sábado, 30 de julho de 2011

TOMER HANUKA [ILUSTRAÇÃO]

Tomer Hanuka é um premiado ilustrador e cartunista israelense. Suas obras já foram publicadas no New York Times e nas revistas Rolling Stone e Time.  Seu Blog está aqui. Os trabalhos de seu irmão Asaf podem ser vistos aqui. Gosto dos traços, das cores e da atmosfera produzida pela técnica de ambos. Um tema recorrente nos trabalhos de Tomer é a violência. Abaixo uma ilustração sobre a captura de Saddam: 

Tomer Hanuka: The capture of Saddam, seen from the other side.
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sexta-feira, 29 de julho de 2011

O ÓCIO CRIATIVO II

Publiquei aqui um desenho que fiz na capa do meu caderno de anotações da época em que estudava teologia no STBC. Como no desenho anterior, este abaixo também está inacabado. Tentei reproduzir com caneta Bic vermelha o brilho das luzes acesas indicando o coração no peito do robô. Infelizmente o efeito não ficou bom. Mas eu insisti em usar apenas caneta... deu no que deu. 

Também pensei em inserir um crucifixo no peito do robô na intenção de ir além do que insinuou o autor do desenho original. O "coração" aceso traz a pergunta: robôs (com uma inteligência artificial superavançada) poderão amar? O crucifixo: robôs sentirão necessidade de Deus? 

Caneta Bic sobre papel rascunho em momentos de ociosidade.
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quarta-feira, 27 de julho de 2011

A DESCIDA DE CRISTO AO INFERNO [APÓCRIFO]

A Descida de Cristo aos infernos (também conhecido como Evangelho de Nicodemus), obra de 11 capítulos e escrita provavelmente no século II (redação final no século V), narra, como sugere próprio o título, a curta estadia de  Cristo no hades. O relato teria sido escrito por algumas pessoas que ressuscitaram juntamente com Cristo (cf. 1,3).

Na história, Satanás dialoga com o inferno e lhe pede que mantenha Jesus bem preso assim que entrar em seus domínios. O inferno fica com medo, pois se lembra muito bem de ter perdido há pouco um tal Lázaro, que escapou de suas mãos após Jesus ter dito umas simples palavras.  Quando Cristo finalmente aparece, após ter expirado na cruz, o inferno diz a Satanás tremendo de medo: “se és capaz, enfrenta-o”(5,1). O resultado da ousadia de Satanás é previsível: ele é derrotado por Jesus e amarrado com correntes por dois anjos. Ficará assim até o retorno de Cristo. 

No fim da história o diabo ainda tem que ouvir um sermão do inferno, que o acusa de ter sido tolo ao enfrentar o Rei da Glória. Para ilustrar essa história bizarra, uma tela de Vittore Carpaccio - “A morte de Cristo” – 1520. 

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IRAN CARTOON - PARA QUEM GOSTA DE CARTOONS

Imagem: irancartoon, Burak Ergin, Turquia

terça-feira, 26 de julho de 2011

GRAMÁTICA DE EGÍPCIO

Caso você também se interesse por hieróglifos egípcios, clique aqui e dê uma olhada nessa gramática de 1894. A visualização é completa no Google livros. Aproveite!

ERMAN, Adolf. Egyptian Grammar. London: Forgotten Books, 1894. 


Interessei-me ainda mais pelo assunto após receber um e-mail de uma leitora pedindo ajuda na tradução do trecho da Estela de Mernepthah que cita o nome "Israel". A Wikipédia até apresenta uma explicação razoavelmente detalhada, mas é insuficiente. 

A principal dúvida é quanto ao símbolo do  olho com um traço abaixo (em vermelho). O texto deve ser lido a partir da esquerda, pois é para este lado que estão apontando as figuras. 

segunda-feira, 25 de julho de 2011

INNANA, JESUS E O SENHOR DOS ANÉIS

Há uma belíssima cena no filme "Senhor dos Anéis", baseado na obra de J. R. Tolkien,  que retrata o mago cinza (Gandalf) descendo ao Hades lutando com um dragão. A luta não é fácil, mas Gandalf sai vitorioso e ressurge do abismo ainda mais forte. Agora ele é um mago branco. Isso te lembra algo?

Sim, pode até ser que Tolkien tenha pensado na ida de Jesus ao Hades e sua vitória sobre a morte. Mas o brilhante escritor sul africano achava que os antigos mitos não-cristãos guardavam elementos do grande Mito, o Evangelho.  O mais antigo mito que conheço relatando a descida ao Hades e posterior retorno é o da deusa Innana. Após a morte do marido de sua irmã, Innana atravessa os sete portões do mundo subterrâneo. Ao chegar lá é aprisionada numa estaca, mas é libertada no terceiro dia por dois seres enviados por Enki, deus da sabedoria. 

Para ilustrar essa fantástica história, uma tela de Jacopo Comin Tintoretto, um dos mais radicais pintores do maneirismo. Repare que o espaço na pintura é todo enviesado e as cores são escuras e ácidas. Belíssima!

A descida ao inferno de Tintoretto (1568), São Cassiano, Veneza
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VAIDADE DAS VAIDADES...

