sábado, 20 de setembro de 2014

DEPRESSÃO

Seu nome: Infortúnio.
Veio ao mundo cego, surdo e mudo.
Diziam que nascera predestinado às lágrimas,
mas sofria de obstrução congênita das glândulas lacrimais.
Seu choro, além de mudo, era seco.

No fim da vida casou-se com Desgraça,
filha de Funesto com Infelicidade.
Seus filhos: Tragédia, Desdita e Infesto.
A primeira era estéril, a segunda escrava da loucura.
E Infesto? Natimorto.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

IGOR SIWANOWICZ

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O EGITO, OS POVOS DO MAR E AS ORIGENS DE ISRAEL

Estela de Merneptah
Quem quiser entender a formação de Israel precisa estar atento à primeira metade de um período egípcio conhecido como “Novo Império” (1550-1070 a.C.). Com a expulsão dos hicsos, Ahmose I (1550-1525) fundou a 18ª dinastia, dando início ao período mais célebre e glorioso de toda a vida egípcia. Segundo algumas estimativas a população saltou de 1,5 milhão para algo em torno de 2,5 a 5 milhões de habitantes. Destacam-se nesse período: 1) as cartas de Amarna, uma série de correspondências entre os reis cananeus e os faraós Amenhotep III e IV;  2) A estela de Merneptah (1208), registro feito em granito que revela a existência de um grupo de pessoas (uma tribo?) reconhecido pelo nome de “Israel” contra o qual o faraó Merneptah se gabava de ter destruído em Canaã: “Israel está arruinada; sua semente já não existe mais”.

Por volta de 1200 a glória do Egito foi sendo gradativamente ofuscada por uma série de fatores, tais como o desgaste da estrutura palaciana-faraônica, exaustão dos recursos naturais e dos repetidos ataques dos líbios e dos chamados “povos do mar”, dentre os quais os filisteus, representados em relevos com grandes penachos e corpos esguios. O templo mortuário de Ramsés III, em Medinet Habu, registra o terror causado pelo avanço dos povos do mar:
Os setentrionais em suas ilhas estavam em dificuldade e se moveram em massa, todos ao mesmo tempo. Ninguém resistiu perante eles; de Khati (império Hitita) a Qode (Cilícia), Karkemish (cidade do Eufrates, no norte da Síria), Arzawa (reino da Ásia Menor), Alashiya (Chipre) foram devastadas. Dirigiram-se enfim para o Egito [...] os ânimos deles eram de confiança, cheios de projetos.

O Egito conseguiu repelir os povos do mar, mas não foi capaz de impedir que se instalassem na costa oriental do Mediterrâneo, região outrora administrada por funcionários sediados em Gaza, Kumidi e Sumura. É nesse cenário que devem ser buscadas as origens do povo que consolidou suas tradições numa obra complexa que é a Tanak (Bíblia hebraica). 


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

FUNDAMENTALISMO ISLÂMICO E FUNDAMENTALISMO CRISTÃO: TUDO IGUAL

O surgimento do fundamentalismo islâmico tal como conhecemos hoje está diretamente ligado à queda do império Turco Otomano em 1924. É fenômeno novo, portanto. Kemal Ataturk, pai da Turquia moderna; Nasser, do Egito e Reza Pahlevi, no Irã, caminharam em direção à separação entre a religião e o Estado, mas apenas a Turquia se manteve como Estado secular democrático (o Líbano é outro exemplo moderno). A maior parte das nações árabes (ou muçulmanas não–árabes, como a Turquia e o Irã), perdidas no processo de fragmentação do império otomano do qual faziam parte e sentindo-se humilhadas e exploradas pela Europa pós-guerra, viram nas suas escrituras sagradas a única solução para restabelecer a ordem: a instauração da Shari’a, a lei islâmica. A Irmandade Muçulmana, por exemplo, fundada em 1928, criou um slogan bem conhecido na órbita islâmica: “o Corão é nossa constituição”.

A expressão “fundamentalismo” quando aplicada ao universo cristão é fenômeno do final do século XIX. Nasce como tentativa de combater as transformações ocorridas na sociedade europeia a partir do Renascimento. Como entre os muçulmanos, trata-se de uma tentativa de manter as antigas tradições religiosas, morais e culturais, entendidas como fundamentais para a manutenção da ordem. No século XVII, pensadores como Spinosa e Voltaire começaram a questionar muitos dogmas da fé cristã. Algum tempo depois, nos séculos XIX e XX surgiram novas ideias vistas como ameaças à fé: a teoria da evolução, de Charles Darwin e o trabalho de pensadores como Feuerbach, Nietzsche, Karl Marx e Freud (todos foram críticos ferrenhos da religião).

