segunda-feira, 12 de abril de 2021

SOBRE O "AMOR AO PRÓXIMO" EM LV 19,18

Há uma discussão antiga a respeito da correta tradução do termo hebraico “רע”, geralmente traduzido por “próximo”, em Lv 19,18: “ame o teu próximo como a ti mesmo”. Richard Elliot Friedman e Jacob Milgrom, por exemplo, defendem que a palavra designa tanto o israelita com o estrangeiro. Hector Avalos, em artigo publicado recentemente no The Bible and Interpretation, pensa que ambos estão errados. De acordo com Avalos “apesar da aparente postura acolhedora e pró-imigrante, Lv 19,18 na verdade é parte de uma atitude colonialista e patriarcal para com os estrangeiros encontrada tanto em Levítico como em outras tradições bíblicas”.

Aos interessados, leiam aqui e aqui.



Jones F. Mendonça

SOBRE AS RESTRIÇÕES ALIMENTARES NO LEVÍTICO

Lendo uma coletânea de ensaios publicados em “The Book of Leviticus: composition and reception” (Brill, 2003), editado por Rolf Rendtorff e Robert A. Kukler, acabei conhecendo o trabalho da antropóloga britânica Mary Douglas. No capítulo 3 de “Pureza e perigo” (Perspectiva, 1976), ela reflete sobre “as abominações do Levítico”. Desde o judaísmo rabínico uma série de tentativas foi elaborada para explicar as (estranhas) restrições alimentares presentes no livro: os animais fariam mal à saúde, a proibição visaria impedir que os israelitas acolhessem costumes estrangeiros, etc. Mary Douglas desenvolveu uma tese diferente e inovadora. De forma básica, ela defende que as restrições precisam ser lidas à luz do relato sacerdotal da criação (Gn 1,1-2,4b). Aos que têm interesse no assunto, acho que vale dar uma conferida.



Jones F. Mendonça

domingo, 4 de abril de 2021

CHRISTUS PARADOX: SOBRE REPRESENTAÇÕES DO CRISTO NA CRUZ

1. Na história da arte cristã, o Cristo crucificado foi retratado de duas formas elementares: o Christus Victor (Cristo vitorioso) e o Christus Patiens (Cristo sofredor). O primeiro foi moldado a partir da teologia dos chamados Pais da Igreja, e enfatizava a vitória de Cristo sobre a Cruz, o pecado, a morte e as forças destrutivas do mal. O segundo ganhou força a partir do final da Idade Média, influenciado pela teologia de Anselmo de Cantuária, teólogo do século XI. A ideia era apresentar Cristo como “homem de dores”, exaltando seu corpo flagelado e, portanto, o elevado preço que pagou para resgatar a humanidade do pecado.
 
2. Um exemplo do Christus Victor pode ser visto na tela “Ressurreição”, de Matthias Grünewald, exposta no Museu Unterlinden, França. A tela mostra na extremidade direita um colorido Cristo ressurreto em ascensão acima do túmulo. O esquife está aberto, os guardas desmaiados, a figura de Cristo aparece cercada por um grande halo resplandecente em contraste com a escuridão do céu noturno. Com os braços estendidos mostrando as feridas em suas mãos, Cristo parece esboçar um singelo e sereno sorriso em seu rosto. Uma visão gloriosa.
 
3. Ao lado do Christus Victor, o Christus Patiens fez e ainda faz muito mais sucesso nas representações artísticas e no imaginário religioso cristão. A ênfase, neste caso, recai sobre a dor, as chagas, o sofrimento, a violência sofrida na cruz, um dos mais cruéis e humilhantes instrumentos de execução romana. É um erro pensar que o Cristo sofredor só ganhou destaque na teologia católica. Lutero, no debate de Heidelberg, de 1518, propôs a sua “teologia da cruz”, buscando relacionar os sofrimentos de Cristo aos sofrimentos do cristão. O Cantor Cristão (p. ex. hinos 84 e 94) está repleto de canções que exaltam o sofrimento de Cristo na Cruz.

4. O exemplo mais notável de como a representação de Cristo como homem de dores ainda agrada fiéis pertencentes tanto ao ambiente católico como protestante é o sucesso do filme “A Paixão de Cristo” (Mel Gibson, 2004), obra se propôs a fazer uma reconstrução dramática dos sofrimentos de Jesus, desde a traição, até a crucificação. O principal crítico de cinema do New York Times, Anthony Oliver Scott, chegou a classificar a obra como “paradoxo sadomasoquista”. Para o filósofo, sociólogo, teórico crítico e cientista social esloveno Slavoj Žižek, o filme tem o sabor e as cores de uma obra fundamentalista e deixa de fora elementos de uma experiência cristã genuína.
 
5. Em sua obra “Christus Victor”, publicada em 1951, o teólogo sueco Gustaf Aulen critica a valorização da representação do Cristo sofredor, do “Cristo morto”, promovida por Anselmo, em detrimento da imagem do Cristo vitorioso. Aulen, como Anthony Oliver Scott e Slavoj Žižek, acharia o filme “A Paixão de cristo” um verdadeiro show de horrores (eu também acho). Quem estiver interessado em ler um pouco mais sobre o assunto, sugiro um artigo meu publicado em 2018 na revista UNITAS, publicação semestral eletrônica de acesso livre da Faculdade Unida de Vitória.

