quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

SOBRE DEUSES E HERÓIS

Thor é uma divindade do panteão nórdico associada à tempestade, ao trovão e à chuva. Nos países de língua inglesa e alemã deu nome ao quinto dia da semana, chamado de “dia de Thor” (Thursday/Donnerstag). O filho de Odin também faz sucesso no cinema, encarnado no corpo do galã Chris Hemsworth.

Ogum é uma divindade africana, senhor da guerra, dos metais, da agricultura e da tecnologia. Uma escola qualquer, numa cidade qualquer, resolveu distribuir revistas em quadrinhos tendo como herói a divindade africana. A ideia é difundir a cultura que herdamos desse continente. Os religiosos da cidade torceram o nariz. Disseram que o governo está incentivando o culto a Satanás.

Thor, deus nórdico, é herói. Ogum, deus africano, é diabo. Como assim?



Jones F. Mendonça

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

BOOGARINS - LUCIFERNANDIS

Na versão da Bíblia escrita em latim a palavra "lucifer" (=portador da luz) aparece apenas três vezes: 1) Em Is 14,12 designa o rei da Babilônia, que é comparado a uma estrela em queda 2) Em Jó 11,17, como símbolo para a luz que brilhará sobre Jó caso ele reconheça seus pecados e os confesse a Deus, 3) Em 2Pe 1,19, como alusão à plena revelação do Cristo que iluminará os corações dos que lhe forem fiéis. Diabo? Nem pensar. 

A banda goiana Boogarins - aparentemente em tom de provocação - deu à sua canção mais conhecida o título de Lucifernandis (Luci Fernandis ou lucifer nandis?). Trata-se de uma espécie de rock-baião-psicodélico. Não sei o que a palavra lucifer faz no título da música, mas que o som que os garotos fazem é pra lá de interessante, ah, isso é!

INQUISIÇÕES DE UM CRISTÃO REFORMADO

O Grande Caçador de Heresias construiu uma máquina do tempo. Foi à Palestina do primeiro século e condenou o comportamento de Jesus. O motivo: o Nazareno bebia vinho, comia com malfeitores e deixou de confrontar uma pecadora, que não só lavou seus pés com lágrimas como os secou com seus cabelos. O pecado: o escândalo. A pena: a fogueira.

O Grande Caçador de Heresias fez nova viagem. Foi à Alemanha do século XVI e reprovou o comportamento de Lutero. O motivo: o monge agostiniano convertia canções populares em hinos sacros, bebia cerveja enquanto traduzia a Bíblia para o alemão e acreditava no poder das bruxas. O pecado: o mundanismo. A pena: o caldeirão de azeite fervendo.

Tantas outras viagens fez o Grande Caçador de Heresias. Condenou, apontou o dedo, fez denúncias. Qualquer comportamento suspeito, por menor que pudesse parecer, ganhava a atenção de seus olhos sempre vigilantes. Certo dia - por um instante - tratou de cobiçar mulher que não era a sua. Lembrou-se de Mt 5,29 e, num movimento impetuoso, arrancou seus olhos com um marcador de Bíblias. Terminou a vida cego dos olhos, como sempre fora do coração.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

SENECA SAEPE NOSTER: ESTOICISMO, CASTIDADE E DEMÔNIOS

O livro deuterocanônico de Tobias na versão de Jerônimo (Vulgata Latina) possui uma passagem muito curiosa a respeito da primeira noite de núpcias de Tobias e Sara. Temendo o demônio Asmodeu, que sempre tira a vida dos pretendentes de Sara, Tobias põe o coração de um peixe sobre a brasa do defumador (seguindo o conselho do anjo Rafael, seu protetor) e ora ao Senhor pedindo-lhe misericórdia e salvação. Após três dias de oração Tobias declara: “vós sabeis, ó Senhor, que não é para satisfazer minha paixão que recebo minha prima como esposa, mas unicamente com o desejo de suscitar uma posteridade”. Só então a união é consumada. No final da história Tobias sobrevive à noite de núpcias derrotando o demônio Asmodeu. Essa declaração, que não aparece em códices gregos do século IV, foi inserida por Jerônimo (347-420 d.C.) com o propósito de fazer apologia à continência sexual.

