sábado, 1 de agosto de 2015

BAIXA CRISTOLOGIA - VÍDEO




Divulguei aqui e postei aqui material sobre o debate com o tema "cristologia", apresentado no STBC em maio de 2015. Como o vídeo do debate finalmente foi postado no YouTube, aproveito para disponibilizá-lo no Blog. 


Com receio de extrapolar os 20 minutos reservados a cada um dos palestrantes, acabei tendo que falar mais rápido do que gostaria, mas não acho que tenha comprometido a clareza. Caso queira assistir aos demais palestrantes, clique no título do vídeo para ser conduzido ao YouTube. 


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 29 de julho de 2015

CONTOS ETIOLÓGICOS NA BÍBLIA: A INIMIZADE MORTÍFERA EM GN 3,15

Ontem fui interrogado por um aluno a respeito do texto de Gn 3,15, o qual transcrevo abaixo em versos, tal como corretamente dispõe a Bíblia de Jerusalém:
Porei hostilidade entre ti e a mulher,
entre tua linhagem e a linhagem dela.
Ela te esmagará a cabeça
e tu lhe ferirás o calcanhar”.
A pergunta do aluno: “ora, se a descendência da mulher é Cristo, quem é a descendência da serpente?”. Bem, a tradição cristã, desde os segundo século (Irineu, em Contra as Heresias III,23,7), interpreta a inimizade entre a mulher e a serpente como anúncio do “fruto do parto de Maria”. Em suma, Jesus seria a descendência da mulher. Mas e quanto à serpente? Faz algum sentido dizer que a linhagem da serpente é o diabo? E por acaso o diabo é descendente da serpente do Éden? 

Lutero, seguindo Irineu de perto, declarou que “Cristo é o descendente dessa mulher que esmagou a cabeça do diabo, isto é, o pecado” (Prefácio do Novo Testamento, de 1522). Para não cair no absurdo de dizer que o diabo pertence à linhagem da serpente, fez uma observação no final da frase: “isto é, o pecado”. Dito de outro modo: Jesus esmagou a “cabeça” do pecado, representado pela figura do diabo, a antiga serpente. É muito malabarismo exegético para meu gosto. 

Faz muito mais sentido pensar no texto como tendo caráter etiológico, visando explicar quatro fenômenos que davam asas à imaginação dos antigos: 
1. O porquê das serpentes rastejarem (3,14), 
2. A “inimizade” entre os humanos e as serpentes (3,15), 
3. O sofrimento das mulheres durante o parto (3,16), 
4. A submissão das mulheres aos maridos (3,16), 
5. A fadiga proveniente do trabalho no solo árido da Palestina (3,17-19).
Um conto etiológico, para quem não sabe, é uma pequena historieta, criada a partir da imaginação popular, com o intuito de explicar fenômenos que suscitam a curiosidade das pessoas, tais como as estranhas colunas de sal dispostas nas margens de um grande lago (a mulher de Ló, cf. Gn 19,26), um enigmático arco colorido que se estende nos céus (um sinal divino como pacto pela não repetição do dilúvio, cf. Gn 9,13), a diversidade de idiomas (a torre de Babel, cf. Gn 11,1-9), a extrema aridez de uma determinada região (fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra, cf. Gn 19,24-25) ou as inusitadas pedras amontoadas num vale (o apedrejamento de Acã, cf. Js 7,26), etc.

Contos etiológicos são comuns em diversas culturas. Você pode ler uma pequena coleção deles na seguinte obra: CAMPBELL, Joseph. As máscaras de Deus, volume I, mitologia primitiva. São Paulo: Palas Athena, 2010. 




Jones F. Mendonça

sexta-feira, 24 de julho de 2015

COANDO MOSQUITOS, ENGOLINDO CAMELOS

Tolice adora compartilhar nas redes sociais suposta frase de Jean Wyllys dizendo que a Bíblia é uma piada e quem crê nela é palhaço. Cita, junto com a frase, texto de Ap 21,8, condenando os incrédulos e mentirosos ao lago ardente de fogo e enxofre. Mas Tolice não se dá conta de duas coisas: 1) Jean Willys nunca disse a tal frase, 2) Se o deputado não disse a frase, Tolice é mentirosa e tropeça no mesmo verso que usa para apontar o erro alheio.

Moral da história: quando nasceu, os pais de Tolice lhe deram o nome errado. Devia se chamar Hipocrisia.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 23 de julho de 2015

ANTINOMIAS CALVINISTAS

A frase foi escrita por Calvino, reformador do século XVI: 
Eu concedo mais: os ladrões e os homicidas, e os demais malfeitores, são instrumentos da divina providência, dos quais o próprio Senhor se utiliza para executar os juízos que ele mesmo determinou. Nego, no entanto, que daí se deva permitir-lhes qualquer escusa por seus maus feitos (As Institutas, Livro I, Capítulo XVII, seção 5).
Há neste pequeno trecho da maior obra de Calvino (As Institutas) uma afirmação e uma negação. A afirmação: “até os malfeitores (como estupradores, por exemplo) agem segundo os juízos determinados por Deus”. A negação: “mesmo sendo instrumentos da divina providência, Deus não deve ser responsabilizado pelos perversos atos humanos”.

