sábado, 16 de maio de 2026

A SUBMISSÃO FEMININA NO NOVO TESTAMENTO E 11 PONTOS CURTOS

1. O Novo Testamento emprega duas palavras para indicar que uma pessoa deveria se colocar em posição de subordinação à outra: hupotage (substantivo) e hupotasso (verbo). Essas variantes podem aparecer para indicar a submissão da igreja a Cristo (Ef 5,24), dos cidadãos às autoridades constituídas (Rm 13,1), das esposas aos maridos (Ef 5,24), dos filhos aos pais (Lc 5,21) e dos servos aos seus senhores (1Pe 2,18), etc. Dois exemplos:
Durante a instrução a mulher conserve o silêncio, com toda SUBMISSÃO (hupotage, 1Tm 2,11).

estejam caladas as mulheres nas assembleias, pois não lhes é permitido tomar a palavra. Devem ficar SUBMISSAS, como diz também a Lei (hupotasso, 1Co 14,34).
2. Não há dúvidas de que essas passagens estabelecem uma hierarquia entre homem e mulher. Na relação matrimonial, quem está no topo da hierarquia se compromete a “amar” a pessoa subordinada que, por sua vez, deve “temer” aquele que está em posição hierarquicamente superior. Veja o caso de Ef 5,33: “cada um de vós AME (agapao) a sua mulher como a si mesmo e a mulher TEMA (phobeo) o seu marido”.

3. Algumas traduções vertem “phobeo” por “respeito”, mas “phobeo” vem da mesma raiz de “phobos” ( = medo, daí “fobia”). Dois exemplos: “pois Herodes tinha MEDO (phobeo) de João” (Mc 6,20), e “porque TEMIAM (phobeo) ser apedrejados pelo povo” (At 5,26). “Phobos” pode indicar tanto o “medo” de uma situação perigosa quanto o temor demonstrado diante de uma autoridade.

4. Na sociedade romana da época, em termos jurídicos, políticos e sociais, a mulher não gozava dos mesmos direitos do homem. As passagens que advertem as mulheres a se submeterem à autoridade de seus maridos apenas reproduzem valores presentes em sociedade patriarcais. É verdade que alguns textos enfatizam o amor dos maridos pelas mulheres, mas esse “querer bem” funcionava a partir de uma relação verticalizada.

5. Em relação à submissão feminina aos maridos, três soluções fundamentais têm sido propostas: 1) A Bíblia coloca a mulher em posição de inferioridade em relação ao marido e ainda hoje deve ser assim (não haveria condicionamento cultural); 2) A Bíblia coloca a mulher em posição de inferioridade, mas essa posição era baseada nos costumes da época (o condicionamento seria cultural, hoje superado).

6. As alternativas 1 e 2 aparecem alinhadas quando à interpretação dos textos, mas divergem quanto à sua aplicabilidade nos dias de hoje. Quem adota a opção nº 1 tem um problema: se esta submissão é um “mandamento perpétuo”, então as lideranças cristãs devem exigir o silêncio das mulheres nas reuniões públicas modernas, sob o risco de estarem descumprindo um preceito bíblico neotestamentário.

7. Quem adota a opção nº 2 tem também um problema para resolver: se esta orientação é relativa, se está condicionada à sociedade da época, baseada em costumes patriarcais, como saber quais orientações eram temporárias e quais eram absolutas? Além disso, Paulo parece legitimar suas orientações a partir de uma base teológica, e não cultural (cf. 1Tm 2,13-15).

8. A alternativa nº 3 exige um malabarismo exegético extraordinário. Há quem suponha que “submissão” não significa “estar abaixo da vontade de”, mas “estar sob a mesma missão de”, daí “sub-missão”. É preciso explicar, entretanto, por que nem “hupotage” nem “hupotasso” têm este sentido na Bíblia, seja no Antigo Testamento da LXX, seja no Novo Testamento grego.

9. O homem era o chefe da família e exigia obediência da esposa, dos filhos e dos servos. Em 1Pe 2,18, os servos são orientados a ser submissos (hupotasso) a seus senhores mesmo quando estes agem com perversidade (skolios). Em uma de suas cartas, Paulo até chega a rogar um tratamento digno a Onésimo, servo de Filemon que aparentemente havia fugido (cf. Fil 1,7). Mas era direito do senhor puni-lo.

10. Os apelos para que maridos “amem” suas esposas (Ef 5,28) e para que senhores tratem seus servos “como um irmão amado” (Fil 1,16) certamente refletem uma postura louvável, considerando a estrutura social da época. Eles não eliminam, no entanto, um problema estrutural que coloca o homem como protagonista nas relações conjugais. Sara, “santa mulher de outrora”, por exemplo, é louvada por sua obediência a Abraão, seu “senhor” (kurios, cf. 1Pe 3,16).

11. Qualquer tentativa, por parte das lideranças cristãs, de superar desigualdades políticas, jurídicas, sociais e econômicas entre macho e fêmea, precisa tratar o problema em suas bases. Sendo bem objetivo: precisa eliminar qualquer tentativa de fundamentação metafísica para legitimar diferenças hierárquicas entre sexos. Hierarquias precisam existir, mas apenas em sua dimensão funcional.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 4 de maio de 2026

O ANTIGO TESTAMENTO "CRONOLÓGICO"


1. Em perspectiva narrativa, a Bíblia expõe ao leitor um relato contínuo que começa no Gênesis e termina em Neemias (Pentateuco + Livros históricos). Sabemos, desde o século XII (Ibn Ezra), que o Pentateuco não é obra de um único autor. Os livros históricos também foram submetidos a um processo de redação complexo.

