quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A EVOLUÇÃO DA SABEDORIA EM QUATRO ESTÁGIOS

Quando colocados lado a lado, textos de Provérbios e Eclesiastes - ambos classificados como textos sapienciais - revelam contrastes visivelmente desconcertantes. Se por um lado Pv 14,11 diz convicto que “a casa dos ímpios será destruída, a tenda dos homens retos prosperará” (Pv 14,11), Jó  21,7 lança uma declaração pra lá de inquietante: “Por que os ímpios continuam a viver,  e ao envelhecer se tornam ainda mais ricos?” (Jó 21,7). A comparação entre outros textos sapienciais revela mais contrastes. Os sábios mais antigos, inclinados a perceber a sabedoria como qualidade quase secular (Pv 30 e 31,1-9 tem autoria estrangeira!) dão lugar a escritores que passam a vê-la como qualidade especificamente religiosa e israelita (como em Eclo e Sab, livros deuterocanônicos do século II a.C).

Buscando explicar a evolução da sabedoria israelita, José Luis Sicre propôs quatro estágios:

1. Humanismo internacional: caracterizado pela escrita voltada para a boa educação e governo, é encontrada na Síria, na Mesopotâmia e no Egito, representada em forma de provérbios, fábulas e poemas. Testemunhos da sabedoria estrangeira aparecem, por exemplo, nas “Palavras de Agur, filho de Jaces, o massaíta” (Pv 30) e nas “palavras de Lemuel, rei de Massá” (Pv 31,1-9).

2. Sabedoria israelita desde as origens até o século VI: Textos genuinamente israelitas. O prólogo de Jotão (Jz 9,8-15), considerado como a crítica mais feroz ao sistema monárquico é um exemplo de texto de sabedoria israelita mais antiga. Outros enfoques desse período, particularmente ligados à corte, são: a) a sabedoria como dom que se pede a Deus (1Rs 3,1-14), b) o governo do povo e a administração da justiça (1Rs 3,5-12.16-28), c) a capacidade de tomar decisões adequadas como a construção do templo (1Rs 5,21), d) o conhecimento enciclopédico (1Rs 5,9-14; 10,-19). São também desse período narrativas com conteúdo sapiencial, como a história de José (Gn 37-) e trechos do livro de Provérbios, principalmente os capítulos 10-29 (textos marcados pelo otimismo/teologia da retribuição/exaltação de virtudes como a modéstia e crítica a faltas como o orgulho).

3. Crise dos séculos V-III: Inserem-se nesse período os livros de e Eclesiastes (Qohelet). Estes livros põem em dúvida a validez dos resultados conseguidos por seus antecessores e se distanciam de seu otimismo, daí a expressão “crise da sabedoria”. Dessa crise brotam duas formas de crítica: a) Crítica que nasce da dor: Jó rejeita a teologia da retribuição de Elifaz (Jó 21,7 contra Elifaz em Jó 15,20-24) e faz questionamentos perturbadores em 21,34 e 9,22-24; b) Crítica que nasce da falta de sentido da vida: O livro chega até mesmo a criticar a sabedoria, declarando que “muita sabedoria, muito desgosto; quanto mais conhecimento, mais sofrimento” (1,18). Ver ainda Ecl 2,24; 3,12.22; 5,17; 8,15; 9,7-10. É possível que esta crise tenha antecedentes remotos, como em Jeremias “Por que prosperam os ímpios e vivem em paz os traidores?” (12,1) contrastando com textos do período anterior: “A casa dos ímpios será destruída, a tenda dos homens retos prosperará” (Pv 14,11); “Na casa do justo há abundância, mas o rendimento do ímpio é fonte de inquietação” (Pv 15,6). A experiência, grande mestre da sabedoria, demonstra que possuir determinadas virtudes não garante o sucesso.

4. Etapa final (século II-): Nesta última etapa são incluídas duas obras: Eclesiástico (ou Sirácida) e Sabedoria de Salomão (apócrifos/deuterocanônicos). A elas deve ser acrescentada uma parte de Provérbios (Pv 1-9). Três pontos se destacam como especialmente interessantes neste período: a) Atitude ante a cultura grega (Sab 2,1-3); b) Importância crescente da história (Eclo 44-50); c) Personificação da sabedoria em três fases: objeto de extremo valor (Jó 28); Mulher que fala em público (Pv 1-9); Personificação/metáfora/hipostase (Eclo 24; Sb 7,22-30). Nos livros anteriores, a sabedoria é uma qualidade quase secular que não conhece fronteiras nacionais; nestes últimos, toma-se uma qualidade especificamente religiosa e israelita (ou judaica, considerando que essas obras são do século II a.C.).


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

ÊXODO 24 E AS TRADIÇÕES JAVISTA, ELOÍSTA E SACERDOTAL

Qualquer pessoa que faça uma leitura atenta de Ex 24 percebe que há algo estranho no texto. A ordem dos acontecimentos é confusa, os personagens parecem mudar de um verso para o outro, os nomes divinos variam entre elohim e Javé, as tábuas da Lei ora são escritas por Javé, ora por Moisés. Ainda mais estranho é perceber que a montanha (“montanha de elohim” ou “Sinai”?) é escalada diversas vezes por Moisés, que é acompanhado por personagens diferentes.

Mas o texto certamente fará mais sentido caso seja entendido como a junção de quatro tradições diferentes a respeito de um mesmo evento preservado na memória do povo. O texto de Ex 24, quando dividido em cores, ajuda o leitor a perceber isso:

Ex 24,1-2 Ele disse a Moisés: "Sobe a Javé, tu, Aarão, Nadab, Abiú e setenta anciãos de Israel, e adorareis de longe. 2 Só Moisés se aproximará de Javé; os outros não se aproximarão, nem o povo subirá com ele [Tradição javista]." 