Trocando em miúdos: Embora Herodes tenha mandado matar criancinhas porque Deus assim quis, a culpa é apenas de Herodes e de seus capangas. Embora Adão tenha pecado porque Deus assim quis, a culpa pelo pecado é apenas de Adão. 

E tolos são os arminianos...


Jones F. Mendonça


quarta-feira, 22 de julho de 2015

ZÉ BOBINHO, PRAÇA DE 85

Bobinho tem um filho delinquente. Como pensa obtusamente que tudo se resolve na hierarquia e na disciplina, deu um jeito de colocar Delito, seu filho, no quartel. Conversou com o capitão Zureta e tudo certo. Cabelo cortado, barba feita e postura marcial, o filho de Bobinho finalmente encontrou seu lugar: o xadrez.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 20 de julho de 2015

AINDA SOBRE VACAS VERMELHAS PURIFICADORAS

Aos interessados no judaísmo, particularmente no projeto que busca produzir uma vaca vermelha como apresentada em Nm 19,10, capaz de purificar judeus que se contaminaram com um corpo morto e desencadear o apocalipse, vale ler o novo artigo publicado no Haaretz: “The Temple Mount red heifer saga: Engineering the apocalypse?”. O texto, assinado por Elon Gilad, sugere que as tais vacas vermelhas nunca existiram. Quer conhecer as razões apresentadas por Gilad? Abaixo um pequeno trecho: 
Os antigos separavam as cores de forma diferente da civilização moderna. O que hoje vemos como cores distintas, nossos antepassados viam como variações de uma mesma cor. O que chamamos de marrom, os antigos hebreus viam como um tipo de vermelho. Eles ficariam perplexos com nossa insistência em perceber o roxo, vermelho, laranja e marrom como sendo cores diferentes. Para eles todas eram tons variados de vermelho.
 Em suma, a tal vaca vermelha de Nm 19,10 pode ser na verdade uma vaca cuja cor varia entre o ruivo e o marrom. Todo o investimento na fertilização in vitro seria mera perda de tempo. Bem, este é apenas um efeito desastroso da leitura fundamentalista.

O texto, disponível apenas para assinantes e cadastrados, pode ser lido aqui: 


Jones F. Mendonça

domingo, 19 de julho de 2015

O JUDEU, A VACA VERMELHA E O DEFUNTO

De acordo com a lei judaica, todo o judeu que se aproxima de um corpo morto é ritualmente impuro até que seja banhado com água misturada com as cinzas de uma novilha vermelha. Mas a novilha vermelha, tal como exige a lei (Nm 19), não existe, e isso traz muitos problemas, afinal o Monte do Templo, local sagrado para os judeus, é cercado de cemitérios.

Para resolver a questão o Instituto do Templo iniciou uma campanha destinada a financiar um extenso processo de fertilização in vitro capaz de produzir os tais bovinos especiais (os embriões serão importados do Texas e de uma fazenda ao sul de Israel). Se tudo der certo os judeus mais ortodoxos poderão expandir seus passeios em Jerusalém sem medo de passar por perto de algum túmulo. E o mais importante: o Templo finalmente poderá ser reconstruído.

Mas o projeto esbarra num complicado problema. É que a tal novilha vermelha precisa ser abatida por um sacerdote (Cohen) ritualmente puro, condição que só pode ser alcançada pela morte de uma novilha vermelha. Entendeu? Mesmo que consigam produzir a novilha não haverá quem a abata.

Leia a história completa no Haaretz (Trata-se de uma matéria classificada como "premium", então será preciso fazer um cadastro).  Você também pode ler sobre o assunto no J Post




Jones F. Mendonça

quinta-feira, 16 de julho de 2015

TERRA DE ZARATUSTRA: PARA ALÉM DO BEM E DO MAL

Nos últimos anos diversas nações de cultura islâmica entraram em colapso: A Síria é um campo de tripas, cinzas e ferro retorcido. A Líbia, um deserto caótico. O Sudão e o Iêmen estão em convulsão. O Iraque, como país, praticamente não existe mais. Mas o Irã resiste apesar das duras sanções econômicas por conta de seu programa nuclear.  O povo iraniano é instruído, inteligente, criativo e orgulhoso de sua história.  No exterior identificam-se como persas com o peito estufado.

Apesar das dificuldades o Irã mantém um braço no Líbano (o Hezbollah), na Síria (é aliado de Assad), no Iraque (forças iranianas atuam no território contra o ISIS) e no Iêmen (os xiitas houthis). Perguntam-me se Israel e a os sauditas devem temer os iranianos. Minha resposta: claro que devem. Mas não me parece justo atacar o país ou manter as sanções apenas porque é possível que no futuro  revele-se hostil aos vizinhos.