O bilionário Ramad Bin Hamdan Al Nahyan resolveu deixar seu nome escrito na areia. Coisa de criança ou de um casal de namorados, você diria. É, mas o "nomezinho" do bilionário tem cerca de dois quilômetros de largura e mil de profundidade! Que tal usar o Google maps ou Google Earth para dar uma olhada na façanha? Eis as coordenadas: "24,3442, 54,3255". Mais aqui e aqui

Quando a maré sobe é formada uma hidrovia artificial

domingo, 24 de julho de 2011

TERRORISMO NA NORUEGA

A lamentável e absurda ação terrorista na Noruega não teve origem religiosa. Mesmo que o suspeito pela autoria das explosões e dos disparos seja, ao que parece, cristão, a motivação não foi religiosa. Não, o Islã nada teve a ver com o atentado. Aliás, Anders, o suposto terrorista, era norueguês, e islamofóbico. Lição: nem todo terrorista é muçulmano, e nem possui fundamentação religiosa para seus atos. 

AS ORIGENS DO ANTIJUDAÍSMO

A menina à esquerda segura um livro cujo título é: "confie tanto no jura-
mento de um judeu quanto em uma raposa do mato". Foto tirada na Ale-
manha, por volta de 1938. Crédito da imagem: Museu do Holocauto
Quando Mateus pôs a culpa pela morte de Jesus nos judeus (Mt 27,25), não imaginava que alguns séculos mais tarde, sob o governo de Teodósio I, o cristianismo seria a religião oficial do Império Romano e seus escritos seriam usados pela Igreja para humilhar e perseguir os judeus. Mas antes mesmo do cristianismo ter se consolidado como religião do Estado, Josefo, em Contra Apion 2,4, já se queixava das “calúnias maliciosas... a malignidade e a falsidade deliberada... as declarações apressadas e mentirosas contra nós”. No século II, com Irineu de Lyon e Tertuliano, e no século IV Cirilo, bispo de Jerusalém, a fundamentação teológica para culpar os judeus ia se tornando cada vez mais popular. O texto de Amós 8,9-10 foi utilizado pelos três para explicar o sofrimento do povo judeu.

Irineu de Lyon interpreta a “escuridão” de Amós como sendo uma referência à crucificação de Jesus e o “lamento” como sendo uma indicação da destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C.:
Claramente anunciou aquela obscuridade do sol, a qual, no momento de sua crucificação, ocorreu a partir da sexta hora, e que, depois deste evento, aqueles dias eram festivos de acordo com a lei, assim como suas canções, deveriam ser transformadas em tristeza e lamentação quando eles fossem entregues aos gentios[1]. 
Tertuliano, numa exegese pouco criteriosa, bem de acordo com o que se fazia na época, vê ligação entre escuridão/ cordeiro imolado na páscoa/ crucificação de Jesus; lamento/escravidão/dispersão” dos judeus.
Moisés profetizou, quando vaticinou que toda a comunidade dos filhos de Israel deveria, à noite, imolar um cordeiro,  e deveria comer este solene sacrifício deste dia 'com amargor' […] Que a profecia foi, assim, também cumprida, que 'no primeiro dia do pão ázimo' matastes o Cristo; e (que as profecias podiam ser cumpridas) o dia apressou-se em fazer uma noite, ou seja, a causar a escuridão, que foi feita ao meio-dia; e assim [em Amós 8,10a] seus banquetes Deus transformou em prantos,e suas canções em lamentos[2].
Tertuliano acrescenta que após a Paixão de Cristo os judeus sofreram com a escravidão e dispersão, conforme profetizado pelo Espírito Santo.

Na metade do século IV, quando o cristianismo estava assumindo o poder imperial, Cirilo, bispo de Jerusalém fez um sermão de Quaresma na mesma linha de Irineu e Tertuliano, fazendo ligação entre páscoa/crucificação/escuridão; lamento/sofrimento dos judeus:
Pois no dia de Ázimos e na hora do banquete as mulheres lamentaram e choraram, e os Apóstolos que se haviam escondido foram tomados por angústia. Quão maravilhosa a profecia[3].
Outras manifestações de repulsa aos judeus partiram de Ambrósio, João Crisóstomo e Agostinho de Hipona:
Ambrósio

quem se importa se uma sinagoga - casa de insanidade e descrença – é destruída?[4].

João Crisóstomo

Os judeus sacrificam suas crianças a Satã... Eles são piores do que feras selvagens. […]. A sinagoga é um lupanar, um covil de canalhas, o templo de demônios devotados a cultos idólatras, uma assembleia criminosa de judeus, um lugar de encontro para os assassinos de Cristo[5].