Ex 24,3-8 Veio, pois Moisés e referiu ao povo todas as palavras de Javé e todas as leis, e todo o povo respondeu a uma só voz: "Nós observaremos todas as palavras ditas por Javé." 4 Moisés escreveu todas as palavras de Javé; e levantando-se de manhã, construiu um altar ao pé da montanha, e doze esteias para as doze tribos de Israel. 5 Depois enviou alguns jovens dos filhos de Israel, e ofereceram holocaustos e imolaram a Javé novilhos como sacrifícios de comunhão. 6 Moisés tomou a metade do sangue e colocou-a em bacias, e espargiu a outra metade do sangue sobre o altar. 7 Tomou o livro da Aliança e o leu para o povo; e eles disseram: "Tudo o que Javé falou, nós o faremos e obedeceremos." 8 Moisés tomou do sangue e o aspergiu sobre o povo, e disse: "Este é o sangue da Aliança que Javé fez convosco, através de todas essas cláusulas." [Tradição eloísta]

Ex 24,9-11 E Moisés, Aarão, Nadab, Abiú e os setenta anciãos de Israel subiram. 10 Eles viram o elohim de Israel. Debaixo de seus pés havia como um pavimento de safira, tão pura como o próprio céu. 11 Ele não estendeu a mão sobre os notáveis dos filhos de Israel. Eles contemplaram a elohim [“elohim” precedido de artigo] e depois comeram e beberam [Tradição javista].

Ex 24,12-15a Javé disse a Moisés: "Sobe a mim na montanha, e fica lá; dar-te-ei tábuas de pedra — a lei e o mandamento — que escrevi para ensinares a eles." 13 Levantou-se Moisés com Josué, seu servidor; e subiram à montanha de elohim. 14 Ele disse aos anciãos: "Esperai aqui até a nossa volta; tendes convosco Aarão e Hur; quem tiver alguma questão, dirija-se a eles." 15a Depois, Moisés subiu à montanha [Tradição eloísta]. 

Ex 24,15b-18a A nuvem cobriu a montanha. 16 A glória de Javé pousou sobre o monte Sinai, e a nuvem o cobriu durante seis dias. No sétimo dia, Javé chamou Moisés do meio da nuvem. 17 O aspecto da glória de Javé era, aos olhos dos filhos de Israel, como um fogo consumidor no cimo da montanha. 18a Moisés, entrando pelo meio da nuvem, subiu à montanha [tradição sacerdotal].

Ex 24,118b E Moisés permaneceu na montanha quarenta dias e quarenta noites [Tradição eloísta].


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

TOLICE E O CORPO

Tolice possui curiosos poderes.
Quer ser nervo: converte tudo em dor.
Quer ser língua: converte tudo em detração.
Quer ser fígado: converte tudo em amargura.
Quer ser mão: converte tudo em agressão.
Quer ser víscera: converte tudo em sordidez.
Quer ser cérebro: converte tudo em depressão.
Quer ser coração: [...]  
Não quer.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 18 de agosto de 2015

NÃO, NÃO HAVERÁ NOVA REFORMA PROTESTANTE

Lutero no leito de morte
É um erro pensar que haverá nova Reforma protestante. Quando Lutero divulgou suas 95 teses contra as indulgências desejava corrigir crenças e práticas que percebia como equivocadas no âmbito do catolicismo popular. Não foi uma repreensão ao Papa ou à Curia romana, mas aos “sacerdotes desajuizados” (Tese 10), aos “apregoadores de indulgências” (Tese 21), aos “ludibriadores do povo” (Tese 24) e aos “bispos, padres e teólogos (Tese 80). Embora tenha uma dimensão moral, o que caracterizou a Reforma foram as críticas de cunho teológico.

Após perder a inocência, Lutero percebeu que a liderança da Igreja endossava as práticas que via como perversão da verdadeira doutrina. O monge agostiniano foi excomungado, adotado astutamente pelos príncipes e a Reforma teve êxito. E o que significa que a Reforma teve êxito? Significa que ao invés de uma igreja apenas, surgiram duas (alguns dias depois, múltiplas!). A primeira submissa ao papado. A segunda embalada pelo livre Exame das Escrituras. Ora, sendo o exame e a interpretação livres, caiu por terra qualquer tentativa de mediação entre Deus e os homens. A cada esquina e a cada segundo foram surgindo novos líderes de novas igrejas alegando agir segundo a orientação Espírito.

Quando alguém anuncia a necessidade de uma nova Reforma fico pensando: em que consiste esse apelo? Se a ideia é condenar os ensinamentos do reformador alemão é preciso lembrar que isso já foi feito no Concílio de Trento pelos católicos (1545-1563). Se a ideia é reafirmar ideias de Lutero basta que o sujeito opte por pertencer a alguma igreja luterana. Se a ideia é criar algo novo, diferente do que ensinam os católicos ou os protestantes históricos, basta que crie uma nova igreja, baseada numa nova doutrina (que tal “A igreja verdadeira”?). Mas se a opção for pela última alternativa, será preciso ter em mente que há muitos, mas muitos fazendo isso. Será apenas mais uma manjubinha no vasto oceano da cristandade.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

MINHA EXPERIÊNCIA COM O KINDLE PAPERWHITE [AVALIAÇÃO]

Há mais de um mês utilizando o Kindle Paperwhite, exponho minhas impressões aos interessados em adquirir um leitor de e-books:

Vantagens sobre o livro impresso:

1. Carregue muitos livros e/ou apostilas num só dispositivo;
2. Envie documentos/livros em PDF/Word por e-mail para o dispositivo com possibilidade de conversão automática (basta escrever “convert” no assunto);
3. Compre livros com apenas um toque na tela e receba sua aquisição em apenas alguns segundos (é possível bloquear a opção “compras” com uma senha);
4. Leia seus livros em ambientes diversos, com muita ou pouca luz. A tela do dispositivo é anti-reflexiva (leia na praia) e conta com iluminação embutida (leia no escuro);
5. Embora o preço do e-book não seja tão mais baixo que o do livro impresso, há promoções de cair o queixo;
6. Use o dispositivo por semanas sem a necessidade de recarga;

Desvantagens:

1. Como o dispositivo tem apenas 7” polegadas, as páginas são reduzidas, o que torna impraticável a leitura de livros ilustrados (para piorar a reprodução é em PB e as imagens tem baixa resolução);
2. A variedade de livros em formato digital ainda é pequena.
3. Até onde sei a ABNT ainda não criou regras para a citação de e-books em trabalhos acadêmicos (o nr de páginas do e-book não segue o do livro impresso).
4. E o mais grave: o Kindle não tem cheiro e nem textura de papel! (essa é piada, claro).


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

AS MULHERES, O CICLO MENSTRUAL E AS ABELHAS

Pesquisa que vou fazendo a respeito do papel reservado à mulher nas religiões e culturas do mundo. Abaixo trechos sobre o ciclo menstrual:

Na Bíblia hebraica: “Se um homem coabitar com ela, e a sua menstruação estiver sobre ele, será imundo por sete dias; e toda cama sobre que ele se deitar será imunda” (Lv 15,24).

No Talmude: "Se uma mulher menstruada passa entre dois [homens], se for no início de sua menstruação, ela vai matar um deles, e se for no final de sua menstruação, ela vai causar discórdia entre eles "(b. Pesah. 111a);

No Corão: “Então, apartai-vos das mulheres durante a menstruação, e não vos unais a elas até se purificarem. E, quando se houverem purificado, achegai-vos a elas por onde Allah vos ordenou. Por certo, Allah ama os que se voltam para Ele arrependidos, e ama os purificados”(2,222).

No código de Manu (hindu): “Porque perecerão a sabedoria, a energia, a força, a vista, e a vitalidade de um homem que se aproxima de uma mulher coberta com excreções menstruais” (4,41).

Na teologia católica medieval (Tomás de Aquino): “o olhar de uma mulher menstruada pode rachar e embaçar um espelho” (Aquino, Liber de veritate catholicae fidei contra errores infidelium seu summa contra gentiles).

Para encerrar, a opinião de Plínio, o velho (23-79 d.C.):Na realidade, seria uma questão difícil encontrar algo capaz de produzir efeitos tão maravilhosos quanto o fluxo menstrual. Diante da aproximação de uma mulher neste estado o leite se tornará azedo, sementes tocadas por ela se tornarão estéreis, enxertos definharão, plantas de jardim secarão e o fruto da árvore sob a qual ela se senta cairá. Seu olhar tornará escuro o brilho de espelhos, sem corte o fio da navalha, sem lustro o marfim. Um enxame de abelhas, se encarado por ela, morrerá imediatamente; cobre e ferro vão se tornar instantaneamente enferrujados, produzindo um odor repugnante” (Plin. Nat. 7.13).


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

TEOLOGIA PENTECOSTAL: ENTRE A RESISTÊNCIA E A SUBMISSÃO

O movimento pentecostal possui dois fundadores: Charles Fox Parham (1873-1829) e Willian Joseph Seymour (1870-1922). O primeiro era branco, racista simpatizante da Ku-Klux-Klan e entusiasmado com a glossolalia como evidência da atuação sobrenatural do Espírito. O segundo, seu aluno, era negro filho de ex-escravos e entusiasmado com a superação das raças e classes sociais.

Seymour tinha ideias revolucionárias. Introduziu música de raiz africana - o negro spirituals - na liturgia do culto, buscou igualdade entre bispos brancos e operários negros e entre professores brancos e lavadeiras negras. As igrejas históricas, dirigidas e formadas por brancos, desprezaram o movimento por causa do status social de seus integrantes e de seu “profeta negro”. O tempo passou e esse lado contestador do pentecostalismo foi sendo posto de lado.

Mas na década de 60 o evangelista pentecostal Arthur Brazier (1921-2010) fez renascer com muita vitalidade a crítica social nos sermões pentecostais. Disposto a destruir o mito da supremacia moral e intelectual dos brancos, Brazier afirmava que os EUA foram construídos nas costas dos negros, povo cujo sangue havia sido derramado nas plantações de algodão e nas estradas de ferro que cortavam o país. Brazier estava ao lado de Martin Luther King Jr. quando este saiu pelas ruas protestando contra a segregação racial.

Quando ouço um pastor pentecostal dizendo que os negros descendem de Cam, filho maldito de Noé, fico pensando: o que deu errado?


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

OLHOS DE BELADONA

Tolice foi possuída pela altivez.
Coloriu os lábios,
dilatou as pupilas,
aprumou o corpo torneado,
vagou pelo salão flutuando como medusa marinha.