O que Israel e a Arábia Saudita temem não é um ataque nuclear iraniano, caso consigam desenvolver um artefato atômico. O que temem é a perda da hegemonia do Oriente Médio.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 9 de julho de 2015

CONSTANTINO E A ARTE TUMULAR CRISTÃ

Até o início do século IV a arte tumular cristã era caracterizada pela simplicidade. Mas a partir da conversão do imperador Constantino (312 d.C.) e a conseqüente adesão à nova fé por parte da elite da sociedade romana, as mudanças são visíveis. Um exemplo é este sarcófago de Junius Basus (datado para 359 d.C.), membro de uma família senatorial romana convertido ao cristianismo pouco antes de sua morte. Repare que Jesus, sem barba, aparece como legislador (Legis Traditio), representado como na arte imperial romana.  Abaixo as cenas representadas nos nichos: 

Linha superior: 1. Sacrifício de Isaac, 2. Prisão de Pedro , 3. Cristo com Pedro e Paulo (Traditio Legis ), 4 e 5. Dupla cena do julgamento de Jesus perante Pôncio Pilatos, que no último nicho está prestes a lavar as mãos.

Linha inferior: 1. Sofrimento de Jó, 2. Adão e Eva, 3. Entrada de Cristo em Jerusalém , 4. Daniel na cova dos leões e 5. Prisão de Paulo.

Clique para ampliar

quarta-feira, 8 de julho de 2015

PREPARANDO UM MANUSCRITO (CODEX)



Para inserir legendas em português, clique em "legendas" (parte inferior, à esquerda do ícone representado por uma engrenagem), depois em "detalhes" (o ícone é uma pequena engrenagem), escolha a opção "inglês" e finalmente selecione "traduzir" (a opção "português" aparecerá). 

domingo, 5 de julho de 2015

PONDÉ E A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO II

Pondé critica os teólogos da libertação por usarem como princípio hermenêutico a filosofia de Karl Marx. Diz que há incompatibilidade entre as ideias do filósofo alemão e o cristianismo. Mas a apropriação de ideias filosóficas por teólogos da Igreja vem dos primeiros séculos. Com maestria e sofisticação sempre souberam ler seletivamente as obras nas quais se apoiaram.

Alguns teólogos abusaram tanto de Platão e do estoicismo que Tertuliano (séc. II-III) viu-se obrigado a protestar: “que relação há entre Atenas e Jerusalém”. Aristóteles, apesar de conceber o universo como sendo eterno (o que contraria a interpretação tradicional do Gênesis), foi usado como base para a teologia de Aquino em sua Suma Teológica (séc. XIII). Calvino (séc. XVI) tricotou pergaminhos platônicos, como demonstram suas Institutas.

O que Pondé precisa entender é que os teólogos da libertação apenas fazem o que todos sempre fizeram. Eles também aprenderam a ler, interpretar e assimilar seletivamente as obras de Marx como todos os seus antecessores fizeram com outros filósofos (quem leu “Teologia do político e suas mediações”, de Clodovis Boff, sabe disso). É coisa do ofício, não da esquerda religiosa. Mas Pondé tem obsessão pela esquerda. É coisa quase doentia.



Jones F. Mendonça

sábado, 4 de julho de 2015

PONDÉ E A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Numa entrevista publicada em 2011 Luiz Felipe Pondé faz esta declaração dirigindo-se à TdL: “O santo é sempre alguém que, o tempo todo, reconhece o mal em si mesmo. [Mas] O clero da esquerda é movido por um sentimento de pureza. Considera sempre o outro como o porco capitalista, o burguês. Ele próprio não”. Mas o que dizer do discurso do “clero” da direita, como Pe Pedro Paulo, Malafaia, Feliciano, Eduardo Cunha e tantos outros. Em que momento reconhecem o mal em si mesmos? Não são eles também movidos por um sentimento de pureza? De suas bocas não sai um discurso que vê na esquerda - nos “porcos comunistas” - todo o mal do mundo? Então, meus caros, é sempre importante lembrar: o que chove lá, chove cá.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 1 de julho de 2015

PAPAS DE PAPEL

Embora aos trancos e barrancos o cristianismo manteve certa coesão até que Lutero anunciou suas 95 teses contra as indulgências em outubro de 1517. O monge agostiniano imaginou que suas críticas seriam endossadas pelo Papa, mas acabou excomungado em janeiro de 1521 por Leão X. Mas a excomunhão era apenas o início de um processo traumático. Ao dizer que a Bíblia interpreta a si mesma (scriptura sui ipsius interpres) e que deve ser examinada livremente, o resultado é obvio: a interpretação também será livre.

Não adianta reclamar da imensa quantidade de igrejas surgidas todos os dias ao redor do planeta. Esse é o desdobramento evidente de algo que foi anunciado há quase 500 anos. É o preço da liberdade. As confissões doutrinárias protestantes – papas de papel - foram criadas com o propósito de pôr rédeas na interpretação, mas se mostraram inúteis, afinal o sola scriptura de Lutero sempre poderá ser usado por alguém disposto a questionar possíveis equívocos encontrados nessas confissões.

Só há um caminho para aqueles que se mostram indignados com a falta de unidade das igrejas evangélicas: retornem ao catolicismo. Lá todos declaram fidelidade ao Papa, visto como herdeiro das chaves de Pedro. Submetem-se ao Roma locuta causa finita (Roma falou, assunto encerrado) com alegria e bom grado. De um lado a “segurança” da infalibilidade papal. Do outro a “corda bamba” do livre exame. Na primeira você é apenas expectador. Na segunda é protagonista. A escolha é sua. 

