segunda-feira, 16 de julho de 2018

ENCONTROS AMOROSOS NO ANTIGO TESTAMENTO

Um verbo muito comum utilizado no AT para sugerir que um homem teve relações sexuais com uma mulher é “Yadá” (conhecer): Adão “conhece” Eva (Gn 4,1); Caim “conhece” sua mulher (4,17); os homens de Sodoma querem “conhecer” os mensageiros divinos hospedados na casa de Ló (19,5), etc.

Mas yadá não significa “conhecer profundamente” como insistem muitos comentaristas bíblicos. Trata-se de uma metáfora apenas. Aliás, há uma outra, pouco conhecida.

Nesta semana, traduzindo o livro bíblico de Rute, encontrei por acaso uma expressão tão comum quanto yadá para se referir ao encontro caloroso entre homem e mulher: “vayyabo eleyha” (algo como “veio até ela”). Em Rt 4,13 Boaz toma Rute como esposa, “vai até ela” e ela engravida.

A expressão reaparece com o mesmo sentido em Gn 29,23 (Lia e Jacó), 30,3-4 (Bila e Jacó), 38,2 (Judá e Sué), 38,18 (Tamar e Judá), Jz 16,1 (uma prostituta e Sansão) e 2Sm 12,24 (Bat-shebá e Davi).

Em alguns casos o verbo aparece associado a nomes próprios femininos (e não a um pronome). Dois exemplos: Abraão “vai até” Hagar (Gn 16,4) e Jacó “vai até” Raquel (29,30). Hagar engravida após o “encontro”. Raquel não engravida porque é estéril.

A única ocorrência do verbo “ir” indicando o movimento de um homem em direção a uma mulher fora do contexto sexual ocorre em Jz 4,22: Baraque “vai até Jael” (uma mulher guerreira), para que ela lhe mostre o corpo de Sísera morto com uma estaca na fronte.

Então que fique claro: no AT, quando um homem “vai até” uma mulher, provavelmente planeja algo além de um encontro casual.




Jones F. Mendonça

sexta-feira, 13 de julho de 2018

"DAI A CÉSAR": ANACRONISMO OU CONFLAÇÃO?

Lançando mão dos estudos na área da numismática, Matthew Ferguson apresenta uma série de argumentos sugerindo que o dito “Dai a César o que é de César”, atribuído a Jesus (Mc 12,17; Mt 22,21; Lc 20,25), não foi proferido pelo Nazareno. O autor cita, por exemplo, uma monografia sobre administração tributária na Palestina romana de 63 a.C a 70 d.C. (To Caesar What's Caesar's), escrita por Fabian Udoh:
Udoh aponta que um número significativo de denários só é encontrado na Palestina após 69 d.C., particularmente a partir do reinado de Vespasiano. [...] Antes deste tempo, a principal moeda de prata na Palestina (usada para a tributação) era o shekel de Tiro.

Os autores dos Evangelhos do NT teriam sentido a necessidade de abordar a questão do imposto – um tema controverso no ambiente da comunidade cristã primitiva –, colocando nos lábios de Jesus algo que ele realmente nunca disse.

Duas hipóteses: 1) Anacronismo (tempo): Marcos foi redigido num período pós 70, quando moedas cunhadas com o rosto do imperador já eram comuns na Palestina; 2) Conflação (espaço): Marcos foi redigido antes de 70, mas o dito atribuído a Jesus reflete um problema situado fora da Palestina, numa região na qual as moedas mostravam a face do imperador.

Um argumento adicional a favor da hipótese levantada por Udoh é que Paulo não menciona o alegado ensinamento de Jesus a respeito do pagamento de impostos ao defender a prática em Rm 13,6-7: 
É também por isso que pagais os impostos, pois os que governam são servidores de Deus, que se desincumbem com zelo do seu ofício. 7 Dai a cada um o que lhe é devido: o imposto a quem é devido; a taxa a quem é devida; a reverência a quem é devida; a honra a quem é devida.

