"

Por por algum motivo o substantivo "El" (Deus) foi para o final da palavra. Assim, ELishebá’ converteu-se em IshebaEL (aproximando-se foneticamente de Isabel). 

Não tenho a mínima ideia da razão que provocou a mudança na posição do “El” em nosso idioma. O nome aparece grafado corretamente nas versões inglesa e latina:

“And they had no child, because that ELISABETH...”(KJV).
“et non erat illis filius eo quod esset ELISABETH...”(Vulgata).


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 11 de março de 2019

"ÁGAPE" NÃO É "AMOR INCONDICIONAL"

Alguém inventou que o substantivo grego “ágape” e o verbo “agapao” expressam um tipo de amor singular, incondicional. A coisa vem sendo repetida ao longo dos anos de forma sistemática. A verdade é que o termo ganha sentidos diferentes tanto no Novo Testamento quanto na literatura grega secular. Um exemplo do uso do verbo "agapao" com sentido de apego às coisas terrenas aparece em 1Tm 4,10: “pois Demas, amando (agapao) este mundo, abandonou-me e foi para Tessalônica”. Neste verso, “agapao” não expressa nem um amor divino nem um amor incondicional. Cai o mito.



Jones F. Mendonça

O TÚMULO DE EZEQUIEL

A crença tão difundida na existência de uma inimizade milenar entre judeus e muçulmanos não possui fundamento histórico: no início do século XX, um terço da cidade de Bagdá era judaica. A relação conflituosa entre as duas religiões só teve início em 1948, após a criação do Estado de Israel. Uma evidência arqueológica das boas relações entre judeus e muçulmanos antes de 1948 é o túmulo de Ezequiel.

Construído por volta do ano 500 d.C., na pequena cidade iraquiana de Al-Kifl, o túmulo está localizado em um antigo santuário judaico que mais tarde ganhou a companhia de uma mesquita islâmica xiita. Desde então o local se transformou em um centro de peregrinação judaica e islâmica. Ainda hoje é possível ver as inscrições hebraicas pintadas nas paredes do santuário.

A foto mostra judeus orando no túmulo em 1932.


Leia mais aquiaqui: 


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 7 de março de 2019

O LÍBANO, O FOGO E O ALTAR

Isaías 40, em seu capítulo dezesseis, exalta o poder divino com os seguintes versos:

A. O Líbano não bastaria para queimar, 
B. nem a sua fauna para um holocausto.

Você seria capaz de dizer que tipo de imagem o texto está evocando?

Algumas versões, como a NVI, entendendo que o escritor sagrado está se referindo, no primeiro verso, às FLORESTAS DO Líbano e ao fogo DO ALTAR, traduz a linha “A” assim:

A. “Nem as FLORESTAS do Líbano seriam suficientes para o fogo do ALTAR”.

As palavras “florestas” e “altar” não aparecem no texto original, mas estão implícitas. Versões populares costumam dar uma ajudazinha aos leitores pouco familiarizados com a poesia e costumes judaicos.

O texto quer dizer o seguinte: nem toda a flora e fauna do Líbano seriam suficientes para fornecer lenha e carne para um holocausto compatível com a grandeza divina.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 5 de março de 2019

A BÍBLIA E SUAS TRADUÇÕES: "OLAM" NÃO É "ETERNIDADE"

Em Jeremias 25,9, o profeta diz que Judá e Jerusalém serão objetos de escárnio e ruínas “perpétuas” (do hebraico, "olam"). Mas sabemos que a cidade de Jerusalém foi reconstruída! Em 25,12 a Babilônia recebe o mesmo destino: o texto diz que a cidade dos caldeus (Babilônia) se converterá em desolação “eterna” (olam). A explicação é simples: a tradução de “olam” por "eternamente", é equivocada.

"Olam", quando não precedido de preposição, indica que algo tem duração longa ou está distante no tempo, tanto para o futuro como para o passado. Um exemplo: Em Malaquias 3,4 é dito que a oferta de Jerusalém e Judá serão como nos dias “olam”, ou seja, como nos dias "distantes” ou "antigos" (como em Is 64,4).

Talvez você esteja se perguntando a respeito de Eclesiastes 3,11: “Deus colocou a eternidade (olam) no coração do homem...”. A Bíblia de Jerusalém traduz corretamente: “colocou no coração do homem o conjunto de tempo”. Da mesma forma a Bíblia TEB: “o sentido do tempo”. Olam, expressa duração – passado ou futuro – nunca eternidade.



