sábado, 29 de agosto de 2009

A POLICIAL E O TERAPEUTA*

Por Jones Mendonça


Numa sala de consultório estão apenas um homem e uma mulher. Ele, um terapeuta. Ela, uma policial com sérios problemas ligados à área sexual. O consultório é agradável, com poltronas macias e aconchegantes. Quadros coloridos e um tapete felpudo dão um ar de informalidade. A policial, cheia de expectativa, imagina que o terapeuta terá ótimas respostas para o seu problema. Periodicamente ela vai ao consultório e lhe relata seus segredos mais profundos e íntimos. O terapeuta, muito atento, ouve com paciência todas as suas queixas e inquietações. O tempo passa e algo muito natural acontece. A paciente imagina que o terapeuta é o homem da sua vida. Ele é simpático, a ouve com paciência e ainda lhe transmite tranqüilidade e segurança. Os entendidos no assunto dizem que tal fenômeno tem nome, chama-se “transferência”.


No caso em questão o problema tornou-se ainda mais agudo, já que o terapeuta também se sentiu atraído pela paciente. Isso o incomodou bastante, a ponto de pedir conselhos a uma médica de sua confiança. Ela lhe lembrou que a ética médica não permite esse tipo de relacionamento. Existem normas, regras a serem seguidas, dizia ela. Ele ficou inconsolado e até pensou em deixar a profissão. O desejo pela paciente o consumia e um dilema passou a perturbá-lo dia e noite. De um lado os homens-encarregados-de-criar-as-normas, que lhe diziam: “Enquanto estiver no consultório você é apenas um terapeuta. Aprenda a se comportar como tal!”. Do outro lado seu coração que gritava: “tal qual um turbilhão é o amor, não há garras que o possam conter”. De um lado a norma. Do outro a poesia. Temos aí um sujeito tripartido. Ele é homem, imoral (já que tem forte tendência a romper com a moralidade vigente) e terapeuta.


Alguns amigos da paciente, que aprenderam direitinho as normas criadas pelos homens-encarregados-de-criar-as-normas, lhe dizem: “será que você não está confundindo o profissional-do-consultório com o homem-do-consultório?”. A mulher-policial-paciente fica muito confusa e já não sabe muito bem o que sente e tampouco quem é. Como se não bastassem seus problemas de ordem sexual. Temos aí uma cidadã tripartida. Ela é mulher, moralista (já que tem forte tendência a não romper com a moralidade vigente) e paciente.


Já desde Aristóteles o homem adquiriu a mania de compartimentar as coisas. Os seres vivos, por exemplo, foram divididos em mamíferos, anfíbios, répteis, etc. Até as folhas das árvores os homens tiveram o cuidado de catalogar: crenadas, cordiformes, sinuadas, e outros tantos nomes complicados. Com Descartes o problema se acentuou. De um lado a mente e do outro o corpo. A queda do paradigma mecanicista newtoniano fez com que as coisas começassem a mudar. Percebemos que o universo não é como uma máquina. Não podemos simplesmente desmontá-lo e catalogar suas peças. Essa é uma tarefa impossível. O prêmio Nobel da Física e um dos fundadores da mecânica quântica Werner Karl Heisenberg assim se expressou em relação a essa nova concepção do universo: “O mundo apresenta-se, pois, como um complicado tecido de eventos, no qual conexões de diferentes espécies se alternam, se sobrepõem ou se combinam, e desse modo determinam a contextura do todo[1].


Muitas vezes pensamos que existe uma moralidade absoluta, como se houvesse em algum lugar, num cofre distante, um modelo ideal de moralidade. Esse modelo ficaria lá trancado e sempre que precisássemos de uma certeza, o abriríamos e todas as respostas nos seriam dadas. Mas na verdade a história nos mostra que esse padrão normativo é criado pelos homens-encarregados-de-criar-as-normas. É um ofício importante, afinal o que seria de nós sem as regras? Até para construir este texto preciso de regras: regras ortográficas, de sintaxe, de concordância, etc. Não fazendo uso delas eu certamente não me faria compreender. Na sociedade elas funcionam como um freio. Na sua ausência correríamos o risco de produzir um mundo caótico. Mas será que essas normas devem ser seguidas de forma cega e irreflexiva? Na verdade, fazendo isso tornamos as coisas mais fáceis, pois lançamos sobre as regas o jugo de uma responsabilidade que é nossa. Assim fica mais fácil conviver com os resultados das nossas decisões. Por outro lado, a reflexão demanda responsabilidade. Romper com a norma padrão tem um preço e são poucos os que têm coragem de arcar com as conseqüências.


Voltemos ao caso do homem-bandido-terapeuta e da mulher-policial-paciente. A mulher tripartida quer carinho, quer ordem e quer cura para os seus problemas emocionais. O terapeuta tripartido quer uma mulher, uma aventura bandida e uma paciente curada. Todas essas divisões tornam o problema muito complexo. Como analisá-lo sob a ótica de uma regra cega, incapaz de lidar com sistemas complexos?


No final do episódio vemos que a mulher pesou na balança seus valores e entendeu que a ordem estabelecida era mais importante. Ela armou uma cilada e denunciou o terapeuta logo após ter sido assediada por ele. Os dois foram presos. Ele pelos moralistas. Ela, por sua própria moralidade.


*Esse texto é uma análise do episódio “Roma Isenta” do seriado “Picket Fences” transmitido pela CBS americana na década de 90. A construção do texto teve como finalidade cumprir as exigências da disciplina “Ética Cristã” do Seminário Teológico Batista Carioca.

Nota:

[1] Garber (1978) in CAPRA, Fritjof. Ponto de Mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente, 1982, p. 75.