Mas afinal, que medida tomada por Tobias foi capaz de livrá-lo das garras de Asmodeu: 1) O coração do peixe queimado sobre a brasa do defumador? 2) A oração piedosa? 3) a continência sexual que durou três dias? 

Jerônimo, que chegou a dizer (citando Xystus) que “aquele que é muito ardente com sua própria esposa é adúltero” (Contra Joviniano, I, 49), certamente escolheria a terceira opção. Um manual católico do século XIX, seguindo a interpretação dada por Jerônimo, diz claramente que o livramento na noite de núpcias deu-se “por causa da continência dos recém-casados” (Kirchen-Lexicon, 1899). Justino Mártir (100-165 d.C.), bem antes de Jerônimo, já aconselhava: “Nós, ou nos casamos desde o princípio para a única finalidade de gerar filhos, ou renunciamos ao matrimônio, permanecendo absolutamente castos” (Apologia I, 29).  

Mas é um erro pensar que os cristãos foram os pioneiros na valorização da abstinência sexual. Musonius Rufos (ou Musônio Rufo), professor de filosofia estoica de muitos legisladores romanos, declarava que “o ato sexual tem que ser um ato de procriação” (Sobre a indulgência sexual, Discurso XII). Nesse mesmo texto Musonius também condena a relação sexual entre homens, tida por ele como “coisa monstruosa e contrária à natureza” (o texto lembra Rm 1,26!). Sêneca, outro estoico, escrevendo a sua mãe Hélvia, assim se pronunciou em relação ao prazer sexual: “se refletires que o prazer sexual não foi dado ao homem para o gozo ou a fruição, mas para a propagação da espécie, então a luxúria não te tocou com seu sopro envenenado, aquele outro desejo também passará por ti sem te tocar” (Consolação a Hélvia).

Ao que parece, Paulo e os Pais da igreja, fortemente influenciados pelo ideal de pureza herdado dos filósofos gregos (particularmente dos estoicos), foram os grandes responsáveis pela visão negativa a respeito da atividade sexual no imaginário religioso medieval. Oração e abstinência – pensavam alguns dos primeiros líderes cristãos - são armas poderosas na luta contra os dardos inflamados do diabo. Mas o “remédio” tem efeitos colaterais. Efeitos, aliás, que ainda pipocam com muito vigor no seio da cristandade.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A FENDA DE JAVÉ



Zé Bobinho está tentando compreender o livro do Êxodo, mas está confuso. Em Ex 33,11 Moisés fala com Javé “face a face, como um homem fala com um amigo” (Nm 12,8 chega a dizer que Moisés contemplou a forma - a temunah - de Javé!). Mas em 33,20 o mesmo Javé diz (a Moisés?): “Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum pode ver a minha face e viver”. Na sequência Javé é visto apenas “pelas costas” (em hebraico, ahor = parte de trás) depois de ter passado por cima de uma fenda na rocha.

Trata-se de um texto estranho, não é mesmo?

Para ouvir uma explicação para lá de escandalosa (mas com boa dose de coerência), assista ao debate entre Paulo Nogueira (UMESP) e Osvaldo Luiz Ribeiro (Faculdade Unida), em mesa da ABIB. O primeiro defende uma interpretação focada no leitor, aquele a quem é incumbida a tarefa de “ativar criativamente a memória potencial do texto”, resgatando suas “potencialidades dormentes” e preenchendo “as lacunas do não dito” (quem leu “Hermenêutica Bíblica”, de Croatto, conhece bem esse tipo de abordagem). O segundo, uma interpretação que olhe para o texto como janela para o passado, capaz de revelar o contexto em que ele nasceu e as intenções ocultas (ou perversamente ocultadas) pelas teias do tempo/pena do sacerdote.




