segunda-feira, 4 de maio de 2026

O ANTIGO TESTAMENTO "CRONOLÓGICO"


1. Em perspectiva narrativa, a Bíblia expõe ao leitor um relato contínuo que começa no Gênesis e termina em Neemias (Pentateuco + Livros históricos). Sabemos, desde o século XII (Ibn Ezra), que o Pentateuco não é obra de um único autor. Os livros históricos também foram submetidos a um processo de redação complexo.

2. Os livros poéticos e sapienciais não contam "história". Eles refletem a experiência de um povo com sua fé, suas tradições e suas inquietações mais profundas, preservando orações, provérbios, poemas de amor, reflexões sobre o sofrimento (Jó) e a aparente falta de sentido da vida (Eclesiastes).

3. Os chamados "profetas escritores" (com algumas exceções), não foram propriamente "escritores". Seus oráculos foram preservados na memória e mais tarde organizados de acordo com um esquema programático. Embora também tenham algo a dizer sobre o futuro, os profetas estavam mais interessados nos problemas concretos de seu próprio tempo.



Jones F. Mendonça

SOBRE A NUDEZ DE NOÉ EM 5 PONTOS CURTOS

1. A expressão “ver a nudez” (רְאוֹת אֶת־עֶרְוַת), no hebraico do Antigo Testamento, pode significar coisas bem diferentes, dependendo do contexto. Em Gn 42,9, por exemplo, José acusa seus irmãos de serem espiões interessados em “ver a nudez” da terra, ou seja, em identificar “a vergonha”, os “pontos fracos” do Egito. “Ver a nudez”, aqui, funciona como figura de linguagem, particularmente como metáfora.

2. O Deuteronômio faz um constrangedor alerta ao povo de Israel ao exigir a todos que enterrem suas fezes. A razão: o acampamento, por onde “teu Deus anda”, é santo (Dt 23,14). No final do verso surge esta explicação: “para que Yahweh não veja em ti nudez”, ou seja, para que Yahweh não seja exposto a esse tipo de coisa inapropriada, vergonhosa, afrontosa à santidade divina. Estamos diante de outra metáfora.

3. No livro do Levítico, “ver a nudez” tem conotação sexual: “se um homem tomar sua irmã, filha de seu pai, ou filha de sua mãe, e vir a nudez dela, e ela vir a nudez dele, comete algo reprovável. Serão exterminados...” (20,7). O texto parece sugerir que esse tipo de condenação não envolve apenas a visualização da nudez, mas a relação sexual entre ambos. Temos, neste caso, outro tipo de figura de linguagem: o eufemismo.

4. O caso mais complicado surge em Gn 9,22, texto que apresenta Cam “vendo a nudez” de Noé, seu pai. O texto, tal como chegou até nós, apresenta vestígios de interferências redacionais. Será que originalmente o texto apresentava Cam abusando de Noé? Repare que em 9,24, o patriarca aparece reprovando aquilo que seu filho havia “feito”. O verso 23, no entanto, sugere que o problema era a visualização da nudez.

5. Estaríamos diante do único caso em que “ver a nudez” tem sentido literal (ver alguém nu, peladão)? Ou “ver a nudez”, neste caso, tem o mesmo sentido do Levítico (ter relações sexuais)? O texto, do jeito que está, sugere que Cam foi punido severamente apenas por olhar inadvertidamente seu pai nu no interior de sua tenda. Não é estranho? Mais estranho ainda é que a maldição proferida por Noé recai sobre Canaã e não sobre Cam.


Jones F. Mendonça

KAIRÓS E O TEMPO

1. Por uma insólita razão, a tradição cristã desenvolveu forte convicção de que as palavras hebraicas e gregas que compõem a Bíblia possuem um sentido fixo, ontológico, profundo e invariável. Assim, muitos dirão que o hebraico “bará” significa “criar do nada”; “ágape”, “amor incondicional”; “kairós”, “tempo favorável” ou até mesmo “tempo de Deus”, etc.

2. Minha suspeita é que alguns esses equívocos nasceram a partir de uma leitura apressada dos grandes teólogos do século XX, tais como Karl Barth, Oscar Cullmann, Paul Tillich, Rudolf Bultmann e tantos outros. Cullmann, por exemplo, refletiu sobre o modo como a tradição judaico-cristã lida com o tempo, articulado com a realidade em perspectiva teleológica (cf. "Cristo e o tempo").

3. Este teólogo percebeu, acertadamente, que “kairós” é usado predominantemente no NT para se referir ao um tempo específico, definido (ex.: “no TEMPO de Jesus...”). Por outro lado, também percebeu que “cronos” é predominantemente empregado para indicar um tempo indefinido (ex.: “por muito TEMPO...”). Não é regra, mas há predominância.

4. E como Cullmann deu enfoque especial à irrupção de Cristo na história – evento considerado pela teologia cristã como singular – , a palavra “kairós” foi tomada pelo teólogo como se captura a última uva madura na vide. “Kairós” foi escolhida justamente porque é a palavra grega mais adequada para se referir ao “tempo” da encarnação e da parousia.

5. Foi daí, eu imagino, que surgiu a ideia de que “kairós” designa o “tempo de Deus” ou o “tempo favorável”. Ocorre que “kairós” apenas indica um tempo específico, seja o tempo de Deus, seja o tempo dos homens, seja o tempo das cegonhas. Tanto o grego do AT (LXX) quanto o grego do NT privilegiam o uso de “kairós” para designar tempos específicos (favoráveis ou não).

6. O “tempo de morrer” em Ecl 1,3 é indicado pela palavra “kairós” (e agora? Será que o “tempo da morte” é um tempo favorável?). Jeremias diz que até a cegonha “conhece no céu o seu kairós” ( = o seu tempo, a sua hora de migrar). “Kairós” serve para indicar qualquer tempo, hora, momento bem definido: tempo da morte, tempo de vida, tempo de migrar, tempo de não migrar.

7. Há casos em que “cronos” e “kairós” são usados de forma intercambiável, como revela este belo paralelismo semântico presente em Ecl 1,3: “Para tudo há uma ocasião (cronos), e um tempo (kairós) para cada propósito debaixo do céu” (Ecl 1,3). As palavras, é preciso repetir, são lisas como rãs ensaboadas; versáteis como canivete suíço.


Jones F. Mendonça