Alarmados com a “ameaça modernista” - movimento que tentava compatibilizar a fé cristã com as novas descobertas científicas - foi criada, em 1846, a Aliança Evangélica. Em 1895 foram definidos cinco pontos fundamentais da fé cristã que estavam sendo questionados (ou pelo menos vistos de maneira menos rígida) pelos chamados “cristãos modernistas”: 1) Infalibilidade das Escrituras, 2) divindade de Cristo, 3) seu nascimento virginal, 4) seu sacrifício expiatório e 5) sua ressurreição física. Entre 1910 e 1915, com o financiamento de um milionário do ramo do petróleo, foram publicados três milhões de exemplares de uma coleção de livretos chamados “The fundamentals” (os fundamentos). O objetivo era apoiar a luta conservadora contra as posições liberais adotadas por algumas igrejas.

Mas o termo “fundamentalista” só surgiu em 1920, cunhado por um editor batista. Com o tempo o movimento foi ganhando mais adeptos e adotando ideias cada vez mais radicais.  Grupos anti-aborto cristãos norte-americanos, como o “Exército de Deus” e a ACLA, cometeram sequestros, ataques a clínicas de aborto e até homicídios sob o manto de um discurso “pró-vida” e “pró-família”. As duas guerras dos EUA contra o Iraque (1991/2003 – Bush pai e Bush filho) foram justificadas com discursos com nítido teor religioso. Observe que o fundamentalismo apoia seu discurso em textos religiosos como solução para algo visto como uma ameaça iminente à ordem e à paz (imigrantes negros, terrorismo, mudança nos costumes, etc,). Um judeu poderia justificar a guerra contra os palestinos citando o livro bíblico de Josué (Js 6,21). Um árabe muçulmano poderia citar o Corão justificando uma matança dos idólatras (Sura 9,5). Até mesmo um cristão poderia citar textos do Novo Testamento justificando a dissolução da família (Mt 10,35) ou a automutilação (Mt 5,29). Como se vê, tudo depende dos olhos e das intenções de quem lê.

Hoje, no Brasil, o fundamentalismo tem tomado conta do cenário político. O que é proibido pela religião – argumentam – deve ser proibido por lei. Com um discurso como esse o horizonte que se abre é tenebroso, muito tenebroso.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

CANTARES, UM LIVRO ÚMIDO

Livro bíblico de Cantares (Ct 5,2-4): Shulamit, já despida de sua túnica, está em seu leito. Ela dorme, mas seu íntimo está agitado (velibiy 'er). Shelomoh, seu amado, chega (à porta?). “Gotas da noite” escorrem pelos “anéis” de seus cabelos. Ele quer entrar. Shulamit hesita. Então ele mete a mão por uma fresta (da porta?). O corpo dela reage: “Minhas entranhas gemem por ele” (umeay hamu alayv). Com as mãos destilando mirra ela o busca. Mas é tarde demais... Ele se foi. 

Ele com cabelos molhados quer entrar. Ela não quer sujar os pés. 
Ele mete a mão por uma fresta. O ventre/entranhas dela gemem por ele. 
Ele se vai. As mãos dela, deslizando sobre a maçaneta do ferrolho(?), destilam mirra. 

Entrar/sair; voz que chama/pés reticentes; mão ousada/entranhas que gemem; cabelos cheios de orvalho/mãos que deslizam pelo ferrolho exalando mirra. Cantares, um livro cheio de ambiguidade e de sensualidade. Para os alegóricos: uma alusão ao amor de Cristo pela Igreja. Sabem de nada...


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

BAÚ DE NÉVOA

A utopia capitalista projeta o reino idílico não na sociedade perfeita, onde se reparte o pão, o teto e as alegrias. Seu tesouro, tecido com o fio dos sonhos, está além do arco-íris, guardado num baú de névoa, sob a proteção de dois querubins. Como é sonho egoísta, tem motor com potência infinita. O resultado: não há combustível que sacie essa sede.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

ATLAS HISTÓRICO DA BÍBLIA [E-BOOK]

