sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O EVANGELHO DO CRISTO CÓSMICO

BOFF, Leonardo. O evangelho do Cristo cósmico. Rio de Janeiro: Record, 2008, 192 pp.

O título do livro soa estranho para os que não possuem o costume de se aventurar por teologias menos ortodoxas. Alguns o julgarão como sendo um livro sobre esoterismo, Nova Era ou outras correntes místicas que estão tão na moda, mas não se trata disso.


Boff busca nas epístolas paulinas, na patrística, na escolástica e em pensadores modernos as bases para a construção de seu pensamento. Dentre todos estes, sua maior ênfase está no pensador místico católico Teilhard de Chardin. Quem nunca teve contato com seus escritos certamente terá dificuldade em compreender termos como “noosfera”, “teosfera”, “crístico”, “pancristismo”, etc. Uma solução possível para esse problema seria a inclusão de um glossário no final da obra.


O problema da unidade do Todo, tema central do livro, é uma questão relevante e que merece atenção dos teólogos modernos. Desde os gregos havia a idéia de que o átomo não se podia dividir. Mais tarde descobriu-se que ele é formado por partículas ainda menores, tais como prótons, elétrons e nêutrons. Novas pesquisas revelaram que há ainda as chamadas “partículas sub-atômicas”, que ora se comportam como matéria, ora como energia, mostrando que tudo o que existe no universo é pura energia condensada (E=MC²). Os místicos, já mesmo antes destas descobertas, entenderam que essa “energia” que tudo permeia é o Espírito Divino, ou como sustenta Teilhard de Chardin, o “Cristo no coração da matéria”.


Essa descoberta também nos fez pensar que somos todos constituídos dos mesmos elementos. O solo lunar, os meteoros que “caem” na terra, e até mesmo as estrelas são feitos de “poeira cósmica”. Quando morremos viramos pó e esse pó volta à terra, podendo mais tarde se transformar em um pé de alface, um jambeiro ou quem sabe em um belo ipê amarelo. “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, já dizia Lavoisier.O que é já foi, o que será também já foi”, já dizia o enfadado Coelet (Ec 3.15). Boff procura mostrar que esse ciclo é dinâmico e progressivo. Por meio dele o cosmos caminha numa evolução contínua, que culmina com a parusia, momento em que Deus se reintegrará ao cosmos pondo fim a essa evolução. Tal concepção é estranha no nosso meio evangélico, já que sofremos uma forte influência da escatologia joanina, que concebe o universo sendo assolado por catástrofes cósmicas no fim dos tempos. Já escatologia paulina fala da consumação de todas as coisas em Deus, quando Ele for tudo em todos. Não há referências à destruição, mas à restauração e plenitude (pleroma). Afinal, qual deles descreve o melhor modelo?


É preciso admitir que a cristologia cósmica é bastante sedutora, principalmente após a queda do paradigma mecanicista newtoniano. O próprio Einstein, um dos responsáveis pela queda desse modelo certa vez disse que: “Afirmo com todo o rigor que a religião cósmica é o móvel mais poderoso e mais generoso da pesquisa. [...] O espírito científico, armado fortemente com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica”. (Como vejo o mundo, pp. 22-23).


Afinal quem tinha razão, Paulo ou João? Dê a sua opinião...