Jones F. Mendonça

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

PAIXÃO, ÊXTASE E EXPERIÊNCIA RELIGIOSA


A escultura “Êxtase de Teresa d’Ávila”, de Bernini (1645 a 1652), é capaz de deixar atônitos os visitantes da capela Cornaro, na Igreja de Santa Maria Vitória, Roma. A freira retratada na obra foi uma mística cristã do século XVI (1515-1582), famosa pela frase: “toda a miséria do presente é suportável pela esperança do beijo divino”.  A escultura de Bernini foi inspirada na autobiografia de Teresa. Eis trecho da (estonteante!) descrição de sua visão: 
Via um anjo ao pé de mim, ao lado esquerdo, em forma corporal [...] Vi-lhe nas mãos um grande dardo de ouro, e na ponta da arma pareceu-me ver um pouco de fogo. E parecia que mo enfiava pelo coração algumas vezes e me chegava até as entranhas. Ao tirá-lo, cuidava eu que as levava consigo e me deixava toda abrasada num grande amor de Deus. A dor era tão forte que me fazia soltar gemidos; e tão excessiva a suavidade que me deixava aquela dor infinita [...]. Não é dor corporal, mas espiritual, embora o corpo não deixe de ter participação e grande. É um trato de amor tão suave que passa entre Deus e a alma que, suplico eu à sua bondade, faça-o gozar a quem pensar que estou mentindo.
Um século depois que Bernini criou a escultura, Chevalier de Brosses, aristocrata francês de passagem por Roma, olhou para a santa e disse: “Bom, se isso é amor divino, eu sei muito bem como é”. 


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

JOSÉ E ASENATH: JESUS E MADALENA?

Diante da postura sensacionalista de boa parte da mídia em relação ao suposto evangelho perdido de Jesus que revela seu casamento com Maria Madalena, reuni aqui o que se tem dito sobre o documento:
1) O manuscrito, com 1450 anos de idade, esteve no Museu Britânico e mais tarde na Biblioteca Britânica desde 1847.
2) Foi escrito em siríaco, um dialeto aramaico falado no sudeste da Turquia desde o primeiro século, mas que só ganhou importância literária após o terceiro século.

3) Argumenta-se que foi traduzido de um texto grego mais antigo. Barrie Willson e Simcha Jacobovici, responsáveis pela publicação do livro, sugerem que seja a tradução de um original do primeiro século, escrito por um dos seguidores de Jesus antes mesmo da redação dos Evangelhos canônicos.

4) A tradução, publicada pela editora Pegasus, foi feita por um dos maiores estudiosos siríacos do mundo, o professor Tony Burke, da Universidade de York, Toronto. 
5) No manuscrito, “Maria Madalena” é a estrela principal - e não “Jesus”. Neste evangelho", ela é chamada de "A Mãe das virgens" e "Nossa Senhora". Willson e Jacobovici levantam a seguinte suspeita: “Será que esses títulos - hoje associados à Virgem Maria - originalmente pertenciam à esposa, não a mãe?”.

6) No item anterior “Maria Madalena” e “Jesus” são colocados entre aspas porque no manuscrito os nomes que aparecem são “José” (filho de Jacó) e “Asenath” (filha de Potifar). A narrativa seria uma alegoria, referência velada a Jesus e Madalena. 
Todas essas informações, é claro, precisam ser submetidas a uma criteriosa análise crítica. Parecem-me um tanto quanto suspeitas as declarações que colocam as origens no manuscrito no primeiro século, tendo como autor um seguidor próximo de Jesus. Que tipo de evidências podem ser apresentadas para legitimar essa declaração?    

Nos Evangelhos, Maria Madalena aparece: 1) na crucificação de Jesus (Mt 27,56; Mc 15,40; Jo 19,25); 2) Sentada diante de sua sepultura (Mt 27,61; Mc 15,47); 3) Novamente no sepulcro, agora para ungir o seu corpo (Mc 16,1), 4) diante do Jesus ressurreto, sendo a primeira a vê-lo (Mc 16,9, Lc 24,10; Jo 20,1.18) e 5) sendo exorcizada por Jesus, que expulsou dela 7 demônios (Lc 8,2).  Madalena é algumas vezes associada à “mulher pecadora” anônima que regou os pés de Jesus com lágrimas, os secou com seus cabelos e depois os ungiu com bálsamo (Lc 7,37-38), embora isso não fique claro no texto.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

PROFETAS E PROFECIAS NO ANTIGO ORIENTE PRÓXIMO [E-BOOK]