Agostinho

os judeus são “a casa de Israel que [Deus] abandonou. Eles, então, que Ele abandonou... são os próprios criadores da destruição e da rejeição da pedra fundamental[6].
 O Senhor Cristo distinquia entre Seus fiéis e seus inimigos judeus, como entre a luz e a escuridão[7].
Mas os judeus que o mataram e recusaram crer nele, que recusaram crer que ele tinha morrido e ascendido de novo, sofreram uma devastação mais ruinosa nas mãos dos romanos e foram totalmente desenraizados do seu reino […]. Foram dispersados pelo mundo inteiro – pois na verdade não há parte na terra em que não se encontrem – e assim, pela prova das suas próprias Escrituras, eles testemunham que nós não inventamos as profecias sobre Cristo[8].
No século XX teólogos protestantes como Karl Barth passaram discutir a complexa relação entre judaísmo e cristianismo sem o preconceito que se arrastou por dois milênios. O Vaticano também tem buscado reparar os erros do passado. Já estava na hora....

Notas:
[1]Agaist Heresies 4.33.12; Roberts et al., 1.501 apud CROSSAN. Dominic. Quem matou Jesus?, p. 49.
[2]An Answer to the jews 10; Robert et al. 3.167; apud CROSSAN, Dominic. Quem matou Jesus?, p. 49-50; grifos meus.
[3]Catechetical Lectures 13.25; McCauley e Stepherson 2.21 apud CROSSAN, Dominic. Quam matou Jesus?, p. 21.
[4]HAUGHT, James A. Perseguições religiosas, p. 43.
[5] HAUGHT, James A. Perseguições religiosas, p. 43.
[6] A espada de Constantino, p. 231.
[7] Id. ibid.
[8] Id. ibid., p. 232.

A GENEALOGIA DE MATEUS: 13 OU 14 GERAÇÕES?

Nesta semana assisti, por acaso, a explicação do rabino messiânico Marcos Andrade Abrão para os intrigantes desacordos entre a genealogia de Jesus presentes em Mateus e Lucas (assista o vídeo aqui). Há diversos problemas envolvidos nessa questão, mas me deterei em apenas um. Lá no verso 17 do capítulo 1 de Mateus lemos o seguinte:
De sorte que todas as gerações, desde Abraão até Davi, são catorze gerações; e desde Davi até a deportação para a babilônia, catorze gerações; e desde a deportação para a babilônia até Cristo, catorze gerações.
Para dividir a genealogia de Abraão a Jesus em três partes iguais Mateus teria omitido alguns nomes. Até aí, tudo bem. O problema surge quando contamos os nomes citados pelo evangelista desde o exílio até Jesus (de Jeconias a José).  A soma dá 13 e não 14. Estranho.

Solução apresentada pelo rabino: Mateus foi escrito originalmente em aramaico ou hebraico e a palavra traduzida por “marido” em Mt 1,16, deveria ter sido traduzida por “pai”.
e Jacó gerou José, marido (segundo o rabino, “pai”) de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo. 
Caso o tal José da genealogia seja o pai de não o marido de Maria, a conta fecha direitinho. Ele defende que a palavra no tal manuscrito hebraico/aramaico perdido seria  “g'abrah”, que pode significar tanto marido como pai (atente para isso). Quem traduziu o texto para o grego cometeu um equívoco. 

A explicação parece perfeita. Fui investigar. Sei que não há manuscritos de Mateus em aramaico, mas existe uma versão em siríaco chamada Peshitta, um idioma próximo do aramaico. Consultei Mateus 1,16 numa Peshitta do Novo Testamento publicada pelo British Foreign Bible Society, 1905/1920. Abaixo uma imagem do texto. A palavra g'abrah” aparece em destaque:

Mt 1,16 na Peshitta

Bem, até aqui o rabino tem razão. Agora é preciso consultar um léxico siríaco para saber se sua tradução está correta. Encontrei este:

SMITH, J. Payne. A compendious Syriac Dictionary. Oxford: at the Clarendon Press, 1903.

Está lá na página 194: man (homem), rusband (marido), person (pessoa). 

Nada de “pai”. Fiquei pensando, o rabino não iria cometer um erro tão grosseiro. Algum léxico deve trazer “pai” como tradução para g'abrah”. Com o espírito inquieto saí em busca de outros léxicos siríacos. Consegui mais dois:

JENNINGS, William. Lexicon to the syriac New Testament (peshitta). Oxford: at the Clarendon Press, 1926. p 44.

Resultado para g'abrah: Man (homem), husband (marido), person (pessoa).

Dukhrana Analytical Lexicon of the Syriac New Testament. http://dukhrana.com/lexicon/word.php?adr=2:3488&font=Estrangelo+Edessa&size=150%. Acesso em 05/07/11.

Resultado para g'abrah: Man (homem), husband (marido), person (pessoa).

Para finalizar, consultei o termo hebraico e aramaico correspondente ao g’abrah siríaco.

Em hebraico: forte, viril, guerreiro, valente, herói, violento, déspota, influente.
Em aramaico: homem forte (ocorre no texto aramaico de Dn 3,20). 

É, me parece que é preciso resolver o mistério de Mt 1,16-17 de outra maneira. 