Coisa rara é encontrar um bom livro de geografia bíblica que apresente a narrativa dos dois Testamentos sem a ingenuidade típica de grande parte que tem sido publicado. Fuçando aqui e ali me deparei com a obra “Atlas histórico de la Biblia” de José Ochoa. O autor, que é doutor em filosofia clássica e documentarista, produziu um volume para o Antigo e outro para o Novo Testamento. Neles você vai encontrar trechos de documentos produzidos pelos povos vizinhos, descobertas arqueológicas, gráficos e – óbvio - muitos mapas. A forma como Ochoa expõe sua obra é bem expressa na introdução:
Los libros de la Biblia sólo en parte pueden ser considerados fuente histórica, ya que el principal objetivo de sus textos es rememorar las intervenciones de Yahvé, el dios de Israel, durante aproximadamente un milenio. En este atlas histórico no nos vamos a ocupar del carácter de libro revelado de la Biblia, sino de los hechos históricos que en ella se pueden rastrear y de las evidencias que obtenemos de las culturas que compartieron los pueblos del Próximo Oriente Antiguo.
Gostou? Então baixe os dois volumes na página do autor (em PDF, espanhol).



Jones F. Mendonça

PIETER BRUEGEL E A VIDA CAMPONESA

O padrão era retratar a nobreza, o clero e as cenas religiosas, e então surge Pieter Bruegel (1525-1569) revelando a vida camponesa com suas alegrias, tristezas, paixões, dramas e o eterno conflito entre o prazer e a castidade num mundo governado sob cetro de ferro do cristianismo. A tela abaixo mostra crianças brincando (sim, houve um tempo em que elas brincavam...).

Mais de Bruegel aqui (clique em "search" e digite “Bruegel” no espaço “author”:


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

NOVA EDIÇÃO CRÍTICA DA BÍBLIA HEBRAICA [GRÁTIS E ONLINE]

Um novo projeto patrocinado pela SBL tem empolgado estudantes da Bíblia hebraica. Trata-se de um trabalho “contendo textos críticos de cada livro da Bíblia hebraica, acompanhados por extenso comentário da crítica textual e introduções para cada volume”. A HBCE (Hebrew Bible Critical Edition) não reproduzirá um único manuscrito (como é o caso das outras edições críticas, como a BHQ), mas pretende apresentar como resultado o mais antigo texto recuperável de um determinado livro (chamado de “arquétipo”). 

Considerando que as diferenças entre os manuscritos existentes foram produzidas pela mão do copista, será necessário corrigir erros e revisões deliberadas feitas no “texto original”, motivadas pelo desejo de explicar, atualizar, harmonizar e até mesmo expurgar do texto elementos indesejáveis. O primeiro volume concluído do projeto será lançado em outubro deste ano (o livro de Provérbios) e estará disponível numa versão eletrônica com acesso livre.

Mais aqui.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O NEOMEDIEVO E AS GUERRAS CÍNICAS

Como se não bastassem os delírios do Estado Islâmico em sua ambição pelo estabelecimento de um califado entre a Síria e o Iraque, o Boko Haram também proclamou um califado islâmico na Nigéria. Cabeças cortadas, corpos crucificados, mulheres escravizadas. Corsários empunhando bandeiras negras numa cruzada insana. Bem vindos ao "neomedievo". Enquanto isso, na banda "mais civilizada"...

Os EUA lançando seus poderosos aviõezinhos não tripulados, torturando suspeitos e espionando até mesmo a latrina dos seus aliados. Israel construindo muros e lançando mísseis num povo moribundo. A Europa agonizando em dívidas, desemprego e desaceleração da economia. A América Latina tentando romper antigos grilhões. O Dragão e o Urso exibindo garras e dentes afiados. Bem vindos à terceira guerra mundial “estilo light pulverizado”.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

DIVERSA PONDERA

Notícia 1: “O exército de Israel demoliu as casas dos palestinos suspeitos do assassinado dos três meninos israelenses”. 

Ouço uma voz: “Bem feito, é isso o que as famílias desses árabes terroristas merecem”. 

Notícia 2: “As casas dos israelenses suspeitos pela morte do menino palestino não serão derrubadas” (É que a lei só se aplica aos palestinos). 

Ouço uma voz?


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

A RELIGIÃO DOS YAZIDIS

Templo yazidi, em Lalish
O povo Yazidi - principal vítima dos jihadistas do norte do Iraque - possui uma religião muita antiga e curiosa. Ao que parece mescla elementos do zoroastrismo (religião dualista persa), sufismo (misticismo islâmico), gnosticismo (vertente esotérica do cristianismo muito difundida no segundo século) e outras tradições religiosas, talvez até mesmo pré-zoroástricas.