Jones F. Mendonça

terça-feira, 30 de junho de 2015

A HISTÓRIA DA ARTE (E DO PENSAMENTO) OCIDENTAL EM QUATRO TELAS



Trata-se de uma visão extremamente simplificada, mas pode facilitar o entendimento a respeito das transformações pelas quais passou a arte ao longo dos séculos:

1. A primeira imagem mostra uma escultura grega (Vênus de Milo, séc. II a.C.). Note que há uma extrema valorização do corpo, que é retratado com meticulosa perfeição. 

2. A segunda imagem mostra uma tela medieval ilustrando uma cena bíblica (Hilda Codex, século XI d.C.). Considerando que o cristianismo projeta o ideal de vida num mundo extraterreno, o foco passa a ser a piedade e não mais o corpo. Mundo sob a tutela da Igreja (teocentrismo). 

3. A terceira tela (Adão e Eva, de Raffaello Sanzio, 1509-11), do final da Idade Média, embora retratando uma cena bíblica, é marcada pelo retorno ao ideal de beleza grego. A palavra “Renascimento” significa justamente isto: o resgate dos valores greco-romanos (antropocentrismo). Lutero está aqui, surfando na onda do Renascimento. 

4. Na quarta fase (séc. XIX) a arte rompe definitivamente com a tradição, buscando constantemente novas formas de expressão (“A cigana adormecida”, de Henri Rousseau, 1897).



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 24 de junho de 2015

O LUXO DO CLERO E O CRISTO CRUCIFICADO

Até o final do século XII são raras as telas representando o Cristo crucificado com ênfase em seu sofrimento. A partir daí há uma verdadeira explosão de imagens expondo Cristo como homem de dores. Essa mudança coincide com o surgimento de ordens religiosas mendicantes (fiéis à Igreja) e de grupos dissidentes como os cátaros e valdenses (perseguidos pela Inquisição). Os dois grupos têm algo em comum: uma crítica ferrenha à ostentação do clero e seu distanciamento da simplicidade da igreja apostólica. A imagem do Cristo crucificado, exposto à ignomínia, é um reflexo desse momento histórico vivido pela cristandade. Abaixo uma tela de Bonaventura Berlinghieri (1260-70).



Jones F. Mendonça

FRANCISCO E O SUFISMO

Mais uma vez surpreendendo, Papa Francisco cita poeta místico muçulmano em sua encíclica sobre o meio ambiente: 
O Universo se desdobra em Deus, que o preenche completamente. Assim, há um significado místico a ser encontrado em uma folha, na trilha de uma montanha, em uma gota de orvalho, no rosto de uma pessoa pobre.
O texto, que lembra trechos do Evangelho de Tomé, escritos produzidos por cristãos místicos medievais ou poemas do escritor romântico inglês William Blake, é uma citação direta de Ali al-Khawas, adepto do sufismo, vertente mística do Islã.

Os mais ortodoxos poderiam ver no trecho indícios de uma dupla inclinação herética: o panteísmo e sua aproximação com uma religião não cristã. Mas Francisco parece não temer as lanças da ortodoxia. 

Leia aqui e aqui





Jones F. Mendonça

terça-feira, 23 de junho de 2015

REFORMA PROTESTANTE E PODER GOSPEL

Tente imaginar a Igreja a partir do século XII. As ideias separatistas de Pedro Valdo (1140-1217), um comerciante de Lyon, espalham-se pela Europa, gerando preocupação da liderança católica. Os seguidores de Valdo (valdenses), dotados de uma espiritualidade voltada à pobreza e simplicidade dos cultos, são duramente perseguidos pela Inquisição. Ao lado dos valdenses surgem os cátaros (ou “homens bons”), outro grupo dissidente visto como ameaça à fé cristã oficial que também sofreu com a perseguição. 

Mas o descontentamento com a espiritualidade cristã medieval deu outros frutos. Comprometidos com a igreja, mas igualmente insatisfeitos com o luxo e a ambição pelo poder da liderança romana, surgem ordens mendicantes como franciscanos, dominicanos e carmelitas. Some-se a isso uma crise do papado conhecida como “cisma papal” (1378-1414), marcada pela existência de dois papas governando a igreja simultaneamente em confronto direto: um na França (Avinhão) e outro em Roma. 

Em meio à crise aparecem dois grandes pregadores eloqüentes anunciando aos quatro ventos uma crítica feroz à Igreja: John Wyclif (Inglaterra, 1320-1384) e Jan Hus (Boêmia, 1369-1415). O primeiro morreu queimado. O segundo (protegido por gente poderosa) escapou da morte, mas teve seu corpo exumado, sendo seus restos mortais incinerados. 

Para finalizar imagine nobres em seus belos castelos, ansiosos pelo fim da influência do papado em seus negócios e de olho nas terras da Igreja. Igualmente ambiciosos e insatisfeitos com o poder da igreja e suas interferências aparecem os burgueses, comerciantes que enriqueciam com o comércio e o empréstimo de dinheiro. O palco está armado.

Doutrinas confusas, imoralidade do clero, surgimento de grupos dissidentes e ordens mendicantes, disputas pelo papado marcadas pela ambição pelo poder, ambições políticas e econômicas. Junte tudo e você entenderá o sucesso da Reforma do século XVI, cujo estopim foram as 95 teses escritas por um monge agostiniano chamado Martinho Lutero. 