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 21 de julho de 2011

EXTREMISMO RELIGIOSO CRESCE NAS FILEIRAS DO EXÉRCITO DE ISRAEL


O major-general Avi Zamir, chefe da IDF (Israel Defense Forces) enviou um documento de 30 páginas ao Chefe de gabinete Benny Gantz e a todos os generais alertando para o crescente extremismo religioso presente nas fileiras do exército, tais como a coerção religiosa e a discriminação contra o corpo militar feminino. Essa denúncia é antiga, mas o governo de Israel parece fechar os olhos para o problema.  Faço visitas constantes a blogs mantidos por palestinos e fico chocado ao assistir vídeos mostrando a brutalidade que alguns soldados empregam para coibir manifestações contra a ocupação israelense. Nem mesmo crianças, idosos e mulheres escapam de pontapés, coronhadas e empurrões. Enquanto isso grupos de evangélicos pró-Israel, numa leitura bíblica perversa, apoiam todas as ações de Israel para sufocar, humilhar e expulsar os palestinos de suas casas, mesmo que para isso tenha que ser usada a violência. Que espécie de cristianismo é esse que legitima a violência em nome de Deus?

Leia mais sobre o assunto no Haaretz (21-07-11).

quarta-feira, 20 de julho de 2011

IMAGENS QUE DÃO DÓ

Um levantamento elaborado pela Thomson Reuters Foundation para marcar o lançamento da TrustLaw (site destinado a fornecer aconselhamento jurídico gratuito para mulheres)  coloca o Afeganistão no topo da lista dos lugares mais perigosos do mundo para as mulheres. O The Big Pictures publicou 37 fotos fornecidas pela Reuters que denunciam o maltrato de mulheres em alguns países. É de partir o coração. Abaixo a imagem que mais me chocou:

Mulheres implorando ajuda enquanto a neve cai em Cabul

terça-feira, 19 de julho de 2011

HISTÓRIA DA TEOLOGIA - SÉCULO I: OS PAIS APOSTÓLICOS

Após Cristo ter deixado fisicamente os apóstolos o cristianismo começou sua difusão no âmbito do império romano. A pregação da igreja, que inicialmente era apenas oral, começou a ganhar a forma escrita. O mais antigo escrito cristão é a Primeira carta aos tessalonicenses, escrita por Paulo no início dos anos 50.  Dando continuidade ao trabalho dos apóstolos, surgiram os chamados “pais apostólicos”, homens que tiveram contato com os apóstolos ou se colocam no período imediatamente posterior a eles. São considerados pais apostólicos[1]:

  • Clemente Romano (Papa entre 92 e 101) - Quarto bispo de Roma de acordo com a lista de Irineu.
  • Inácio de Antioquia (35-120) - Um dos primeiros autores cristãos. Há dúvidas quanto a autenticidade das cartas atribuídas a ele.
  • Barnabé (pseudo-Barnabé) – Autor desconhecido de uma espécie de tratado teológico que a igreja dos primeiros séculos atribuiu a Barnabé, companheiro de Paulo (daí o nome “Epístola de Barnabé”). 
  • Pápias – Bispo de Hierápolis, escreveu a obra “Exposições dos ditos do Senhor”, da qual só temos fragmentos.
  • Quadrato – discípulo dos apóstolos, natural de Atenas, escreveu um discurso ao imperador Adriano na tentativa de fazê-lo parar a perseguição aos cristãos[2]. De acordo com São Jerônimo seu pedido foi atendido. 
  • Hermas – Presbítero romano irmão do Papa Pio I.
  • Policarpo de Esmirna (76-156) – Bispo de Esmirna, foi discípulo de João Evangelista quando jovem. O registro de seu martírio (séc. II) é o mais antigo e um dos mais confiáveis que se conhece.  
Os textos produzidos pelos pais apostólicos são de suma importância para se compreender o cristianismo na transição do primeiro para o segundo século. Todos esses documentos, bastante heterogêneos em seu conteúdo, tratam sobre temas como a afirmação do ministério eclesial, a problemática inerente aos heréticos, a ordem da igreja, a ascese e o martírio, o valor da Bíblia, a introdução da segunda penitência, etc. Há um grande esforço em desvincular o cristianismo de suas raízes judaicas. Os textos produzidos pelos pais apostólicos são os seguintes [3]:

  • I Clemente, escrita por Clemente de Roma à igreja de Corinto no final do século I. A carta, com 65 capítulos, é uma tentativa de restabelecer a paz em Corinto, abalada por um grupo que destituiu os presbíteros. Foi escrita entre 93 e 97 d.C.;
  • II Clemente, homilia escrita por volta do ano 150 por um pregador desconhecido.
  • Sete cartas de Inácio, bispo de Antioquia, na Síria (Efésios, Magnésios, Tralianos, Romanos, Filadelfienses, Esminianos e A Policarpo). Inácio escreveu as cartas enquanto era levado preso para ser executado em Roma. O conteúdo das cartas é muito diverso, tratando temas como o combate ao docetismo, ênfase na divindade de Cristo e na importância da figura do bispo como elemento de preservação da unidade e ortodoxia da igreja. Na carta escrita à igreja de Esmirna aparece pela primeira vez a expressão “igreja católica”.
  • Carta de Policarpo, bispo de Esmirna, na Ásia Menor, aos Filipenses. Consiste basicamente em uma coletânea de alusões e citações de textos do Novo Testamento e de 1 Clemente;
  • O Martírio de PolicarpoCarta da igreja de Esmirna à de Filomélio, na Frígia, relatando a prisão, julgamento e execução de Policarpo.  
  • DidaquêDe autoria anônima, o documento é uma espécie de manual de catequese para instrução dos novos crentes. Escrito entre os séculos I e II, provavelmente na Síria ou Palestina, contém preceitos morais e prescrições litúrgicas, especialmente do batismo e da ceia.
  • Epístola de Barnabé (pseudo-Barnabé) - O livro contém uma série de instruções morais e litúrgicas à igreja. Contém ainda regras para os profetas itinerantes e um alerta sobre a necessidade da preparação para o fim do mundo. O texto é marcado por forte tendência antijudaica. O livro foi incluído entre os escritos canônicos no Códice Sinaítico.
  • O Pastor de Hermas - O livro é composto por cinco visões, 10 mandamentos e doze semelhanças, apresentados pela igreja personificada. O texto contém uma primeira tentativa de tratar com amplidão o tema da penitência [4]. Foi escrito por volta do ano 145 e faz parte do Códice Sinaítico (século IV), encontrado no Monte Sinai entre 1844 e 1859. O “Pastor”, que dá título à obra é o anjo da guarda de Hermas[5].
  • Fragmento de Papias – Os fragmentos de que dispomos fazem parte de uma obra em cinco volumes, contendo uma coleção de ditos e ações de Jesus recolhidos da tradição oral.
  • Discurso a Diogneto – exposição apologética da vida dos primeiros cristãos dirigida a certo Diogneto. Apresenta os cristãos como sendo pessoas que “estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm sua cidadania no céu; obedecem as leis estabelecidas, mas com sua vida ultrapassam as leis; amam a todos e são perseguidos por todos”[6].
Abaixo trechos de alguns desses documentos:

Inácio foi um dos primeiros escritores cristãos depois dos apóstolos. Suas cartas, dirigidos às igrejas que o acolhem no caminho para o martírio, insistem na unidade da igreja local, em torno do bispo:
Todos sigam o bispo como Jesus segue o seu pai […]. Fora do consentimento do bispo, não é permitido batizar, nem realizar o ágape; mas tudo o que ele aprova é também agradável a Deus. Assim, tudo o que se faz será firme e certo[7].
Em I Clemente pode-se perceber uma ênfase na salvação por meio da graça:
Nós, que por sua vontade (de Deus), fomos chamados por Cristo Jesus, não somos justificados por nós mesmos nem pela nossa salvação, piedade ou inteligência, nem tampouco pelas obras realizadas na pureza do coração, mas por meio da fé. Por ela, Deus onipotente justificou todos os homens desde o princípio[8].
Um fragmento de Pápias mostra que a tradição recebida dos apóstolos tinha peso na interpretação das Escrituras:
Não hesitarei em pôr diante de vós, junto com minha própria interpretação, tudo o que cuidadosamente aprendi dos anciãos e cuidadosamente memorizei... Parecia-me que poderia tirar mais proveito da voz viva do que dos livros[9].
A Didaquê contêm orientações a respeito do batismo e da ceia que vão além daquelas contidas  no Novo Testamento:
Quanto ao batismo, procedam assim: Depois de ditas todas essas coisas, batizem em água corrente, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Se você não tem água corrente, batize em outra água; se não puder batizar em água fria, faça-o em água quente. Na falta de uma e outra, derrame três vezes água sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo[10].
Ninguém coma nem beba da Eucaristia, se não tiver sido batizado em nome do Senhor, porque sobre isso o Senhor disse: "Não dêem as coisas santas aos cães"[11].
Notas:
[1] Cf. SHÜLER, Arnaldo. Dicionário teológico enciclopédico, p. 346
[2] AMADO, José de Sousa. História da Egreja Cathólica em Portugal, no Brasil e nas possessões portuguesas - Tomo I, 1870, p. 36.
[3] VV. AA. Lexicon: dicionário teológico enciclopédico, p. 554. 
[4] EQUIZA, Jesus. Para celebrar o perdão divino e a reconciliação eclesial, p. 108
[5] SESBOUE, Bernard; WOLINSKI, J. O Deus da salvação, p. 233.
[6] Discurso a Diogneto, V.
[7] INÁCIO DE ANTIOQUIA, Lettre aux Smyrniotes 8, Paris, le Cerf, 1998 (Col. Sources Chrétiennes 10 bis, reed) apud MEUNIER, Bernard. Nascimento dos dogmas cristãos, p. 20.  
[8] I Clem. 32,3.
[9] COLLINS, Michael. História do cristianismo, p. 41.
[10] Didaquê 7,1.
[11] Id. ibid. 9,5


Jones F. Mendonça

sábado, 16 de julho de 2011

APONTAMENTOS DE HERMENÊUTICA: A INTERPRETAÇÃO BÍBLICA NA REFORMA

A alegoria protestante, 1542/44
Royal Collection, Windsor
Inicialmente o monge agostiniano Martinho Lutero (1483-1546), também interpretou passagens da Bíblia acreditando no seu sentido quádruplo.