Jones F. Mendonça

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

AS TEOLOGIAS “DE CIMA” E AS TEOLOGIAS “DE BAIXO”

1. Por mais de dois mil anos predominou entre os teólogos cristãos – tanto católicos como [mais tarde] protestantes – o método dogmático-dedutivo de fazer teologia. Isso significa que toda reflexão partia do dogma, nascido como desdobramento da interpretação das Escrituras. No centro das reflexões apareciam temas como a Trindade, a eleição, a eucaristia, a soberania divina, etc. É o que se vê, por exemplo, na Suma Teológica de Tomás de Aquino e nas Institutas de Calvino.

2. A partir do século XX alguns teólogos desenvolveram um novo método de fazer teologia. Ao invés de tomar como ponto de partida o dogma, submeteram suas reflexões à exigência de uma teologia contextualizada, que parte de baixo, dos problemas humanos concretos. Na década de 60, por exemplo, os teólogos da libertação passaram a produzir uma teologia preocupada com a situação de indivíduos oprimidos, sobretudo os que viviam nos chamados países do Terceiro Mundo.

3. Assim, passaram a utilizar um método cujo foco não eram mais as formulações dogmáticas inspiradas nas Escrituras, mas ao contrário, a realidade histórica, a experiência concreta, interpretadas à luz das Escrituras não apenas para compreender a realidade, mas para mudá-la. Não veem o humano como uma alma encarcerada num corpo e que precisa ser salva, mas como um corpo que tem fome, frio e sede. E que também – é claro – se angustia com a finitude de sua existência.

 

Jones F. Mendonça

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

O CRISTO, A CRUZ, AS MÃOS


Em "A descida da Cruz", de Jean Jouvenet, quem rouba acena são as mãos: 1. Mãos que descem o corpo da cruz (acima); 2. Mãos que abrem a mortalha (abaixo); 3. Mãos que fazem preces (direita); 4. Mãos que choram (esquerda). 



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

SOBRE O "ÊXODO HISTÓRICO"

Apesar da falta de evidências materiais (e do ceticismo de alguns arqueólogos), Richard Elliott Friedman defende a presença de um núcleo histórico no relato bíblico do Êxodo. Por trás da narrativa, tal como lemos no segundo livro do Pentateuco, um núcleo mais antigo refletiria uma migração de levitas (um grupo pequeno) do Egito para a região do Levante. Isso explicaria:

1. A ausência no nome “Israel” e referências ao Templo na Canção do Mar (a canção seria muito antiga, talvez pré-israelita, preservada por sacerdotes levitas oriundos do Egito);

2. Ausência da tribo de Levi na Canção de Débora (os levitas, nesse tempo, ainda não haviam chegado à terra ou eram apenas um grupo de sacerdotes);

3. Nomes egípcios dados a levitas, como Hophni, Hur, Merari, Mushi, Fineias e Moisés.

4. A tentativa, por parte das fontes atribuídas a sacerdotes levitas (E, P e D), de identificar divindades adoradas pelos patriarcas (sob o epíteto "El") com o recém-chegado YHWH (Cf. Ex 3; 6).

5. Paralelos arquitetônicos entre o Templo/arca da aliança e elementos do culto egípcio (a circuncisão também era praticada no Egito).

6. A ênfase das fontes levíticas E, P e D em ordenarem que não se deve maltratar estrangeiros.

Lei ao texto completo no TheTorah.

 

Jones F. Mendonça

sábado, 2 de janeiro de 2021

JOSÉ COMO CONTO SAPIENCIAL

1. Em seu comentário ao livro de Gênesis (1949), von Rad destacou o “notável parentesco” da história de José com a sabedoria antiga. José é representado na história como uma espécie de manifestação concreta das virtudes exaltadas no livro de Provérbios: é paciente, piedoso, sábio, foge da mulher estrangeira, não retribui o mal com o mal, etc. Seria a história de José um conto sapiencial?

2. Em ensaio publicado em “The Book of Genesis” (Brill, 2012, p. 232-261), Michael V. Fox acolhe parcialmente a tese de von Rad (vê afinidade entre o relato e a tradição sapiencial), mas entende que a história não tinha a finalidade de instruir discípulos nas diversas virtudes da sabedoria. Sua principal intenção seria enfatizar “a desgraça e a reabilitação de um servo”, ensinando que os sábios também estão sujeitos às vicissitudes da vida (cf, Ecl 9,11).


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

JÓ E A TEOLOGIA DA RETRIBUIÇÃO

1. Sofar de Naamat olhou para o Jó moribundo e disse assim: “Não sabes que o júbilo dos ímpios é efêmero e a alegria do malvado só dura um instante?” (20,4-5). E acrescentou, olhando de forma desdenhosa as feridas de Jó: “Esta é a sorte que Deus reservou ao ímpio” (v. 29).