Jones F. Mendonça

sábado, 2 de março de 2019

O CARNAVAL, O JEJUM E A REVOLTA DAS SALSICHAS

O estopim da reforma protestante na Alemanha foi a venda de indulgências. Em Zurique, na Suíça, tudo começou com a violação do jejum que se inicia na quarta-feira de cinzas (Jejum da Quaresma). A data: 09 de março de 1522. Aconteceu assim:

Um grupo de 12 cristãos, hospedados na casa de um impressor, comeu salsichas defumadas oferecidas pelo anfitrião, Christoph Froschauer. Após tomar conhecimento do caso, a Câmara Municipal da cidade decidiu investigar. Os sacerdotes se dividiram: alguns pediam punição severa. Outros, como Zwínglio, saíram em defesa dos rebeldes.

O reformador suíço, muito influente à época, argumentou que a Bíblia nada fala a respeito de um jejum na Quaresma. Ele não parou por aí. Em seguida criticou o celibato clerical e se casou com uma viúva, Ana Reinhart. 

Nunca duvide do poder das salsichas.



Jones F. Mendonça

O CARNAVAL E A QUARESMA

No período de quarenta dias, com início na quarta-feira de cinzas (neste ano: 06/mar) e término no Domingo de Ramos (neste ano: 14/abr), os primeiros cristãos comemoravam a Quaresma. Era um período de reflexão. Faziam jejum e penitência a fim de meditarem a respeito do evento da Paixão. O período de abstinência de carne era longo. Muita gente reclamava.

Com a finalidade de se despedir da carne, o povo fazia uma festa, debochava dos reis, do clero e até da sua miséria. Era uma celebração marcada pelos excessos, afinal no dia seguinte teriam de se abster de carne e fazer penitência. Os festejos ganharam o nome de Carnaval, termo que tem origem na expressão latina usada pelo Papa Gregório, em 590 d.C.: “Carnem levare” (retirar a carne). É provável que a festa tenha se inspirado na saturnália romana.

Com o tempo o Carnaval foi incorporando elementos novos, fenômeno que acontece com diversas festas, como o Natal (árvore, pisca-pisca, panetone...), e a Páscoa (ovo de chocolate, coelho...). Do ponto de vista etimológico, não se trata de uma “festa da carne” (carnalidade), mas da “abolição da carne” (carne de animal). Na prática funciona como válvula de escape para desejos reprimidos.

Uma última curiosidade: a quarta-feira de cinzas tem este nome porque neste dia os fies eram benzidos com as cinzas dos ramos de palmeira utilizados na domingo de Ramos do ano anterior.



Jones F. Mendonça

CARNAVAL E PURIM


O costume de ingerir comida e bebida em excesso na chamada “terça-feira gorda”, funcionava como uma espécie de despedida do consumo de carne por conta do jejum que começava na quarta-feira de cinzas e ia até o Domingo de Ramos (40 dias, como Jesus no deserto). O festejo, ainda vivo com o nome de Carnaval, também deixou marcas no judaísmo.

A festa judaica do Purim ocorre numa data próxima, por isso incorporou elementos do Carnaval celebrado entre cristãos. É sempre bom lembrar: Carnaval não é, em sentido histórico, “festa da carne”, mas “festa da despedida da carne”. A foto mostra judeus ortodoxos lendo seus textos sagrados numa sinagoga ao lado de uma criança fantasiada.


Jones F. Mendonça

PURIM, CARNAVAL E ALEGORIA

Um grupo de judeus, na Idade Média, tentou explicar o costume judaico de usar fantasias no Purim, festa cuja origem está vinculada ao livro bíblico de Ester. O argumento é o seguinte:

Ester ocultou sua identidade judaica do rei Assuero. No livro, o nome de Deus está oculto. Assim, também devemos ocultar nossa identidade no Purim usando fantasias.

