quinta-feira, 15 de outubro de 2009

COMENTANDO O POLÊMICO ARTIGO DE ELLEN VAN WOLDE

Por Jones Mendonça

Ainda não disponível em português (ou sequer em inglês), o polêmico artigo da holandesa ELLEN VAN WOLDE que propõe uma nova interpretação para relato bíblico da criação pode ser baixado e lido em PDF (em holandês) clicando no link abaixo:


O artigo de Wolde possui 28 páginas (incluindo a bibliografia) e a discussão gira em torno de novas possibilidades para a tradução do verbo hebraico bara (בָּרָא). Em Gn 1,1 esse verbo tem sido tradicionalmente interpretado como dando a idéia de uma “criação do nada (ex nihilo)”[1]. A autora faz comparações entre o capítulo 1 de Gênesis e o famoso e extremamente antigo mito sumeriano da criação. Este último relato não fala de uma criação a partir do nada, mas narra a organização do mundo em três níveis: céu, terra e mundo inferior, separados pela ação de uma das inúmeras divindades existentes. Para a autora do artigo, a Bíblia seguiria o mesmo padrão do relato mesopotâmico, mas foi interpretada de forma diferente ao longo da história do pensamento judaico cristão.

Na página 10 a autora chama atenção para os versículo 21 do primeiro capítulo do Gênesis. Para ela, esse versículo descreveria os tipos de animais que habitam um mundo existente em três níveis: mundo inferior (monstros marinhos), mundo intermediário (répteis) e mundo superior (aves). O texto teria a intenção de narrar a separação, e não a criação a partir do nada, dos animais que habitam esses três níveis. Wolde propõe uma nova tradução para o v.21:
God scheidde de grote zeemonsters, alle krioelende levende wezens waarvan de wateren wemelen, naar hun aard, en alle vogels die vliegen naar hun aard[2].
Wolde destaca ainda que no versículo 25 não aparece o verbo bara, mas asah (עָשָׂה). Como a separação ocorrida aqui é entre répteis, gado e animais selvagens, ela defende que o polêmico verbo é omitido neste caso porque esses três tipos de animais vivem na mesma região (mundo intermediário: terra).

No final do artigo, Wolde resume[3]:

a) Gn 1,1 não fala do início do princípio absoluto do tempo, mas do início de determinado ato.
b) O verbo bara deve ser traduzido como separar, e não como criar do nada (ex nihilo);

O artigo não pretende ser a última palavra sobre o assunto, como admite a própria autora, mas dar início a uma discussão aberta sobre esse tema que ganhou a atenção de grandes pensadores do cristianismo, tais como Agostinho de Hipona:
Existias tu e outra coisa, um nada, de onde fez o céu e a terra, duas criaturas: a uma próxima a ti (prope te); a outra próxima a um nada (prope nihil); a uma que não tem mais superior que tu; a outra que não tem nada inferior a ela?(Conf. XII,7).
E Tomás de Aquino:
Idem autem est nihil quod nullum ens. Sicul igitur generado hominis est ex non ente quod est non homo” (Sum. Th. 1 q45 al).
Se para os pais da igreja e para a escolástica o tema estava encerrado, hoje o debate permanece aberto. Pelo menos para ELLEN VAN WOLDE.

Notas:
[1] É o que faz, por exemplo, o dicionário Vine e inúmeras teologias sistemáticas consagradas no meio protestante e católico.
[2] Tradução livre do blog: “Deus separou (grifo nosso) os grandes monstros do mar, todas as criaturas rastejantes cujas águas produziram, segundo as suas espécies, e todas as aves que voam, segundo as suas espécies”. WOLDE, Ellen J. van. Terug naar het begin, 2009, p.10.
[3] Ibid, pp. 20,21.

Crédito da imagem:
PINTURA GÓTICA EM VIDRO, Italiano
A Criação
1490
Vitral
Duomo, Milão