Mas o salto era alto,
o piso irregular,
o sonho para além das nuvens,
os olhos embaçados pela beladona.
Sua boca, enfim, beijou aquilo que sua alma tanto anela: o chão.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

EGO FRÁGIL, DESERTO DE AZAZEL

O sujeito de ego frágil quer um retorno positivo. O que ele faz? Projeta involuntariamente suas tendências inconscientes indesejáveis sobre objetos ou pessoas do mundo exterior. Mas esse sujeito de ego frágil não se dá conta do seguinte: o vulto soturno que ele persegue com tanta obstinação e ódio é sua própria sombra. É projeção de si mesmo. O inspetor Javert, em “Os Miseráveis” de Victor Hugo, é um exemplo emblemático de alguém que caiu nessa armadilha sinistra.

Por instinto e com uma maestria macabra, Hitler soube projetar a sombra dos alemães nos judeus, povo cuja história sempre fora marcada por perseguições, não só na Alemanha do Lutero que escreveu “Sobre os judeus e suas mentiras”, mas em toda a Europa. Na linguagem popular chamamos isso de “bode expiatório”, uma referência ao bode citado no livro bíblico de Levítico que levava os pecados do povo.

O mês de agosto promete manobras políticas capazes de marcar para sempre a história de nosso país. Mas o que os egos frágeis, as sombras, os bodes e Azazel têm a ver com o atual momento político? Tudo.



Jones F. Mendonça

sábado, 1 de agosto de 2015

BAIXA CRISTOLOGIA - VÍDEO




Divulguei aqui e postei aqui material sobre o debate com o tema "cristologia", apresentado no STBC em maio de 2015. Como o vídeo do debate finalmente foi postado no YouTube, aproveito para disponibilizá-lo no Blog. 


Com receio de extrapolar os 20 minutos reservados a cada um dos palestrantes, acabei tendo que falar mais rápido do que gostaria, mas não acho que tenha comprometido a clareza. Caso queira assistir aos demais palestrantes, clique no título do vídeo para ser conduzido ao YouTube. 


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 29 de julho de 2015

CONTOS ETIOLÓGICOS NA BÍBLIA: A INIMIZADE MORTÍFERA EM GN 3,15

Ontem fui interrogado por um aluno a respeito do texto de Gn 3,15, o qual transcrevo abaixo em versos, tal como corretamente dispõe a Bíblia de Jerusalém:
Porei hostilidade entre ti e a mulher,
entre tua linhagem e a linhagem dela.
Ela te esmagará a cabeça
e tu lhe ferirás o calcanhar”.
A pergunta do aluno: “ora, se a descendência da mulher é Cristo, quem é a descendência da serpente?”. Bem, a tradição cristã, desde os segundo século (Irineu, em Contra as Heresias III,23,7), interpreta a inimizade entre a mulher e a serpente como anúncio do “fruto do parto de Maria”. Em suma, Jesus seria a descendência da mulher. Mas e quanto à serpente? Faz algum sentido dizer que a linhagem da serpente é o diabo? E por acaso o diabo é descendente da serpente do Éden? 

Lutero, seguindo Irineu de perto, declarou que “Cristo é o descendente dessa mulher que esmagou a cabeça do diabo, isto é, o pecado” (Prefácio do Novo Testamento, de 1522). Para não cair no absurdo de dizer que o diabo pertence à linhagem da serpente, fez uma observação no final da frase: “isto é, o pecado”. Dito de outro modo: Jesus esmagou a “cabeça” do pecado, representado pela figura do diabo, a antiga serpente. É muito malabarismo exegético para meu gosto. 

Faz muito mais sentido pensar no texto como tendo caráter etiológico, visando explicar quatro fenômenos que davam asas à imaginação dos antigos: 
1. O porquê das serpentes rastejarem (3,14), 
2. A “inimizade” entre os humanos e as serpentes (3,15), 
3. O sofrimento das mulheres durante o parto (3,16), 
4. A submissão das mulheres aos maridos (3,16), 
5. A fadiga proveniente do trabalho no solo árido da Palestina (3,17-19).
Um conto etiológico, para quem não sabe, é uma pequena historieta, criada a partir da imaginação popular, com o intuito de explicar fenômenos que suscitam a curiosidade das pessoas, tais como as estranhas colunas de sal dispostas nas margens de um grande lago (a mulher de Ló, cf. Gn 19,26), um enigmático arco colorido que se estende nos céus (um sinal divino como pacto pela não repetição do dilúvio, cf. Gn 9,13), a diversidade de idiomas (a torre de Babel, cf. Gn 11,1-9), a extrema aridez de uma determinada região (fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra, cf. Gn 19,24-25) ou as inusitadas pedras amontoadas num vale (o apedrejamento de Acã, cf. Js 7,26), etc.

Contos etiológicos são comuns em diversas culturas. Você pode ler uma pequena coleção deles na seguinte obra: CAMPBELL, Joseph. As máscaras de Deus, volume I, mitologia primitiva. São Paulo: Palas Athena, 2010. 




Jones F. Mendonça

sexta-feira, 24 de julho de 2015

COANDO MOSQUITOS, ENGOLINDO CAMELOS

Tolice adora compartilhar nas redes sociais suposta frase de Jean Wyllys dizendo que a Bíblia é uma piada e quem crê nela é palhaço. Cita, junto com a frase, texto de Ap 21,8, condenando os incrédulos e mentirosos ao lago ardente de fogo e enxofre. Mas Tolice não se dá conta de duas coisas: 1) Jean Willys nunca disse a tal frase, 2) Se o deputado não disse a frase, Tolice é mentirosa e tropeça no mesmo verso que usa para apontar o erro alheio.