Bem, não creio que esse argumento faça algum sentido. Na verdade os judeus passaram a usar fantasias no Purim porque incorporaram costumes cristãos ligados às festividades que antecedem à Quaresma.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

A COR, OS BRAÇOS, OS AFETOS, OS DESAFETOS


Há uma curiosa semelhança entre a tela 1 (Verônica cobre o rosto de Jesus) e a tela 2 (Jesus vira a mesa dos cambistas) no trabalho de Stanley Spencer (1891-1859).No primeiro caso, aceitação; no segundo caso, rejeição.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

ELIAS NO CARMELO E O TROPEÇO DEUTERONOMISTA

O livro do Deuteronômio, em seu capítulo 12, verso 3, determina que após a posse da terra os sacrifícios só deveriam ser feitos no local escolhido por Javé. O local finalmente é escolhido no reinado de Salomão: a cidade de Jerusalém (1 Rs 8,16).

Ora, se a partir da construção do templo por Salomão os sacrifícios precisavam se concentrar unicamente em Jerusalém, como explicar a presença de Elias no monte Carmelo, fazendo um sacrifício a Javé (1 Rs 18,30-32)? Reis como Acaz, Asa, Josafá e Joás foram criticados por descumprirem essa ordenança. Mas Elias não sofre qualquer reprimenda. Não é estranho?

Os rabinos quebraram a cabeça para desvendar este mistério. Mas a abordagem histórico-crítica é a que mais faz sentido. Saiba mais sobre o assunto lendo o artigo “Was Elijah Permitted to Make an Offering on Mount Carmel?”, escrito por David Glatt-Gilad e publicado no TheTorah.com.


Jones F. Mendonça


sábado, 23 de fevereiro de 2019

SATURNÁLIA, CARNAVAL E QUARESMA


No período de quarenta dias, entre a quarta-feira de cinzas (em 2019: 06/mar) e o Domingo de Ramos (em 2019: 14/abr), os primeiros cristãos comemoravam a Quaresma. Era um período de reflexão inspirado no jejum de 40 dias feito por Jesus no deserto. Faziam penitência a fim de meditarem a respeito da Paixão. O período de abstinência de carne era longo. Muita gente reclamava.

Com a finalidade de se despedir da carne, o povo fazia uma festa, debochava dos reis, do clero e até da sua miséria. Era uma celebração marcada pelos excessos, afinal no dia seguinte teriam de se abster de carne e fazer penitência. Os festejos ganharam o nome de Carnaval, termo que tem origem na expressão latina usada pelo Papa Gregório, em 590 d.C.: “Carnem levare” (retirar a carne). É provável que a festa tenha se inspirado na saturnalia romana.

Com o tempo o Carnaval foi incorporando elementos novos, fenômeno que acontece com diversas festas, como o Natal (árvore, pisca-pisca, panetone...), e a Páscoa (ovo de chocolate, coelho...). Do ponto de vista etimológico, não se trata de uma “festa da carne” (carnalidade), mas da “abolição da carne” (carne de animal). Na prática o Carnaval funciona como tempo reservado à diversão. Em alguns casos como válvula de escape para desejos reprimidos.

Uma última curiosidade: a quarta-feira de cinzas tem este nome porque neste dia os fies eram benzidos com as cinzas dos ramos de palmeira utilizados na domingo de Ramos do ano anterior.

Tela: O combate entre o Carnaval e a Quaresma, de Pieter Brueguel, 1559.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

DAS TRADUÇÕES

Para que você tenha ideia do quão complexa é a tarefa de traduzir o Antigo Testamento, saiba que das 8000 palavras hebraicas que compõem o texto - de Gênesis a Malaquias -, 2000 aparecem uma única vez. Como saber o significado desses termos?

Dou um exemplo. Em Is 3,16 as “filhas de Sião” são descritas “caminhando e ‘tafof’”. Mas o que é “tafof”? Sabemos que é um verbo e que é uma provável derivação do substantivo “taf”, que significa “criança”.

Assim, por dedução, os tradutores geralmente traduzem o verbo como sendo uma alusão ao modo como as crianças andam. Veja:

...desfilando com PASSOS CURTOS (NVI)
...caminhando a PASSOS SALTITANTES (Bíblia TEB)

Em alguns casos, o contexto pode nos ajudar a entender o sentido exato do verbo, mas neste exemplo, tanto “passos curtos” como “passos saltitantes” se encaixam no contexto. Aliás, caso tenhamos em mente a imagem de uma criança andando, a expressão "passos ligeiros" também se apresentaria como uma opção viável.