Leia mais aqui.



Jones F. Mendonça

domingo, 8 de julho de 2018

ICONOCLASTIA PROTESTANTE

Embora Lutero tenha criticado o abuso das imagens, conseguiu perceber nelas certo valor como “memoriais e testemunhos”. Ele chegou a afirmar que, se pudesse, mandaria pintar toda a Bíblia dentro e fora das casas. Mas o reformador acabou vencido por figuras como e Karlstadt e Calvino, radicalmente iconoclastas, e a arte foi expulsa dos templos e entregue à consciência profana e secularizada. Uma pena. As Bíblias ganharam capa preta, “ilustradas” apenas com letras, indicando que o protestantismo é a religião da palavra (ou muçulmanos ao menos fizeram arte com as letras).

Para provar que é possível ser um monoteísta radical e ainda assim valorizar a arte na representação de cenas bíblicas, vale conhecer o trabalho de Marc Chagall (1887-1985), um JUDEU convicto nascido na Bielorrússia.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 19 de junho de 2018

FÍLON DE ALEXANDRIA: A MULHER É O CAMPO, O HOMEM O SEMEADOR

Leio os escritos de Fílon de Alexandria, judeu helenista do primeiro século a.C. Interessam-me suas considerações a respeito da Lei judaica no que concerne à licitude de certas práticas sexuais.

Em Leis III, 32, o sábio judeu aconselha o marido a vigiar o corpo de sua mulher assim como o lavrador habilidoso vigia o campo no qual depositará sua semente. Explica que ele deve abster-se de semear quando o “campo” (a vagina) está “inundado” (pelo sangue da menstruação). Mas por que todo esse cuidado para não “desperdiçar a semente”? Simples: é que Fílon entende (como os filósofos estoicos) que o sexo tem como finalidade única a reprodução: “o prazer sexual não foi dado ao homem para o gozo ou a fruição, mas para a propagação da espécie” (Sêneca em “Consolação à Hélvia”).

Isso explica sua condenação aos homens que se casam com mulheres estéreis mesmo sabendo de sua condição (34). Neste caso o ato sexual seria um inaceitável “desperdício de semente”, algo que ele classifica como “contra a natureza” (pecado da luxúria). Igual condenação ele estende aos jovens que “encaracolam os cabelos”, “maquiam o rosto” e “delineiam os olhos”, “mudando o seu caráter viril” (efeminados). Tal prática, explica Fílon, consiste num “desperdício do poder de propagar a espécie” (39), permitindo que “terras férteis e produtivas permaneçam em repouso”, provocando a “desolação das cidades”.

Entre os primeiros cristãos a visão do sexo como prática restrita à procriação reaparece, por exemplo, em Clemente de Alexandria: “O casamento é o desejo da procriação e não a ejaculação desordenada do esperma que, aliás, é contrária tanto à lei quanto à razão” (Pédagoge, II, 10). Jerônimo chega a dizer (citando Xystus) que “aquele que é muito ardente com sua própria esposa é adúltero” (Contra Joviniano, I, 49). Quando Levy Fidelix, num debate presidencial em 2014, condenou a homossexualidade masculina argumentando que “aparelho excretor não reproduz”, repetiu a velha condenação estoica ao “desperdício de esperma”, repetida pelos judeus helenistas, pelos cristãos dos primeiros séculos e pelo catolicismo moderno.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 15 de junho de 2018

O "JESUS PIMENTINHA" NA ARTE E NA LITERATURA


Nesta tela, de Max Ernst (Virgin Spanking, 1926), o menino Jesus aparece sendo disciplinado por Maria. Repare que o halo despenca de sua cabeça enquanto a mão ameaçadora de sua mãe desce em direção às suas nádegas já avermelhadas.

