terça-feira, 25 de agosto de 2009

O CRISTIANISMO PRIMITIVO

Por Jones Mendonça


1. Introdução

Caso leiamos todo o evangelho de Lucas e o livro de Atos (que é continuação do primeiro – compare Lc 1,3 com At 1,1), teremos visto de maneira resumida o relato do nascimento do cristianismo. Essa história se inicia com o anúncio do nascimento de Jesus (Lc 1:26), e termina com a chegada de Paulo em Roma como prisioneiro e missionário (At 28,16; 28,31). Mas o que aconteceu depois disso? Algumas tradições antigas afirmam que Paulo teria sido martirizado por decapitação pelo imperador Nero, entre 60-63 d.C (Tert., De praesc. Haer. 36,3). Pedro teria sido vítima de uma morte mais trágica: a crucificação invertida (Eus., HE 3,1).


Apesar da morte de Paulo e de Pedro, o cristianismo, que inicialmente era considerado pelos romanos como uma seita judaica, continuou sendo pregado pelo mundo da época, mesmo diante das mais cruéis perseguições. São famosas as investidas do imperador Nero e Domiciano dirigidas aos cristãos. Há relatos de que Nero tenha crucificado e queimado vários cristãos, alguns deles sendo usados como tochas humanas para iluminar as estradas romanas e outros lançados aos cães, servindo com espetáculo público. Tácito nos conta (An. 15,44) que, no reinado de Nero, morreu grande multidão de cristãos. Essa perseguição aos cristãos durou cerca de 250 anos. Mas elas tiveram um resultado inverso do esperado, pois contribuiu para que o cristianismo se difundisse com maior intensidade. Como disse Tertuliano, escritor cristão do século II d.C.: “o sangue dos mártires é a semente da igreja” (Apol 50).


2. O Novo Testamento: a tradição dos apóstolos é documentada por escrito.

Ao contrário do que muita gente pensa, os relatos da vida de Jesus não foram sendo escritos enquanto ele vivia. Quando lemos, por exemplo, o prefácio do terceiro evangelho, percebemos que Lucas tinha a intenção de relatar algo que já havia sido pregado pelos apóstolos em suas viagens missionárias, mas que só agora começava a ser registrado por escrito:

a mim também pareceu conveniente, após acurada investigação de tudo desde o princípio, escrever-te de modo ordenado, ilustre Teófilo, para que verifiques a solidez dos ensinamentos que recebeste” (Lc 1.3-4).

Apesar de não sabermos quem era Teófilo, percebemos pelo tratamento que recebeu de Lucas (ilustre), tratar-se de alguma pessoa importante da sociedade da época. Teófilo havia se convertido ao cristianismo por meio da pregação dos primeiros cristãos e queria saber os detalhes da vida e obra daquele em quem depositara sua fé.


Note que os primeiros evangelhos foram escritos cerca de 30 anos depois da ascensão de Jesus. Após terem recebido do mestre a missão de evangelizar as nações, os apóstolos começaram a pregar as boas novas de Cristo transmitindo-as baseados naquilo que viram e ouviram (essa era a famosa “tradição dos apóstolos”). Nasciam assim os Evangelhos, relatos da vida de Jesus feitos por seus discípulos.


As cartas de Paulo dirigidas às comunidades de Corinto, Tessalônica, Éfeso, Filipos, Roma, Colossos e da Galácia foram sendo escritas à medida que ele viajava pelas diferentes regiões do Império Romano. Essas cartas (também chamadas de epístolas) foram sendo redigidas numa época em o evangelho era pregado por testemunhas vivas do ministério de Jesus. Além de Paulo, o apóstolo “nascido fora do tempo” (1 Co 15,8), temos também epístolas redigidas por Tiago, Judas, Pedro e João. Isso sem falar na epístola aos Hebreus, cujo autor nos é desconhecido e no polêmico livro do Apocalipse, atribuído a João.


3. Qual o conteúdo central do Novo Testamento?

A palavra evangelho significa boa nova, anúncio de salvação. O evangelista Marcos, por exemplo, dá a sua obra o título de “Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1.1). Nesse mesmo sentido João conclui o seu evangelho: “Estas coisas foram escritas para que creiais que Jesus é o Cristo, filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (Jo 20.31). A pregação dos apóstolos segue na mesma linha, não só afirmando a messianidade de Jesus, mas também a sua ressurreição: “Deus ressuscitou a este Jesus do que todos nós somos testemunhas” (At 2.32). A esperança de seu retorno era o que dava força a igreja para perseverar na doutrina dos apóstolos, mesmo que o preço dessa fidelidade tivesse que ser pago com a própria vida. Difundir a nova e revolucionária mensagem do cristianismo num mundo pagão seria uma tarefa espinhosa. Se os judeus consideravam o sacrifício vicário (vicário = substitutivo) de Jesus um “escândalo”, os pagãos a consideravam “loucura” (1 Co 1,23). Mas esse é um assunto que será abordado na próxima lição.


Figura:

LA HIRE, Laurent de

Jesus aparecendo às Três Marias
1650
Óleo sobre tela, 398 x 251 cm
Museu do Louvre, Paris

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