"Profetas e profecias no Antigo Oriente Próximo" é mais um livro que pode ser baixado gratuitamente no site da SBL. Abaixo um breve resumo:
A profecia foi um fenômeno muito difundido, não só no antigo Israel, mas em todo o Antigo Oriente Próximo. Este é o primeiro livro a reunir fontes extra-bíblicas contendo palavras proféticas ou referências a atividades proféticas no Antigo Oriente Próximo. Entre os 140 textos incluídos neste volume estão oráculos dos profetas, cartas pessoais, inscrições formais e documentos administrativos da antiga Mesopotâmia e Levante do segundo e primeiro milênios a.C. A maioria dos textos vêm de Mari (século XVIII a.C.) e Assíria (sétimo século a.C.). Além disso, o volume fornece novas traduções do relatório egípcio de Wenamun, por Robert K. Ritner, e de vários textos da Síria-Palestina contendo alusões a profetas e atividades proféticas, por CL Seow. Ao coletar e apresentar evidências das atividades dos profetas e do fenômeno da profecia de todo o antigo Oriente Próximo, o volume ilumina o fundo cultural da profecia bíblica e seus paralelos. 


Jones F. Mendonça

RITUAL E CULTO EM UGARIT [E-BOOK]

Ritual e culto em Ugarit” pode ser baixado gratuitamente na SBL. Segue um breve resumo: 
Os textos rituais ugaríticos refletem a prática de um culto sacrificial na cidade de Ugarit (Síria) no final dos séculos XII e XI a.C. Além dos textos estritamente rituais, que foram compostos em prosa e de uma forma muito lacônica, também aparecem uma série de textos poéticos, revelando a ligação ideológica que existia entre a prática cultual e o conceito de realeza. Enquanto os textos rituais em prosa documentam um sistema regular de oferendas para as grandes divindades do panteão, diretamente relacionado com o ciclo lunar e menos diretamente com o ano solar, alguns dos textos poéticos revelam o desejo por parte dos reis de Ugarit de manter os laços com os seus antepassados ​​falecidos. Os reis viam o seu poder efetivo como um continuum dos antepassados ​​reais e a passagem deste poder como sendo efetuada pela prática ritual. Outras preocupações seculares também foram abordadas ritualmente, como proteger cavalos ou outros equídeos de picada de cobra, encontrar uma cura para uma criança doente, ou defender as pessoas do ataque de feiticeiros. A prática da adivinhação em Ugarit é documentada por outros textos, tanto na forma de "manuais", coleções de presságios, e na forma de relatos de consultas do mundo real com um sacerdote-adivinho, feita por alguém em busca de orientação.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

TEL BURNA: EDIFÍCIO PÚBLICO, CASA OU TEMPLO?

A descoberta de um enorme complexo com 3.300 anos de idade no sítio arqueológico de Tel Burna (uma antiga fortaleza judaíta) ao leste de Kiryat Gat, no centro de Israel, tem dado o que falar.  Nas ruínas de um antigo edifício foram encontrados restos de animais queimados e objetos de culto pagãos, levantando suspeitas de que a construção tenha sido usada como local de culto a Baal ou Anat. De acordo com Itzhaq Shai, arqueólogo que dirige a escavação: "Neste momento é difícil dizer se era um lugar público, a casa de um aristocrata ou um templo".

Leia mais aqui e aqui.



Jones F. Mendonça

sábado, 1 de novembro de 2014

REFORMA?

Assim começou a Reforma: fim as indulgências, livre exame, rejeição às alegorias delirantes (sui ipsius interpres), busca pelos manuscritos escritos nas línguas originais (ad fontes), reforma diária e incessante (ecclesia reformata semper reformanda), etc. Então perceberam que o rebanho não precisaria mais de curral. Solução: elaborar confissões doutrinárias pétreas, manuais de interpretação bíblica para evitar “desvios”, novos dogmas infalíveis, etc.

E tudo voltou a ser como dantes no quartel de Abrantes.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

ZÉ BOBINHO E O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Zé Bobinho adora postar fotos de dias comemorativos no Facebook. É primavera: flores com abelhinhas lambuzadas de pólen. É dia internacional da mulher: beldades sorridentes com batom escarlate. É dia do soldado: fardados perfilados e bem alinhados com fuzis no ombro. É dia da consciência negra: [...].

Bem, neste dia Zé Bobinho fica extremamente irritado. Acha bobagem um dia da consciência negra. E protesta: Por que não um dia do amor? Da solidariedade? Do humano?

Confesso que não entendo Zé Bobinho (mentira, na verdade entendo muito bem o que se passa em sua cabeça).