Embora esta representação ousada tenha causado muito escândalo no início do século XX, já nos primeiros séculos, nos chamados “Evangelhos da infância”, Jesus aparece como uma criança travessa, astuta e até mesmo cruel.

No evangelho de Tomé da infância, por exemplo, uma criança provoca Jesus e é transformada numa árvore seca. Em outra passagem Jesus é acusado de empurrar um menino de um terraço. Para provar sua inocência, ele a ressuscita.

Os cristãos dos primeiros séculos, criadores de tais narrativas, não viam problemas em aceitar a infância do Filho de Deus com as cores de uma infância comum, repleta de rebeldia, imaturidade e até mesmo de maldade.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 5 de junho de 2018

O PESCOÇO NO ANTIGO TESTAMENTO

O texto hebraico do AT usa a expressão “pescoço duro” para se referir a uma pessoa teimosa, rebelde, difícil de domar: “Pois conheço a tua rebeldia, o teu pescoço duro” (Dt 31,27). O livro de Crônicas diz que Sedecias rebelou-se contra Nabucodonosor “endurecendo seu pescoço” (2Cr 36,13). Isaías repreende Israel dizendo que seu pescoço é um “tendão de ferro” (48,4). Os tradutores, visando ajudar o leitor, trocam pescoço por “cerviz” (pescoço duro = dura cerviz).

O Jó angustiado lamenta que sua vida tranquila tenha sido interrompida quando o Senhor o agarrou pelo pescoço e o triturou (16,12), afinal era sobre o pescoço que os jugos de ferro eram colocados (Dt 28,48) ou, também, os pés do opressor (Js 10,24). “Colocar o pescoço”, revela Nee 3,5, era o mesmo que submeter-se ao serviço de alguém. “Dar o pescoço” (em nossas versões, “dar as costas”), era, ao contrário, desdenhar de alguém (2Cr 29,6).

Mas o pescoço também aparece associado aos afetos. Jacó se lança ao pescoço de Esaú e o beija. José chora após se lançar ao pescoço de Benjamim (45,14) e de Israel, seu pai (46,29), após revelar sua identidade aos seus irmãos.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 24 de maio de 2018

ANJOS CIVILIZADORES


Em sua pintura “E no oitavo dia”, o artista aborígene australiano Lin Onus mostra dois “anjos civilizadores” carregando elementos associados à ideologia colonial inglesa: a terra precisava ser cercada com arame, ocupada com gado, subjugada com arma de fogo, civilizada com Bíblia e purificada com desinfetante.

A mesma ideologia adotada pela bancada Bíblia, Boi e Bala. Nada de novo debaixo do céu...

Tomei conhecimento da obra do artista lendo:




Jones F. Mendonça

ECLESIASTES: COMIDA, BEBIDA, ALEGRIA E PAIXÃO

O místico medieval Thomas de Kempis tomou a primeira frase do livro de Eclesiastes “vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (1,2) como um convite ao desprezo a todas as coisas terrenas. Ocorre que em diversas passagens o livro exalta o “comer” o “beber”, o “alegrar-se”, o “desfrutar a vida com a mulher amada” como dom divino (2,24; 3,12-13.22; 5,18-20; 8,15; 9,7-10; 11,7-10). Como sair dessa “sinuca de bico”?

Bem, Kempis talvez tenha seguido a solução alegórica apresentada pelos antigos rabinos: “todas as referências a comer e beber neste livro representam a Torá e as boas obras” (Qoh.Rab. 2:24; cf. o Targum [Tg. Eccl 2:24]). E assim o “comer” deveria ser entendido como o “comer da Torá” e o “beber” como o “beber das boas obras”.

Só sendo muito tonto para cair nessa conversa...