2. Desafiando a teologia da retribuição, segundo a qual o sofrimento só se explica como resultado de alguma falta, Jó respondeu: “Então por que os ímpios continuam a viver, e ao envelhecer se tornam ainda mais ricos?” (21,7).

Jó padecia do corpo, mas não do cérebro.


Jones F. Mendonça

O BEIJO NA BÍBLIA

1. Faço investigações a respeito das demonstrações de afeto no Antigo Testamento, particularmente do beijo. É possível encontrar beijos paternos (Gn 31,55), beijos ardentes (Ct 1,2), beijos de reconciliação entre irmãos (Gn 34,4), beijos de despedida no leito de morte (Gn 50,1), beijos entre sogra e noras (Rt 1,9.14) e até beijos entre homens guerreiros (1Sm 20,41).

2. Em minha pesquisa também procurei saber como as versões traduzem tais textos. Para minha surpresa a Bíblia de Jerusalém troca “nashaq” (beijo, em hebraico) por “abraço” quando Jônatas beija Davi (1Sm 20,41 – além de se beijarem, choram copiosamente) e quando Noemi beija suas noras (Rt 1,9.14). Faz isso certamente para evitar que o leitor veja nos versos qualquer indício de relação homoafetiva.

3. Na epopeia de Gilgamesh, uma das histórias mais antigas da terra, o herói Gilgamesh chora amargamente enquanto se despede de seu inseparável amigo Enkidu, morto por derrotar o touro celeste enviado pela deusa Ishtar. Não seria prudente dizer, de forma precipitada, que Enkidu e Gilgamesh (e Davi e Jônatas) desenvolveram uma relação homoerótica. Ao mesmo tempo não é honesto torcer o texto com finalidade moralizante.

4. Quem estiver interessado em ler a história de Enkidu e Gilgamesh em formato HQ, pode encontrar duas obras muito bem ilustradas: “Cânone Gráfico 1” (autores diversos) e “Os melhores inimigos” (Jean-Pierre Filiu). Aos interessados em uma análise da relação entre Enkidu/Gilgamesh; Davi/Jônatas, sugiro: "When Heroes Love: The Ambiguity of Eros in the Stories of Gilgamesh and David", escrito por Susan Ackerman.


Jones F. Mendonça

APOCALIPSES E ANIMAIS FANTÁSTICOS


1. No livro bíblico de Daniel, capítulo 7 (4-7), quatro impérios opressores aparecem representados por animais fantásticos, bestas cujas aparências mesclam características de animais diferentes: leão alado, leopardo policéfalo, etc. No Apocalipse essas bestas ressurgem com um visual ainda mais estranho e sinistro: “a besta que eu via parecia uma pantera: seus pés, contudo, eram como os de um urso e sua boca como a mandíbula de um leão” (Ap 13,2).

2. Representar forças caóticas ou ameaçadoras como animais fantásticos de aparência híbrida era uma prática muito difundida na Antiguidade. No Egito, por exemplo, uma besta com cabeça de crocodilo, membros anteriores de leão e membros posteriores de hipopótamo era usada para representar Ammit, o devorador de mortos (cf. imagem). Como no livro de Daniel a intenção era realçar a capacidade destrutiva das forças que representavam. 

3. Em contraste às quatro bestas malignas, Daniel apresenta em suas visões noturnas um quinto ser. Este, no entanto, não se parece com uma besta, mas com um “bar enash” (do aramaico “filho do homem”). A expressão reaparece em diversos livros bíblicos do AT (cf. Is 51,12; Jr 51,43; Ez 2,1; etc.) para indicar a humanidade do personagem. No caso de Daniel o propósito é mostrar que o quinto ser é de natureza diferente: tinha aparência humana, não bestial, como os demais. 

4. O domínio deste quinto ser, destaca o texto, não será passageiro nem opressor, mas justo e eterno. A mensagem de Daniel é simples, mas para entendê-la é preciso situá-la corretamente no tempo e no espaço. O Apocalipse releu Daniel e deu novo fôlego às esperanças escatológicas. Reler e ressignificar tradições religiosas é algo que faz parte de qualquer religião. Mas ressignificar não é, como muita gente imagina, uma solução para as leituras fundamentalistas. O fundamentalista também saberá reler... para o mal. 


Jones F. Mendonça

A CAPTURA DE SANÇÃO EM GUERCINO


Repare que nesta tela de Guercino as mãos dão movimento à cena da captura de Sansão, que aparece com os cabelos cortados. Eu contei 12 mãos. A única personagem que não exibe mãos é a moça debruçada sobre a coluna. Quem é ela? Nas representações artísticas da captura de Sansão, Dalila por vezes aparece sendo ajudada por outra mulher. Mas qual das duas é Dalila?


 Jones F. Mendonça

JESUS COMO “NOVO MOISÉS” E “NOVO DAVI”

1. É bem conhecida a presença de elementos da vida de Moisés na narrativa da natividade apresentada por Mateus: ambos se estabelecem provisoriamente no Egito, ambos escapam da morte ordenada por um rei, ambos passam um período no deserto relacionado ao número 40, etc. Mas Lucas também retoma antigos temas tradicionais do AT.