A TEORIA DA EVOLUÇÃO E O GÊNESIS

Por Jones Mendonça

1. Introdução
Toda criança quando atinge certa idade pergunta aos pais o porquê dos chineses do outro lado do mundo não caírem por estarem “de cabeça para baixo”. Os pais mais pacientes e preocupados com a educação dos filhos não hesitam em explicar que quanto maior a massa de um corpo, maior seu poder de atração gravitacIonal. Seres humanos têm uma massa infinitamente menor que a terra, por isso são atraídos por ela. Os nove planetas do nosso sistema solar, por exemplo, são atraídos pelo sol. A gravidade que o sol exerce sobre eles é o que mantém nosso sistema estável. A gravidade explica o porquê dos chineses não “caírem” já que estão do outro lado da terra. A idéia de um “lado de cima” e de um “lado de baixo” acaba sendo mera força de expressão.

Crianças muito curiosas geralmente não ficam satisfeitas com essa resposta e começam a nos bombardear com novas perguntas: Por que a gravidade existe? De onde vieram os planetas? É Deus o criador de tudo? Quem criou Deus? Crianças, pequenos metafísicos...

A ciência investiga o universo com as lentes da razão, e não podia deixar de ser diferente. Os avanços das pesquisas científicas são notáveis, muitas vezes nos causando assombro, como, por exemplo, quando a humanidade viu pela TV a chegada do homem à lua. Mas o campo de investigação da ciência tem limites, já que ela trabalha com elementos palpáveis, mensuráveis e que podem ser analisados empiricamente. A antiga pergunta: “O que ou quem deu origem ao universo?” permanece aberta ao debate. Quando Sue Lawley, numa entrevista à BBC de Londres, perguntou ao físico teórico Stephen Hawking se havia descartado Deus como sendo um dos responsáveis possíveis pela criação do universo, respondeu:

Tudo o que meu trabalho mostra é que não precisamos dizer que o modo como o universo começou foi um capricho de pessoal de Deus. Mas continuamos diante da questão: por que o universo se deu ao trabalho de existir? Se você preferir, pode definir Deus como sendo a resposta para essa questão[1].

Gosto da honestidade de Hawking. Ele parece conhecer muito bem os limites da ciência.

2. O eterno embate entre ciência e religião
A relação entre religião e ciência sempre caminhou de maneira conflituosa. Ora se abraçavam (como na escolástica), ora se agrediam (como no iluminismo). Hoje a coisa não está muito diferente. Brigas entre criacionistas e evolucionistas, por exemplo, são muitas vezes destacadas na mídia. Criacionistas mais radicais afirmam categoricamente que a terra não tem mais que seis mil anos, que houve um dilúvio universal, que Eva foi literalmente feita da costela de Adão, etc. Evolucionistas mais radicas, como Richard Dawkins, buscam provar que “Deus é um delírio[2] dos religiosos. A evolução, para ele, pressupõe a negação de Deus. Vemos aí que o extremismo possui dois lados.

Mas será que existe antagonismo entre evolução e criação? Sabemos hoje que todos os elementos químicos possuem uma origem comum. No início só havia o hidrogênio, o elemento mais abundante no universo. A partir dele todos aqueles elementos que na adolescência nossos professores insistiam que tínhamos que decorar foram surgindo. Isso aconteceu porque o colapso gravitacional que ocorreu quando o universo era ainda um bebê provocou a fusão do hidrogênio. Esse processo de formação de elementos químicos ocorreu nas estrelas e chama-se nucleossíntese. A nucleossíntese é, portanto, “a evolução no tempo e no espaço da composição química do cosmo”[3]. Poderíamos dizer então que somos todos feitos de poeira cósmica.

3. Filhos das estrelas ou filhos de Deus?
Infelizmente no protestantismo o dualismo se enraizou de tal forma que muitos cristãos só conseguem ver o mundo em duas cores: preto ou branco. Para estes, o cinza simplesmente não existe. Será que não dá pra estabelecer um diálogo entre a teoria da evolução e a concepção cristã de um Deus que cria o universo? Quando falo em diálogo não estou propondo uma explicação da criação a partir da teoria da evolução, mas simplesmente estar aberto ao que a ciência tem a dizer a respeito das novas descobertas científicas. A teoria da evolução afirma, por exemplo, que homens e animais possuem origem comum (e não que o homem veio do macaco). Isso tem sido refutado por muitos cristãos, mas será que a própria Bíblia não afirma isso? Vejamos:

“E disse Deus: Produza a terra seres viventes (nefesh hayah = alma ou ser vivente) segundo as suas espécies: animais domésticos, répteis, e animais selvagens segundo as suas espécies. E assim foi” (Gn 1,24).

“E formou o Senhor Deus o homem do da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente (nefesh hayah = alma ou ser vivente)” (Gn 2,7).

Ainda que João Ferreira de Almeida evite traduzir nefesh hayah por alma vivente ou ser vivente em ambos os textos, as palavras hebraicas são as mesmas. Como se vê, tanto o homem como os animais possuem uma origem comum: a terra e ambos foram animados (do latim ânima, que possui alma ou ânimo) por Deus. Homens, animais e plantas, todos filhos da terra; todos feitos de poeira cósmica; todos filhos do hidrogênio. Mas e o hidrogênio, quem o fez? Voltamos à pergunta inicial.

4. Conclusão
A cosmogonia (narrativa a respeito da origem do cosmos) e a antropogonia (narrativa a respeito da origem do homem) do livro de Gênesis não é um tratado científico, mas um relato que contém ensinamentos teológicos a respeito de Deus e sua relação com o mundo criado. A história é belíssima se lida como poesia, mas torna-se descabida caso se busque nela elementos históricos e/ou científicos. O fato de a considerarmos poesia não quer dizer que não deva ser levada a sério ou que seja mera invenção humana, mas simplesmente que a linguagem nela empregada não é a mesma que utilizamos no mundo moderno.

À ciência cabe responder que transformações ocorreram na terra para que produzisse seres vivos. À metafísica e a religião cabem responder porque o universo existe e que sentido isso possui para nós. Acho importante que cada um saiba respeitar os limites do outro.