Moral da história: quando nasceu, os pais de Tolice lhe deram o nome errado. Devia se chamar Hipocrisia.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 23 de julho de 2015

ANTINOMIAS CALVINISTAS

A frase foi escrita por Calvino, reformador do século XVI: 
Eu concedo mais: os ladrões e os homicidas, e os demais malfeitores, são instrumentos da divina providência, dos quais o próprio Senhor se utiliza para executar os juízos que ele mesmo determinou. Nego, no entanto, que daí se deva permitir-lhes qualquer escusa por seus maus feitos (As Institutas, Livro I, Capítulo XVII, seção 5).
Há neste pequeno trecho da maior obra de Calvino (As Institutas) uma afirmação e uma negação. A afirmação: “até os malfeitores (como estupradores, por exemplo) agem segundo os juízos determinados por Deus”. A negação: “mesmo sendo instrumentos da divina providência, Deus não deve ser responsabilizado pelos perversos atos humanos”.

Trocando em miúdos: Embora Herodes tenha mandado matar criancinhas porque Deus assim quis, a culpa é apenas de Herodes e de seus capangas. Embora Adão tenha pecado porque Deus assim quis, a culpa pelo pecado é apenas de Adão. 

E tolos são os arminianos...


Jones F. Mendonça


quarta-feira, 22 de julho de 2015

ZÉ BOBINHO, PRAÇA DE 85

Bobinho tem um filho delinquente. Como pensa obtusamente que tudo se resolve na hierarquia e na disciplina, deu um jeito de colocar Delito, seu filho, no quartel. Conversou com o capitão Zureta e tudo certo. Cabelo cortado, barba feita e postura marcial, o filho de Bobinho finalmente encontrou seu lugar: o xadrez.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 20 de julho de 2015

AINDA SOBRE VACAS VERMELHAS PURIFICADORAS

Aos interessados no judaísmo, particularmente no projeto que busca produzir uma vaca vermelha como apresentada em Nm 19,10, capaz de purificar judeus que se contaminaram com um corpo morto e desencadear o apocalipse, vale ler o novo artigo publicado no Haaretz: “The Temple Mount red heifer saga: Engineering the apocalypse?”. O texto, assinado por Elon Gilad, sugere que as tais vacas vermelhas nunca existiram. Quer conhecer as razões apresentadas por Gilad? Abaixo um pequeno trecho: 
Os antigos separavam as cores de forma diferente da civilização moderna. O que hoje vemos como cores distintas, nossos antepassados viam como variações de uma mesma cor. O que chamamos de marrom, os antigos hebreus viam como um tipo de vermelho. Eles ficariam perplexos com nossa insistência em perceber o roxo, vermelho, laranja e marrom como sendo cores diferentes. Para eles todas eram tons variados de vermelho.
 Em suma, a tal vaca vermelha de Nm 19,10 pode ser na verdade uma vaca cuja cor varia entre o ruivo e o marrom. Todo o investimento na fertilização in vitro seria mera perda de tempo. Bem, este é apenas um efeito desastroso da leitura fundamentalista.

O texto, disponível apenas para assinantes e cadastrados, pode ser lido aqui: 


Jones F. Mendonça

domingo, 19 de julho de 2015

O JUDEU, A VACA VERMELHA E O DEFUNTO

De acordo com a lei judaica, todo o judeu que se aproxima de um corpo morto é ritualmente impuro até que seja banhado com água misturada com as cinzas de uma novilha vermelha. Mas a novilha vermelha, tal como exige a lei (Nm 19), não existe, e isso traz muitos problemas, afinal o Monte do Templo, local sagrado para os judeus, é cercado de cemitérios.

Para resolver a questão o Instituto do Templo iniciou uma campanha destinada a financiar um extenso processo de fertilização in vitro capaz de produzir os tais bovinos especiais (os embriões serão importados do Texas e de uma fazenda ao sul de Israel). Se tudo der certo os judeus mais ortodoxos poderão expandir seus passeios em Jerusalém sem medo de passar por perto de algum túmulo. E o mais importante: o Templo finalmente poderá ser reconstruído.

Mas o projeto esbarra num complicado problema. É que a tal novilha vermelha precisa ser abatida por um sacerdote (Cohen) ritualmente puro, condição que só pode ser alcançada pela morte de uma novilha vermelha. Entendeu? Mesmo que consigam produzir a novilha não haverá quem a abata.

Leia a história completa no Haaretz (Trata-se de uma matéria classificada como "premium", então será preciso fazer um cadastro).  Você também pode ler sobre o assunto no J Post




Jones F. Mendonça

quinta-feira, 16 de julho de 2015

TERRA DE ZARATUSTRA: PARA ALÉM DO BEM E DO MAL

Nos últimos anos diversas nações de cultura islâmica entraram em colapso: A Síria é um campo de tripas, cinzas e ferro retorcido. A Líbia, um deserto caótico. O Sudão e o Iêmen estão em convulsão. O Iraque, como país, praticamente não existe mais. Mas o Irã resiste apesar das duras sanções econômicas por conta de seu programa nuclear.  O povo iraniano é instruído, inteligente, criativo e orgulhoso de sua história.  No exterior identificam-se como persas com o peito estufado.

Apesar das dificuldades o Irã mantém um braço no Líbano (o Hezbollah), na Síria (é aliado de Assad), no Iraque (forças iranianas atuam no território contra o ISIS) e no Iêmen (os xiitas houthis). Perguntam-me se Israel e a os sauditas devem temer os iranianos. Minha resposta: claro que devem. Mas não me parece justo atacar o país ou manter as sanções apenas porque é possível que no futuro  revele-se hostil aos vizinhos.