O livro de Salmos:

  • No sentido literal Davi faz alusão ao Cristo encarnado;
  • O sentido alegórico à igreja;
  • O sentido tropológico ao fiel;
  • O sentido anagógico aponta para questões escatológicas[1].
Mas Lutero foi aos poucos migrando para uma interpretação mais literal (sensus literalis) até abandonar definitivamente a metodologia exegética empregada na Idade Média:
Por ser jovem, eu era erudito, e excelente, antes de chegar à teologia, então eu lidava com o sentido alegórico, tropológico, analógico e fazia grande arte; se hoje alguém o fizesse, o consideraria pura ignorância. Eu sei que é tudo besteira, porque agora larguei disso, e esta é minha última e melhor arte: Tradere scripturam simplici sensu [transmitir a Escritura pelo sentido simples][2].
O reformador alemão também gostava de enfatizar que a Bíblia interpreta a si mesma (Scriptura sui ipsius interpres[3]). Outro conceito introduzido por ele foi o do livre exame da Escritura, que deu ao leitor a autonomia para lê-la e estudá-la sem a interferência da Igreja.

Lutero deu grande ênfase ao estudo das línguas bíblicas originais[4].  Ao invés se utilizar a Vulgata Latina (Bíblia em latim), versão oficial da Bíblia para o catolicismo, ele fez uma tradução para o alemão popular a partir do hebraico e do grego.  A invenção da imprensa, algumas décadas antes do seu rompimento definitivo com a Igreja Católica, contribuiu ainda mais para tornar a Bíblia um livro acessível ao povo comum.

Resumo das inovações de Lutero:

  • Substituição do o sentido quádruplo da Escritura pelo sensus literalis;
  • Substituição da Vulgata Latina por uma versão em alemão traduzida a partir dos idiomas originais;
  • Substituição da autoridade eclesiástica como parâmetro para a interpretação bíblica pela sola Scriptura, enfatizando o livre exame e o seu caráter auto-explicativo.
Lutero revolucionou a maneira como se interpretava a Bíblia. Seguiram-no de perto outros reformadores, tais como Philip Melanchthon (1497-1560),  Zuínglio (1484-1531), William Tyndale (c. 1494-1536) e João Calvino (1509-1564). Este último, como Lutero, enfatizava a necessidade de uma interpretação literal e inequívoca do texto bíblico:
O verdadeiro significado da Escritura é o significado óbvio e natural. Mantenhamo-nos decididamente... É uma ousadia que beira o sacrilégio usar as Escrituras em função do nosso capricho e jogar com elas como se fossem uma bola de tênis tal como muitos antes faziam... O primeiro labor de um intérprete é permitir ao autor que diga o que disse, em vez de atribuir a ele o que nós pensamos o que havia de dizer[5]. 
O método de interpretação utilizado pelos reformadores ficou conhecido como histórico-gramatical (busca a intenção do autor do texto bíblico através da análise da situação histórica original e da linguagem original). Se por um lado o livre exame libertou o leitor dos abusos cometidos por aqueles que detinham o poder de interpretar a Bíblia, por outro lado deu margem para o surgimento de inúmeras interpretações.

Notas:
[1] LIENHARD, Marc. Martim Lutero: tempo, vida, mensagem, p. 45.
[2] WA 2,509,14s. apud SCHNELLE, Uldo. Introdução à teologia do Novo Testamento, p.157.
[3] Assertio omnium articolorum, 1520. WA 7, p.96 ss apud  SHÜLER, Arnaldo. Dicionário Enciclopédico de Teologia, p. 416.
[4] Os manuscritos gregos do Novo Testamento trazidos de Constantinopla por humanistas italianos na primeira metade do século XV e por eruditos que fugiram após sua queda em 1453 permitiram que Lutero comparasse a tradução latina da Bíblia com os originais gregos e percebesse inúmeras discrepâncias. Uma crítica aos erros da Vulgata de Jerônimo já havia sido feita pelo erudito latinista italiano Lourenço Valla (1407-1457). Cf. DURANT, Will. A renascença: a história da civilização na Itália de 1304-1576, p. 281.
[5] J. Bright, The authority of the O.T., pp. 43,44 apud MARTÍNEZ, José  M. Hermenéutica bíblica, p. 122. 


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 15 de julho de 2011

FUNDAMENTALISMOS...

O radicalismo religioso é algo nocivo. Cristianismo, islamismo, judaísmo, hinduísmo... todas tem o seu lado sombrio. Folheando “Jihad: expansão e declínio do islamismo”, do professor Gilles Kepel, deparei-me com uma anotação que fiz há alguns anos na página 150:
Em janeiro de 1999, o Gabinete do primeiro Ministro [da Malásia] anunciou que os casais muçulmanos teriam agora cartões eletrônicos para comprovar seu estado civil, a fim de que a polícia islâmica, equipada com leitoras magnéticas, pudesse verificar se as duas pessoas do sexo oposto, surpreendidas juntas, eram casadas ou se elas deveriam ser presas por crime de khalwah, ou promiscuidade ilegal[1].
Kepel conta o curioso caso do adido da Tailândia, que passou um aperto após ser surpreendido num quarto de hotel com sua esposa. Ele não estava com o tal cartão magnético...