Jones F. Mendonça

OS MANUSCRITOS DE KETEF HINOM (MANUSCRITOS DE PRATA)

Escavações feitas em Jerusalém por Gabriel Barkay no final da década de 70 revelaram a existência de dois importantes amuletos datados para o século VI ou VII a.C.  Ambos foram encontrados em Ketef Hinom, região que tem vista para o Vale do Hinom. O achado contém uma folha de prata com um texto (com ligeiras modificações) do livro bíblico de Números (Nm 6,24-26), passagem conhecida como “bênção sacerdotal” ou “bênção aarônica”. 
O Senhor te abençoe e te guarde;
O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti;
O Senhor levante sobre ti o seu rosto, e te dê a paz.
O documento não prova que o livro de Números (muito menos todo o Pentateuco) já estava concluído no século VI ou VII, e nem que Moisés foi seu autor. Revela apenas que o trecho em questão era conhecido pelos dos hebreus do período pré-exílico.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

MACHO ALFA E O CRISTO ROSA

Macho Alfa foi ao Corcovado e viu o Cristo com iluminação rosa. Começou a gritar: “conspiração gay! Conspiração gay! Isso é coisa do PT, do Jean Wyllys...”.

Uma senhora, percebendo o que se passava no fundo da alma do rapaz, não perdeu tempo: “Calma, meu jovem, segura essa franca enrustida. A nova iluminação é apenas parte de uma campanha mundial para a conscientização do câncer de mama”.

Pobre Macho Alfa. Ainda não se deu conta que essa negação exacerbada do que está fora revela uma afirmação que pulsa por dentro.



Jones F. Mendonça

sábado, 25 de outubro de 2014

PROFECIA E POESIA

Ele poderia ter dito: 
“Babilônia, tu vai se arrebentá. Mardita cidade dos infernos!”.

Mas ele disse: 
“Desce, e assenta-te no pó, ó virgem filha de Babilônia; assenta-te no chão sem trono, ó filha dos caldeus, porque nunca mais serás chamada a mimosa nem a delicada. Toma a mó, e mói a farinha; remove o teu véu, suspende a cauda da tua vestidura, descobre as pernas e passa os rios. A tua nudez será descoberta, e ver-se-á o teu opróbrio”.

Preferiu dizer com elegância, com belas metáforas, com poesia. Que falta fazem os profetas às igrejas.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

PR BOBINHO E A EXEGESE DE CABRESTO

Pr Bobinho, inspirando-se na pregação do Silas Malapacas, também sobe ao púlpito e grita um versículo tomado do livro das Crônicas: “todas as cidades, pelas suas famílias, foram treze” (1 Cr 6,60). E arremata com um malabarismo exegético: “É isso aí, mermão, como diz na Palavra: vote 13! Pelo bem das famílias”.

PS – o episódio descrito acima é mera ficção, mas expressa o tipo de leitura que se faz em boa parte das igrejas.



Jones F. Mendonça

QUEM ESCREVEU O PENTATEUCO?

Duas matérias publicadas no Haaretz (30/06/11 e 22/10/2014) certamente despertarão o interesse de quem está dando os primeiros passos no estudo do Antigo Testamento: "Who Wrote the Torah?" e " Israeli software supports theory that Bible was written by multiple authors". 

Segue trecho: 
Mesmo uma leitura superficial do Pentateuco, cinco primeiros livros da Bíblia hebraica, mostra que a Torá não pode ter sido escrita por uma única pessoa [...] 1) A linguagem utilizada em diferentes trechos varia muito; 2) Variação ideológica; 3) Contradições na narrativa; 4) Texto estranhamente repetitivo em algumas partes, sem nenhum motivo aparente, indicando que duas versões de uma única história foram unidas.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 21 de outubro de 2014

MALAPACAS E A ALEGORIA DE CABRESTO

Malapacas sobe ao púlpito. Quer convencer os fiéis que seu candidato foi indicado por Deus. Cita o Gênesis, capítulo dezoito, verso vinte e oito: “Não destruirei a cidade, se eu achar ali quarenta e cinco”. Diz que o texto esconde um mistério: “presta atenção, rapá, a Palavra tá dizendo: só o 45 poderá salvar a nação!”. Os fiéis vão ao delírio. Inventou o voto de versículo.  

PS – O episódio descrito acima não aconteceu de verdade (mas bem que poderia ter acontecido).