2. O terceiro evangelho está repleto de referências ao livro de Samuel, personagem que prepara o caminho de Davi, o ungido (messias) de Javé. Note que em Lucas, a história de João Batista se relaciona com a de Samuel: os dois pertencem a uma família de levitas, tanto a mãe de Samuel com de João Batista são estéreis; Ana e Isabel entoam um cântico com vários elementos em comum.

3. Mas as semelhanças não param por aí: Davi nasce em Belém e é ungido por Samuel; Jesus nasce em Belém e é batizado por João Batista. Assim, João Batista funciona como um “novo Samuel” e Jesus como um “novo Davi” (ou um “novo Samuel”, compare 1Sm 2,26 com Lc 2,40). Caso você tenha interesse em conhecer mais paralelos entre o relato da natividade e histórias do AT, visite o site da Biblical Archaeology Society clicando aqui.

 

Jones F. Mendonça

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

O "DEDO MÍNIMO" DE ROBOÃO

1. No Primeiro livro bíblico de Reis (12,10), o rei Roboão aparece dando um recado ao povo, que pede um jugo menos pesado. O rei responde assim: “Meu QOTEN é mais grosso que a CINTURA de meu pai!”, ou seja, meu governo vai ser ainda mais rígido que o de meu pai, Salomão.

2. Ocorre que o significado de QOTEN é incerto (só aparece novamente em 2Cr 10,10), mas os tradutores geralmente chutam “dedo mínimo”. É que o substantivo QOTEN possui mesma raiz de QATON, adjetivo que significa “pequeno”, daí imaginaram que a referência seja ao dedo mínimo. 

3. Quer saber? Eu acho que estão errados. 


Jones F. Mendonça

EXEGESE FUNDAMENTALISTA

Debate entre dois cristãos fundamentalistas sobre a posse de armas. Bobinho, a favor, cita as Escrituras: “cada um conservava sua ARMA na mão direita” (Nee 4,23). Depois menciona uma “profecia” sobre a liberação das armas no Brasil: “Eis que vou fazer voltar as ARMAS” (Jr 21,4).

Tontinho não perde tempo e também apanha sua Bíblia. Abre na Carta de Paulo aos Coríntios e contesta Bobinho: “Na verdade, as ARMAS com que combatemos não são carnais (2 Co 10,4). E então cita o Eclesiastes: “Mais vale sabedoria do que ARMAS” (Ecl 9,18).

Parece piada, mas é a partir de leituras assim que muitos debates se desenvolvem no ambiente religioso de matriz fundamentalista. Aqui posso citar dois nomes: Yago Martins e Augustus Nicodemus.

  

Jones F. Mendonça

A NEGRITUDE EM CANTARES

1. A amada, no livro bíblico de Cantares, diz assim: “sou morena, MAS formosa” (1,5). Vale destacar que o “mas” é indicado pela consoante “vav” (uma conjunção), que pode significar “e”, “mas”, “porém”, “então” e até “porque”. Neste caso, a tradução “sou morena E formosa” não estaria errada.

2. Ocorre que no verso seguinte a mesma mulher diz “não olheis que sou morena”. Aqui fica claro que “ser morena” não era uma característica desejável. Essa nova informação sugere que o v. 5 deve de fato ser lido como “sou morena, MAS formosa”. Ela enfatiza que é bela, apesar da tonalidade de sua pele. 

3. Há outra questão no texto. A palavra traduzida por morena é “shahor”. Em Ecl 11,10 (no plural) o termo parece indicar a negritude dos cabelos (de um jovem). Outra palavra de mesma raiz (sharar) parece indicar a pele escura e adoecida de Jó (30,30). Em Ct 5,11 indica a cor de uma ave (um corvo?). 

4. Não é fácil traduzir cores no hebraico. Há quem sugira que a amada tinha pele negra como uma etíope. Mas há um problema com a tese. O v. 6 dá as razões para a pele “enegrecida”: “o sol me queimou” (lit. “o sol me avistou”). E por que o sol a avistou/queimou? Ela explica: “fizeram-me guardar vinhas”. 

5. Em minha opinião “ter a pele escura” (ou seja, bronzeada) era algo mal visto não por uma questão racial, mas por questões sociais. Ela não era negra (sob a perspectiva étnica), mas estava “bronzeada”, “queimada pelo sol”, afinal era “cuidadora de vinhas”. Era alguém – como dizem hoje – “da ralé”. 


Jones F. Mendonça

terça-feira, 10 de novembro de 2020

PROFETAS, IMPÉRIOS E MILÍCIAS

1. Por volta de 705 a.C., com Samaria já conquistada pelos assírios, Judá vive sob enorme pressão. Em Jerusalém Ezequias ensaia a segunda tentativa de se livrar da humilhante relação de vassalagem ao qual seu reino foi submetido no tempo de seu pai, Acaz. O capítulo 7 do profeta Isaías mostra um Acaz pouco confiante na proteção de Javé, deus nacional. Isaías diz: “pede um sinal”. Acaz responde: “não pedirei” (Is 7,11-12). Voltemos a Ezequias.