Bibliografia:
HAWKING, Stephen. Buracos negros, universos bebês e outros ensaios. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.
MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e Astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

Notas:
[1] HAWKING, Stephen. Buracos negros, universos bebês e outros ensaios, 1995, p. 135.
[2] Dawkins é autor de um livro intitulado “Deus, um delírio”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. No livro o autor procura demonstrar a que a crença em Deus é pura tolice.
[3] MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica, 1987, p. 574.

Crédito da imagem:

MASPERO, G. History of Egypt, Chaldea, Syria, Babylonia, and Assyria – vol III, (part A). Edited by A. H. Sayce. London the Grolier Society Publishers.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O QUE ERA A TONSURA?

Quem explica é o Frei Dagoberto Romag:


Desde o século IV, tornou-se costume entre o clero cortar os cabelos. No século V, a tonsura foi introduzida como sinal distintivo. No oriente usava-se a tonsura Pauli [todo o cabelo era cortado], no ocidente a tonsura Petri [só o topo da cabeça era raspado]. Esta chamava-se também ‘corona Christi’ [coroa de Cristo]. Na igreja iro-escocesa foi introduzida uma terceira forma, ‘tonsura S. Joannis ou ‘tonsura S. Jacobi [apenas um crescente de cabelo da fronte da cabeça era cortado]. Desde o século XVI, a tonsura dos clérigos seculares foi reduzida a um pequeno círculo”[1].


Nota:

[1] ROMAG, Dagoberto. Compêndio da História da Igreja - v.1. Rio de Janeiro: Vozes, 1949, p. 275.

Imagem: tonsura romana

O QUE É E COMO INSTALAR A E-SWORD?

O conteúdo deste posto foi atualizado. Leia aqui


Jones F. Mendonça

terça-feira, 25 de agosto de 2009

BEM AVENTURADOS OS... OPRESSORES?

A fé e o dinheiro, o sagrado e o profano, têm há séculos convivência explosiva em todas as religiões em todas as partes do mundo. É uma lástima que os estilhaços atinjam sempre com mais força destrutiva justamente os despossuídos, os doentes e os desesperados que atravessam as portas dos templos em busca de abrigo, cura e consolo”.
Revista Veja, edição de 19 de agosto de 2009, p. 13. (sobre o novo escândalo envolvendo a Igreja Universal do Reino de Deus).

O CRISTIANISMO PRIMITIVO

Por Jones Mendonça


1. Introdução

Caso leiamos todo o evangelho de Lucas e o livro de Atos (que é continuação do primeiro – compare Lc 1,3 com At 1,1), teremos visto de maneira resumida o relato do nascimento do cristianismo. Essa história se inicia com o anúncio do nascimento de Jesus (Lc 1:26), e termina com a chegada de Paulo em Roma como prisioneiro e missionário (At 28,16; 28,31). Mas o que aconteceu depois disso? Algumas tradições antigas afirmam que Paulo teria sido martirizado por decapitação pelo imperador Nero, entre 60-63 d.C (Tert., De praesc. Haer. 36,3). Pedro teria sido vítima de uma morte mais trágica: a crucificação invertida (Eus., HE 3,1).


Apesar da morte de Paulo e de Pedro, o cristianismo, que inicialmente era considerado pelos romanos como uma seita judaica, continuou sendo pregado pelo mundo da época, mesmo diante das mais cruéis perseguições. São famosas as investidas do imperador Nero e Domiciano dirigidas aos cristãos. Há relatos de que Nero tenha crucificado e queimado vários cristãos, alguns deles sendo usados como tochas humanas para iluminar as estradas romanas e outros lançados aos cães, servindo com espetáculo público. Tácito nos conta (An. 15,44) que, no reinado de Nero, morreu grande multidão de cristãos. Essa perseguição aos cristãos durou cerca de 250 anos. Mas elas tiveram um resultado inverso do esperado, pois contribuiu para que o cristianismo se difundisse com maior intensidade. Como disse Tertuliano, escritor cristão do século II d.C.: “o sangue dos mártires é a semente da igreja” (Apol 50).


2. O Novo Testamento: a tradição dos apóstolos é documentada por escrito.

Ao contrário do que muita gente pensa, os relatos da vida de Jesus não foram sendo escritos enquanto ele vivia. Quando lemos, por exemplo, o prefácio do terceiro evangelho, percebemos que Lucas tinha a intenção de relatar algo que já havia sido pregado pelos apóstolos em suas viagens missionárias, mas que só agora começava a ser registrado por escrito:

a mim também pareceu conveniente, após acurada investigação de tudo desde o princípio, escrever-te de modo ordenado, ilustre Teófilo, para que verifiques a solidez dos ensinamentos que recebeste” (Lc 1.3-4).

Apesar de não sabermos quem era Teófilo, percebemos pelo tratamento que recebeu de Lucas (ilustre), tratar-se de alguma pessoa importante da sociedade da época. Teófilo havia se convertido ao cristianismo por meio da pregação dos primeiros cristãos e queria saber os detalhes da vida e obra daquele em quem depositara sua fé.


Note que os primeiros evangelhos foram escritos cerca de 30 anos depois da ascensão de Jesus. Após terem recebido do mestre a missão de evangelizar as nações, os apóstolos começaram a pregar as boas novas de Cristo transmitindo-as baseados naquilo que viram e ouviram (essa era a famosa “tradição dos apóstolos”). Nasciam assim os Evangelhos, relatos da vida de Jesus feitos por seus discípulos.


As cartas de Paulo dirigidas às comunidades de Corinto, Tessalônica, Éfeso, Filipos, Roma, Colossos e da Galácia foram sendo escritas à medida que ele viajava pelas diferentes regiões do Império Romano. Essas cartas (também chamadas de epístolas) foram sendo redigidas numa época em o evangelho era pregado por testemunhas vivas do ministério de Jesus. Além de Paulo, o apóstolo “nascido fora do tempo” (1 Co 15,8), temos também epístolas redigidas por Tiago, Judas, Pedro e João. Isso sem falar na epístola aos Hebreus, cujo autor nos é desconhecido e no polêmico livro do Apocalipse, atribuído a João.


