sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O CRISTIANISMO E AS PRIMEIRAS HERESIAS

Aula II (lição anterior: O Cristianismo primitivo)

1. Introdução

O cristianismo defrontou-se com um mundo onde predominava a cultura greco-romana. O politeísmo, as religiões de mistério, as inúmeras correntes filosóficas, o culto ao imperador, tudo isso tornava a propagação do cristianismo algo bastante complicado. Era comum os pagãos confundirem o cristianismo com o judaísmo, sendo visto como uma religião composta por infiéis à tradição judaica. Ao repudiarem tanto a tradição greco-romana como a tradição judaica, os cristãos colocavam-se à margem da sociedade. Para Luciano de Samosata (125 – 192 d.C), por exemplo, os cristãos eram pessoas convencidas de que “viverão eternamente [...] e, desde que abjuraram os deuses da Grécia, adoram um sofista crucificado”. Apesar de mal compreendida por judeus e pagãos, a fé cristã conseguiu transpor os obstáculos. Mas essa não foi uma tarefa fácil.


2. O cristianismo e a influência pagã

Na religião romana não havia a idéia de um Deus único, criador e que desejava se relacionar com os seres humanos. O povo cultuava os mortos, que depois de sepultados eram “alimentados” com vinho ou comida: “a bebida penetrou na terra, meu pai a recebeu” (Ésquilo, Coéforas, 162), dizia uma mulher do primeiro século. Uma vez sepultado, o homem nada tinha a esperar, nem recompensas nem punição. Os mortos eram considerados criaturas sagradas e venerados como deuses.


Já entre os sábios gregos havia a crença em Deus, mas era um Deus indiferente em relação a vida do homem na terra. Não era um deus que respondia as orações ou que se compadecia com o sofrimento do ser humano. O culto doméstico romano e as correntes filosóficas que eram populares na época não eram capazes de satisfazer a obsessiva busca pela solução do problema da morte. Havia um forte anseio por um Deus que se pudesse amar, que protegesse nesse mundo e ao mesmo tempo garantisse a salvação eterna.


É nesse terreno fértil que surge o cristianismo. Jesus prega um Deus próximo, que deseja se relacionar com o homem e que promete vida eterna aos que o buscam. Se entre os judeus o cristianismo não foi bem aceito, já que esperavam um messias político, entre os pagãos ele foi mal compreendido. Fronton (século II d.C) mestre de dois imperadores, acusava os cristãos de imolarem e devorarem crianças nas cerimônias de iniciação, de adorarem a cabeça de um burro e praticarem incestos após os banquetes. O texto de Jo 6:53 onde Jesus diz “se não comerdes a carne do filho do homem [...] não tereis vida em vós mesmos”, foi interpretado literalmente, por isso a idéia de que comiam a carne de crianças. O costume dos cônjuges tratarem-se como “irmãs” e “irmãos” fez surgir o boato de que praticavam incestos. A igreja nascente começava a sentir a necessidade de homens instruídos que defendessem a fé cristã frente às críticas dos filósofos e do paganismo.


3. Os primeiros apologistas

Diante de todos esses mal entendidos, a comunidade cristã percebeu ser necessário discutir questões envolvendo a sua fé e a cultura pagã. Os primeiros cristãos, por exemplo, se negavam a participar de cerimônias civis, nas quais se ofereciam sacrifícios e juramentos aos deuses. Também não serviam ao exército, porque podiam se ver obrigados a matar alguém ou oferecer sacrifícios a César (havia na época o culto ao imperador). Essa postura gerou vários problemas, levando os pagãos a se referirem constantemente aos cristãos como pessoas anti-sociais e ignorantes. Por não reconhecerem os deuses do Estado, nem o culto do imperador, foram considerados como ímpios e até mesmo ateus (Just., Apol. 1,6, 13; Mart. S. Polyc. 9). A necessidade de um posicionamento claro e bem definido em relação à postura que o fiel deveria ter frente aos mais diversos questionamentos se acentuava a cada dia. Para piorar, havia ainda a ameaça das várias doutrinas vindas do oriente e dos judaizantes, que insistiam na observância da lei mosaica. Surgiam assim os primeiros apologistas, homens instruídos e determinados a defender a fé cristã. Justino Mártir (100-165), Irineu (140-200), Clemente de Alexandria (160-215), Tertuliano (160-220), Orígenes (185-254), Jerônimo (345-419) e Agostinho de Hipona (354-430) tiveram uma postura decisiva no combate a essas correntes. Veja abaixo duas dessas ameaças:


a) Gnosticismo (do gr. gnostikos – “aquele que conhece”) –Religião extremamente sincrética (absorvia doutrinas de outras religiões). Para os gnósticos o mundo material fora criado por um deus mau, chamado Demiurgo. Conseqüentemente não poderiam admitir que Jesus tivesse um corpo físico, já que seria incompatível uma divindade habitar um corpo feito de matéria. Eles também enfatizavam que o corpo é a prisão da alma, sendo toda a matéria criada essencialmente . Havia nos primeiros séculos mais cristãos gnósticos do que se pode pensar.


b) Maniqueísmo – Doutrina de origem persa fundada por Mani (216-276). Mani enfatizava a luta incessante entre o bem e o mal. Todo o universo teria princípios igualmente eternos: a luz e as trevas, que se combateriam incessantemente. Adão e Eva seriam filhos de dois demônios Asqualun e Namrael. Ainda assim, os primeiros humanos carregariam dentro de si uma porção da luz divina. O maniqueísmo pregava a abstinência sexual aos que desejassem ser verdadeiros crentes, já que viam na procriação uma maneira de prolongar o cativeiro da luz.


Tanto o gnosticismo como o maniqueísmo pregavam o dualismo, ou seja, a oposição entre duas realidades distintas: o espírito e a matéria. A Bíblia nunca situou o pecado na matéria, seja no corpo humano, nos animais ou nos minerais. A criação é boa. A oposição existente na Bíblia é entre a carne (gr. sars), que representa a inclinação humana para o mal e o espírito, que é o canal de ligação entre o homem e Deus. É possível ver resquícios dessas duas doutrinas em alguns segmentos do cristianismo atual, quando notamos, por exemplo, um rigor exagerado com o corpo, como se nele estivesse presente a semente do mal.


No século IV os problemas que os cristãos enfrentavam com a perseguição iriam acabar, já que o cristianismo passou a ser protegido pelo Estado. Mas a união entre Estado e religião traria novos problemas. Esse será o tema da próxima lição.