sábado, 31 de março de 2018

LEITURA DE PÁSCOA

"Crucifixion", de Martin Hengel, foi, por muito tempo, a principal referência no estudo de um dos mais cruéis métodos de execução romana: a crucificação. John Granger Cook foi convidado por Hengel para revisar seu trabalho, mas acabou escrevendo seu próprio livro (The crucifixion in the Mediterranean World). Um trabalho magistral...

Neste ano Mark S. Smith (autor de "O memorial de Deus", 2006, Paulus) publicou um trabalho que tem sido bastante elogiado: "The final days of Jesus: The Thrill od defeat, the agony of victory". Disponível para compra na Amazon.

A resenha pode ser lida aqui



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 28 de março de 2018

A PERSONIFICAÇÃO DA SABEDORIA DIVINA NOS GATHAS IRANIANOS

Investigo o recurso literário da personificação da sabedoria (hokhmah), fenômeno que aparece em Provérbios 1-9, em Jó 28, na Sirácida 24, na Sabedoria de Salomão 7; 18, em Baruc 3 e numa interpolação presente no capítulo 42 do livro apócrifo de Enoque etíope. Interessa-me a origem desse recurso e sua relação com o prólogo do evangelho de João.

Há quem sugira uma influência egípcia (Isis, Maat), canaanita (Asherah) ou mesopotâmica (Astarte, Innana). Mas não encontrei textos religiosos produzidos por tais povos capazes de justificar qualquer orientação nesse sentido (você pode consultar uma coleção deles num trabalho organizado por James Pritchard em “Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament”).

W. Bousset indicou um caminho diferente: o Irã. De forma mais específica, a personificação de um atributo divino estaria presente nos Gathas, poemas atribuídos a Zaratustra (profeta persa do século VII a.C.). Nos Gathas o “Espírito Benevolente” (Spenta Mainyu) emana do “Senhor da Sabedoria” (Ahura Mazda) e opera em todos os aspectos da existência. Ele age nos homens, instruindo-os.

O problema é que esses textos foram transmitidos de forma oral por séculos, até ganharem a forma escrita (como saber se os textos não foram contaminados com outras crenças?). Outro problema é a tradução (foi escrito em dialeto gáthico, idioma de difícil tradução). Ainda assim penso que seja uma boa pista.

É possível ler 17 capítulos dos Gathas no Zaratustra.com (a tradução para o inglês é obra de Mobou Firouz Azargoshasb). Leia sobre os Spenta Mainyu nos Gathas aqui.  Sobre possíveis conexões entre o zoroastrismo e a Bíblia Hebraica aqui e uma introdução aos Gathas e a tradução de 17 capítulos para o inglês aqui.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 19 de março de 2018

POR QUE MALAFAIA NÃO É UM SOFISTA?

Indivíduos que “ganham” debates “no grito” ou com argumentos falaciosos geralmente são classificados como “sofistas”, termo empregado por Platão para se referir ao ofício criado por Protágoras, discípulo de Demócrito. Sofistas convencem pela força da retórica, não da dialética (ou da lógica). Fizeram sucesso na Grécia Antiga, fazem sucesso hoje, impulsionados por curtidas e compartilhamentos nas redes sociais.

Malafaia não pode ser considerado um sofista por uma razão muito simples: todo o seu discurso está fundamentado em crenças e valores que ele considera (ou pelos menos declara) verdadeiros, eternos e imutáveis. Os sofistas criticados por Platão (Diálogos) e Aristóteles (Elencos Sofísticos) negavam a objetividade da verdade. Ensinavam que a verdade depende da subjetividade humana, que a verdade é relativa (eram relativistas).

Os sofistas ao menos eram coerentes...


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 12 de março de 2018

SOBRE "EROS", "ÁGAPE", "PHILEO" E FIRULAS

Ora, se “ágape” é empregado no NT para expressar o amor mais elevado, incondicional, como muitos insistem, como explicar o uso da palavra neste lamento de Paulo: “Pois Demas me abandonou por amor (ágape) ao mundo presente” (2Tm 4,10). O termo correto não deveria ser “eros”, supostamente - como dizem - “amor egoísta, carnal”?

E se o NT, de fato, faz distinção entre “ágape” (amor incondicional, divino) e “fileo” (amor fraternal, de amigo), como explicar o uso de “fileo” aqui: “pois o próprio Pai vos ama (fileo, Jo 16,27). É verdade que há preferência pelo “ágape” nas relações entre o humano e o divino no NT, mas na prática, “ágape” e “fileo” são intercambiáveis, como no diálogo entre Pedro e Jesus em Jo 21,15-17.

Não há ocorrência do “eros” no NT. Mas a demonização do termo só aparece nos textos dos primeiros padres (nas palavras de Nietzsche, o cristianismo “envenenou o eros”.). Veja o que diz Santo Inácio, por exemplo: “O meu amor (eros) foi crucificado e não há em mim fogo de paixão. [...] Não me atraem o alimento de corrupção e os prazeres desta vida” (Carta aos Romanos, 7,2). Ratzinger acata em parte a crítica nietzschiana em sua “Carta Encíclica Deus Caritas Est”.

Um exercício simples, mas muito útil para desmascarar equívocos cristalizados pela repetição: escolha uma palavra (grega ou hebraica) e localize todas as suas ocorrências no texto bíblico. O contexto vai denunciar a farsa. Não confie em dicionários.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 9 de março de 2018

AINDA O SELO DE ISAÍAS

O epigrafista Christopher Rollston produziu três textos sobre o selo encontrado em Jerusalém (fev/2018) contendo a palavra “Isaías”. Embora didático, o conteúdo é bastante técnico (exige certo conhecimento de hebraico). Aos interessados: 
Rollston não publica imagens em seu Blog, então caso queira dar uma olhada em alguns artefatos que ele cita nos artigos, clique neste link:


Jones F. Mendonça

SACERDOTISAS NO ANTIGO ISRAEL

O Antigo Testamento apresenta algumas mulheres exercendo certo tipo de liderança no âmbito da família e da sociedade. A mãe de Mica governava seu lar (Jz 17); Abigail tomou a iniciativa para salvar sua casa (2Sm 25); Débora exerceu o papel de juíza e profetiza (Jz 5); Joabe encontrou uma mulher “sábia” (hakhamah) em Teqoa, hábil com as palavras (2Sm 14,2) e Jeremias (9,15) descreve uma “sábia” dotada de uma qualidade semelhante; Huldá, uma profetiza (2Rs 22,14), aparece sendo consultada por altos funcionários do Estado; O domínio exercido por Jezabel sobre seu marido, o rei Acab, é ressaltado com força no livro dos Reis (1Rs 21,15).

Mas não é estranho que o AT simplesmente não mencione mulheres exercendo o sacerdócio? Ada Taggar-Cohen investiga esta questão no The Torah (note que a autora tem “Cohen” = sacerdote, em seu nome). 


Jones F. Mendonça