Lutero ainda foi beneficiado pelo sucesso da imprensa, pelo apoio intelectual vindo de eruditos humanistas e pela chegada na Europa de textos das Escrituras no idioma original (vindas de Constantinopla, agora nas mãos dos turcos otomanos). Mas há ainda um toque final: Lutero era atormentado por uma intensa crise espiritual ligada ao modo medieval de articular a fé. 

A parte triste dessa breve história? Não há nada de novo debaixo do céu.



Jones F. Mendonça

SÉRIE ”REFORMADORES”: PEDRO VALDO E OS POBRES DE LYON

Se você quer entender o que foi a Reforma protestante precisa voltar aos séculos XII e XIII, quando um comerciante bem sucedido de Lyon chamado Pedro Valdo (1140-1217) fundou uma comunidade cristã pobre e missionária (aparentemente inspirado em Mt 19,21). Diante das críticas cada vez mais ferozes à rica e poderosa Igreja Romana, os seguidores de Pedro Valdo foram excomungados em 1184 e passaram a ser duramente perseguidos pela Inquisição ao lado dos cátaros. 

O grupo dissidente ficou conhecido como “os pobres de Lyon”, sendo mais tarde - após a morte de seu líder - batizados como “valdenses”. Também alimentando o desejo por um cristianismo mais simples, fazendo votos de pobreza e voltados à esmola e auxílio aos pobres, surgiram ordens mendicantes como franciscanos, dominicanos e carmelitas. Estes, no entanto jamais romperam com a igreja. O nascimento de grupos dissidentes como cátaros e valdenses e das ordens mendicantes fiéis à liderança romana reflete o clima de insatisfação dos fiéis com a igreja cristã oficial. Estes são alguns dos primeiros sintomas de uma doença que corroía a Igreja e que seria capaz de dividi-la de forma dramática e definitiva no século XVI.  

Além da exaltação do ideal de pobreza, os valdenses rejeitavam a hierarquia (criaram uma hierarquia eclesial própria), a eucaristia romana (negavam a transubstanciação), as orações aos santos, as indulgências, o Purgatório, a missa dos defuntos, etc. Antecipando-se em alguns séculos a Lutero, os valdenses traduziram a Bíblia para o provençal (idioma falado na França). Embora tenham sido sufocados pela Igreja, as ideias dos valdenses se espalharam pela Europa, reaparecendo, por exemplo, nos discursos de John Wyclif (1320-1384) e Jan Hus (1369-1415). 

Atualmente tem sido feitos esforços na tentativa de reaproximação entre católicos e valdenses (aqui e aqui). Em sua “cruzada” ecumênica, o Papa Francisco visitou, em 22/06/2015, um templo valdense em Turim, construído em 1853. Um vídeo mostrando o encontro histórico entre lideranças valdenses e o Papa pode ser visto aqui


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 18 de junho de 2015

DE JERICÓ A JERUSALÉM

Na parábola do Bom Samaritano o homem que cai nas mãos dos salteadores "descia de Jerusalém para Jericó" (Lc 10,30). O que talvez você saiba é que essa descida corresponde a cerca de 1.000 metros, num percurso de aproximadamente 25 km. Que tal acompanhar essa pequena viagem pela câmera de um avião não tripulado? O vídeo tem a duração de 11 minutos (infelizmente é narrado em inglês). Tomei conhecimento do vídeo pelo Bible Places Blog.

terça-feira, 16 de junho de 2015

INSCRIÇÃO COM O NOME "ISHBA’AL" É ENCONTRADA EM ISRAEL

Segue texto com informações tomadas do Haaretz (17/06/15):

Photo by Tal Rogovsky
Foi finalmente decifrada a inscrição descoberta em Khirbet Qeiyafa, no Vale de Elah, durante as escavações sob a direção do Prof. Yosef Garfinkel, da Universidade Hebraica de Jerusalém e Saar Ganor, do Israel Antiquities Authority. Num grande jarro de barro que data de cerca de 3.000 anos (Idade do Ferro, de cerca de 1020-980 a.C, início da monarquia israelita) aparece escrito “Ishba'al ben Beda” (Ishba'al filho de Beda). A equipe que decifrou a inscrição incluiu a Dra. Mitka Golub e o Dr. Haggai Misgav.

De acordo com Garfinkel e Ganor, esta é a primeira vez que o nome Ishba'al aparece em uma antiga inscrição em Israel. Embora Ishba'al seja o mesmo nome do filho do rei Saul (no livro de Reis é grafado como Ishboshet com o propósito de evitar o elemento teofórico "Baal", compare 2Sm 2,8 com 1Cr 8,33), a inscrição se refere a outra pessoa, provavelmente ao dono de uma grande propriedade agrícola. 

O Ishba'al filho de Saul, homônimo do personagem da inscrição, reinou sobre o reino israelita em paralelo com David e foi morto por assassinos, sendo sua cabeça cortada e trazida para David em Hebron (2 Samuel 4-8). 

Não é a primeira vez que uma inscrição importante é encontrada em Khirbet Qeiyafa. A mais antiga inscrição hebraica no mundo foi descoberta no mesmo local em 2008. Os resultados das escavações demonstram como estava desenvolvida a escrita no reino de Judá na Idade do Ferro.