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 17 de maio de 2018

BENJAMIN, O FILHO "ESQUERDISTA" DE JACÓ

Todos os canhotos mencionados na Bíblia aparecem em contextos militares e pertencem à tribo de Benjamin (Jz 3,15; 20,6; 1Cr 12,2). Estranho, não? Um dado curioso: o texto relata que o filho mais novo de Jacó, ao nascer, teve o nome mudado de Benoni, que significa “filho do meu luto”, para Benjamin, “filho da minha [mão] direita” (Gn 35,18). Ora, se o relato tem caráter etiológico (como eu penso), o menino não deveria ter recebido o nome de Bensemoly (filho da minha mão esquerda)?



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 14 de maio de 2018

MAPA BÍBLICO: A CONQUISTA DE SAMARIA E JERUSALÉM

Produzo meus próprios mapas bíblicos em alta resolução usando o Maps-For-Free.com. A apresentação em relevo proporcionada pelo site é fantástica. Abaixo ilustro a conquista de Samaria e Jerusalém por duas potências mesopotâmicas: a Assíria e a Babilônica. 



Jones F. Mendonça

JOÃO BATISTA, GAFANHOTOS E MEL

Embora o Levítico permita o consumo de gafanhotos (Lv 11,22), há quem ache estranha a dieta de João Batista tal como consta em Mc 1,6: “João... alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre”. Isso porque os ascetas praticavam um estilo de vida estritamente vegetariano. James Tabor sugere “bolo e mel” ao invés de “gafanhoto e mel”. A resposta estaria num costume ebionita (cristãos judaizantes) citado por um cristão do século IV e na semelhança gráfica entre os nomes dos dois alimentos no idioma grego.

Confira o texto completo no Tabor Blog.



Jones F. Mendonça

TEL ELTON E A MONARQUIA UNIDA

Uma construção desenterrada em Tel Eton, 32 km a sudeste de Ashkelon, mesclando elementos característicos de edificações cananeias (depósito de fundação) e israelitas (quatro cômodos), foi matéria no The Times of Israel.  As escavações estão sendo coordenadas por Avraham Faust da Universidade Bar-Ilan.

Leia mais aqui.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 24 de abril de 2018

A “MÃO SOB A COXA” EM GÊNESIS 47,29

Você certamente franze a testa ao ler aquela passagem do AT descrevendo José colocando a “mão por baixo da coxa” de Jacó, seu pai (Gn 47,29). A tradução está correta? Qual a razão deste costume tão estranho?

Bem, a palavra hebraica traduzida por “coxa” é yarek. Ela sempre aparece designando partes do corpo situadas entre a cintura e a virilha. Em alguns casos serve para indicar uma parte muito específica do corpo: os órgãos sexuais.

Ela surge, por exemplo, em Gn 46,26 referindo-se aos descendentes de Jacó: “os descendentes dele eram 66 pessoas...”. Literalmente o texto diz “saíram da coxa (yarek) dele 66 pessoas...”. Não é exatamente “da coxa”, entendeu?

Uma maldição dirigida à mulher infiel pedia que sua “coxa” (yarek) se tornasse falha (nafal) e seu ventre inchasse (Nm 5,21). A punição, como você deve ter notado, é a infertilidade. O texto não está falando da coxa...

Então, para encerrar: “colocar a mão sob a yarek” não é o mesmo que colocar a mão sob a coxa, ou sob a virilha, mas colocar a mão sob os testículos (para que herde a fertilidade do pai). Tá, isso é bem estranho, viu?



Jones F. Mendonça

sábado, 31 de março de 2018

LEITURA DE PÁSCOA

"Crucifixion", de Martin Hengel, foi, por muito tempo, a principal referência no estudo de um dos mais cruéis métodos de execução romana: a crucificação. John Granger Cook foi convidado por Hengel para revisar seu trabalho, mas acabou escrevendo seu próprio livro (The crucifixion in the Mediterranean World). Um trabalho magistral...

Neste ano Mark S. Smith (autor de "O memorial de Deus", 2006, Paulus) publicou um trabalho que tem sido bastante elogiado: "The final days of Jesus: The Thrill od defeat, the agony of victory". Disponível para compra na Amazon.