2. Não havia soluções fáceis para o rei. Os tributos cobrados pela Assíria eram pesados. O povo amargava com altos impostos. Rebelar-se, por outro lado, era coisa bastante arriscada. Uma das soluções mais viáveis era buscar apoio no Egito, grande potência do norte da África. É nesse contexto que o profeta Isaías – contrariado – anda nu descalço, anunciando teatralmente o futuro de seus aliados egípcios: serão levados ao cativeiro assim, peladões (Is 20,4). 

3. Quando Senaqueribe, rei da Assíria, percebeu a rebeldia de Judá, tratou imediatamente de acionar sua poderosa máquina de guerra. O Prisma de Senaqueribe registra os resultados de sua mão pesada: “Sitiei 46 das suas cidades fortificadas [...]. Eu o prendi em Jerusalém, a sua residência real, como um pássaro em uma gaiola”. Isaías diz algo parecido: “Só restou a cidade de Sião como tenda numa vinha, como abrigo numa plantação de melões, como uma cidade sitiada” (Is 1,8). 

4. Os grandes impérios agiam como as milícias do Rio de Janeiro: se você não paga, eles queimam sua Kombi. Ezequias, que não era bobo, certamente não ia querer sua “Kombi” queimada. Então se retrata “Cometi um erro! Retira-te de mim e aceitarei as condições que me impuseres” (2Rs 18,14). A assíria, é claro, não deixou barato. O texto de Reis diz que Ezequias pagou 300 talentos de prata e trinta talentos de ouro. Para pagar a vultosa despesa o rei teve que retirar ouro do templo e de seu palácio. 

5. De Laquis, cidade vizinha de Jerusalém, o rei da Assíria mandou o recado: "Confias no apoio do Egito, esse caniço quebrado..." (2Rs 18,21). O povo, condenado a "beber da própria urina e comer do próprio excremento" durante o cerco (v. 27), ainda teve que ouvir insultos em seu próprio idioma: "Dentre todos os deuses das nações, quais os que livraram sua terra da minha mão?" (V. 35). 



Jones F. Mendonça

INDULGÊNCIAS

1. De modo geral não são mal compreendidas as críticas de Lutero às indulgências. Não é difícil encontrar gente dizendo que o monge agostiniano se impôs contra a “venda de terrenos no céu” ou que criticou uma doutrina católica que dava ao Papa o poder de perdoar pecados. Nada mais falso.

2. De acordo com a doutrina católica, as indulgências tinham o poder de perdoar as penas temporais e não os pecados. Explico. As penas temporais eram uma espécie de reparação pelo pecado exigida pela Igreja. Sempre que um fiel se sentisse arrependido pelo pecado (contrição) ele precisava declarar esse pecado ao padre (confissão auricular), que indicava uma tarefa que visava reparar a falta cometida (penitência). 

3. Ocorre que havia um entendimento de que essas penitências (e não os pecados, só perdoados por Deus) podiam ser apagadas pelo papa por meio das chamadas indulgências. Essa indulgência podia ser dada gratuitamente em uma data especial (chamadas de indulgências plenárias) ou por meio do pagamento em dinheiro. Bem, todos sabemos o que acontece quando o dinheiro monta no cavalo da fé... 

4. A igreja queria reformar a basílica de São Pedro e a grana forte arrecadada com indulgências apontou no horizonte como a melhor solução para transformar a basílica na imponente construção que é hoje. Lutero via tudo isso com desprezo e achava que o Papa não sabia desses abusos. Por conta de insatisfações como essa, o reformador escreveu suas famosas 95 teses contras as indulgências. Os teólogos dominicanos do Vaticano não gostaram. O Papa não gostou. E a gente sabe no que deu essa história. 


Jones F. Mendonça

MALAQUIAS E O DISCO SOLAR ALADO



1. Malaquias 4,2, na versão NVI, diz assim: “o sol da justiça se levantará trazendo cura em suas asas”. É muito tentador pensar que a imagem que se evoca é a do sol alado, símbolo usado por antigas potências, como o Egito, a Assíria, a Babilônia e a Pérsia. Esse tipo de representação era tão comum que aparece até mesmo no selo de Ezequias, encontrado em 2015 em Jerusalém (cf. imagem*). Mas será que o texto está mesmo fazendo alusão ao sol alado? Acho que não.

2. Fiz uma tradução bem literal do texto. Ficou assim: “Resplandecerá para vós, tementes de meu nome, o sol da justiça e a cura na sua ORLA/ASA...” (Mal 4,2). A questão talvez possa ser resolvida aqui: a palavra hebraica “canaph” pode ser traduzida tanto por “asa” como por “orla”. Estou mais inclinado a pensar que a ideia transmitida pelo texto é a de que o “sol da justiça” resplandece e “cura” através de seus raios (que saem de sua orla).  

3. Note que o v.1 ameaça os arrogantes com algo que “queima como um forno”. Diz ainda que eles “queimarão como palha” de forma que não lhes restará nem raiz nem ramo. No v. 2 esse calor, representado pelo “sol da justiça”, não queima os que "temem o seu nome", mas traz cura. E de onde sai essa cura? Ora, de “sua orla”, do calor que emana do disco solar e que alcança a terra. Não seria nenhum escândalo o profeta usar o símbolo solar com asas, mas parece que não é este o caso. 