3. Qual o conteúdo central do Novo Testamento?

A palavra evangelho significa boa nova, anúncio de salvação. O evangelista Marcos, por exemplo, dá a sua obra o título de “Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1.1). Nesse mesmo sentido João conclui o seu evangelho: “Estas coisas foram escritas para que creiais que Jesus é o Cristo, filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (Jo 20.31). A pregação dos apóstolos segue na mesma linha, não só afirmando a messianidade de Jesus, mas também a sua ressurreição: “Deus ressuscitou a este Jesus do que todos nós somos testemunhas” (At 2.32). A esperança de seu retorno era o que dava força a igreja para perseverar na doutrina dos apóstolos, mesmo que o preço dessa fidelidade tivesse que ser pago com a própria vida. Difundir a nova e revolucionária mensagem do cristianismo num mundo pagão seria uma tarefa espinhosa. Se os judeus consideravam o sacrifício vicário (vicário = substitutivo) de Jesus um “escândalo”, os pagãos a consideravam “loucura” (1 Co 1,23). Mas esse é um assunto que será abordado na próxima lição.


Figura:

LA HIRE, Laurent de

Jesus aparecendo às Três Marias
1650
Óleo sobre tela, 398 x 251 cm
Museu do Louvre, Paris

Ir para a lição II

HISTÓRIA DO CRISTIANISMO

Começarei a publicar a partir de hoje a história do cristianismo, desde a primeiro século até os nossos dias. Consultei livros católicos e protestantes a fim buscar certa imparcialidade. Empreguei uma linguagem simples e objetiva, sempre evitando citações longas visando tornar o texto mais dinâmico.

A primeira lição está logo acima.

Dúvidas, críticas e sugestões serão bem-vindas!

domingo, 23 de agosto de 2009

A CONFUSÃO DE CRIVELLA E MÃO SANTA

Esta eu assisti. Aconteceu esta semana.


O senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), na tribuna do Senado, defendia o governo na decisão de compra de submarinos. Encerrou seu discurso dizendo que a própria Bíblia recomenda: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra.” E enfatizou:
- Está na Bíblia!


Assim que desceu da tribuna, o senador Mão Santa (PMDB-PI), que presidia a sessão, naquele seu jeito irreverente, corrigiu:


- Ô, Crivella, não está na Bíblia, não. Quem disse isto foi Mcnamara, um general americano.


Crivella ficou meio sem graça.


Na verdade, a frase é a tradução de um ditado latino cunhado pelo Império Romano: Se vis pacem para bellum. Teria sido escrita pelo autor romano Publius Flavius Vegetius Renatus.


Mcnamara pode ter citado - certamente citou - mas não é o autor, como parece pensar o Mão Santa. E não consta que está na Bíblia.
Ambos os senadores, portanto, não estavam certos.


Fonte: ClicRBS/NC

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

CHICO BUARQUE DE SAMARIA

Por Marcos Nunes (colaborador do Blog).


No mês dos 64 anos de um dos mais respeitados artistas da nossa cultura brasileira, Francisco Buarque de Holanda, resolvi aceitar o desafio de navegar numa aventura transcultural sobre a maneira como Jesus iria relacionar-se com a nossa cultura brasileira caso vivesse em nossos tempos. Alias, será que Ele sairia de Israel, da sua cultura, será que se daria ao trabalho sentar-se em nossas rodas de conversa, em nossas praças, na beira do mar ou dos rios? Será que Ele ouviria o que temos a dizer, escrever, cantar, tocar e encenar do nosso jeito Tupiniquim? Isso que tentarei responder no final!


Bem, sei que não estou sozinho no meio evangélico brasileiro quando me disponho a me abrir às manifestações culturais populares do nosso país, mas também sei que não estou com a maioria, nem com o mais populares no meio. Lembro-me agora que os princípios batistas que, quando falam do governo da igreja, dizem que "nem a maioria, nem a minoria, nem tão pouco a unanimidade, refletem necessariamente a vontade divina"[1].


Sei que Ed René Kivitz me defenderia, caso fosse acusado de heresia, lançando mão de dois princípios da Reforma, a saber: a "Graça Comum" e o a "Imago Dei". Ele diria que a "Graça Comum" é a base para pensarmos que "a bondade, o governo e a instrumentalidade de Deus"[2] também influenciam pessoas que estão" à parte do conhecimento e do compromisso com o todo da revelação bíblica"[3] e a "Imago Dei" nos garantiria que todo ser humano é "capaz de expressar o ético e o estético divino"[4]. Sei também que Ariovaldo Ramos me defenderia, baseado em Mateus 28:19, dizendo que existe uma distinção entre a conversão de inúmeros indivíduos de uma nação e a conversão de uma nação como complexo cultural, por tanto, diria ele: "reconhecemos que uma nação está se convertendo quando esta nação passa a usar sua maneira própria de contar as suas mazelas para falar dos benefícios de servir a Cristo "[5].


Os dois argumentos são excelentes e são base para minha argumentação teológica, contudo, me parece que o maior motivo pelo qual o Brasil não experimenta esta abertura teológica-cultura não diz respeito apenas a idéia de que alguém que não tenha conhecimento bíblico não possa fazer algo interessante(Graça comum e Imago Dei) ou na idéia de demonização da nossa própria cultura local(Conversão da nação) e sim no fato de que a maioria cristã fundamentalista tem a idéia de que eles mesmo representam a matriz pronta e acabada da maneira correta de viver e servir a Cristo e que andar por outros caminhos significa literalmente desviar do "Caminho".


O circo Místico

(Chico Buarque - Edu Lobo)


Não

Não sei se é um truque banal

Se um invisível cordão

Sustenta a vida real


Cordas de uma orquestra

Sombras de um artista

Palcos de um planeta

E as dançarinas no grande final


Chove tanta flor

Que, sem refletir

Um ardoroso espectador

Vira colibri


Qual

Não sei se é nova ilusão

Se após o salto mortal

Existe outra encarnação


Membros de um elenco

Malas de um destino

Partes de uma orquestra

Duas meninas no imenso vagão


Negro refletor

Flores de organdi

E o grito do homem voador

Ao cair em si


Não sei se é vida real

Um invisível cordão

Após o salto mortal


1983 © - Marola Edições Musicais Ltda.