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O FÉRTIL CRESCENTE (NAÇÕES - RIOS/LAGOS/MARES - ELEVAÇÕES)

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Vermelho
1. Canaã (depois da ocupação da terra, Israel)
2. Egito (delta do Nilo)
3. Assíria (em 722 toma Samaria)
4. Babilônia (em 587 destrói Jerusalém)

Azul
1. Rio Tigre
2. Rio Eufrates
3. Mar da Galileia (na verdade, um lago);
4. Rio Jordão
5. Mar Morto (na verdade, um lago);
6. Mar Mediterrâneo
7. Rio Nilo
8. Mar Vermelho

Verde
1. Monte Sinai (local tradicional)
2. Monte Nebo (morte de Moisés)
3. Monte Carmelo (Elias e os profetas de Baal)
4. Monte Hermon (nascente do Jordão)


Jones F. Mendonça

domingo, 5 de outubro de 2014

AS ORIGENS OBSCURAS DO YOM KIPPUR [NO HAARETZ]

Segue trecho do artigo publicado no Haaretz (30/09/14) a respeito do Yom Kippur:
Escrevendo logo após o Primeiro Templo, destruído pelos babilônios, Ezequiel parece ignorar o Yom Kippur. Não está na sua lista de feriados que deveriam ser observados quando o templo fosse reconstruído. Nem Zacarias parece ter qualquer noção do Yom Kippur quando instruiu os judeus que retornaram do cativeiro na orientação a respeito dos dias de jejum. 
Quando Esdras leu a Torá para os judeus que retornaram no dia primeiro de Tishrei, eles aprenderam que precisavam se preparar para a Sucot [festa das tendas], mas nada é mencionado em relação ao Yom Kippur. Assim, parece que os três textos bíblicos que mencionam o Dia da Expiação (Números 29, 7-11, Levítico 16, 1-34, e Levítico 23, 26-32) foram inseridos por sacerdotes durante o período do Segundo Templo com o propósito de validar novos ritos adicionados para purificar o templo antes do feriado mais importante do calendário judaico, a Sukkot.

Jones F. Mendonça

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

ZÉ BOBINHO E O SMARTPHONE

Zé Bobinho tem um desses celulares inteligentes. Vai ao shopping: o Google sabe. Visita um site “para maiores”: o Google sabe. Faz compras online: o Google sabe. Um grupo de empresários conhece mais os seus passos que sua própria esposa.

Hoje Zé Bobinho está ansioso. À noite assistirá a uma palestra sobre supostos chips subcutâneos capazes de controlar a vida das pessoas. Ele está preocupadíssimo com essa nova “invenção do diabo”. Disseram para ele que é coisa do Anticristo.

Zé Bobinho já decidiu: jamais deixará que um chip desses seja introduzido em sua pele. Não permitirá que qualquer pessoa, governo ou organização controle sua vida.  

Ah, tá...



Jones F. Mendonça

sábado, 20 de setembro de 2014

DEPRESSÃO

Seu nome: Infortúnio.
Veio ao mundo cego, surdo e mudo.
Diziam que nascera predestinado às lágrimas,
mas sofria de obstrução congênita das glândulas lacrimais.
Seu choro, além de mudo, era seco.

No fim da vida casou-se com Desgraça,
filha de Funesto com Infelicidade.
Seus filhos: Tragédia, Desdita e Infesto.
A primeira era estéril, a segunda escrava da loucura.
E Infesto? Natimorto.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

IGOR SIWANOWICZ

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O EGITO, OS POVOS DO MAR E AS ORIGENS DE ISRAEL

Estela de Merneptah
Quem quiser entender a formação de Israel precisa estar atento à primeira metade de um período egípcio conhecido como “Novo Império” (1550-1070 a.C.). Com a expulsão dos hicsos, Ahmose I (1550-1525) fundou a 18ª dinastia, dando início ao período mais célebre e glorioso de toda a vida egípcia. Segundo algumas estimativas a população saltou de 1,5 milhão para algo em torno de 2,5 a 5 milhões de habitantes. Destacam-se nesse período: 1) as cartas de Amarna, uma série de correspondências entre os reis cananeus e os faraós Amenhotep III e IV;  2) A estela de Merneptah (1208), registro feito em granito que revela a existência de um grupo de pessoas (uma tribo?) reconhecido pelo nome de “Israel” contra o qual o faraó Merneptah se gabava de ter destruído em Canaã: “Israel está arruinada; sua semente já não existe mais”.