Um relato yazidi conta que Deus criou sete seres angelicais. Um deles, Tawûsê Melek , foi orientado por Deus a não se curvar a outro seres. Quando Adão foi formado, todos os demais seres angelicais se curvaram a ele, exceto Tawûsê Melek. Tal postura foi elogiada pelo Criador, que lhe ofereceu o posto de representante de Deus na terra (na tradição islâmica Iblis, um ser angelical, foi condenado - e não elogiado - por uma postura semelhante).

O fato de cultuarem um anjo que desceu do céu (Tawûsê Melek ) contribuiu para que cristãos e muçulmanos os tomassem como adoradores de satã. Essa é uma das razões do ódio (obviamente injustificável) que os extremistas islâmicos cultivam pelo povo yadizi. No passado os yazidis também foram perseguidos pelos otomanos e por líderes curdos.  

Belas fotos, aqui, aqui e aqui.

Um site com muitas informações e fotos aquiaqui.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

HOMO SAPIENS, HOMO DEMENS

Arte: James Jean
O Estado Islâmico, grupo terrorista surgido durante a ocupação americana na Iraque, talvez seja uma das mais radicais formas de fundamentalismo religioso já surgida. As imagens e relatos que chegam até nós são assustadoras. Eles decapitam soldados sírios, crucificam cristãos, escravizam mulheres, enterram vivo o povo yazidi do norte do Iraque e fuzilam sem piedade xiitas, ramificação do islã que mais odeiam. Trata-se de um verdadeiro exército terrorista. Seu plano: fundar um califado (governo teocrático islâmico) numa região que abarca os territórios do Iraque e da Síria.

Mas é um erro pensar que o fundamentalismo é coisa exclusiva do islamismo ou até mesmo da religião. Na Idade Média religiosos torturavam hereges, “bruxas” e outros inimigos da Igreja sob a bandeira do cristianismo. A Alemanha de Hitler perseguia judeus, negros, idosos e doentes mentais com um apelo nacionalista, incutindo na mente do povo a idéia de uma suposta superioridade racial do povo alemão. Aqueles que supõem que o homem moderno alcançou elevado nível de civilidade parecem estar enganados. Estará o homem - filho da “diáspora pré-histórica” - condenado a oscilar ad eternum entre a sapiência e a demência?



Jones F. Mendonça

sábado, 9 de agosto de 2014

AVICII - HEY BROTHER

AVICII - WAKE ME UP

OS PORTÕES DE NÍNIVE


A antiga cidade de Nínive era cercada por uma muralha de pedra e tijolos equipada com 15 portões monumentais. Este da foto é o portão de Nergal (deus da doença, da guerra e da morte), adornado com esfinges de pedra (os Lamassu). Trata-se de uma reconstrução conjectural feita no século XX.  A Nínive antiga (famosa pelo relato do profeta Jonas), construída às margens do rio Tigre, é a moderna Mosul, atualmente ameaçada pelo Estado Islâmico, grupo ultra-radical também conhecido como ISIS ou ISIL ("filhote" da Al Qaeda, nascido durante a ocupação americana no Iraque).

Veja cinco dos quinze portões de Nínive (Mashki, Nergal, Adad, Shamash e Halzi) no Google Maps aqui

Jones F. Mendonça

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

LIMPEZA ÉTNICO-RELIGIOSA NO IRAQUE

O “Estado Islâmico” (antigo ISIS) - grupo fundamentalista islâmico de origem sunita - vem promovendo uma limpeza étnica no Iraque. As vítimas: xiitas, alauitas, cristãos e principalmente o povo yazidi (membros de uma religião que mescla elementos do zoroastrismo e do sufismo), do norte do país. Em Gaza já morreram aproximadamente duas mil pessoas em algumas semanas. No Iraque morre a mesma quantidade em apenas um dia. Assustador.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 5 de agosto de 2014

HEREM, CRUZADAS E GIHAD: CADA QUAL COM SUA GUERRA SANTA

Karl Barth na Time
Os judeus jamais foram vistos com bons olhos pelos cristãos. Foi assim nos primeiros séculos, foi assim durante a Reforma (sobretudo com Lutero), foi assim até a Segunda guerra Mundial. Karl Barth, em seu texto “A questão dos judeus e sua resposta cristã” (1949) talvez tenha sido o primeiro a romper com essa “teologia antijudaica” Mas a reflexão de Barth também marcou uma virada de mesa.

