domingo, 24 de julho de 2011

AS ORIGENS DO ANTIJUDAÍSMO

A menina à esquerda segura um livro cujo título é: "confie tanto no jura-
mento de um judeu quanto em uma raposa do mato". Foto tirada na Ale-
manha, por volta de 1938. Crédito da imagem: Museu do Holocauto
Quando Mateus pôs a culpa pela morte de Jesus nos judeus (Mt 27,25), não imaginava que alguns séculos mais tarde, sob o governo de Teodósio I, o cristianismo seria a religião oficial do Império Romano e seus escritos seriam usados pela Igreja para humilhar e perseguir os judeus. Mas antes mesmo do cristianismo ter se consolidado como religião do Estado, Josefo, em Contra Apion 2,4, já se queixava das “calúnias maliciosas... a malignidade e a falsidade deliberada... as declarações apressadas e mentirosas contra nós”. No século II, com Irineu de Lyon e Tertuliano, e no século IV Cirilo, bispo de Jerusalém, a fundamentação teológica para culpar os judeus ia se tornando cada vez mais popular. O texto de Amós 8,9-10 foi utilizado pelos três para explicar o sofrimento do povo judeu.

Irineu de Lyon interpreta a “escuridão” de Amós como sendo uma referência à crucificação de Jesus e o “lamento” como sendo uma indicação da destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C.:
Claramente anunciou aquela obscuridade do sol, a qual, no momento de sua crucificação, ocorreu a partir da sexta hora, e que, depois deste evento, aqueles dias eram festivos de acordo com a lei, assim como suas canções, deveriam ser transformadas em tristeza e lamentação quando eles fossem entregues aos gentios[1]. 
Tertuliano, numa exegese pouco criteriosa, bem de acordo com o que se fazia na época, vê ligação entre escuridão/ cordeiro imolado na páscoa/ crucificação de Jesus; lamento/escravidão/dispersão” dos judeus.
Moisés profetizou, quando vaticinou que toda a comunidade dos filhos de Israel deveria, à noite, imolar um cordeiro,  e deveria comer este solene sacrifício deste dia 'com amargor' […] Que a profecia foi, assim, também cumprida, que 'no primeiro dia do pão ázimo' matastes o Cristo; e (que as profecias podiam ser cumpridas) o dia apressou-se em fazer uma noite, ou seja, a causar a escuridão, que foi feita ao meio-dia; e assim [em Amós 8,10a] seus banquetes Deus transformou em prantos,e suas canções em lamentos[2].
Tertuliano acrescenta que após a Paixão de Cristo os judeus sofreram com a escravidão e dispersão, conforme profetizado pelo Espírito Santo.

Na metade do século IV, quando o cristianismo estava assumindo o poder imperial, Cirilo, bispo de Jerusalém fez um sermão de Quaresma na mesma linha de Irineu e Tertuliano, fazendo ligação entre páscoa/crucificação/escuridão; lamento/sofrimento dos judeus:
Pois no dia de Ázimos e na hora do banquete as mulheres lamentaram e choraram, e os Apóstolos que se haviam escondido foram tomados por angústia. Quão maravilhosa a profecia[3].
Outras manifestações de repulsa aos judeus partiram de Ambrósio, João Crisóstomo e Agostinho de Hipona:
Ambrósio

quem se importa se uma sinagoga - casa de insanidade e descrença – é destruída?[4].

João Crisóstomo

Os judeus sacrificam suas crianças a Satã... Eles são piores do que feras selvagens. […]. A sinagoga é um lupanar, um covil de canalhas, o templo de demônios devotados a cultos idólatras, uma assembleia criminosa de judeus, um lugar de encontro para os assassinos de Cristo[5].


Agostinho

os judeus são “a casa de Israel que [Deus] abandonou. Eles, então, que Ele abandonou... são os próprios criadores da destruição e da rejeição da pedra fundamental[6].
 O Senhor Cristo distinquia entre Seus fiéis e seus inimigos judeus, como entre a luz e a escuridão[7].
Mas os judeus que o mataram e recusaram crer nele, que recusaram crer que ele tinha morrido e ascendido de novo, sofreram uma devastação mais ruinosa nas mãos dos romanos e foram totalmente desenraizados do seu reino […]. Foram dispersados pelo mundo inteiro – pois na verdade não há parte na terra em que não se encontrem – e assim, pela prova das suas próprias Escrituras, eles testemunham que nós não inventamos as profecias sobre Cristo[8].
No século XX teólogos protestantes como Karl Barth passaram discutir a complexa relação entre judaísmo e cristianismo sem o preconceito que se arrastou por dois milênios. O Vaticano também tem buscado reparar os erros do passado. Já estava na hora....

Notas:
[1]Agaist Heresies 4.33.12; Roberts et al., 1.501 apud CROSSAN. Dominic. Quem matou Jesus?, p. 49.
[2]An Answer to the jews 10; Robert et al. 3.167; apud CROSSAN, Dominic. Quem matou Jesus?, p. 49-50; grifos meus.
[3]Catechetical Lectures 13.25; McCauley e Stepherson 2.21 apud CROSSAN, Dominic. Quam matou Jesus?, p. 21.
[4]HAUGHT, James A. Perseguições religiosas, p. 43.
[5] HAUGHT, James A. Perseguições religiosas, p. 43.
[6] A espada de Constantino, p. 231.
[7] Id. ibid.
[8] Id. ibid., p. 232.