4. É claro que sempre posso estar errado. 

*No selo vem escrito o seguinte: "Pertencente a Ezequias [filho de] Acaz, rei de Judá". O reino de Judá tornou-se vassalo da Assíria sob Acaz e seu filho Ezequias. 


Jones F. Mendonça

SOBRE PRESSUPOSTOS

“A fé cristã afirma a necessidade de abraçarmos, com todo nosso coração, certos pressupostos, que DETERMINARÃO como interpretamos as Escrituras”[1]. 

Pergunta: de onde vêm os “pressupostos” de Ferreira? Obviamente não podem vir das Escrituras, porque DETERMINAM sua leitura. 

Por trás das peles, dos músculos, dos nervos, das tripas, o que a gente enxerga é a "boa" e velha teologia medieval. 

[1] FERREIRA, Franklin. Curso Vida Nova de teologia básica – Vol 7. São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 20.


Jones F. Mendonça

ANACRONISMOS REFORMADOS

Embora se diga repetidamente que as “cinco solas” (Sola fide, Sola scriptura, Solus Christus, etc.) são os pilares da Reforma, não existe tal formulação assim, tão arrumadinha, entre os reformadores. Kevin Vanhoozer diz que as cinco declarações latinas só ganharam essa disposição no século XX.

Saiba mais:

VANHOOZER, Kevin J. Biblical Authority after: Retrieving the solas in the Spirit of Mere Protestant Christianity: Grand Rapids: Brazo, 2006, p. 26-27.

SOBRE TEOLOGIAS FRÁGEIS

1. Sofar de Naamat olhou para o Jó moribundo e disse assim: “Não sabes que o júbilo dos ímpios é efêmero e a alegria do malvado só dura um instante?” (20,4-5). E acrescentou, olhando de forma desdenhosa as feridas de Jó: “Esta é a sorte que Deus reservou ao ímpio” (v. 29). 

2. Desafiando a teologia da retribuição, segundo a qual o sofrimento só se explica como resultado de alguma falta, Jó respondeu: “Então por que os ímpios continuam a viver, e ao envelhecer se tornam ainda mais ricos?” (21,7). 

3. Jó padecia do corpo, mas não do cérebro. 



Jones F. Mendonça

sábado, 7 de novembro de 2020

WAYNE GRUDEM: "OS BENS SÃO PARA GLORIFICAR A DEUS" (SEI...)

“Tal sistema [o comunismo] é maligno porque permite às pessoas possuir apenas alguns bens e, dessa maneira, as impede de ter a oportunidade de glorificar a Deus pela posse de um bem, de uma casa ou de um negócio” (GRUDEM, Wayne. Negócios para a glória de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 21). 

O trecho “glorificar a Deus pela posse de um bem” e o próprio título do livro: "Negócios para a glória de Deus" foi um pouco demais pra mim... 


Jones F. Mendonça

REBECA NÃO CAI DO CAMELO

1. Investigo a hipótese de que Gn 24,64 descreva Rebeca “caindo do camelo” ao avistar Isaac, homem que lhe havia sido prometido em casamento. Seria aquele tipo de queda causada pela paixão à primeira vista. Será?

2. As versões traduzem o verbo “naphal” por “desceu”, “apeou”, ou “saltou” [do camelo]. De fato o verbo pode ser traduzido por “caiu”, como em Nm 14,32: “vosso cadáver cairá [naphal] neste deserto”. 

3. Mas o sentido primário do verbo não é exatamente “cair”. Uma análise atenta revela que sua função é indicar uma descida súbita [não voluntária ou voluntária]. José, por exemplo, “desce” [com sua cabeça] ao pescoço de Benjamim, para abraçá-lo (Gn 45,14). Uma tradução melhor seria “se lança”. 

4. Eu poderia citar muitos outros exemplos. 2Rs 5,21 expõe um caso muito parecido com Gn 24,64 (Rebeca/Isaac). O texto apresenta Naamã “saltando/se lançando do carro” para encontrar Geazi, que o persegue. Não há qualquer indício, no texto, de que tenha “caído do carro” (2 Rs 5,21). 

5. Minha opinião: na verdade Rebeca não “cai” do camelo (até porque ela se feriria). O texto usa o verbo “naphal” para destacar sua descida súbita. Ela estava ansiosa para conhecer seu pretendente. Assim que tem certeza de que é a pessoa certa, Rebeca coloca o véu (v. 65) e entra com ele numa tenta (v. 67). 

6. Acho que não é preciso dizer o que eles fizeram lá dentro... 


Jones F. Mendonça 

LUTHER KING: LA FUERZA DE AMAR

Leio “La fuerza de amor” (“A força do amor”), obra de Martin Luther King publicada em 1963. O capítulo 12 fala da relação entre comunismo e cristianismo. Apesar de criticar o comunismo por uma série de razões – sobretudo por sua negação a Deus – o pastor batista pontua alguns elementos positivos de sua formulação teórica, que “prevê uma sociedade mundial que transcende as superficialidades de raça, cor, classe e casta”. Em seguida faz uma crítica à igreja de seu tempo:
O colonialismo não teria se perpetuado se a Igreja Cristã o tivesse confrontado diretamente. Um dos defensores do sistema vicioso de apartheid na África do Sul é atualmente a Igreja Reformada Protestante Holandesa [1]. 
[1] KING, Luther. La fuerza de amar. Madrid: Acción Cultural Cristiana, 1999, p. 113. 