O que Israel e a Arábia Saudita temem não é um ataque nuclear iraniano, caso consigam desenvolver um artefato atômico. O que temem é a perda da hegemonia do Oriente Médio.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 9 de julho de 2015

CONSTANTINO E A ARTE TUMULAR CRISTÃ

Até o início do século IV a arte tumular cristã era caracterizada pela simplicidade. Mas a partir da conversão do imperador Constantino (312 d.C.) e a conseqüente adesão à nova fé por parte da elite da sociedade romana, as mudanças são visíveis. Um exemplo é este sarcófago de Junius Basus (datado para 359 d.C.), membro de uma família senatorial romana convertido ao cristianismo pouco antes de sua morte. Repare que Jesus, sem barba, aparece como legislador (Legis Traditio), representado como na arte imperial romana.  Abaixo as cenas representadas nos nichos: 

Linha superior: 1. Sacrifício de Isaac, 2. Prisão de Pedro , 3. Cristo com Pedro e Paulo (Traditio Legis ), 4 e 5. Dupla cena do julgamento de Jesus perante Pôncio Pilatos, que no último nicho está prestes a lavar as mãos.

Linha inferior: 1. Sofrimento de Jó, 2. Adão e Eva, 3. Entrada de Cristo em Jerusalém , 4. Daniel na cova dos leões e 5. Prisão de Paulo.

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quarta-feira, 8 de julho de 2015

PREPARANDO UM MANUSCRITO (CODEX)



Para inserir legendas em português, clique em "legendas" (parte inferior, à esquerda do ícone representado por uma engrenagem), depois em "detalhes" (o ícone é uma pequena engrenagem), escolha a opção "inglês" e finalmente selecione "traduzir" (a opção "português" aparecerá). 

domingo, 5 de julho de 2015

PONDÉ E A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO II

Pondé critica os teólogos da libertação por usarem como princípio hermenêutico a filosofia de Karl Marx. Diz que há incompatibilidade entre as ideias do filósofo alemão e o cristianismo. Mas a apropriação de ideias filosóficas por teólogos da Igreja vem dos primeiros séculos. Com maestria e sofisticação sempre souberam ler seletivamente as obras nas quais se apoiaram.

Alguns teólogos abusaram tanto de Platão e do estoicismo que Tertuliano (séc. II-III) viu-se obrigado a protestar: “que relação há entre Atenas e Jerusalém”. Aristóteles, apesar de conceber o universo como sendo eterno (o que contraria a interpretação tradicional do Gênesis), foi usado como base para a teologia de Aquino em sua Suma Teológica (séc. XIII). Calvino (séc. XVI) tricotou pergaminhos platônicos, como demonstram suas Institutas.

O que Pondé precisa entender é que os teólogos da libertação apenas fazem o que todos sempre fizeram. Eles também aprenderam a ler, interpretar e assimilar seletivamente as obras de Marx como todos os seus antecessores fizeram com outros filósofos (quem leu “Teologia do político e suas mediações”, de Clodovis Boff, sabe disso). É coisa do ofício, não da esquerda religiosa. Mas Pondé tem obsessão pela esquerda. É coisa quase doentia.



Jones F. Mendonça

sábado, 4 de julho de 2015

PONDÉ E A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Numa entrevista publicada em 2011 Luiz Felipe Pondé faz esta declaração dirigindo-se à TdL: “O santo é sempre alguém que, o tempo todo, reconhece o mal em si mesmo. [Mas] O clero da esquerda é movido por um sentimento de pureza. Considera sempre o outro como o porco capitalista, o burguês. Ele próprio não”. Mas o que dizer do discurso do “clero” da direita, como Pe Pedro Paulo, Malafaia, Feliciano, Eduardo Cunha e tantos outros. Em que momento reconhecem o mal em si mesmos? Não são eles também movidos por um sentimento de pureza? De suas bocas não sai um discurso que vê na esquerda - nos “porcos comunistas” - todo o mal do mundo? Então, meus caros, é sempre importante lembrar: o que chove lá, chove cá.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 1 de julho de 2015

PAPAS DE PAPEL

Embora aos trancos e barrancos o cristianismo manteve certa coesão até que Lutero anunciou suas 95 teses contra as indulgências em outubro de 1517. O monge agostiniano imaginou que suas críticas seriam endossadas pelo Papa, mas acabou excomungado em janeiro de 1521 por Leão X. Mas a excomunhão era apenas o início de um processo traumático. Ao dizer que a Bíblia interpreta a si mesma (scriptura sui ipsius interpres) e que deve ser examinada livremente, o resultado é obvio: a interpretação também será livre.

Não adianta reclamar da imensa quantidade de igrejas surgidas todos os dias ao redor do planeta. Esse é o desdobramento evidente de algo que foi anunciado há quase 500 anos. É o preço da liberdade. As confissões doutrinárias protestantes – papas de papel - foram criadas com o propósito de pôr rédeas na interpretação, mas se mostraram inúteis, afinal o sola scriptura de Lutero sempre poderá ser usado por alguém disposto a questionar possíveis equívocos encontrados nessas confissões.

Só há um caminho para aqueles que se mostram indignados com a falta de unidade das igrejas evangélicas: retornem ao catolicismo. Lá todos declaram fidelidade ao Papa, visto como herdeiro das chaves de Pedro. Submetem-se ao Roma locuta causa finita (Roma falou, assunto encerrado) com alegria e bom grado. De um lado a “segurança” da infalibilidade papal. Do outro a “corda bamba” do livre exame. Na primeira você é apenas expectador. Na segunda é protagonista. A escolha é sua. 