Jones F. Mendonça

CLEMENTE E AS SAIAS ESPARTANAS

Clemente de Alexandria, teólogo do século II, não tendo o que fazer, resolveu definir o tamanho das saias da mulheres. Seu argumento:
Não é conveniente ter o vestido acima dos joelhos, como, segundo dizem, fazem as moças de Esparta. Pois não é decoroso que a mulher descubra determinadas partes de seu corpo (Pedagogo, Livro II, 11).
Tal modo de se vestir - dizia Clemente - poderia despertar elogios embaraçosos, tais como “suas coxas são bonitas”. Para o teólogo o rosto também precisava estar coberto com um véu, mas nunca de cor roxa, tonalidade que na opinião do teólogo “inflama os desejos”. 


Jones F. Mendonça


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

AS PIRIGUETES DE SIÃO

Em Isaías 3,16 o profeta descreve as “filhas de Sião” – símbolo da riqueza e arrogância da corte – como “altivas”, “de pescoço erguido” e “olhares maliciosos”, que “saltitantes”(?) em seu caminho, fazem “tilintar”(?) seus pés. Tal arrogância exige um oráculo de punição, que vem no verso seguinte (v.17). O texto é de difícil tradução:

A. Adonay UNIRÁ o topo da CABEÇA das filhas de Sião, 
B. Javé DESNUDARÁ suas “POTAH” (literalmente: “dobradiças”!?).

Muitas das palavras hebraicas que compõem este texto (marcadas com a interrogação) aparecem uma única vez em todo o Antigo Testamento (são chamadas de hápax legomenon). Isso torna o trabalho do tradutor uma tarefa quase impossível.

No verso B, o termo hebraico “potah”, geralmente traduzido por “vergonha” ou “nudez”, só reaparece em 1Rs 7,50, aparentemente se referindo às dobradiças da porta. Se os tradutores estiverem certos, é a primeira vez que “dobradiça” (o termo é “pot”) aparece como metáfora para as “partes íntimas”.

Em casos como este uma das soluções possíveis é consultar uma tradução do texto hebraico para outro idioma, como o grego, realizada nos II século a.C. por judeus que (em tese) ainda conheciam o significado dessas palavras. Mas nós temos um texto grego, com datação suficientemente antiga? Sim, temos duas versões preservadas em grego datadas para o IV século: o Códice Sinaítico e o Códice Vaticano. 

Bem, vou dar uma olhada na LXX. Se os resultados forem frutíferos, publico outro post.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

QODESH, QADESH/QADESHAH: SOBRE SODOMITAS E PROSTITUIÇÃO CULTUAL

Há, no hebraico, duas palavras muito parecidas: qodesh (Ex 16,23) e qadesh (Gn 38,21; Dt 23,17). A primeira geralmente é traduzida por “santo” e a segunda por “prostituto cultual”. A razão da semelhança entre as palavras é simples: ambas servem para designar uma pessoa que desempenha função considerada sagrada (“separada” do profano).

Mas a expressão “prostituto(a) cultual” como tradução para a palavra qadesh (na forma feminina = “qedeshah”) não me parece adequada. Algumas Bíblias registram um erro grave: associam os termos “qadesh/qedeshah” à “sodomita”, palavra descaradamente inventada. Aliás, o termo “sodomita” deveria ser riscado das Bíblias (tanto no AT como no NT).

Aos interessados no assunto, sugiro duas obras:

L. K. McLure and C. A. Faraone (Eds), Prostitutes and Courtesans in the Ancient World. Madison, Wisconsin: University of Wisconsin Press, 2006.

Stephanie Budin, The Myth of Sacred Prostitution in Antiquity. New York: Cambridge University Press, 2008.


Jones Mendonça

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

M. C. ESCHER E O GÊNESIS


Em 1926 o artista gráfico holandês M. C. Escher pintou esta tela ilustrando a separação das "águas sobre o firmamento" das "águas sob o firmamento" (Gn 1,6-8). Ficou muito bacana. Vai para o meu arquivo de imagens religiosas.


Jones Mendonça

VULTUS TRIFRONS, TRINDADE TRICÉFALA


Nesta iluminura do século XVI, o Pai, o Filho e o Espírito Santo aparecem representados com cabeças iguais (Trindade Tricéfala, ou Vultus Trifrons) tal como na representação trimurti hindu composta por Brahma (criador), Vishnu (mantenedor) e Shiva (destruidor). Este tipo de representação foi condenado pelo teólogo católico Johannes Molanus, no século XVI, e mais tarde pelo papa Urbano VIII, no século XVII [1].