Fiquei pensando. Como a poligamia é uma prática legal segundo a chari’a, imagina ter que carregar um cartão para cada esposa. 

Nota:
[1] Despacho de 28 de janeiro de 1999 apud KEPPEL, Gilles. Jihad: expansão e declínio do islamismo, p. 150.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

PINK FLOYD: THE DIVISION BELL

"Por milhões de anos, a humanidade viveu como animais. Então algo aconteceu, que despertou o poder de nossas mentes: aprendemos a falar"(mensagem de Stephen Hawking gravada na canção "Keep Talking", do álbum "The Division Bell"). 

quarta-feira, 13 de julho de 2011

EZEQUIEL E OS QUATRO SERES

Entre agosto e outubro de 2004 o Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, organizou a exposição “pergaminhos do Mar Morto: um legado para a humanidade”. Na época, devido a uma pequena confusão, acabei indo parar no Museu Nacional Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão. Na portaria veio a decepção: os pergaminhos estavam expostos no outro Museu Nacional, próximo à praça XV, centro do Rio. Para não perder a viagem, pagei o ingresso e me dirigi à seção reservada ao Egito. Meu interesse estava voltado para quatro pequenos vasos funerários chamados vasos canopos, utilizados para guardar os órgãos internos de uma pessoa mumificada. Eu não tinha certeza se havia exemplares desses vasos lá. Mas minha viagem não foi em vão. Abaixo uma imagem dos vasos:

Vasos canopos, Egito
As figuras moldadas nos vasos representavam as quatro divindades guardiãs, filhas de Hórus: Inseti (cabeça de homem), Hapi (babuíno), Duamutef (chacal), e Kebehsenuf (falcão). A primeira vez que vi esses vasos num livro (Carl Jung, O Homem e seus símbolos) foi despertado para a semelhança que tinham com os quatro seres viventes que aparecem nos capítulos 1 e 10 do livro do profeta Ezequiel.  Leia e compare: 
os quatro tinham rosto de homem, rosto de leão no lado direito, rosto de boi no lado esquerdo, e rosto de águia (Ez 1,10).
Sim, há diferenças significativas. Em Ezequiel aparece o leão e o boi (Em Ez 10,19 o boi é substituído por um queruv). Nos vasos o macaco e o chacal. Além disso, os seres de Ezequiel são alados. Apesar das diferenças, em ambos os casos os quatro seres aparecem como guardiões. Em Ezequiel são protetores do trono divino. Nos vasos canopos ele protegem os órgãos internos da pessoa mumificada. É preciso destacar que nas civilizações antigas os queruvins atuavam como guardiões. Coincidência?

Intrigado com os estranhos elementos presentes na visão do nosso profeta exilado, continuei minhas pesquisas. Comprei alguns livros contendo ilustrações artísticas produzidas por civilizações antigas vizinhas do Antigo Israel, tais como Babilônia, Egito, Assíria, Fenícia, Pérsia, Síria, etc. O resultado? Posso adiantar que há semelhanças notáveis. Em breve publico algo a respeito.

terça-feira, 12 de julho de 2011

LINKIN PARK: A THOUSAND SUNS


O último trabalho do Linkin Park lançado em setembro do ano passado tem como tema a guerra. O título do álbum "A Thousand suns", vem de um belíssimo trecho do Bhagvat Gita (XI),  texto sagrado hindu, que diz: "se a radiação de mil sóis estourasse pelos céus, seria como o esplendor do Todo-Poderoso (ou Magnânimo)". O vídeo acima reconstrói artisticamente o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima. O rosto que aparece discursando (bodies upon the gears)  ao fundo é do ativista norte-americano Mario Savio. A música que toca é a introdução da faixa 1. Vale a reflexão. 

segunda-feira, 11 de julho de 2011

NO PRINCÍPIO DEUS "CRIOU" OU "SEPAROU"?

Publiquei aqui (out/2009) algo sobre o polêmico artigo da teóloga holandesa Ellen van Wolde discutido outra possibilidade de tradução para o verbo hebraico bará em Gn 1,1. Ela sugere “separou” ao invés de “criou”.   O The Journal of Hebrew Scriptures publicou recentemente um novo artigo discutindo o trabalho de Wolde. Para lê-lo em PDF (em inglês), clique aqui. 

sábado, 9 de julho de 2011

VÍDEO SOBRE CIDADE FANTASMA DA NAMÍBIA

Fiquei tão interessado na história da cidade fantasma encravada no meio de um deserto na Namíbia que resolvi pesquisar um pouco mais. Achei este vídeo sensacional. Como é belo este planeta terra!

sexta-feira, 8 de julho de 2011

ENTRE O REAL E O SURREAL

Foto: National Geographic
A foto acima foi tirada na cidade fantasma de Kolmanskop, na Namíbia, um país predominantemente desértico localizado no sul do continente africano. A cidade foi uma antiga sede de exploração de diamantes e atualmente está semi-soterrada. Os tons da imagem e as duas portas me fazem lembrar das pinturas surrealistas do artista belga René Magritte. Como se vê, há beleza até mesmo no caos. 

quinta-feira, 7 de julho de 2011

ECLESIASTES: A VIDA É UM SOPRO

Em hebraico: "havel havalim 'amar qohelet havel havalim hakol havel".