A resenha pode ser lida aqui



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 28 de março de 2018

A PERSONIFICAÇÃO DA SABEDORIA DIVINA NOS GATHAS IRANIANOS

Investigo o recurso literário da personificação da sabedoria (hokhmah), fenômeno que aparece em Provérbios 1-9, em Jó 28, na Sirácida 24, na Sabedoria de Salomão 7; 18, em Baruc 3 e numa interpolação presente no capítulo 42 do livro apócrifo de Enoque etíope. Interessa-me a origem desse recurso e sua relação com o prólogo do evangelho de João.

Há quem sugira uma influência egípcia (Isis, Maat), canaanita (Asherah) ou mesopotâmica (Astarte, Innana). Mas não encontrei textos religiosos produzidos por tais povos capazes de justificar qualquer orientação nesse sentido (você pode consultar uma coleção deles num trabalho organizado por James Pritchard em “Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament”).

W. Bousset indicou um caminho diferente: o Irã. De forma mais específica, a personificação de um atributo divino estaria presente nos Gathas, poemas atribuídos a Zaratustra (profeta persa do século VII a.C.). Nos Gathas o “Espírito Benevolente” (Spenta Mainyu) emana do “Senhor da Sabedoria” (Ahura Mazda) e opera em todos os aspectos da existência. Ele age nos homens, instruindo-os.

O problema é que esses textos foram transmitidos de forma oral por séculos, até ganharem a forma escrita (como saber se os textos não foram contaminados com outras crenças?). Outro problema é a tradução (foi escrito em dialeto gáthico, idioma de difícil tradução). Ainda assim penso que seja uma boa pista.

É possível ler 17 capítulos dos Gathas no Zaratustra.com (a tradução para o inglês é obra de Mobou Firouz Azargoshasb). Leia sobre os Spenta Mainyu nos Gathas aqui.  Sobre possíveis conexões entre o zoroastrismo e a Bíblia Hebraica aqui e uma introdução aos Gathas e a tradução de 17 capítulos para o inglês aqui.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 19 de março de 2018

POR QUE MALAFAIA NÃO É UM SOFISTA?

Indivíduos que “ganham” debates “no grito” ou com argumentos falaciosos geralmente são classificados como “sofistas”, termo empregado por Platão para se referir ao ofício criado por Protágoras, discípulo de Demócrito. Sofistas convencem pela força da retórica, não da dialética (ou da lógica). Fizeram sucesso na Grécia Antiga, fazem sucesso hoje, impulsionados por curtidas e compartilhamentos nas redes sociais.

Malafaia não pode ser considerado um sofista por uma razão muito simples: todo o seu discurso está fundamentado em crenças e valores que ele considera (ou pelos menos declara) verdadeiros, eternos e imutáveis. Os sofistas criticados por Platão (Diálogos) e Aristóteles (Elencos Sofísticos) negavam a objetividade da verdade. Ensinavam que a verdade depende da subjetividade humana, que a verdade é relativa (eram relativistas).

Os sofistas ao menos eram coerentes...


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 12 de março de 2018

SOBRE "EROS", "ÁGAPE", "PHILEO" E FIRULAS

Ora, se “ágape” é empregado no NT para expressar o amor mais elevado, incondicional, como muitos insistem, como explicar o uso da palavra neste lamento de Paulo: “Pois Demas me abandonou por amor (ágape) ao mundo presente” (2Tm 4,10). O termo correto não deveria ser “eros”, supostamente - como dizem - “amor egoísta, carnal”?

E se o NT, de fato, faz distinção entre “ágape” (amor incondicional, divino) e “fileo” (amor fraternal, de amigo), como explicar o uso de “fileo” aqui: “pois o próprio Pai vos ama (fileo, Jo 16,27). É verdade que há preferência pelo “ágape” nas relações entre o humano e o divino no NT, mas na prática, “ágape” e “fileo” são intercambiáveis, como no diálogo entre Pedro e Jesus em Jo 21,15-17.