Jones F. Mendonça

LUTHER KING E A TEOLOGIA LIBERAL

1. Luther King foi criado num ambiente de tradição fundamentalista. Em certo momento de sua vida despertou de seu “sonolento dogmatismo” após iniciar uma “viagem intelectual estimulante”. Leu obras escritas por teólogos liberais; examinou com atenção a produção teológica da neo-ortodoxia. Foi uma jornada frutífera. Chegou a algumas conclusões.

2. Achou que os teólogos liberais eram demasiadamente otimistas em relação à natureza humana. Ao mesmo tempo percebeu que a neo-ortodoxia apresentava uma percepção excessivamente pessimista dessa mesma natureza (absolutamente decaída). Então teve contato com o trabalho de Kierkegaard e de Nietzsche. Depois leu Jaspers, Heidegger e Sartre. Finalmente acabou tendo contato com Paul Tillich. O pastor batista sorriu. 

3. Hoje Luther King seria chamado por essa galera da “Coalizão pelo Evangelho” (TGC) de “teólogo liberal”, dada sua afinidade com o existencialismo e com a teologia de Paul Tillich. Ainda estão engatinhando no fundamentalismo que sufocava Luther King e que não lhe dava instrumentos para lutar pelas causas que tanto o incomodavam. 

4. Você pode ler a história dessa trajetória intelectual de Luther King em “La fuerza de amar” (Acción Cultural Cristiana, 1999, p. 151-153). 


Jones F. Mendonça 

SOFONIAS E AMÓS: ORÁCULOS INVERTIDOS

Uma das maiores desgraças que poderiam se abater sobre civilizações agrárias do Antigo Mediterrâneo Oriental – como no Antigo Israel – era plantar e não poder colher, construir uma casa e não poder morar nela.

Esse tipo de infortúnio geralmente acontecia nos períodos de guerra, sobretudo quando os inimigos eram potências como o Egito, a Assíria e a Babilônia. Repare que o oráculo de salvação presente em Amós é justamente o inverso do oráculo de juízo de Sofonias. 
Eles construíram casas, mas NÃO as habitarão, 
Plantaram vinhas, mas NÃO beberão do seu vinho” (Sf 1,13). 

RECONSTRUIRÃO as cidades devastadas e as habitarão, 
Plantarão vinhas e BEBERÃO o seu vinho (Am 9,14).
Em Sofonias a imagem aparece como desgraça. Em Amós como salvação. Os profetas eram mestres na arte de expressar concretamente a imagem do terror e da salvação. 



Jones F. Mendonça

BRUXAS, INQUISIÇÃO E MISOGINIA


Quem estiver interessado no modo como as bruxas eram vistas nos séculos XV e XVI pode começar por duas obras: “Malleus Maleficarum” (um manual medieval da Inquisição) e “De la démonomanie des sorciers” (um compêndio antibruxaria). O segundo foi escrito por Jean Bodin (1529-1595), catedrático de Direito Romano na Universidade de Toulouse. Eis uma pequena fala dele: 
Seja qual for o castigo que ordenemos contra as bruxas, assá-las ou cozê-las ao fogo lento não é realmente demais e não tão ruim quanto [...] as agonias eternas que lhes estão preparadas no inferno, porque o fogo aqui não pode demorar muito mais do que ao redor de uma hora até que a bruxa morra (BODIN, Jean. On Demon-mania of witches. Toronto: CRRS publications, 2001, p.173). 
Todo esse ódio certamente não vinha do medo da bruxaria ou da zelosa piedade, mas da misoginia, de certa repulsa pelas mulheres, as maiores vítimas da inquisição. E por trás dessa perseguição certamente havia uma sexualidade muitíssimo reprimida. 



Jones F. Mendonça

terça-feira, 15 de setembro de 2020

INVOLUÇÃO COGNITIVA

1. O ser humano, desde os tempos mais remotos, faz indagações a respeito das origens. A religião sempre se inquietou com essas questões e tentou, a seu modo, explicar as origens dos deuses (como na teogonia de Hesíodo), do mundo (como o Enuma Elish mesopotâmico), da humanidade (como no relato do Gênesis), do mal (teodiceia), etc.

2. Na Antiga Grécia, buscando respostas fundamentadas na razão, os primeiros filósofos dedicaram-se a localizar um princípio originário único capaz de explicar do mundo. A partir dessa nova orientação investigativa nasceu a ciência moderna: a astronomia, a zoologia, a química, a biologia, etc. Mas a sede, a busca incessante pelas origens não parou por aí.

3. O psicólogo canadense Merlin Donald propôs recentemente uma interessante teoria para explicar a origem do sistema cognitivo humano. Ele diz que o desenvolvimento da capacidade de externalização da memória, pela escrita, age diretamente em nosso sistema cognitivo, promovendo uma relação dialética entre cérebro e cultura.