Por volta de 1200 a glória do Egito foi sendo gradativamente ofuscada por uma série de fatores, tais como o desgaste da estrutura palaciana-faraônica, exaustão dos recursos naturais e dos repetidos ataques dos líbios e dos chamados “povos do mar”, dentre os quais os filisteus, representados em relevos com grandes penachos e corpos esguios. O templo mortuário de Ramsés III, em Medinet Habu, registra o terror causado pelo avanço dos povos do mar:
Os setentrionais em suas ilhas estavam em dificuldade e se moveram em massa, todos ao mesmo tempo. Ninguém resistiu perante eles; de Khati (império Hitita) a Qode (Cilícia), Karkemish (cidade do Eufrates, no norte da Síria), Arzawa (reino da Ásia Menor), Alashiya (Chipre) foram devastadas. Dirigiram-se enfim para o Egito [...] os ânimos deles eram de confiança, cheios de projetos.

O Egito conseguiu repelir os povos do mar, mas não foi capaz de impedir que se instalassem na costa oriental do Mediterrâneo, região outrora administrada por funcionários sediados em Gaza, Kumidi e Sumura. É nesse cenário que devem ser buscadas as origens do povo que consolidou suas tradições numa obra complexa que é a Tanak (Bíblia hebraica). 


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

FUNDAMENTALISMO ISLÂMICO E FUNDAMENTALISMO CRISTÃO: TUDO IGUAL

O surgimento do fundamentalismo islâmico tal como conhecemos hoje está diretamente ligado à queda do império Turco Otomano em 1924. É fenômeno novo, portanto. Kemal Ataturk, pai da Turquia moderna; Nasser, do Egito e Reza Pahlevi, no Irã, caminharam em direção à separação entre a religião e o Estado, mas apenas a Turquia se manteve como Estado secular democrático (o Líbano é outro exemplo moderno). A maior parte das nações árabes (ou muçulmanas não–árabes, como a Turquia e o Irã), perdidas no processo de fragmentação do império otomano do qual faziam parte e sentindo-se humilhadas e exploradas pela Europa pós-guerra, viram nas suas escrituras sagradas a única solução para restabelecer a ordem: a instauração da Shari’a, a lei islâmica. A Irmandade Muçulmana, por exemplo, fundada em 1928, criou um slogan bem conhecido na órbita islâmica: “o Corão é nossa constituição”.

A expressão “fundamentalismo” quando aplicada ao universo cristão é fenômeno do final do século XIX. Nasce como tentativa de combater as transformações ocorridas na sociedade europeia a partir do Renascimento. Como entre os muçulmanos, trata-se de uma tentativa de manter as antigas tradições religiosas, morais e culturais, entendidas como fundamentais para a manutenção da ordem. No século XVII, pensadores como Spinosa e Voltaire começaram a questionar muitos dogmas da fé cristã. Algum tempo depois, nos séculos XIX e XX surgiram novas ideias vistas como ameaças à fé: a teoria da evolução, de Charles Darwin e o trabalho de pensadores como Feuerbach, Nietzsche, Karl Marx e Freud (todos foram críticos ferrenhos da religião).

Alarmados com a “ameaça modernista” - movimento que tentava compatibilizar a fé cristã com as novas descobertas científicas - foi criada, em 1846, a Aliança Evangélica. Em 1895 foram definidos cinco pontos fundamentais da fé cristã que estavam sendo questionados (ou pelo menos vistos de maneira menos rígida) pelos chamados “cristãos modernistas”: 1) Infalibilidade das Escrituras, 2) divindade de Cristo, 3) seu nascimento virginal, 4) seu sacrifício expiatório e 5) sua ressurreição física. Entre 1910 e 1915, com o financiamento de um milionário do ramo do petróleo, foram publicados três milhões de exemplares de uma coleção de livretos chamados “The fundamentals” (os fundamentos). O objetivo era apoiar a luta conservadora contra as posições liberais adotadas por algumas igrejas.