No Haaretz o texto completo só está disponível para assinantes (versão Premium):

Mas você poderá ler a matéria publicada no J Post



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 15 de junho de 2015

CRISTO E CONCRETO

A tela abaixo, trabalho de James Janknegt (Crucifixion at Barton Creek Mall, 1985), retrata Cristo crucificado num poste de luz no estacionamento de um Shopping Center em Austin, EUA. Imaginando ser um escárnio da crucificação, o presidente do banco no qual a tela estava exposta ordenou ao curador que a removesse imediatamente. De fato é uma imagem perturbadora. Mas o artista – de tradição anglicana - foi mal compreendido pelo presidente do banco, que era cristão batista. Você arrisca uma interpretação?  

Leia sobre a tela aqui


Jones F. Mendonça

sábado, 13 de junho de 2015

A BÍBLIA NO THE BIBLE PROJECT

O The Bible Project tem produzido uma série de vídeos explorando a narrativa Bíblica. Embora a perspectiva seja devocional, há grandes sacadas na apresentação. Além disso, a arte gráfica e a didática são excepcionais. Só estão prontos os videos de Gênesis (duas em partes: 1-11 e 12-50), Êxodo (duas em partes: 1-18, 19-40) e Levítico. Abaixo o primeiro vídeo (legendas em português ou espanhol):


sexta-feira, 12 de junho de 2015

SOBRE DEUSES, IRA E SANGUE

Se você é dessas pessoas que adora repetir frases do tipo “ninguém zomba de Deus e sobrevive!” ou “ninguém toca no ungido do Senhor e sai vivo!”, mas não tem encontrado brinquedos "educativos" para seu filho, seus problemas acabaram. A empresa Jesus Christ Superstore acaba de lançar o brinquedo “Deus onipotente”. O bonequinho, representação do próprio Deus, vem com um Kalishnikov AK-47 para que seu filho possa reproduzir a ira divina em seus momentos de lazer. Caso você não seja cristão mas queira descarregar todo o seu ressentimento acumulado, a Christ Superstore também pode ajudá-lo: há bonequinhos de jihadistas muçulmanos e outras figuras religiosas (Shiva, Krishna, Buda, um rabino e até o Papa) com os armamentos mais diversos. Veja mais aqui, aqui e aqui




quarta-feira, 10 de junho de 2015

O CRISTO, A CRUZ E OS OPRIMIDOS

Embora o protesto da transexual na parada gay tenha causado intensa polêmica, obras artísticas identificando o Cristo crucificado com os oprimidos é coisa antiga. Abaixo a ilustração de Charles Cullen (1929), impressa no livro "The Black Christ", de Countee Cullen


segunda-feira, 8 de junho de 2015

II CONGRESSO INTERNACIONAL DE TEOLOGIA E CIÊNCIAS DAS RELIGIÕES

A Faculdade Unida estará realizando, de 09 a 12 de junho de 2015, o II Congresso Internacional de Teologia e Ciências das Religiões. Destaque para a presença de Leonardo Boff (teologia da libertação) e Harvey Cox (teologia da secularização) . O evento será transmitido ao vivo e estará disponível no canal "Faculdade Unida" do YouTube. 

Assista ao vivo aqui

sexta-feira, 5 de junho de 2015

JESUS EM CINCO FASES (FASE II)

Como prometido aqui, continuo postando um resumo da obra “O Jesus histórico, um manual”, de Gerd Theissen (Loyola, 2004, 651 páginas). A ideia é fazer um resumo acrescentando informações de outras obras e links que facilitem a assimilação do assunto. No primeiro post dei destaque ao que Theissen considera como “primeira fase na pesquisa sobre a vida de Jesus” (Reimarus e Strauss). No post de hoje volto-me para a “segunda fase” (Heinrich Julius Holtzmann, 1832-1910), caracterizada pelo “otimismo da pesquisa liberal sobre a vida de Jesus”:

Sob o impulso do florescimento do liberalismo teológico, cuja base metodológica é a exploração crítico literária das fontes mais antigas sobre Jesus (fontes = documentos escritos que serviram de base para a redação dos evangelhos), Holtzmann contribuiu para tornar duradoura a teoria das duas fontes (desenvolvida por Wilke e Weisse). Mas o que diz a “teoria das duas fontes"? Bem, para os defensores dessa teoria, duas foram as fontes escritas usadas como base na redação de Mt e Lc: Fonte 1) evangelho de Marcos (o mais antigo dos sinóticos); Fonte 2) documento hipotético, conhecido por Mt e Lc (com toda a certeza não por Marcos) do qual não sobreviveu nenhuma cópia, chamada de Quelle (palavra alemã para “fonte”), representada pela letra Q.