A música de Chico Buarque e Edu Lobo retrata na linguagem da Música Popular Brasileira aquilo que é inerente a todo ser humano no que diz respeito ao mistério da vida, da morte e do destino do homem. Temas profundamente relacionados à teologia e a humanidade em si! Mas os protestantes fundamentalistas teimam em restringir ao seu espaço social religioso.


Quando olho para o questionamento de Chico Buarque, uma passagem bíblica me vem mente e quero compartilhá-la. A famosa passagem da mulher samaritana que questiona a Cristo a respeito do lugar correto para adoração. Tradicionalmente a passagem é conhecida como aquela que começa em João no capítulo quatro, versículo primeiro e vai até o versículo trinta. Mas para mim a perícope começa quando Jesus fica sabendo que os fariseus tomaram conhecimento de onde Ele estava e, por tanto, Ele decide sair da Judéia e ir para Galiléia[6]. Para mim essa história começa quando Jesus foge dos religiosos que se pretendem donos da verdade e vai para outro lugar, outros caminhos.


O caminho de Jesus sempre teve abertura para encontros com outras culturas, outras opiniões e outras maneiras de ver. Não é sem motivo que ele tem um encontro com esta mulher da cidade de Samaria, mas o que representa Samaria? Se analisarmos a história monárquica de Israel, especialmente a divisão entre o Reino do Norte, Israel, com a capital em Samaria e o Reino do Sul, Judá, com capital em Jerusalém entenderemos que o clima é de guerra entre estes povos, antes homônimos e agora antagônicos. Esta história dá conta que tudo estava pronto para que uma guerra fosse deflagrada e Deus escolhe um profeta, Semaías, para que a tal guerra não ocorresse, no entanto, desde então "os judeus não se dão com os samaritanos" [7].


Imagine agora que Jesus passou mais de trinta anos ouvindo seus amigos e homens mais velhos dizer que os samaritanos não prestavam, imagine que quando Ele visitava o templo e conversava com os doutores da lei e eles diziam que os samaritanos não sabem onde adorar, pois segundo eles somente em Jerusalém se poderia adorar, o que é desmentido mais tarde.


Para responder aos questionamentos daquele ser humano Jesus não fez caso da condição dela de mulher e de samaritana, nem tão pouco da dEle de homem e judeu, a necessidade do outro no que tange a conhecimento da maneira correta de agradar a Deus moveu Jesus de tão grande compaixão que Ele transpôs todas as barreiras sociais que se interpunham entre eles.


Recapitulando: Aquele ser humano era uma mulher, ela era samaritana e mais adiante vemos que ela não tinha uma vida afetiva muito estável[8] e nada disso, segundo Jesus, seria impedimento para que ela ouvisse e fosse ouvida a respeito da maneira mais correta de adorar a Deus, nada disso seria impedimento para que houvesse um diálogo entre as matrizes de culturas diferentes a respeito da necessidade comum, de falar de Deus.


Por tanto eu defendo que nós, cristãos protestantes brasileiros adotemos uma postura mais aberta e estejamos prontos a ouvir tudo aquilo que nosso povo tem a dizer e a questionar, não com o interesse de detectarmos seus erros mais patentes e acusá-los, antes no desejo de nos aproximarmos cheios de compaixão e respeito, prontos a saciá-los de uma água que não se esgota. Precisamos fazer com que este povo não tenha mais sede e não tente mais buscar saciar sua sede nos poços de Jacó. Precisamos fazer com que essas pessoas tenham dentro em si uma fonte a jorrar, Para isso precisamos dar mais ouvidos a cultura popular brasileira, precisamos ouvir mais MPB!


Notas:

[1] Cathryn Smth, Princípios Batistas, Ponto 4.4 Igreja.Seu governo

[2] Ed René Kivitz, Outra Espiritualidade, Pág 227

[3] Ed René Kivitz, Outra Espiritualidade, Pág 227

[4] Ed René Kivitz, Outra Espiritualidade, Pág 228

[5] DVD Nossa Música Brasileira – vol 2, Sepal – Palestra de Ariovaldo Ramos

[6] João 4:1-3

[7] II Crônicas 11:1-4, João 4:9

[8] João 4:16-18

http://amantedopensamento.blogspot.com/2009/08/chico-buarque-de-samaria.html

A MISSÃO E O EVANGELHO

Por Alan P. Silva (colaborador do Blog).

Uma vez conhecido o alcance da salvação no que diz respeito ao homem, retomamos o texto de Mateus 28.19-20 para um aprofundamento no entendimento dessa ordem de Jesus. Primeiro vamos entender o que quer dizer missão e evangelho, depois uma breve interpretação do texto.


1.1 - MISSÃO

Segundo o Dicionário Aurélio[1], missão do lat. missione assume os seguintes significados:


1. Função ou poder que se confere a alguém para fazer algo; encargo, incumbência.

2. Função especial da qual um governo encarrega diplomata(s) ou agente(s) junto a outro país; comissão diplomática.

3. O conjunto das pessoas que receberam um encargo religioso, científico, etc.

4. Ofício, ministério.

5 .Obrigação, compromisso, dever a cumprir: missão de pai.

6. Prédica ou sermão doutrinal.

7. Estabelecimento, instituição ou instalação de missionários para pregação da fé cristã.


No comando de Jesus, o Ide assume o sentido de missão, e missão por delegação[2] – Seus discípulos, em seu nome, são conferidos ao encargo, a incumbência de expandir o evangelho.