Mas o termo “fundamentalista” só surgiu em 1920, cunhado por um editor batista. Com o tempo o movimento foi ganhando mais adeptos e adotando ideias cada vez mais radicais.  Grupos anti-aborto cristãos norte-americanos, como o “Exército de Deus” e a ACLA, cometeram sequestros, ataques a clínicas de aborto e até homicídios sob o manto de um discurso “pró-vida” e “pró-família”. As duas guerras dos EUA contra o Iraque (1991/2003 – Bush pai e Bush filho) foram justificadas com discursos com nítido teor religioso. Observe que o fundamentalismo apoia seu discurso em textos religiosos como solução para algo visto como uma ameaça iminente à ordem e à paz (imigrantes negros, terrorismo, mudança nos costumes, etc,). Um judeu poderia justificar a guerra contra os palestinos citando o livro bíblico de Josué (Js 6,21). Um árabe muçulmano poderia citar o Corão justificando uma matança dos idólatras (Sura 9,5). Até mesmo um cristão poderia citar textos do Novo Testamento justificando a dissolução da família (Mt 10,35) ou a automutilação (Mt 5,29). Como se vê, tudo depende dos olhos e das intenções de quem lê.

Hoje, no Brasil, o fundamentalismo tem tomado conta do cenário político. O que é proibido pela religião – argumentam – deve ser proibido por lei. Com um discurso como esse o horizonte que se abre é tenebroso, muito tenebroso.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

CANTARES, UM LIVRO ÚMIDO

Livro bíblico de Cantares (Ct 5,2-4): Shulamit, já despida de sua túnica, está em seu leito. Ela dorme, mas seu íntimo está agitado (velibiy 'er). Shelomoh, seu amado, chega (à porta?). “Gotas da noite” escorrem pelos “anéis” de seus cabelos. Ele quer entrar. Shulamit hesita. Então ele mete a mão por uma fresta (da porta?). O corpo dela reage: “Minhas entranhas gemem por ele” (umeay hamu alayv). Com as mãos destilando mirra ela o busca. Mas é tarde demais... Ele se foi. 

Ele com cabelos molhados quer entrar. Ela não quer sujar os pés. 
Ele mete a mão por uma fresta. O ventre/entranhas dela gemem por ele. 
Ele se vai. As mãos dela, deslizando sobre a maçaneta do ferrolho(?), destilam mirra. 

Entrar/sair; voz que chama/pés reticentes; mão ousada/entranhas que gemem; cabelos cheios de orvalho/mãos que deslizam pelo ferrolho exalando mirra. Cantares, um livro cheio de ambiguidade e de sensualidade. Para os alegóricos: uma alusão ao amor de Cristo pela Igreja. Sabem de nada...


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

BAÚ DE NÉVOA

A utopia capitalista projeta o reino idílico não na sociedade perfeita, onde se reparte o pão, o teto e as alegrias. Seu tesouro, tecido com o fio dos sonhos, está além do arco-íris, guardado num baú de névoa, sob a proteção de dois querubins. Como é sonho egoísta, tem motor com potência infinita. O resultado: não há combustível que sacie essa sede.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

ATLAS HISTÓRICO DA BÍBLIA [E-BOOK]

Coisa rara é encontrar um bom livro de geografia bíblica que apresente a narrativa dos dois Testamentos sem a ingenuidade típica de grande parte que tem sido publicado. Fuçando aqui e ali me deparei com a obra “Atlas histórico de la Biblia” de José Ochoa. O autor, que é doutor em filosofia clássica e documentarista, produziu um volume para o Antigo e outro para o Novo Testamento. Neles você vai encontrar trechos de documentos produzidos pelos povos vizinhos, descobertas arqueológicas, gráficos e – óbvio - muitos mapas. A forma como Ochoa expõe sua obra é bem expressa na introdução:
Los libros de la Biblia sólo en parte pueden ser considerados fuente histórica, ya que el principal objetivo de sus textos es rememorar las intervenciones de Yahvé, el dios de Israel, durante aproximadamente un milenio. En este atlas histórico no nos vamos a ocupar del carácter de libro revelado de la Biblia, sino de los hechos históricos que en ella se pueden rastrear y de las evidencias que obtenemos de las culturas que compartieron los pueblos del Próximo Oriente Antiguo.
Gostou? Então baixe os dois volumes na página do autor (em PDF, espanhol).



Jones F. Mendonça