Não entendeu? Vou explicar melhor. Entre os anos de 30-60 teriam se cristalizado pequenas coleções de sentenças de Jesus e suas atividades, sobretudo milagres. Este material (fonte Q) está presente em Mt e Lc, mas não em Marcos. Por volta de 65-70 Marcos, desconhecedor de Q,  teria redigido uma tradição narrativa sobre Jesus, dando origem ao primeiro evangelho. Por volta de 80, depois da destruição do Templo, Mt e Lc teriam escrito seus evangelhos, independentemente um do outro, usando tanto Marcos como Q. Numa ordem cronológica:

1. Entre 30-60: surgimento de pequenas coleções de ditos = Quelle (Q) ou Logienquelle (fonte dos ditos);

2. Entre 65-70: surgimento do evangelho de Marcos;

3. Por volta de 80: nascimento dos evangelhos de Mt e Lc (inspirados em Mc e Q).

Do evangelho de Marcos Holtzmann retirou o esboço da vida de Jesus, lendo nele uma evolução biográfica com o ponto crucial em Mc 8: na Galileia formou-se a consciência messiânica de Jesus, em Cesareia de Felipe ele se revelou aos discípulos como Messias. Ao quadro biográfico derivado de Marcos Holtzmann adicionou as “palavras autênticas” de Jesus tomadas de Q.

Com essa base metodológica os liberais esperavam reconstruir a personalidade legitimadora de Jesus e de sua história. Mas na virada do século XIX para o XX esse otimismo entrará em colapso. 



Jones F. Mendonça

terça-feira, 26 de maio de 2015

O ANTIGO TESTAMENTO PARA AUTODIDATAS

Quem que se interessa por teologia do AT, mas não tem tempo ou paciência para freqüentar aulas presenciais (olha aí, Pedro Mendes), pode fazer isso nas horas vagas, adquirindo alguns livros sobre cada matéria. Abaixo algumas disciplinas/livros que em minha opinião serão indispensáveis a quem quer iniciar os estudos do AT:

Introdução ao AT: em minha análise o melhor livro sobre o tema é “Introdução ao Antigo Testamento”, de Werner Schmidt. Como o próprio título sugere, a obra pretende apresentar alguns aspectos gerais do AT: estrutura da Bíblia hebraica, cânon, processos de redação dos livros, história de Israel em períodos, profetismo, poesia, sabedoria, etc. Outra obra interessante é “Introdução ao Antigo Testamento”, de Erich Zenger (destaque para a formação do Pentateuco). Um livro específico e muito didático sobre o processo de formação do AT é “A formação do Antigo Testamento”, de Rolf Rendtorff (é possível encontrar o texto completo na rede em formato PDF). 

Teologia do AT: As teologias bíblicas, diferentemente do que fazem as introduções, focam no desenvolvimento da religião de Israel ao longo da história e nas diversas tradições que muitas vezes entram em conflito entre si. Destaco duas obras: “A fé no Antigo Testamento”, de Werner Schmidt, e “Teologias no Antigo Testamento”, de Erhard Gerstenberger. Autores como Georg Fohrer dividem o estudo do AT em “história da religião de Israel” (religião de Israel numa perspectiva histórica) e “Estruturas teológicas fundamentais do Antigo Testamento” (religião de Israel numa perspectiva temática). 

Obras sobre temas específicos ligados ao AT: depois de ler as “introduções ao AT” as “teologias do AT”, será mais fácil digerir obras mais específicas (algumas vezes, densas!), tais como “Sacrifício e culto no Israel do Antigo Testamento”, de Willi Plein, “A fórmula da aliança” de Rolf Rendtorff, “Instituições de Israel”, de Roland de Vaux, “Abraão e sua lenda”, de Walter Vogels (mais aqui), “Introdução socioliterária à Bíblia hebraica”, de Norman Gottwald, e “As tribos de Javé, uma sociologia da religião de Israel liberto: 1250-1050 a.C.”, do mesmo autor. 

Obras clássicas sobre o AT (teologia do AT): Algumas obras, embora antigas (início e meados do século XX), ainda exercem influência em nossos dias. Destaque para: “Teologia do Antigo Testamento”, Walter Eichrodt e “Teologia do Antigo Testamento” (dois volumes), de Gerhard von Rad. Não é difícil encontrar esses livros na rede em PDF (geralmente em espanhol). 

História de Israel: Um livro agradável, curto, mas uma boa dose critica é “História do povo de Deus”, de Euclides Balancin (perspectiva da teologia da libertação). Obra classificada como “conservadora”, mas ainda muito influente é “História de Israel”, de John Bright. Para um trabalho mais crítico vale ler “História de Israel e dos povos vizinhos”, de Herbert Donner. Um livro extremamente crítico (perspectiva minimalista) é “Para além da Bíblia”, do assiriólogo Mário Liverani. Em tempo: quando digo que uma obra é “crítica”, estou dizendo com isso que o autor leva em conta o longo e contínuo processo redacional ao qual foi submetido o AT. Nessa perspectiva o relato da criação, por exemplo, é visto como obra tardia (depois do século VI a.C.), inserido como prefácio do que mais tarde se tornou o livro de Gênesis. 

Exegese do AT: Merecem atenção duas obras: “Metodologia do Antigo Testamento”, de Simian-Yofre (um livro teórico) e “A Bíblia à luz da história: guia de exegese histórico-crítica”, de Odette Mainville (um livro prático, difícil de achar). 