É muito conhecido o versículo de Eclesiastes que diz: “vaidade das vaidades, diz o pregador, vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1,2). A palavra traduzida por vaidade neste texto é hevel e pode significar, dentre outras coisas, sopro, névoa ou fôlego. Em Ecl 1,2 ela aparece sob diversas formas: construto, plural e em pausa, por isso a pequenas variações vocálicas (pontinhos e/ou tracinhos abaixo das letras).

E curioso notar que havel (uma variação de hevel) é o nome do filho de Adão que foi assassinado por seu irmão Caim. Como sabemos, Havel (Abel na forma aportuguesada) teve a vida curta como um sopro. Obviamente o nome foi colocado intencionalmente por quem contou a história, coisa típica na literatura israelita.

Em minha opinião traduzir o termo por vaidade não expressa bem o sentido que tem no texto original. A palavra vaidade vem do latim vanus = vazio. Teoricamente é adequada para traduzir a palavra hebraica hevel (coisa que se vai com facilidade ou sem sentido), porém no contexto atual vaidade nos remete à presunção, ostentação, vanglória, etc. Em suma, a palavra perdeu o sentido que tinha originalmente.

A Almeida Revista e atualizada e a Bíblia de Jerusalém ainda empregam o termo “vaidade” como tradução para hevel. A NVI e a BLH, apesar de muito criticadas (algumas vezes com certa razão, principalmente e BLH), expressam melhor o sentido de hevel:
“Que grande inutilidade!”, diz o Mestre. “Que grande inutilidade! Nada faz sentido!” (NVI).

É ilusão, é ilusão, diz o Sábio. Tudo é ilusão (BLH).
Quem lê todo o livro percebe que a intenção de Qoelet (pessoa que preside uma assembleia) é mostrar a efemeridade e falta de sentido da vida:  Tudo se repete num ciclo sem fim; algumas vezes o perverso prevalece sobre o justo; os bens materiais de nada valem, não há sequer retribuição no além, etc. No fim do livro, após discorrer sobre tantas questões cujo sentido não pode ser encontrado, Qoelet se agarra ao que julga ser seu único fundamento:
Agora que já se ouviu tudo, aqui está a conclusão: Tema a Deus e guarde os seus mandamentos, pois isso é o essencial para o homem (Ecl 12,13).
Bem, é claro que não estou levando em conta as várias camadas redacionais do livro. É provável que o extrato original fosse bem mais pessimista. Como Eclesiastes aniquila a teologia da retribuição, talvez venha daí seu papel de “patinho feio” do Antigo Testamento. É um dos meus preferidos. 

quarta-feira, 6 de julho de 2011

RABINOS RACISTAS DEVEM PERMANECER IMPUNES, AFIRMAM 1/3 DOS PARTICIPANTES DE UMA ENQUETE DO J POST

O jornal israelense The Jerusalem Post fez uma enquete com seus leitores lançando a seguinte pergunta: “Israel deveria investigar rabinos suspeitos de incitar a violência ou o racismo?”.  O resultado parcial (até a manhã de 06/07/11), com 2.223 votos, é o seguinte:

1. Sim, eles devem ser investigados, assim como qualquer outro cidadão. 
64,24%
2. Não, declarações de rabinos são ensinamentos religiosos e caem numa categoria diferente de discurso. 
15,70%
3. Sim, mas pelo Estado que paga seu salário, não pela polícia. 6,07%
4. Não, investigar o incitamento é um terreno escorregadio que corrói a liberdade de expressão. 10,71%
5. Eu não sei. 
3,28%

O resultado mostra que pelo menos 1/3 dos entrevistados não acham que a incitação à violência ou ao racismo feitos por rabinos é um caso de polícia. Em minha opinião este é um resultado muito preocupante. 

terça-feira, 5 de julho de 2011

VALSA COM BASHIR: GUERRAS NÃO CONHECEM HERÓIS

Valsa com Bashir, dirigido pelo cineasta israelense Ari Folman é estonteante. O filme-animação estreou em 2009, mas só hoje tive a oportunidade de assistir.  Premiado com o Globo de Ouro e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, o filme relata o massacre de refugiados palestinos durante a invasão israelense no Líbano. Não, o filme não é uma crítica ao governo de Israel, é, antes de tudo,  uma crítica à guerra, esse mal que revela o lado mais sombrio do ser humano. Nas palavra do próprio diretor:
Este é um filme antiguerra. Em filmes americanos, mesmo nos que criticam a guerra, você sempre vai ter um certo glamour em torno da guerra: a glória, a amizade entre os soldados, a masculinidade, a bravura. Você vê e fala: "sim, é um filme antiguerra, mas eu quero ser um desses caras". Com "Bashir", quero que os jovens vejam e não queiram se sentir parte disso. 
Lembro-me de uma reportagem que mostrava um jovem inglês admirado diante de um B-52 que partia para a guerra do Iraque em 2003. Um tolo seduzido pela navalha da morte! Não há nada de belo numa guerra. Valsa com Bashir mostra isso muito bem.