quinta-feira, 9 de julho de 2020

DAVI E ABISAG: DUAS TESES

1. Logo na abertura do segundo livro dos Reis, Davi é apresentado como um idoso impotente, tanto sob a perspectiva política como sexual. Repare que já no v. 5 Adonias, o filho mais velho, aparece se gabando de que ocupará o trono de seu pai, cuja morte se anuncia. Mas Davi não tem forças para repreendê-lo (v. 6). O texto evidencia sua fraqueza política. 

2. Sua potência sexual também vai de mal a pior. O v. 1 diz que ele não “podia mais se aquecer”. O termo hebraico traduzido por aquecer é “yaham”, verbo que possui evidente conotação sexual, como revela Gn 30,39: “Eles se aqueciam [acasalavam], portanto, diante das varas...”, ou o Sl 51,5: “Eis que eu nasci na iniquidade, minha mãe se aqueceu [acasalou] no pecado”. 

3. Para “aquecer” Davi, seus servos saem em busca de uma bela jovem virgem e escolhem Abisag. Mas nem a beleza de Abisag é capaz de despertar Davi, afinal – diz-nos do texto – “ele não a conheceu” (v. 5). E por que não a “conheceu”?  O texto sugere que estava definitivamente impotente. Esta é a explicação nr 1. Há uma explicação alternativa ao texto, mais tradicional.

4. Pela perspectiva nr 2, a “falta de aquecimento” de Davi teria a ver com alguma enfermidade física. O rei estaria acometido de uma doença que alterava sua temperatura corporal. Para aquecê-lo o cobriam com vestes, tal como diz o v. 1. A finalidade desta bela donzela também seria livrá-lo do frio, deitando-se ao seu lado durante a noite. O fato de não ter se relacionado sexualmente com a bela “enfermeira” indicaria o alto grau de moralidade do rei. 

5. Não sei o que você acha, mas pessoalmente custo a acreditar na tese da “enfermeira formosa” e do “rei respeitador”. Ao que parece, o trecho “por mais que lhe pusessem cobertas” foi um acréscimo. Veja como ficaria o v.1 sem as "cobertas": "O rei Davi estava velho, com idade avançada [por mais que lhe pusessem cobertas], por isso não conseguia se aquecer". O problema era a impotência, mas alguém tentou sugerir que era frio. 




Jones F. Mendonça

A BÍBLIA COMO ELA É: INTRIGAS NA CORTE DO REI DAVI

1. O primeiro livro de Reis descreve uma grande trama política sendo armada no final da vida de Davi. Adonias, o herdeiro legítimo na ordem de sucessão, tentou costurar apoio político, mas só conseguiu trazer para seu lado o general Joabe e e Abiatar o sacerdote. Sim, foi pouco. 

2. Salomão, o filho mais novo, recebeu apoio do sacerdote Zadoque, do profeta Natã, de Simei (homem influente na corte), de Benaia (chefe da guarda real) e toda guarda pessoal de Davi. O texto sugere Natã como grande arquiteto dessa aliança. 

3. Mas o apoio mais importante de Salomão veio Bat-sheba, sua mãe. Foi ela, seguindo conselho do profeta Natã, quem convenceu Davi a tomar uma atitude. Disse mais ou menos assim ao rei: “se Adonias assumir o trono, eu e Salomão estaremos fritos!” (1Rs 1,21). Mas ela queria deixar o rei realmente assustado.

4. Então contou a Davi que Adonias armara um baita “churrasco” na tentativa de conquistar apoio para sua ascensão ao trono. Davi, mesmo velho e impotente sexualmente, “bateu na mesa” e tomou uma decisão: “tragam uma mula, levem Salomão a Giom e façam com que Zadoc e Natã o unjam rei” (1,33-34). Não devemos subestimar um rei no limite de suas forças. 

5. Quando soube que Salomão havia sido ungido rei, Adonias e seus aliados entraram em pânico. Sentiram cheiro de sangue. Adonias até tentou se casar com Abisag, a “enfermeira” virgem e formosa do harém de Davi, mas o plano deu errado. Salomão percebeu suas intenções e encarregou Benaías do serviço: Adonias morreu em 2,25. Mas e os demais traidores?

6. Antes de morrer Davi deu algumas orientações a Salomão: elimine Joabe: não é confiável (2,5); dê um sumiço em Simei: sujeito traiçoeiro (2,8). Os dois acabaram assassinados pela mão do mesmo Benaías, agora elevado ao posto de chefe do exército (2,34; 2,46). Salomão deu ao traidor sacerdote Abiatar um destino menos trágico: o exílio (2,26).

7. O último verso do capítulo 2 encerra a rede de intrigas: “E a realeza então consolidou-se nas mãos de Salomão”. E a paz voltou a reinar no palácio. 




Jones F. Mendonça

terça-feira, 7 de julho de 2020

HEBRAICO: O REGISTRO MAIS ANTIGO

Na disputa pelo registro mais antigo contendo uma inscrição em hebraico há quatro candidatos: O calendário de Gezer (séc. X a.C.), o óstraco de Qeiyafa (séc. X a.C.), o abecedário de Tel Zaiyt (século X a.C.) e o abecedário de Izbet Sartah (séc. XII a.C.). Os epigrafistas quebram a cabeça para saber se essas inscrições foram feitas em fenício ou em hebraico porque tanto um idioma quanto o outro usaram simultaneamente o mesmo alfabeto (até o séc. IX) e porque as inscrições foram preservadas de maneira muito fragmentada. Interessados no assunto devem ler este artigo, publicado no Biblical Archaeology Society. Quem discute a questão é ninguém menos que Christopher Rollston.



Jones F. Mendonça