Não há ocorrência do “eros” no NT. Mas a demonização do termo só aparece nos textos dos primeiros padres (nas palavras de Nietzsche, o cristianismo “envenenou o eros”.). Veja o que diz Santo Inácio, por exemplo: “O meu amor (eros) foi crucificado e não há em mim fogo de paixão. [...] Não me atraem o alimento de corrupção e os prazeres desta vida” (Carta aos Romanos, 7,2). Ratzinger acata em parte a crítica nietzschiana em sua “Carta Encíclica Deus Caritas Est”.

Um exercício simples, mas muito útil para desmascarar equívocos cristalizados pela repetição: escolha uma palavra (grega ou hebraica) e localize todas as suas ocorrências no texto bíblico. O contexto vai denunciar a farsa. Não confie em dicionários.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 9 de março de 2018

AINDA O SELO DE ISAÍAS

O epigrafista Christopher Rollston produziu três textos sobre o selo encontrado em Jerusalém (fev/2018) contendo a palavra “Isaías”. Embora didático, o conteúdo é bastante técnico (exige certo conhecimento de hebraico). Aos interessados: 
Rollston não publica imagens em seu Blog, então caso queira dar uma olhada em alguns artefatos que ele cita nos artigos, clique neste link:


Jones F. Mendonça

SACERDOTISAS NO ANTIGO ISRAEL

O Antigo Testamento apresenta algumas mulheres exercendo certo tipo de liderança no âmbito da família e da sociedade. A mãe de Mica governava seu lar (Jz 17); Abigail tomou a iniciativa para salvar sua casa (2Sm 25); Débora exerceu o papel de juíza e profetiza (Jz 5); Joabe encontrou uma mulher “sábia” (hakhamah) em Teqoa, hábil com as palavras (2Sm 14,2) e Jeremias (9,15) descreve uma “sábia” dotada de uma qualidade semelhante; Huldá, uma profetiza (2Rs 22,14), aparece sendo consultada por altos funcionários do Estado; O domínio exercido por Jezabel sobre seu marido, o rei Acab, é ressaltado com força no livro dos Reis (1Rs 21,15).

Mas não é estranho que o AT simplesmente não mencione mulheres exercendo o sacerdócio? Ada Taggar-Cohen investiga esta questão no The Torah (note que a autora tem “Cohen” = sacerdote, em seu nome). 


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

SELO COM O NOME "ISAÍAS" É DESCOBERTO EM JERUSALÉM

Eilat Mazar agitou o mundo acadêmico especializado em arqueologia de Israel após divulgar um selo descoberto em Jerusalém contendo a inscrição “LYesha'yah[u] NVY[?]” em hebraico.  A primeira palavra claramente indica um substantivo próprio: (pertencente a) Isaías, mesmo nome do profeta bíblico. O segundo nome, caso seja inserido na interrogação a letra álef, deve ser traduzido como “profeta” (navy’). Neste caso deveríamos ler: “Pertencente a Isaías, o profeta”. Mazar sugere que a letra foi apagada pelo desgaste. Será?

Utilizei consoantes do alfabeto quadrático

É possível que no selo original constassem apenas as letras atualmente existentes (sem o álef supostamente omitido). Uma tradução possível seria “Isaías [ben] Navy” (Isaías [filho] de Navy). Selos desse período geralmente indicam o nome do proprietário seguido do nome de seu pai. A palavra “ben” (filho) por vezes é omitida por falta de espaço (o que não parece ser o caso neste selo). Confuso?

Você pode buscar mais informações a respeito da descoberta em dois grandes jornais de Israel, o Haaretz e o The Times of Israel. Um artigo de Mazar foi publicado na Biblical Archaeology Review.  O epigrafista Christofer Rollston revela-se cético em relação à tradução “Isaías, o profeta”. Jim Davila faz alguns comentários interessantes sobre o selo no Paleojudaica. Boa leitura.