1.2 - EVANGELHO

Já o termo Evangelho, conforme o Aurélio, vem do Gr. euangélion, 'boa nova', pelo lat. Evangeliu, que significa dentre outros, a Doutrina de Cristo.[3]


Evangelho, em geral, é a transcrição literal do original grego euangélion, que significa “boa nova” ou “alegre mensagem”. Compõe-se de eubem, bom, e de ánghelosmensageiro, anunciador, ou do verbo anghéllein - “anunciar”. Com o plural, “evangelhos”, se designam os quatro primeiros livros do NT.[4]


Em sentido mais amplo Evangelho, é a obra da evangelização (1 Cor 9), a mensagem pregada (Rom 1.3-9), toda a realidade cristã (Rom 1.16), a alegre notícia da salvação para todos os povos que crêem no Cristo.


No Novo Testamento temos duas expressões de evangelho: «o evangelho de Deus» (Rom 1.1; 2 Cor 11.7) e «o evangelho do Filho» (Mc 1.1); A primeira diz ao mesmo tempo, que Deus é seu autor e seu objeto - vem Dele e é para Ele; A segunda indica que Jesus foi o primeiro a pregá-lo e que ainda hoje atua no pregador que o proclama ou que ele constitui como comissionado.


O Evangelho do Filho é anúncio de salvação por parte do Jesus, que, cumprida sua missão, delega este ofício à Igreja. Jesus se apresenta como o mensageiro e próprio instituidor da alegre notícia messiânica. O faz aplicando e cumprindo em si as profecias de Isaías. Nas palavras de Stott [...] é a boa nova para os pecadores agonizantes, é a notícia de que Deus lhe promete vida em Jesus Cristo.[5]


O conteúdo essencial do Evangelho do Filho é:

1. A chegada do Reino de Deus em sua Pessoa: [...] pois eis que o Reino de Deus está no meio de vocês. (Mc. 17.21b);

2. Perdão de Pecados: [...] Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. (João 1.29) ;

3. Salvar o homem de qualquer tipo de opressão (espiritual, do eu, com o próximo, com mundo) e do abandono eterno: [...] Mulher onde estão eles? Ninguém te condenou? ... Nem eu te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais. (João 8.10-11) e [...] Quem nele crê, não é julgado; quem não crê, já está julgado, porque não creu no Nome do Filho único de Deus. Assim como a vida eterna já é experimentada a opção do abandono de Deus também já pode ser vivida desde agora.

4. Ser ressuscitado e glorificado com Cristo no Céu: [...] Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim não vos teria dito, pois vou preparar-vos lugar, e quando eu for e vos tiver preparado o lugar, virei novamente e vos levarei comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais vós também.


1.3 - COMPREENDENDO O TEXTO


Todo o Poder no céu e sobre a terra

v. 18 - Jesus fala no verso 18b, [...] todo poder foi me dado no céu e sobre a terra [...]. O verso trata do pleno e universal poder que compete ao Cristo glorificado. As palavras de Jesus, parecem fazer alusão ao cumprimento da visão de Daniel 7.14 quanto ao poder a ser exercido pelo Filho do Homem: [...] A ele foi outorgado o poder, a honra e o reino, e todos os povos, nações e línguas o serviam. Seu império é império eterno que jamais passará, e seu reino jamais será destruído.


Jesus foi o agente cumpridor da missão de salvar. Como homem (ser histórico), deteve o poder necessário do próprio Deus. O “Poder” indicado no texto vem do Gr. ξουσία, exousía, e é entendido como Autoridade, faculdade, direito, habilidade, concedida a Jesus no céu e na terra. Vale dizer que Ele é o mandatário de toda a autoridade sobre o universo criado, seja invisível (céu) ou visível (terra); As duas dimensões do universo. Como citou Knox [...] Foram-lhe dados o céu e a terra para que Ele fizesse com eles o que quisesse [...][6].


[...] no céu e sobre a terra [...] – O Céu constitui o símbolo mais primitivo da cultura humana, para expressar transcendência, a infinitude, aquilo que o homem não pode alcançar com as próprias forças[7]; Dois celebres simbologistas, a respeito de “céu”, descrevem:


Símbolo quase universal pelo qual se exprime a crença em um Ser divino celeste, criador do universo [...] O Céu é uma manifestação direta da transcendência, do poder, da perenidade, da sacralidade: aquilo que nenhum vivente é capaz de alcançar.[8]


Para o pensamento judaico e também cristão, o simples fato de encontrar-se em cima, equivale a ser poderoso. Em outras palavras, pode-se compreender que a Jesus é conferido poder no céu - poder sobre a fonte de poder, que vale dizer – É Senhor absoluto.


Por outro lado , a terra simboliza o lado natural, material e visível da existência. Na terra, através de todas suas ações, inclusive os sinais, mostrou também ter autoridade.


João descreve uma série de 7 sinais que provam que Jesus é o Filho de Deus que tem autoridade sobre a terra. Recordemos:


  1. O primeiro é o das Bodas de Caná (Jo 2.1ss); Este foi o primeiro dos “sinais” de Jesus;
  2. A cura do filho de um funcionário real (Jo 4.43ss);
  3. O terceiro “sinal” é a cura de um doente no tanque de Betesda (5.1ss);
  4. O quarto é a multiplicação dos pães (6.1ss);
  5. A cura de um cego de nascença (9.1ss);
  6. A ressurreição de Lázaro (11.1ss);
  7. A ressurreição de Cristo (20.1ss).

Um comentarista bíblico observa que a esfera de autoridade de Jesus parece crescer conforme avança o seu ministério, tudo para mostrar que Ele é o próprio Deus-homem:[9]


] Ele cura (em amplo sentido- sede, fome e morte) – tem poder sobre toda a carne - João 17.2: [...] pelo poder que lhe deste sobre toda a carne [...];


] Domina as forças da natureza - Mateus 8.26-27 [...] Disse-lhes ele: Por que tendes medo, homens fracos na fé? Depois pondo-se em pé, conjurou severamente os ventos e o mar. E houve grande bonança. Os homens ficaram espantados e diziam: Quem é este a quem até os ventos e o mar obedecem?