Hebraico bíblico: Das obras mais simples para as mais completas: “Noções básicas de hebraico bíblico”, de Rosemary Vita e Tereza Akil, “Hebraico bíblico, uma gramática introdutória”, de Page Kelley (obra muito didática e com bom conteúdo),“, e o clássico “Geseniu’s hebrew grammar”, de Wilhelm Gesenius (download gratuito). Obs: aprender hebraico sozinho, sem o auxílio de um professor, é tarefa árdua que exige disciplina. Uma dica: aprenda o alfabeto (22 consoantes) mais os sinais vocálicos (cerca de dez sinais). Se após essa tarefa você estiver conseguindo ler (ainda sem entender) o texto hebraico, terá caminhado 40% do percurso. Quer mais algumas dicas? Dê uma olhada aqui e aqui



Quando me sobrar um tempo faço nova lista com sugestões de leitura para outras disciplinas. 


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 21 de maio de 2015

MONOTEÍSMO E MONOGAMIA

Mulheres com o rosto borrado no jor-
nal ultra ortodoxo B'Hadrei Haredim.
O cristianismo já nasceu monogâmico. A razão é simples: como a poligamia não era aceita no mundo greco-romano, “ser marido de uma só mulher” passou a ser o modelo adequado de relação conjugal (orientação aos epískopos, cf. 1Tm 3,2). Numa perspectiva econômica (romana) a monogamia concentrou a riqueza e diminuiu o número de herdeiros. Cabia à mãe gerar filhos (matrimonium = mater, mãe + monium, ofício) e ao marido gerar bens (patrimonium = pater, pai + monium, ofício). Numa perspectiva religiosa (cristã), passou a ser vista como mandamento divino e o sexo – já bem cedo - tido como exclusivo à procriação (p. ex. Justino Mártir, Apol I, 29; Clemente de Alexandria, Pedágoge II, 10).

Embora muita gente não se dê conta, o abandono da poligamia no judaísmo foi um processo lento. Joachim Jeremias, em seu “Jerusalém no tempo de Jesus” (pp. 131-136 e 486) registra - citando diversos documentos judaicos - a prática da poligamia entre judeus na Palestina do primeiro século (e até mesmo no início do século XX!). Mas a vida na Europa forçou muitos judeus a se adequarem ao modelo familiar monogâmico cristão. A poligamia foi sendo abandonada gradativamente até que foi definitivamente condenada num "sínodo" realizado em Worms, no século XI. Nessa assembleia, dirigida pelo erudito talmúdico Gershon ben Yehudah (960-1028) e constituída por cem rabinos, foi proferida uma anátema contra todo o israelita que, no futuro, tivesse mais de uma esposa (um pouco mais sobre o assunto aqui).

A crença na “superioridade moral” do judaísmo sobre o islamismo no que diz respeito ao trato dispensado às mulheres parece-me um equívoco, principalmente quando a fonte de comparação baseia-se no contraste entre o Estado de Israel (tradição judaica) e os demais países do Oriente Médio (tradição muçulmana). Ora, Israel foi povoado por imigrantes pertencentes a duas categorias principais: 1) judeus desejosos por criar uma nova cultura judaica em bases seculares; 2) judeus de base religiosa tradicional. A difusão de valores ocidentais baseados em princípios de liberdade, igualdade e fraternidade ganharam espaço graças a esses imigrantes de base secular. Isso torna Israel um país singular no Oriente Médio, mas essa singularidade não tem sua origem na religião. No Estado judeu a mulher goza de um status mais elevado que nos países vizinhos não por causa da religião judaica, mas devido à influência das ideias iluministas importadas do solo europeu.

Em religiões nas quais Deus é Uno e é Pai, o que resta às mulheres senão um papel secundário?


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 14 de maio de 2015

QUANDO, POR QUEM E POR QUE O LIVRO DE ATOS FOI ESCRITO?

1. Uma vez que o livro de Atos faz silêncio em relação ao julgamento de Paulo, há quem pense que foi redigido entre 58-60 d.C. Teria sido escrito por Lucas, testemunha ocular dos acontecimentos narrados no livro, uma vez que foi companheiro de Paulo em algumas viagens (Col 4,14; 2Tm 4,11 e Fm 1,24.)

2. A maioria dos estudiosos modernos, no entanto, defende uma data mais recente, entre 80 e 90 d.C. Destacam que a destruição de Jerusalém e seu templo, em 70, não é mencionada em Atos. O autor de Atos também parece ignorar as cartas de Paulo, o que sugere que ainda não haviam sido difundidas até o momento da redação do livro.

3. Um terceiro grupo de estudiosos prefere uma data final de composição para 110 a 120 d.C. São três as razões: 1) Atos parece ser desconhecido antes da última metade do segundo século; 2) O autor de Atos parece familiarizado com os escritos de Josefo, que completou suas “Antiguidades judaicas” em 93-94 d.C.; 3) Ao contrário do que pensam os defensores da redação entre 80 e 90, haveria indícios de que as cartas de Paulo - particularmente Gálatas - era conhecida pelo autor de Atos. Mais que isso: Gálatas teria sido considerada um problema para o autor de Atos, que “o escreveu para subvertê-la”.

Para conhecer os argumentos deste terceiro grupo de estudiosos, leia o artigo “When and Why Was the Acts of the Apostles Written?”, por Joseph B. Tyson, no The Bible and Interpretation. Para o autor, Atos tenta enfraquecer a autoridade de Paulo, e seria um “texto anti-marcionita” (de “Marcião”, cristão que dentre outras coisas defendia Paulo como único apóstolo legítimo). O autor não me convenceu, mas acho que o texto merece ser lido. 



Jones F. Mendonça