Criou-se, a partir da fundação do Estado judeu (1948) e da consequente reação hostil de países como Jordânia, Egito, Síria e Iraque, o mito de que árabes (muçulmanos) e judeus são inimigos eternos. Ora, do século VII até o século XX (com algumas interrupções), a Palestina foi submetida ao domínio muçulmano: Inicialmente árabe (a partir do século VII); depois turco (a partir do século XVI). Judeus sofreram perseguições tanto na Europa cristã como na Palestina muçulmana. A mais cruel e sangrenta veio de um país protestante: a Alemanha de Lutero dominada por Hitler.

Estamos no século XXI e ainda há quem busque em suas letras sagradas (seja muçulmano, seja judeu, seja cristão) as razões para conflitos que tem origem política e econômica. No caso particular dos cristãos há algo curioso. Até o final da Segunda Guerra Mundial: “judeus estão pagando pela crucificação de Cristo”. Depois disso: “o exército de Israel é o exército de Deus”. Pobre mente bipolar.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 31 de julho de 2014

segunda-feira, 28 de julho de 2014

É TUDO IGUAL... MAS SÓ PARA OS OUTROS

Zeca é cristão católico apostólico romano e odeia ser confundido com evangélicos pós-denominacionais. Maneco é cristão protestante batista tradicional e não suporta ser confundido com membros do deuteropentecostalismo. Silva é espírita kardecista e fica indignado quando é confundido com um umbandista ou seguidor do candomblé. Samuel é judeu liberal e fica uma fera quando o confundem com um sefardita haredi.

Mas Zeca, Maneco, Silva e Samuel acham que árabes são todos iguais. Que militantes armados como o Hezbollah, Hamas, Gihad islâmica, ISIS e Al Qaeda lutam pela mesma causa. Que xiitas, sunitas, alauitas, drusos e sufistas são todos fanáticos religiosos. Que iraquianos, sauditas, sírios, palestinos, jordanianos, libaneses e iranianos são um só povo.  

Que falta faz Aristóteles...



Jones F. Mendonça

A TEOLOGIA DEUTERONOMISTA ONTEM E HOJE II

A comunidade ortodoxa haredi atribuiu a morte dos três meninos israelenses no mês passado aos pecados dos seus pais: “Eles causaram a morte de seus filhos, e eles devem fazer teshuvá [se arrepender] por suas ações”.


A “boa” e velha teologia deuteronomista. Há algo novo debaixo do sol?


Leia no The Jewish DailyForward.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A TEOLOGIA DEUTERONOMISTA ONTEM E HOJE

Uma das características da teologia deuteronomista - lente por meio da qual foi interpretada a história de Israel da posse da terra ao exílio (Js – Rs) - é a teologia da retribuição, inspirada em textos do Deuteronômio (como Dt 28,15). A mão do deuteronomista é rara no tetrateuco, mas em Nm 11,1-3 ela aparece com toda a sua força: 
1 Depois o povo tornou-se queixoso, falando o que era mau aos ouvidos do Senhor; e quando o Senhor o ouviu, acendeu-se a sua ira; o fogo do Senhor irrompeu entre eles, e devorou as extremidades do arraial. 2 Então o povo clamou a Moisés, e Moisés orou ao Senhor, e o fogo se apagou. 3 Pelo que se chamou aquele lugar Tabera, porquanto o fogo do Senhor se acendera entre eles.
A sequência: falta/sanção/intercessão/cura, é clara: 1) O povo fala mal de Moisés, 2) Javé pune o povo com fogo, 3) Moisés intercede pelos faltosos, 4) a ira de Javé é aplacada e o fogo se apaga. A teologia deuteronomista ainda faz sucesso, principalmente nas igrejas neopentecostais. A diferença é que no antigo Israel a ira de Javé era aplacada com jejuns, orações, sinais de humilhação e arrependimento. Hoje isso é feito com dinheiro. Não sei se ficou mais caro ou mais barato.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 24 de julho de 2014

PARA ULTRA-ORTODOXOS JAVÉ AINDA É O SENHOR DA GUERRA (MAS NÃO DO DINHEIRO)

Shalon Cohem, líder do Shas, um partido religioso de Israel, disse que o país não precisa de um exército para protegê-los, afinal “É Deus todo-poderoso que luta por Israel”. Uri Regev, o diretor-geral da Hiddush - organização que defende a liberdade religiosa e a igualdade -, não perdeu tempo: 
Se o país não precisa de um exército, então não há dúvida de que as yeshivas (escolas religiosas) e estudantes da Torá não precisam de auxílio financeiro [...]. A partir de agora eles podem colocar a sua fé no Senhor quando se trata de pedir dinheiro para financiar os seus sistemas de ensino. Vamos ajudar os ultra-ortodoxos a fazer fervorosas orações para que o dinheiro comece a crescer em árvores.