Caso queira dar uma olhada nas belas iluminuras do manuscrito, visite o site da Bibliothèque Nationale de France clicando aqui.

Nota: 
[1] WILLIAMS, David. The function of the Monster in Medieval Thought and Literature, 1999, p. 133.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

GEORGE BUSH, KARL BARTH E OS JUDEUS

Descobri ontem, lendo “Os melhores inimigos”, do historiador francês Jean-Pierre Filiu, que o avô de George W. Bush (aquele que “plantou” as armas de destruição em massa no Iraque), foi pastor presbiteriano e professor de literatura hebraica na Universidade de Nova York. E o mais surpreendente: em 1844 publicou um curioso livro intitulado “The Valley of Vision; or, The Dry Bones of Israel Revived”. Ele era um restauracionista. E a ideologia sionista sequer havia ganhado forma!

A obra defendia o retorno dos judeus à terra de Israel. Bush acreditava que na Terra Santa boa parte dos judeus se converteria ao cristianismo. Até então eu pensava ser Karl Barth o primeiro cristão a elaborar uma teologia positiva em relação aos judeus (“A questão dos judeus e sua resposta cristã”, 1949). Caso você tenha notícia de um teólogo cristão que já no século XIX tenha emitido opiniões ou redigido textos defendendo o retorno dos judeus a Eretz Israel, por favor, informe-me.


Jones F. Mendonça

domingo, 17 de fevereiro de 2019

CHRISTUS PARADOX


Nesta representação da crucificação, do artista russo Viktor Vasnetsov (1848-1926), não há qualquer vestígio de dor, sangue ou violência. Trata-se de um ChristusTriunphans (Cristo Triunfante). Repare que a asa de um anjo cobre (propositalmente?) a chaga aberta do lado direito. Outro detalhe: a face de nenhum dos anjos é exibida com o propósito de destacar o semblante sereno de Cristo, no centro. O trabalho, apesar de belíssimo, é absolutamente incompatível com a imagem de uma crucificação real. A ideia é enfatizar a cruz como símbolo de triunfo.


Jones Mendonça

O "ISAÍAS" DE ALEIJADINHO, POR MARCOS PIFFER


As aulas no STBC foram retomadas na semana passada. Leciono duas disciplinas: 1) Monarquia e Profetas; 2) Poesia e Sabedoria Hebraica. Enquanto fazia busca de imagens de profetas no Google, deparei-me com esta bela foto do profeta Isaías, esculpido em pedra sabão por Aleijadinho. . As expressões do profeta ganharam muita força nas lentes de Marcos Piffer. As nuvens ao fundo, em preto e branco, deram um toque final. 


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

OS PROFETAS NA HISTÓRIA


O livro do profeta Zacarias, com DOZE capítulos, foi classificado como “Profeta Menor”. O livro de Lamentações, com apenas CINCO capítulos, foi classificado como um “Profeta Maior”. Tanto Daniel como Zacarias têm doze capítulos, mas o primeiro recebeu o status de “Profeta Maior” e o segundo de “Profeta Menor”. Não faz sentido.

O responsável por essa divisão aparentemente sem sentido: Agostinho de Hipona (séc. V). Bem, ele até tinha lá suas razões: Na LXX Daniel tem quatorze capítulos e Lamentações é atribuído a Jeremias, um "Profeta Maior". Uma divisão mais útil e didática deveria levar em conta a ordem cronológica dos livros. O quadro acima exige algumas explicações, mas talvez ajude. Nele não aparecem nem Lamentações nem Jonas. A razão: nenhum deles pertence ao gênero profético.



Jones F. Mendonça

OS ASSÍRIOS FORAM O POVO MAIS CRUEL DA ANTIGUIDADE?

Imagem: The British Museum, London. Photo © Osama S. M. Amin
Muita gente compreende a recusa do profeta Jonas em seguir para Nínive a partir da crueldade dos assírios (ele estaria com medo). Nada mais falso: a verdadeira razão aparece em Jn 4,2-3, numa surpreendente confissão do profeta. Aliás, é preciso até mesmo desconfiar da crença tão difundida de que os assírios eram o povo mais cruel da antiguidade.

