quarta-feira, 28 de março de 2018

A PERSONIFICAÇÃO DA SABEDORIA DIVINA NOS GATHAS IRANIANOS

Investigo o recurso literário da personificação da sabedoria (hokhmah), fenômeno que aparece em Provérbios 1-9, em Jó 28, na Sirácida 24, na Sabedoria de Salomão 7; 18, em Baruc 3 e numa interpolação presente no capítulo 42 do livro apócrifo de Enoque etíope. Interessa-me a origem desse recurso e sua relação com o prólogo do evangelho de João.

Há quem sugira uma influência egípcia (Isis, Maat), canaanita (Asherah) ou mesopotâmica (Astarte, Innana). Mas não encontrei textos religiosos produzidos por tais povos capazes de justificar qualquer orientação nesse sentido (você pode consultar uma coleção deles num trabalho organizado por James Pritchard em “Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament”).

W. Bousset indicou um caminho diferente: o Irã. De forma mais específica, a personificação de um atributo divino estaria presente nos Gathas, poemas atribuídos a Zaratustra (profeta persa do século VII a.C.). Nos Gathas o “Espírito Benevolente” (Spenta Mainyu) emana do “Senhor da Sabedoria” (Ahura Mazda) e opera em todos os aspectos da existência. Ele age nos homens, instruindo-os.

O problema é que esses textos foram transmitidos de forma oral por séculos, até ganharem a forma escrita (como saber se os textos não foram contaminados com outras crenças?). Outro problema é a tradução (foi escrito em dialeto gáthico, idioma de difícil tradução). Ainda assim penso que seja uma boa pista.

É possível ler 17 capítulos dos Gathas no Zaratustra.com (a tradução para o inglês é obra de Mobou Firouz Azargoshasb). Leia sobre os Spenta Mainyu nos Gathas aqui.  Sobre possíveis conexões entre o zoroastrismo e a Bíblia Hebraica aqui e uma introdução aos Gathas e a tradução de 17 capítulos para o inglês aqui.


Jones F. Mendonça