Falou o que não devia, ouviu o que não desejava.

Leia no The Jerusalem Post (link já traduzido pelo Google):  



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 23 de julho de 2014

A PALESTINA NUNCA EXISTIU?

Não dá para compreender os conflitos que atualmente assolam o Oriente Médio  sem conhecer a história da ascensão e queda do Império Otomano e a divisão de parte de seu território entre a Grã-Bretanha, a Itália e a França. Ao contrário dos judeus vindos da Europa, acostumados com a noção de Estado-Nação, os habitantes árabes da Palestina (até o final da Primeira Guerra Mundial) viviam em vilas ou cidades multi-religiosas e sem fronteiras pertencentes ao Império Otomano. Mas o fato de não possuírem (como os judeus que migraram para a Palestina) a noção que o mundo moderno tem de "Estado nacional" implica na negação da existência do povo palestino? 

Uma excelente explanação a respeito do tema pode ser lida no Blog de Guga Chacra


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 18 de julho de 2014

AS CARTAS DE AMARNA, OS REIS CANANEUS E A FORMAÇÃO DE ISRAEL

Em 1887, cerca de 350 tabuletas de argila foram encontrados em el Amarna, capital do faraó Akhenaton. Elas foram escritas em caracteres cuneiformes na linguagem diplomática, o acadiano. A maior parte dessas correspondências foi datada para os reinados de Amenhotep III (1402-1364) e Akhenaton (Amenhotep IV, 1350-1334). Atualmente encontram-se expostas em museus europeus (200 em Berlim, 80 no Museu Britânico e vinte em Oxford). 

Esses documentos refletem a ativa correspondência entre a administração egípcia e seus representantes em Canaã e Amurru. Também revelam o estado das relações internacionais entre o Egito e as grandes potências do Oriente Médio (Babilônia, Mitani e Assíria) e os países menores, como Arzawa no oeste da Anatólia. 

Um dos problemas enfrentados pelos reis cananeus no final do século XIV a.C. era a ameaça que vinha dos ‘apiru (pessoas de origem variada, fora da ordem social - os hebreus?), como atesta este carta escrita pelo rei Abdu-Heba, de Jerusalém: 
Os ‘apiru saqueiam os territórios do rei. Se houver arqueiros [aqui] este ano, todos os territórios do rei permanecerão [intactos]; mas se não houver arqueiros, os territórios do rei, meu Senhor, estarão perdidos! 

Uma excelente obra que relaciona as cartas de Amarna ao contexto político, social e econômico de Canaã no Bronze Recente, pode ser encontrada em “Para além da Bíblia”, de Mario Liverani (aqui, aqui e aqui). As cartas de Amarna estão disponíveis (em inglês), neste site.


Jones F. Mendonça

APRENDA A LER HIERÓGLIFOS

Lições introdutórias, fontes, exercícios, documentos como a Estela de Metnephah e a história de Sinuhe, aqui


Jones F. Mendonça

A GUERRA EM GAZA FOI UMA ESCOLHA DE ISRAEL E DO OCIDENTE

Resumo da análise de Nathan Thrall, do Instituto Crisis Group, publicada no New York Times (17/07/2014):

Diante do enfraquecimento da aliança do Hamas com a Síria e o Irã; do fim do apoio da irmandade muçulmana que governava o Egito (caiu após um golpe em julho de 2013) e o consequente fechamento dos túneis que abasteciam Gaza com suprimentos e armas, o Hamas se viu cada vez mais isolado, passando a ser alvo de protestos populares em Gaza. A alternativa encontrada pela liderança do grupo foi abrir mão do controle oficial do território, daí a aliança entre o grupo islâmico e a OLP. No intuito de minar o acordo, Israel suspendeu o salário de 43 mil funcionários públicos que trabalhavam para o governo do Hamas em Gaza. O Hamas, encurralado e sem nada a perder, buscou através da violência o que não foi possível pela via política. Ele conclui: 
The current escalation in Gaza is a direct result of the choice by Israel and the West to obstruct the implementation of the April 2014 Palestinian reconciliation agreement.



Jones F. Mendonça