Jones F. Mendonça

terça-feira, 30 de junho de 2015

A HISTÓRIA DA ARTE (E DO PENSAMENTO) OCIDENTAL EM QUATRO TELAS



Trata-se de uma visão extremamente simplificada, mas pode facilitar o entendimento a respeito das transformações pelas quais passou a arte ao longo dos séculos:

1. A primeira imagem mostra uma escultura grega (Vênus de Milo, séc. II a.C.). Note que há uma extrema valorização do corpo, que é retratado com meticulosa perfeição. 

2. A segunda imagem mostra uma tela medieval ilustrando uma cena bíblica (Hilda Codex, século XI d.C.). Considerando que o cristianismo projeta o ideal de vida num mundo extraterreno, o foco passa a ser a piedade e não mais o corpo. Mundo sob a tutela da Igreja (teocentrismo). 

3. A terceira tela (Adão e Eva, de Raffaello Sanzio, 1509-11), do final da Idade Média, embora retratando uma cena bíblica, é marcada pelo retorno ao ideal de beleza grego. A palavra “Renascimento” significa justamente isto: o resgate dos valores greco-romanos (antropocentrismo). Lutero está aqui, surfando na onda do Renascimento. 

4. Na quarta fase (séc. XIX) a arte rompe definitivamente com a tradição, buscando constantemente novas formas de expressão (“A cigana adormecida”, de Henri Rousseau, 1897).



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 24 de junho de 2015

O LUXO DO CLERO E O CRISTO CRUCIFICADO

Até o final do século XII são raras as telas representando o Cristo crucificado com ênfase em seu sofrimento. A partir daí há uma verdadeira explosão de imagens expondo Cristo como homem de dores. Essa mudança coincide com o surgimento de ordens religiosas mendicantes (fiéis à Igreja) e de grupos dissidentes como os cátaros e valdenses (perseguidos pela Inquisição). Os dois grupos têm algo em comum: uma crítica ferrenha à ostentação do clero e seu distanciamento da simplicidade da igreja apostólica. A imagem do Cristo crucificado, exposto à ignomínia, é um reflexo desse momento histórico vivido pela cristandade. Abaixo uma tela de Bonaventura Berlinghieri (1260-70).



Jones F. Mendonça

FRANCISCO E O SUFISMO

Mais uma vez surpreendendo, Papa Francisco cita poeta místico muçulmano em sua encíclica sobre o meio ambiente: 
O Universo se desdobra em Deus, que o preenche completamente. Assim, há um significado místico a ser encontrado em uma folha, na trilha de uma montanha, em uma gota de orvalho, no rosto de uma pessoa pobre.
O texto, que lembra trechos do Evangelho de Tomé, escritos produzidos por cristãos místicos medievais ou poemas do escritor romântico inglês William Blake, é uma citação direta de Ali al-Khawas, adepto do sufismo, vertente mística do Islã.

Os mais ortodoxos poderiam ver no trecho indícios de uma dupla inclinação herética: o panteísmo e sua aproximação com uma religião não cristã. Mas Francisco parece não temer as lanças da ortodoxia. 

Leia aqui e aqui





Jones F. Mendonça

terça-feira, 23 de junho de 2015

REFORMA PROTESTANTE E PODER GOSPEL

Tente imaginar a Igreja a partir do século XII. As ideias separatistas de Pedro Valdo (1140-1217), um comerciante de Lyon, espalham-se pela Europa, gerando preocupação da liderança católica. Os seguidores de Valdo (valdenses), dotados de uma espiritualidade voltada à pobreza e simplicidade dos cultos, são duramente perseguidos pela Inquisição. Ao lado dos valdenses surgem os cátaros (ou “homens bons”), outro grupo dissidente visto como ameaça à fé cristã oficial que também sofreu com a perseguição. 

Mas o descontentamento com a espiritualidade cristã medieval deu outros frutos. Comprometidos com a igreja, mas igualmente insatisfeitos com o luxo e a ambição pelo poder da liderança romana, surgem ordens mendicantes como franciscanos, dominicanos e carmelitas. Some-se a isso uma crise do papado conhecida como “cisma papal” (1378-1414), marcada pela existência de dois papas governando a igreja simultaneamente em confronto direto: um na França (Avinhão) e outro em Roma. 

Em meio à crise aparecem dois grandes pregadores eloqüentes anunciando aos quatro ventos uma crítica feroz à Igreja: John Wyclif (Inglaterra, 1320-1384) e Jan Hus (Boêmia, 1369-1415). O primeiro morreu queimado. O segundo (protegido por gente poderosa) escapou da morte, mas teve seu corpo exumado, sendo seus restos mortais incinerados. 

Para finalizar imagine nobres em seus belos castelos, ansiosos pelo fim da influência do papado em seus negócios e de olho nas terras da Igreja. Igualmente ambiciosos e insatisfeitos com o poder da igreja e suas interferências aparecem os burgueses, comerciantes que enriqueciam com o comércio e o empréstimo de dinheiro. O palco está armado.

Doutrinas confusas, imoralidade do clero, surgimento de grupos dissidentes e ordens mendicantes, disputas pelo papado marcadas pela ambição pelo poder, ambições políticas e econômicas. Junte tudo e você entenderá o sucesso da Reforma do século XVI, cujo estopim foram as 95 teses escritas por um monge agostiniano chamado Martinho Lutero. 

Lutero ainda foi beneficiado pelo sucesso da imprensa, pelo apoio intelectual vindo de eruditos humanistas e pela chegada na Europa de textos das Escrituras no idioma original (vindas de Constantinopla, agora nas mãos dos turcos otomanos). Mas há ainda um toque final: Lutero era atormentado por uma intensa crise espiritual ligada ao modo medieval de articular a fé. 