] Perdoa pecados – Mateus 9.2 [...] Ai trouxeram um paralítico deitado numa cama, vendo sua fé, disse ao paralítico: “Tem ânimo, meu filho; Os teus pecados te são perdoados [...] e;


] Age como juiz da vida humana - João 8.10 [...] Então, erguendo-se, Jesus lhe disse: Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou? Disse ela: Ninguém Senhor. Disse, então, Jesus: Nem eu te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais.


] Domina a morte – Lázaro - João 11.25: [...] Eu sou a ressurreição. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E quem crê em mim jamais morrerá.


Então, esta declaração de Jesus citada por João - [...] todo o poder ... no céu e na terra [...], resume e evidencia sua auto-proclamação como Deus, porque no pensamento judaico, a plena autoridade sobre a obra criada só pertence ao criador, e em Gênesis 3.1 descreve, [...] No princípio criou Deus os céus e a terra.


E não é só! O “poder” a que o texto se refere não está restrito ao poder de Jesus em realizar sinais miraculosos, pois estes, apesar de elementos importantes e indispensáveis, como cita Karl Barth, [...] não passam de sinais de evento novo que se inicia, continua acontecendo e vai em direção ao alvo [...][10] , mas no “poder”, definido essencialmente como a autoridade de perdoar pecados e salvar, conferida e testemunhada por Jesus - o maior dos milagres, assim descrito por Barth:


A novidade essencial e decisiva vem a ser o novo homem (Jesus) que , conforme o testemunho bíblico, passou agir em meio a outros homens, vindo a ser seu senhor, seu servo e fiador, através daqueles feitos, anunciando a si mesmo, e com isso, a justiça e o juízo de Deus, e revelando sua glória. Novo é Ele mesmo, como sendo a grande luz da esperança, que já veio e que ainda há de vir – luz que reluziu provisoriamente através daquelas pequenas luzes (sinais): Nova é a reconciliação do mundo com Deus, anunciada no Antigo – e acontecida, conforme o Novo Testamento, naquele Unigênito – reconciliação que trouxe consigo o cumprimento, a consumação total da a Aliança entre Deus e os homens. Novo é o amor; nova é a graça soberana, a misericórdia insondável, pela qual Deus se compadeceu de Israel – daquele “lutador” (Jacó) revoltado contra Deus, como também se compadeceu de todo o gênero humano, rebelde e corrupto, dando execução a seu plano eterno [...] Nova é, conforme o testemunho bíblico, a história de Jesus Cristo, a consumar a história de Israel. Ele, o Salvador, está presente! Essencialmente e decisivamente é Ele que representa o milagre (o milagre dos milagres!) [...] Ele é o infinitamente admirável (milagre) que uma vez conhecido e testemunhado pelo homem, necessariamente faz dele um ser admirado, de uma vez para sempre, admirado em sua profundidade, em sua existência total.[11]


A palavra Gr. Terata – milagres, não aparece nenhuma vez no NT sem está acompanhada da palavra Gr. Sermeia – sinais. E, F.F. Bruce, no mesmo sentido escreve [...] Os milagres no NT não são meros milagres; são todos evidências de uma realidade subjacente [...] [12] o que mostra os milagres são como amostras de algo maior e melhor.


E Cristo deixa muito bem claro aos seus discípulos, a saber, que a prioridade é o milagre da salvação – Lucas 10.20: Contudo, não vos alegreis porque os espíritos se vos submetem; alegrai-vos, antes, porque vossos nomes estão inscritos nos céus.


Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos...


v. 19 – Agora o evangelista faz um paralelismo entre o poder de Jesus e a missão que ele confere aos seus discípulos. O Ide, portanto..., corresponde a comissão de Cristo aos seus discípulos à expansão da alegre notícia, do novo que se inicia. Para isto, os discípulos são investidos da autoridade de Jesus Cristo, que em sua maior extensão deve equiparar-se àquela descrita por Barth.


A frase ...todas as nações - Gr. παντα τα εθνη - pás to ethnos[13] [14], mostra que a missão não conhece limite de espaço (todos os povos, tribo, gente) é de alcance pleno, nem limite de tempo, quando ligada à conclusão do texto [...] até a consumação dos séculos.


E a missão é, salvar, tornando toda gente discípulos de Cristo. Discípulos do Gr. Μαθητεύω - mathēteuō ou mathestes) literalmente quer dizer “aprendiz”[15]. A raiz math, indica um pensamento acompanhado de esforço, por conseguinte denota “aquele que segue os ensinamento de alguém”. Discípulo era compreendido não só como um aluno, mas um partidário, um imitador das idéias de um mestre,[16] um constante seguidor e imitador.


...Batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo...


v. 19b - Batismo – Gr. βαπτίζω, baptizō, significa submergir. Seu processo consiste na imersão, submersão e emersão.[17] Imersão em água aqui, é o símbolo de purificação e de renovação.[18] No cristianismo o batismo é tratado como testemunho público da identificação do novo crente com Cristo (o Quérigma[19]) em sua morte, sepultamento e ressurreição;


O batismo ensinado por Jesus difere do batismo de João Batista. O de João era o batismo do arrependimento dos pecados, uma mudança de comportamento externo[20] (Mc 1.4), não incluindo o plano de salvação de Jesus. O de Jesus vai muito além. Como explica Tasker [...] Era essencialmente um novo sacramento, pelo qual homens e mulheres haveriam de submeter-se à influência do Trino Deus para serem usados em seu serviço [...][21] e acrescento, simboliza o arrependimento dos pecados e a confirmação da fé no Cristo.


Como ensina Gardner, Jesus considera o arrependimento inaceitável a não ser que signifique, mudança radical de mente e vontade que proporciona uma transformação íntima.[22]


Lembro neste ponto, que a única condição para o batismo cristão é crer na Boa Notícia do Reino de Deus (Atos 8.12) – Que Jesus Cristo é o filho de Deus que tira os pecados do mundo. Crer implica em entender a Palavra de Deus e tomar uma decisão consciente de apresentar-se para fazer Sua vontade revelada. O crer para Jesus implica necessariamente três importantes movimentos – Arrependimento, (plena confiança em Deus) e Obediência[23] porque [...] aquele que diz que permanece nele deve também andar como ele andou. (I João 2.6).