Jones F. Mendonça

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

RESSENTIMENTO E RESIGNAÇÃO EM GAME OF THRONES

O texto descreve bem a mecânica do ressentimento na dominação de Theon Greyjoy por Ramsay Snow, em Game of Thrones:
O oprimido, reprimido, autoproduz em si um envenenamento anímico como resposta à violência que sofre. Nasce assim o ressentimento como introjeção autorrepressiva da potência que, não podendo voltar-se contra o dominador, ao incubar-se envenena o dominado. O ressentimento do envenenado não pode ser vivido nem como vício, que é, nem como pura passividade resignada. Sublima-se como virtude de paciência, obediência, disciplina, fidelidade (DUSSEL, Enrique Domingo. Filosofia da libertação, 1997, p. 61).


Jones F. Mendonça

CHRISTUS VICTOR: ARTE E CRISTOLOGIA


Desde o século XI, tanto na arte visual como na literatura, a cruz geralmente aparece como símbolo de dor, de violência e de morte (Christus Patiens). Nesta representação, bastante atípica para o século XVI, Cristo aparece associado à cruz com uma expressão triunfante, pisando a cabeça de satanás (Maarten de Vos, 1585). A imagem ilustra a capa da obra "Christus Victor" (1931), do teólogo sueco Gustaf Aulén.

Detalhes sobre a arte no site do The British Museum:



Jones F. Mendonça

domingo, 11 de fevereiro de 2018

BELEZA, JUÍZO E RESSURREIÇÃO DA CARNE


Luca Signorelli, assim como outros artistas do Renascimento, procurou retratar os ressurretos no dia do juízo final com seus corpos magnificamente transformados. Acima, tocando trombetas, você vê dois anjos saradões anunciando o juízo. Abaixo, alguns ainda atordoados, os corpos nus dos ressurretos são exibidos como atletas em calendário beneficente.



Jones F. Mendonça

CRUCIFICADOS NA USINA


A imagem acima mostra três crucificados à frente da estação de energia de Didcot, Reino Unido. Em primeiro plano aparecem pessoas lamentando o destino trágico dos crucificados. Roger Wagner deu a esta tela o título de Menorah. Você saberia explicar a razão deste título?



Jones F. Mendonça

LA CROIX VIVANTE


Esta representação (Hans Fries, “La Croix Vivante”) tem caráter singular por reunir em um só quadro alguns dos principais fundamentos da fé cristã de seu tempo. Além da crucificação, ao centro, você vê na parte inferior Cristo no Hades derrotando as forças do mal e libertando os "espíritos em prisão": limbo infantil e limbo dos patriarcas. Um sacerdote celebra a eucaristia na lateral esquerda e a espada divina perfura o pescoço (da morte?) e fere mortalmente (a besta?) na lateral direita.



Jones F. Mendonça

AUTOMUTILAÇÃO E DEVOÇÃO

Hoje as automutilações são tratadas no consultório psiquiátrico. Certas incisões na carne produzidas no ambiente religioso do século XVII foram tratadas como elevada expressão de piedade. A declaração a seguir vem de Veronica Giuliani, santa canonizada em 1839:
Assim peguei um canivete e fiz uma cruz sobre a carne do lado do coração e com o mesmo sangue escrevi assim: "Meu querido Jesus [...] agora para sempre me declaro vossa esposa [...]. Oh! Cruz santa, fazei-me sentir o vosso peso a fim de que eu possa me amoldar com meu Deus crucificado" ("Il mio Calvario", p. 166-8).
O museu Santa Veronica Giuliani ainda preserva a pedra de 13 quilos com a qual a santa mortificava a sua língua.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

CORPO COMO VITRINE, CORPO COMO CÁRCERE


O corpo humano como obra de beleza e perfeição é invenção dos gregos. Uma escultura clássica que revela a busca pela beleza ideal: O Hermes com o jovem Dionísio, de Praxíteles (séc. IV a.C.). A nudez não traz vergonha, desconforto.