4. Focando nessa “externalização da memória”, podemos pensar em três grandes revoluções dos nossos sistemas culturais para armazenar conhecimento: a) a invenção da escrita; b) da prensa tipográfica, e c) das novas tecnologias digitais. Eis aqui o grande paradoxo.

5. Ao mesmo tempo em que apontam para o avanço do sistema cognitivo humano e grande capacidade de desenvolvimento tecnológico, as tecnologias digitais têm sido usadas para disseminar o terraplanismo, teorias conspiracionistas, ideologias antivacina, fundamentalismos religiosos e obscurantismos científicos.

6. Se a gente não segurar esse pessoal, em breve estaremos de volta à Idade da Pedra.

7. Os pontos 5 e 6 são apenas uma piada.

 

Jones F. Mendonça

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

OS LÁBIOS NA BÍBLIA

1. A palavra hebraica traduzida por “lábio” (safhah) possui campo semântico bastante amplo na Bíblia Hebraica. Seu sentido primário, como parte carnuda que delineia a boca, aparece, por exemplo, em Cantares 4,11: “teus LÁBIOS (saphah) são como o fio de escarlata”.

2. Dependendo do contexto, pode indicar a fala, o idioma: “em toda a terra havia um só LÁBIO” (ou seja, uma só fala, cf. Gn 11,1). "Lábio" também indica linguagem em Gn 11,7: "desçamos e confundamos os lábios deles...". 

3. Em alguns casos "saphah" serve para indicar a margem de um rio: “largou-o no LÁBIO do rio” (ou seja, na linha d’água que margeia o rio, cf. Ex 2,3). O livro de Provérbios classifica certas pessoas como tendo “lábios ardentes” (Pv 26,23). O que seria isso? 

4. Alguns tradutores, sem saber exatamente o que significa “lábio ardente”, traduzem a expressão como “lábios amorosos”. Outros por “lábios amistosos”. E outros ainda por “palavras fingidas”. Bem, pessoalmente estou mais inclinado a pensar que a expressão indica o "caluniador", o "fofoqueiro" ("nirgan", cf. v. 22). 



Jones F. Mendonça

DIVAGAÇÕES

1. Em setembro de 1517 Lutero escrevia as pouco conhecidas 99 teses contra a escolástica. Suas principais críticas dirigiam-se a filosofia de Aristóteles, acolhida pela teologia do final da era medieval como fundamento da doutrina da Igreja. Os escolásticos giravam ao redor de Aristóteles como mariposas hipnotizadas pela luz. O tal do Aristóteles, caso nunca tenha ouvido falar dele, foi um filósofo do século IV a.C. Aliás, um baita de um filósofo. Lutero – debochado que era – tratava-o como “enganador de inteligências”. Duas eram as razões: 

2. A primeira: os teólogos escolásticos usavam a lógica de Aristóteles para expor os dogmas de fé da Igreja. A doutrina da trindade, esbravejava o monge indignado, não pode ser exposta nos termos da lógica. Lutero, neste ponto, era um fideísta, ou seja, via a lógica como uma mosca na sopa da teologia. Mas a implicância de Lutero não se dirigia apenas à lógica de Aristóteles. Sua teologia da depravação total entrava em choque direto com a ética de Aristóteles, tão na moda. Esta é a segunda razão. Explico. 

3. Embora não gostasse de Aristóteles, Lutero tinha muita afinidade com a filosofia de Platão, mestre de Aristóteles (Pois é, a filosofia sempre agiu como uma espécie de chiclete nos sapatos dos teólogos). Bem, Lutero propôs uma visão muito pessimista do ser humano, visto, em seu estado natural, como “cavalo de Satanás”. Os escolásticos, tão criticados por ele, vislumbravam uma antropologia mais otimista. Achavam que essa teologia de depravação total era um exagero, coisa meio mórbida, de mau gosto. 

4. Outro teólogo que não engoliu a filosofia aristotélica foi Nicolau de Cusa. Nicolau achava que a lógica de Aristóteles não subsistia em questões divinas. Não entendeu? Dou um exemplo: de acordo com a lógica de Aristóteles – que a gente ainda usa na escola – duas realidades contrárias não podem coincidir: “dia” não pode ser simultaneamente “noite”. Parece óbvio, não? Mas Nicolau dizia que Deus está cima de qualquer oposição e que, portanto, deve ser tratado como “coincidentia oppositorum” (coincidência dos opostos). Sim, esses caras “viajavam” muito. 

5. Mas doidão mesmo era Calvino. O teólogo tinha grande apreço pela ideia da Providência divina, coisa que, ao que parece, foi tomada dos estoicos, grupo de filósofos que fez muito sucesso no primeiro século (você já deve ter notado até aqui que os teólogos não deixam os filósofos em paz). Calvino dizia, vejam só, que Adão e Eva pecaram porque Deus determinou por sua Providência que pescassem. Ao mesmo tempo insistia em afirmar que eles pecaram por sua própria culpa. É ou não uma teologia muito louca? 



Jones F. Mendonça