quarta-feira, 25 de junho de 2014

JERUSALÉM: DIVA DE PIERCING EM EZEQUIEL 16

Em Ezequiel 16 Jerusalém é comparada a uma menina recém-nascida abandonada pelos pais, mais tarde acolhida, cuidada e embelezada com as mais finas jóias e vestes por Javé, Deus de Israel, até que atingija a idade adulta. 

O processo de transformação do bebê abandonado em uma belíssima mulher é detalhadamente descrito pelo profeta. De acordo com a NVI (Nova Versão Internacional), no verso 12 a mulher recebe “um pendente”, brincos nas orelhas e uma linda coroa na cabeça (NVI): 
dei-lhe um pendente, pus brincos em suas orelhas e uma linda coroa em sua cabeça.

A dúvida que fica é: onde foi colocado esse “pendente”? Uma rápida consulta ao texto hebraico revela que a NVI omitiu a expressão “al-appekh”:


Uma tradução literal ficaria assim:

Dei uma argola/anel/pendente sobre teu nariz...

Os tradutores da NVI parecem ter censurado o piercing da moça (omitiram “sobre teu nariz”). Estranho é que em Gn 24,47 esses mesmos tradutores não ocultaram o local no qual foi posto um pendente em Rebeca: 
“Então coloquei o pendente em seu nariz (hanezem al-appah) e as pulseiras em seus braços”.

A construção do texto é basicamente a mesma, o que muda é a presença do artigo antes de “pendente” (hanezem = “o pendente”) e o sufixo pronominal de 3ª p. sing. fem. anexado à palavra nariz (appah= nariz dela).

A ACF (Almeida Corrigida e Fiel) faz algo igualmente curioso. Em Ez 16,12 traduz “pendente na testa”, mas em Is 3,21 traduz por “joias do nariz” (venizmey haaf – no construto). Mais uma vez as palavras são as mesmas: “pendente/argola/anel” (nezem) e “nariz” (af), o que muda é a forma como o texto foi construído.

Quem entende o que vai pela cabeça desses tradutores?


Jones F. Mendonça

terça-feira, 17 de junho de 2014

JOÃO CRISÓSTOMO E A PITONISA DE DELFOS

Para consultar os deuses, os gregos empregavam um método curioso. Uma sacerdotisa virgem, sentada sobre um tripé colocado acima de uma fenda, era afetada pelos os vapores saídos da rocha. Os gases faziam com que a mulher balbuciasse palavras em estado de transe, que eram interpretadas pelos sacerdotes. Há quem pense que o transe era provocado pelos gazes tóxicos aspirados pela pitonisa. Mas João Crisóstomo (347-407) tinha uma opinião diferente:
A pitonisa era uma mulher que se sentava sobre o tripé de Apolo, mantendo as pernas abertas; em seguida, um sopro maléfico surgia de baixo e, infiltrando-se através de seus órgãos genitais, levava essa mulher ao delírio, e ela com o cabelo desgrenhado dava início ao bacanal espumando pela boca (João Crisóstomo, Homilia XXIX sobre I Coríntios).
Se os gases de fato tiveram algum papel no transe da pitonisa é possível pensar em duas hipóteses: Ou ele era desencadeado pelo sopro vulcânico que atingia os órgãos sexuais da mulher reprimida por longos anos de castidade forçada ou o reprimido era João Crisóstomo, que se concentrou nas pernas abertas da mulher e não no gás inalado por sua boca e  nariz. Estou mais inclinado à segunda hipótese. 

O que a arqueologia pode nos dizer a respeito da pitonisa de Delfos? Leia no The Bible History Daily.  


Jones F. Mendonça

domingo, 15 de junho de 2014

MISOGINIA TERTULIANA II

Pois delinquem contra Ele as que martirizam a cútis com maquiagem, mancham suas bochechas de vermelho, perfilam os olhos de preto. Com efeito, a elas desagrada a obra de Deus; nelas próprias repreendem e refutam o artífice de todas as coisas. Inculpam-se, pois, quando corrigem, quando acrescentam, tomando esses aditamentos do artífice adversário, isto é, do diabo.

Contra a participação feminina nos cultos em De praescriptione  haereticorum, 41.
Estas mulheres heréticas – ousadas que são! Não têm nenhuma modéstia; são audaciosas a ponto de ensinar, travar debates, realizar exorcismos, efetuar curas, e talvez até batizar.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 11 de junho de 2014

PEDRO ABELARDO, O “SIC ET NON” E A TEOLOGIA CRÍTICA

Quem lê o “Sic et non” do teólogo escolástico Pedro Abelardo (1079-1142), tem a nítida noção do equívoco de se atribuir aos teólogos dos séculos XVII e XVIII a introdução da dúvida e do questionamento na reflexão teológica. Influenciado pela filosofia de Aristóteles, Abelardo dá passos significativos em direção ao que mais tarde será chamado de crítica bíblica.