A expressão [...] em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo [...][24], segundo Vine, [...] indica que a pessoa batizada ficou estreitamente relacionada ou o tornou-se propriedade daquele em cujo nome ela foi batizada.[25] O batismo sob a convocação da trindade, realça o testemunho do encontro místico do novo discípulo com Deus em toda sua dimensão, o que confirma a oração sacerdotal de Jesus em João 17.11b [...] Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós. Com isto o batismo torna-se a confirmação pública da adesão à fé e ao discipulado cristão, em seu mais sublime sentido.


E ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei.


v. 20 – A adesão de fé em Jesus Cristo está relacionada à observação teórica e prática dos preceitos evangélicos. O Ensinar – Gr. διδάσκω, didásko, é a instrução continua e permanente dos exatos caminhos de Jesus.


Jesus é conhecido como um Rabino – Mestre; Em Mc 6.1-2, acompanhado de seus discípulos vai a sua cidade – Nazaré, e ensina na sinagoga. Sua sabedoria fascina a audiência e a realidade de seu amor e suas poderosas obras são reconhecidas por todos.


No texto, o comando de Jesus pretende pela continuidade desse testemunho, de seus ensinamentos. O discípulo, como imitador do seu mestre deve, dentre outras coisas, ensinar como ele ensinou, respeitando seus aprendizes, esclarecendo-os do caminho e da realidade cristã. O comissionado tem o dever de instruir seus receptores da verdade. E a instrução verdadeira é aquela delimitada pela mensagem anunciada e vivida por Jesus Cristo.


Como afirmou Barth, [...] é no meio chamado Igreja que a pregação tem lugar. Ela está ligada a existência e a missão da Igreja. É precisamente por esta razão que ela deve ser conforme a Revelação. É preciso lembrar que esta se situa no quadro do Antigo e do Novo Testamento.[26]


E Barth conclui:


[...] A Igreja não representa a humanidade em geral na sua relação com Deus, ela é a humanidade reunida por obra da revelação. E por isso que ela está fundada sobre a Escritura. Se a Igreja é constituída pelo testemunho dos apóstolos, intermediários da Revelação, qual é neste contexto a pregação? – Ela tem unicamente que explicar este testemunho.[27]


Estou convosco [...] Para isso Jesus dá a garantia de sua ininterrupta assistência aos discípulos, e por conseguinte à Igreja. Esta finalização retoma o tema Emanuel - Deus conosco, e remonta ao princípio Deuteronomista da divina shekináh – a presença de Javé no meio de seu povo (Dt 4.7). Com esta maravilhosa afirmação, Jesus, tal qual Javé no AT, apresenta-se como princípio vital e centro de propulsão da feliz notícia na comunidade cristã.


[...] até a consumação dos séculos; Consumação – Gr. συντέλεια, sunteleia, fim; Séculos – Gr. αἰών, aiōn, era[28]. Jesus garante aos seus seguidores que, o que quer que o futuro lhes reserve, estará com eles através do Espírito Santo que enviará da parte do Pai, sempre, até o fim do mundo. Determina, então, à expansão da feliz notícia, por todas as nações existentes, a toda gente, em todos os tempos, até a finalização da história, quando começará um novo tempo, inaugurado pelo retorno do Senhor Jesus, que João, em Apocalipse 21.1ª, vai denominar de [...] um novo céu e uma nova terra.



Bibliografia Utilizada:

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Notas:
[1] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Eletrônico Aurélio versão 5.0. 2004.

[2] Aurélio: Delegação – delegação [Do lat. delegatione.] 2.Comissão que dá a alguém o direito de agir em nome de outrem, quer em caráter particular, quer como representante (3); mandato.

[3] FERREIRA, Op. Cit.

[4] E-SWORD. the sword of the lord with an eletronic edge. 2007. Software de Ferramentas e Comentários Bíblicos.

[5] STOTT, John R.W.Tu Porém: A Mensagem de 2 Timóteo. São Paulo: ABU, 1982, p. 15.

[6] KNOX, Apud TASKER, R.V.G. In, Mateus. Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 1980, p. 217.

[7] BOFF, Leonardo. Pai Nosso: Oração Libertadora. Petrópolis: Vozes.

[8] CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário dos Símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio Editora., 2009, p. 227.

[9] H.B.SWETE. Apud. TASKER, R.V.G. In, Mateus. Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 1980, p. 217.

[10] BARTH, Karl. Introdução à Teologia Bíblica. Rio Grande do Sul: Sinodal, 1981, p. 40.

[11] Barth, Op. cit p. 40-41.

[12] BRUCE, F.F. João: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 1987, p. 72.

[13] E-SWORD. the sword of the lord with an eletronic edge. 2007. Software de Ferramentas e Comentários Bíblicos.

[14] VINE, W. E.; UNGER, Merril F.; JR, William White. Dicionário Vine. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 569.

[15] E-SWORD. Op. cit.

[16] VINE. Op. cit. p 569.

[17] Ibidem, Op. cit. p. 430.

[18] CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Op. Cit. p. 126

[19] Querigma é a revelação da Verdade de Cristo.

[20] GARDNER, E. Clinton. Fé Bíblica e Ética Social. Rio de Janeiro: ASTE/JUERP, 1982. p. 74.

[21] TASKER, R.V.G. In, Mateus. Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 1980, p. 219.

[22] GARDNER, Op. cit. p. 75.

[23] Ibidem p. 76

[24] Alguns afirmam que estas palavras não são expressões literais de Jesus, mas do Evangelista ou um acréscimo litúrgico posterior, uma vez que nesse tempo não havia se fixado a doutrina da trindade. Mas é uma discussão bastante acadêmica que não vem ao caso neste momento.

[25] Ibidem, p. 430.

[26] BARTH, Karl. A Proclamação do Evangelho. São Paulo: Centro Acadêmico Eduardo Pereira, 1963, p. 10.

[27] BARTH. Op. cit. p. 14.

[28] E-SWORD. Op. Cit.