2. Os livros poéticos e sapienciais não contam "história". Eles refletem a experiência de um povo com sua fé, suas tradições e suas inquietações mais profundas, preservando orações, provérbios, poemas de amor, reflexões sobre o sofrimento (Jó) e a aparente falta de sentido da vida (Eclesiastes).

3. Os chamados "profetas escritores" (com algumas exceções), não foram propriamente "escritores". Seus oráculos foram preservados na memória e mais tarde organizados de acordo com um esquema programático. Embora também tenham algo a dizer sobre o futuro, os profetas estavam mais interessados nos problemas concretos de seu próprio tempo.



Jones F. Mendonça

SOBRE A NUDEZ DE NOÉ EM 5 PONTOS CURTOS

1. A expressão “ver a nudez” (רְאוֹת אֶת־עֶרְוַת), no hebraico do Antigo Testamento, pode significar coisas bem diferentes, dependendo do contexto. Em Gn 42,9, por exemplo, José acusa seus irmãos de serem espiões interessados em “ver a nudez” da terra, ou seja, em identificar “a vergonha”, os “pontos fracos” do Egito. “Ver a nudez”, aqui, funciona como figura de linguagem, particularmente como metáfora.

2. O Deuteronômio faz um constrangedor alerta ao povo de Israel ao exigir a todos que enterrem suas fezes. A razão: o acampamento, por onde “teu Deus anda”, é santo (Dt 23,14). No final do verso surge esta explicação: “para que Yahweh não veja em ti nudez”, ou seja, para que Yahweh não seja exposto a esse tipo de coisa inapropriada, vergonhosa, afrontosa à santidade divina. Estamos diante de outra metáfora.

3. No livro do Levítico, “ver a nudez” tem conotação sexual: “se um homem tomar sua irmã, filha de seu pai, ou filha de sua mãe, e vir a nudez dela, e ela vir a nudez dele, comete algo reprovável. Serão exterminados...” (20,7). O texto parece sugerir que esse tipo de condenação não envolve apenas a visualização da nudez, mas a relação sexual entre ambos. Temos, neste caso, outro tipo de figura de linguagem: o eufemismo.

4. O caso mais complicado surge em Gn 9,22, texto que apresenta Cam “vendo a nudez” de Noé, seu pai. O texto, tal como chegou até nós, apresenta vestígios de interferências redacionais. Será que originalmente o texto apresentava Cam abusando de Noé? Repare que em 9,24, o patriarca aparece reprovando aquilo que seu filho havia “feito”. O verso 23, no entanto, sugere que o problema era a visualização da nudez.

5. Estaríamos diante do único caso em que “ver a nudez” tem sentido literal (ver alguém nu, peladão)? Ou “ver a nudez”, neste caso, tem o mesmo sentido do Levítico (ter relações sexuais)? O texto, do jeito que está, sugere que Cam foi punido severamente apenas por olhar inadvertidamente seu pai nu no interior de sua tenda. Não é estranho? Mais estranho ainda é que a maldição proferida por Noé recai sobre Canaã e não sobre Cam.


Jones F. Mendonça

KAIRÓS E O TEMPO

1. Por uma insólita razão, a tradição cristã desenvolveu forte convicção de que as palavras hebraicas e gregas que compõem a Bíblia possuem um sentido fixo, ontológico, profundo e invariável. Assim, muitos dirão que o hebraico “bará” significa “criar do nada”; “ágape”, “amor incondicional”; “kairós”, “tempo favorável” ou até mesmo “tempo de Deus”, etc.

2. Minha suspeita é que alguns esses equívocos nasceram a partir de uma leitura apressada dos grandes teólogos do século XX, tais como Karl Barth, Oscar Cullmann, Paul Tillich, Rudolf Bultmann e tantos outros. Cullmann, por exemplo, refletiu sobre o modo como a tradição judaico-cristã lida com o tempo, articulado com a realidade em perspectiva teleológica (cf. "Cristo e o tempo").

3. Este teólogo percebeu, acertadamente, que “kairós” é usado predominantemente no NT para se referir ao um tempo específico, definido (ex.: “no TEMPO de Jesus...”). Por outro lado, também percebeu que “cronos” é predominantemente empregado para indicar um tempo indefinido (ex.: “por muito TEMPO...”). Não é regra, mas há predominância.

4. E como Cullmann deu enfoque especial à irrupção de Cristo na história – evento considerado pela teologia cristã como singular – , a palavra “kairós” foi tomada pelo teólogo como se captura a última uva madura na vide. “Kairós” foi escolhida justamente porque é a palavra grega mais adequada para se referir ao “tempo” da encarnação e da parousia.

5. Foi daí, eu imagino, que surgiu a ideia de que “kairós” designa o “tempo de Deus” ou o “tempo favorável”. Ocorre que “kairós” apenas indica um tempo específico, seja o tempo de Deus, seja o tempo dos homens, seja o tempo das cegonhas. Tanto o grego do AT (LXX) quanto o grego do NT privilegiam o uso de “kairós” para designar tempos específicos (favoráveis ou não).

6. O “tempo de morrer” em Ecl 1,3 é indicado pela palavra “kairós” (e agora? Será que o “tempo da morte” é um tempo favorável?). Jeremias diz que até a cegonha “conhece no céu o seu kairós” ( = o seu tempo, a sua hora de migrar). “Kairós” serve para indicar qualquer tempo, hora, momento bem definido: tempo da morte, tempo de vida, tempo de migrar, tempo de não migrar.

7. Há casos em que “cronos” e “kairós” são usados de forma intercambiável, como revela este belo paralelismo semântico presente em Ecl 1,3: “Para tudo há uma ocasião (cronos), e um tempo (kairós) para cada propósito debaixo do céu” (Ecl 1,3). As palavras, é preciso repetir, são lisas como rãs ensaboadas; versáteis como canivete suíço.


Jones F. Mendonça