Para solucionar o problema da “aparente contradição nos ditos do santos padres e das Escrituras”, Abelardo apresenta as seguintes soluções: 1) um falso documento foi atribuído de forma equivocada a algum santo (trata-se de um livro apócrifo) ou os copistas cometeram erros; 2) o texto não foi bem compreendido; 3) os erros cometidos pelos santos padres foram corrigidos em textos escritos num período posterior; 4) alguns termos não devem ser interpretados literalmente, pois apenas expressam uma opinião comumente aceita. Abaixo trechos do Sic et non [1]: 
1) Quando nos são apresentadas algumas afirmações dos santos como opostas entre si ou distantes da verdade, convém que examinemos atentamente, para não sermos enganados por falsas atribuições de obras, ou por corrupção do texto. A maior parte dos escritos apócrifos traz o nome de santos como autores, a fim de, com isso, ganhar autoridade; e alguns textos até mesmo da Bíblia foram corrompidos por erro dos copistas (p. 118); 
2) Se, pois, nos escritos dos santos, parece que algo não condiz com a verdade, então é piedoso, conforme a humildade e devido pela caridade [...], que creiamos que esta passagem do texto não foi fielmente interpretada ou foi corrompida, ou nós não a conseguimos compreender (p. 119);
 3) Julgo também que se deve dar não menos atenção ao fato de que os textos tomados dos escritos dos padres podem ser daqueles que por eles foram retratados em outro lugar, tendo sidos corrigidos após terem conhecido a verdade, tal como o fez Santo Agostinho em muitos casos (p. 119); 
4) ...nos Evangelhos constata-se que algumas coisas são ditas mais segundo a opinião dos homens que segundo a objetividade da verdade. Foi o caso, por exemplo, de Maria, mãe do Senhor, quando, segundo o costume e a opinião popular, chamou a José de pai de Cristo (Lc 2,48) (p. 121).

Abelardo finaliza: “se consta, pois, que nem mesmo os profetas e os apóstolos estiveram todos livres do erro [como o Pedro dissimulado em Gálatas], que há de admirar se em tão inúmeros escritos de santos padres haja algumas coisas erradas, devido aos motivos apontados?”.  Mas ao defender a autoridade das Escrituras e dos textos dos primeiros padres expondo explicações para “supostas contradições”, Abelardo põe em relevo questões espinhosas, abrindo precedentes perigosos para a ortodoxia.  

O método de Abelardo para a busca da verdade consiste na confrontação de textos divergentes pelo questionamento (quaestio) e pelo debate e disputa de ideias (disputatio) sob a direção do mestre, a quem cabia a conclusão: 
Depois de colocar estas questões [os pontos de 1 a 4 expostos acima], gostaríamos agora de, como nos propusemos, reunir as sentenças divergentes dos santos padres das quais nos recordamos. Esperamos que estas sentenças, devido às dissonâncias que aparentam ter, suscitem algumas perguntas que provoquem os jovens leitores ao exercício supremo de procurar a verdade, e pela procura os tornem mais sagazes. [...] É que duvidando chegamos à procura, e procurando chegamos à verdade [...] (p. 129).

O retorno às fontes (ad fontes) feito sob a direção de humanistas com Lourenzo Valla e Erasmo de Roterdã e o livre exame e o abandono da alegoria por Lutero, no período da Reforma, dá novo impulso ao surgimento de um método de interpretação bíblica desvinculado da autoridade eclesiástica e cada vez mais comprometido com a razão. Em 1678, com a publicação da História Crítica do Antigo Testamento, por Richard Simon, o uso da inteligência para encontrar o sentido objetivo da Escritura finca definitivamente suas raízes no terreno da pesquisa bíblica. A razão, agora livre das rédeas da ortodoxia, inicia sua impiedosa cavalgada. Mas em pleno século XXI o homem ainda parece preferir a certeza do dogma, que a dúvida suscitada pela razão.   

Nota:
[1] DE BONI, Luis Alberto. Filosofia medieval: textos. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005, pp. 116-129.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 4 de junho de 2014

DE CULTU FEMINARUM: MISOGINIA TERTULIANA

Tertuliano em De cultu feminarum I,1,1-2: 
Não percebeis que sois, cada uma de vós uma Eva? A maldição de Deus contra esse vosso sexo perdura até mesmo em nossos tempos. Culpadas, deveis suportar suas agruras. Sois o portão do diabo; profanastes a árvore fatídica; fostes vós as primeiras a trair a lei de Deus; enternecestes com vossas lisonjas aquele contra quem o diabo não triunfou pela força. Com demasiada facilidade destruístes a imagem de Deus, Adão. Vós é que sois merecedoras da morte, por vossa causa, o Filho de Deus teve de morrer. 
Et Euam te esse nescis? Viuit sententia Dei super sexum istum in hoc saeculo: uiuat et reatus necesse est. Tues diaboli ianua; tu es arboris illius resignatrix; tu es diuinae legis primadesertrix; tu es quae eum suasisti, quem diabolus aggredi non ualuit; tuimaginem Dei, hominem, tam facile elisisti; propter tuum meritum, id est mortem,etiam filius Dei mori habuit.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 3 de junho de 2014

TEOLOGIAS: RETA DOUTRINA, PENTECOSTAL, NEOPENTECOSTAL

A fé, no protestantismo histórico, se expressa no conhecimento da doutrina, daí a expressão “protestantismo de reta doutrina” cunhada por Rubem Alves. Nesse sentido, bom cristão é quem domina com maestria as sagradas letras, quem conhece os artigos de fé, quem defende a sã doutrina contra os “filhos de Satanás”.

No pentecostalismo o bom cristão é aquele que passa pela experiência do Espírito.  O que conta mais não é o saber, mas o experimentar. A letra – gostam de dizer – mata, mas o Espírito vivifica. Só quem passou pela experiência do batismo do/no Espírito detém uma “unção especial”, tem os charismas potencializados. É “crente plus”.

Entre os neopentecostais crente mesmo é quem dá resultado. Pastor ungido é aquele que acrescenta muitas ovelhas ao rebanho. Crente bom é aquele que é fiel no dízimo, que faz faxina no templo sem cobrar, que vota no candidato do bispo. O Deus verdadeiro é aquele que “alarga as fronteiras” dos que depositam seus bens aos pés dos sacerdotes na “sala do tesouro”. 

Resumindo: Protestantismo histórico: creio porque é verdadeiro. Pentecostalismo: creio porque experimentei. Neopentecostalismo: creio porque dá resultado.



Jones F. Mendonça