A parte triste dessa breve história? Não há nada de novo debaixo do céu.



Jones F. Mendonça

SÉRIE ”REFORMADORES”: PEDRO VALDO E OS POBRES DE LYON

Se você quer entender o que foi a Reforma protestante precisa voltar aos séculos XII e XIII, quando um comerciante bem sucedido de Lyon chamado Pedro Valdo (1140-1217) fundou uma comunidade cristã pobre e missionária (aparentemente inspirado em Mt 19,21). Diante das críticas cada vez mais ferozes à rica e poderosa Igreja Romana, os seguidores de Pedro Valdo foram excomungados em 1184 e passaram a ser duramente perseguidos pela Inquisição ao lado dos cátaros. 

O grupo dissidente ficou conhecido como “os pobres de Lyon”, sendo mais tarde - após a morte de seu líder - batizados como “valdenses”. Também alimentando o desejo por um cristianismo mais simples, fazendo votos de pobreza e voltados à esmola e auxílio aos pobres, surgiram ordens mendicantes como franciscanos, dominicanos e carmelitas. Estes, no entanto jamais romperam com a igreja. O nascimento de grupos dissidentes como cátaros e valdenses e das ordens mendicantes fiéis à liderança romana reflete o clima de insatisfação dos fiéis com a igreja cristã oficial. Estes são alguns dos primeiros sintomas de uma doença que corroía a Igreja e que seria capaz de dividi-la de forma dramática e definitiva no século XVI.  

Além da exaltação do ideal de pobreza, os valdenses rejeitavam a hierarquia (criaram uma hierarquia eclesial própria), a eucaristia romana (negavam a transubstanciação), as orações aos santos, as indulgências, o Purgatório, a missa dos defuntos, etc. Antecipando-se em alguns séculos a Lutero, os valdenses traduziram a Bíblia para o provençal (idioma falado na França). Embora tenham sido sufocados pela Igreja, as ideias dos valdenses se espalharam pela Europa, reaparecendo, por exemplo, nos discursos de John Wyclif (1320-1384) e Jan Hus (1369-1415). 

Atualmente tem sido feitos esforços na tentativa de reaproximação entre católicos e valdenses (aqui e aqui). Em sua “cruzada” ecumênica, o Papa Francisco visitou, em 22/06/2015, um templo valdense em Turim, construído em 1853. Um vídeo mostrando o encontro histórico entre lideranças valdenses e o Papa pode ser visto aqui


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 18 de junho de 2015

DE JERICÓ A JERUSALÉM

Na parábola do Bom Samaritano o homem que cai nas mãos dos salteadores "descia de Jerusalém para Jericó" (Lc 10,30). O que talvez você saiba é que essa descida corresponde a cerca de 1.000 metros, num percurso de aproximadamente 25 km. Que tal acompanhar essa pequena viagem pela câmera de um avião não tripulado? O vídeo tem a duração de 11 minutos (infelizmente é narrado em inglês). Tomei conhecimento do vídeo pelo Bible Places Blog.

terça-feira, 16 de junho de 2015

INSCRIÇÃO COM O NOME "ISHBA’AL" É ENCONTRADA EM ISRAEL

Segue texto com informações tomadas do Haaretz (17/06/15):

Photo by Tal Rogovsky
Foi finalmente decifrada a inscrição descoberta em Khirbet Qeiyafa, no Vale de Elah, durante as escavações sob a direção do Prof. Yosef Garfinkel, da Universidade Hebraica de Jerusalém e Saar Ganor, do Israel Antiquities Authority. Num grande jarro de barro que data de cerca de 3.000 anos (Idade do Ferro, de cerca de 1020-980 a.C, início da monarquia israelita) aparece escrito “Ishba'al ben Beda” (Ishba'al filho de Beda). A equipe que decifrou a inscrição incluiu a Dra. Mitka Golub e o Dr. Haggai Misgav.

De acordo com Garfinkel e Ganor, esta é a primeira vez que o nome Ishba'al aparece em uma antiga inscrição em Israel. Embora Ishba'al seja o mesmo nome do filho do rei Saul (no livro de Reis é grafado como Ishboshet com o propósito de evitar o elemento teofórico "Baal", compare 2Sm 2,8 com 1Cr 8,33), a inscrição se refere a outra pessoa, provavelmente ao dono de uma grande propriedade agrícola. 

O Ishba'al filho de Saul, homônimo do personagem da inscrição, reinou sobre o reino israelita em paralelo com David e foi morto por assassinos, sendo sua cabeça cortada e trazida para David em Hebron (2 Samuel 4-8). 

Não é a primeira vez que uma inscrição importante é encontrada em Khirbet Qeiyafa. A mais antiga inscrição hebraica no mundo foi descoberta no mesmo local em 2008. Os resultados das escavações demonstram como estava desenvolvida a escrita no reino de Judá na Idade do Ferro.

No Haaretz o texto completo só está disponível para assinantes (versão Premium):

Mas você poderá ler a matéria publicada no J Post



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 15 de junho de 2015

CRISTO E CONCRETO

A tela abaixo, trabalho de James Janknegt (Crucifixion at Barton Creek Mall, 1985), retrata Cristo crucificado num poste de luz no estacionamento de um Shopping Center em Austin, EUA. Imaginando ser um escárnio da crucificação, o presidente do banco no qual a tela estava exposta ordenou ao curador que a removesse imediatamente. De fato é uma imagem perturbadora. Mas o artista – de tradição anglicana - foi mal compreendido pelo presidente do banco, que era cristão batista. Você arrisca uma interpretação?  

Leia sobre a tela aqui


Jones F. Mendonça