Artistas renascentistas, tomando os gregos como modelo, passaram de novo a retratar a forma humana como a encarnação de algo superior. Um exemplo: O Davi de Michelangelo (1501-1504). O pequeno rei ruivo, como Hermes, não parece desconfortável com sua nudez.

Influenciado por ideias platônicas o cristianismo rejeitou a percepção otimista que se tinha do corpo. Repare nesta gravura (imagem acima) exposta na porta da catedral de Hildeshein, Alemanha: Deus aponta para Adão; Adão aponta para Eva; Eva aponta para a serpente. Homem e mulher procuram esconder sua nudez.

Os gregos percebiam o corpo como expressão da beleza. A tradição judaico-cristã via na pele nua expressão do pecado.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

COSTELA TORTA, VIDA TORTA

De acordo com o Malleus Maleficarum (Parte I, questão 6), um manual de exorcismo do final da Idade Média, a mulher está mais inclinada ao mal porque foi feita a partir de uma costela torta de Adão.  Uma tradição muçulmana diz que a mulher foi feita da costela que cobre o coração e assim  explicam sua inclinação sentimental. Tudo isso inventado por homens, claro...

A costelinha torta de Adão aparece nesta gravura de Meister Bertran (século XIV). 























Jones F. Mendonça

sábado, 30 de dezembro de 2017

JACÓ E ISRAEL: DOIS NOMES, DUAS TRADIÇÕES

Quem lê com atenção o livro de Gênesis percebe que a mudança do nome de Jacó para Israel ocorre duas vezes no livro: 32,28-29 (Jacó luta com um anjo) e 35,9-10 (Jacó chega a Betel). Veja: 
1. Ele lhe perguntou: “Qual é o teu nome?” – “Jacó”, respondeu ele. Ele retomou: “Não te chamarás mais JACÓ, mas ISRAEL, porque foste forte contra Deus e contra os homens, e tu prevaleceste”.
2. Deus apareceu ainda a Jacó, vindo de Padã-Aram, e o abençoou. Deus lhe disse: “Teu nome é JACÓ, mas não te chamarás mais Jacó: teu nome será ISRAEL”. Tanto que é chamado de Israel.
Outro fato curioso é que mesmo após ter seu nome mudado (cap. 32 e 35), Jacó continua sendo chamado pelo antigo nome nos capítulos posteriores (história de José: 37-50). Um exemplo: 
“JACÓ rasgou suas vestes, cingiu os seus rins com um pano de saco e fez luto por seu filho durante muito tempo” (37,34).
Confuso? Então leia este artigo do Dr. Tzemah Yoreh, publicado no The Torah.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

SIMÃO: DE “MAGO ARREPENDIDO” A “PAI DE TODAS AS HERESIAS”


Embora o livro de Atos apresente Simão, o mago, arrependido após tentar comprar com dinheiro um dom divino (At 8,9ss.), a tradição popular ampliou a narrativa e converteu Simão numa espécie de “pai de todas as heresias” (até do gnosticismo!).

Nos “Atos de Pedro”, um apócrifo do século III, Simão é dotado do poder da levitação, mas é derrubado pelas orações piedosas de Pedro. De acordo com a tradição, as marcas dos joelhos de Pedro em oração ainda podem ser vistas numa laje de mármore na Igreja Francesca Romana, na capital italiana.

Na Catedral de São Lázaro, Autun, França, foi esculpida esta representação (séc. XII), mostrando Pedro (com as chaves da Igreja) orando diante da queda de Simão (foto acima). Outra representação da cena, bem bonita e colorida, pode ser vista numa pintura do século XVIII, exposta na igreja de San Paolo Maggiore, em Nápoles, Itália, obra do artista local Francesco Solimena.



Jones F. Mendonça