A fama vem das diversas textos e gravuras preservadas, como esta acima, mostrando soldados de Laquis (cidade vizinha de Jerusalém) sendo esfolados pelas tropas de Senaqueribe, em 701 a.C. Por pouco os generais de Ezequias não tiveram o mesmo destino (veja 2Rs 18,13-14). É possível que os demais povos tenham sido igualmente cruéis, mas não tenham feito tanta propaganda (ou parte dela tenha sido apagada pelo tempo).

Em 521 a.C., enquanto os judeus organizavam os primeiros preparativos para reconstruir sem templo, destruído em 586 a.C. pelos babilônios, Dario, o persa, novo “rei do mundo”, lutava para repelir alguns líderes revoltosos, como Phraortes, na região da Média. O testemunho abaixo, registrado em pedra, revela toda a brutalidade que Dario reservava aos seus adversários:
Phraortes foi levado e trazido até mim. Cortei seu nariz, suas orelhas e sua língua, e apaguei um olho, e ele ficou preso em grilhões na entrada do meu palácio, e todo o povo o contemplou. Então eu o crucifiquei em Ecbatana; e os homens que eram seus principais seguidores, aqueles da fortaleza de Ecbatana, eu esfolava e pendurava suas peles, recheadas de palha (Monumento de Behistun, Irã).
Punições envolvendo o corte do nariz e das orelhas aparecem no livro do profeta Ezequiel (23,25). Os filhos de Sedecias, último rei de Judá, tiveram seus olhos furados (2Rs 25,7). Oseias, último rei em Israel (do Norte), acabou encarcerado e preso com grilhões por Salmanasar, rei da Assíria (2Rs 17,4). Sete filhos de Saul foram entregues aos gabaonitas por Davi para serem mortos (Esquartejados? Enforcados? Empalados?). Não faltam na Bíblia descrições de execuções cruéis.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

O RELEVO DE ANNUBANINI

Sar-e Pol-e Zahab, Relevo de Anubanini
Esta imagem, reprodução de um relevo esculpido em rocha numa região ocupada pelo atual Irã, mostra um rei lullubiano de pé - segurando um arco e um machado - sobre um inimigo derrotado. Diante dele você vê uma divindade feminina (Ishtar?) mantendo dois prisioneiros ajoelhados e imobilizados com cordas e argolas. Abaixo do rei e da divindade aparecem outros seis prisioneiros nus.

A imagem de prisioneiros humilhados, tal como no relevo, aparece num texto do profeta Isaías, que encena de maneira dramática o modo como os egípcios e os cuchitas seriam conduzidos pelos assírios: nus e descalços (Is 20,2-4). 

Datação do relevo: 2000 a.C.
Fonte da imagem: CHENG, Jack. Ancient Near Eastern Art in context, 2007, p.
288.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

SOBRE JÓ, O JUSTO QUE SOFRE

Todos os opositores de Jó (como Sofar) tentam convencê-lo do seguinte: aos ímpios está reservada a dor; aos justos, as bênçãos. A fala de Sofar, em 20,5, revela essa visão de mundo ingênua, incompatível com a realidade:
[Não sabes] que o júbilo dos ímpios é efêmero
e a alegria do malvado só dura um instante?
A intenção de Sofar é convencer Jó de que seu sofrimento é causado por sua impiedade. Mas Jó rejeita qualquer tipo de vínculo direto entre impiedade e sofrimento, pois foi convencido pela experiência de que os ímpios muitas vezes prosperam:
[Os ímpios] cantam ao som dos tamborins e da cítara
e divertem-se ao som da flauta.Sua vida termina na felicidade,
descem em paz à mansão dos mortos" (21, 12-13). 
Ora, se os ímpios podem prosperar – pensa Jó –, então os justos (como ele) também podem sofrer. E assim percebe que são vãs todas as tentativas de explicar sofrimento/gozo; injustiça/justiça como resultado necessário das ações humanas. Ele finaliza com esta inquietante pergunta:
Por que os ímpios continuam a viver,
e ao envelhecer se tornam ainda mais ricos?" (21,7)
Questionamento semelhante foi feito pelo profeta Jeremias, outro personagem que conheceu de perto o gosto amargo da dor e da injustiça:
“Por que prosperam os ímpios e vivem em paz os traidores?” (12,1).
A resposta de Jó e Jeremias ao sofrimento seria mais ou menos assim: “O Todo-Poderoso age na terra por caminhos misteriosos”. E só.


Jones F. Mendonça