quarta-feira, 11 de junho de 2014

PEDRO ABELARDO, O “SIC ET NON” E A TEOLOGIA CRÍTICA

Quem lê o “Sic et non” do teólogo escolástico Pedro Abelardo (1079-1142), tem a nítida noção do equívoco de se atribuir aos teólogos dos séculos XVII e XVIII a introdução da dúvida e do questionamento na reflexão teológica. Influenciado pela filosofia de Aristóteles, Abelardo dá passos significativos em direção ao que mais tarde será chamado de crítica bíblica.

Para solucionar o problema da “aparente contradição nos ditos do santos padres e das Escrituras”, Abelardo apresenta as seguintes soluções: 1) um falso documento foi atribuído de forma equivocada a algum santo (trata-se de um livro apócrifo) ou os copistas cometeram erros; 2) o texto não foi bem compreendido; 3) os erros cometidos pelos santos padres foram corrigidos em textos escritos num período posterior; 4) alguns termos não devem ser interpretados literalmente, pois apenas expressam uma opinião comumente aceita. Abaixo trechos do Sic et non [1]: 
1) Quando nos são apresentadas algumas afirmações dos santos como opostas entre si ou distantes da verdade, convém que examinemos atentamente, para não sermos enganados por falsas atribuições de obras, ou por corrupção do texto. A maior parte dos escritos apócrifos traz o nome de santos como autores, a fim de, com isso, ganhar autoridade; e alguns textos até mesmo da Bíblia foram corrompidos por erro dos copistas (p. 118); 
2) Se, pois, nos escritos dos santos, parece que algo não condiz com a verdade, então é piedoso, conforme a humildade e devido pela caridade [...], que creiamos que esta passagem do texto não foi fielmente interpretada ou foi corrompida, ou nós não a conseguimos compreender (p. 119);
 3) Julgo também que se deve dar não menos atenção ao fato de que os textos tomados dos escritos dos padres podem ser daqueles que por eles foram retratados em outro lugar, tendo sidos corrigidos após terem conhecido a verdade, tal como o fez Santo Agostinho em muitos casos (p. 119); 
4) ...nos Evangelhos constata-se que algumas coisas são ditas mais segundo a opinião dos homens que segundo a objetividade da verdade. Foi o caso, por exemplo, de Maria, mãe do Senhor, quando, segundo o costume e a opinião popular, chamou a José de pai de Cristo (Lc 2,48) (p. 121).

Abelardo finaliza: “se consta, pois, que nem mesmo os profetas e os apóstolos estiveram todos livres do erro [como o Pedro dissimulado em Gálatas], que há de admirar se em tão inúmeros escritos de santos padres haja algumas coisas erradas, devido aos motivos apontados?”.  Mas ao defender a autoridade das Escrituras e dos textos dos primeiros padres expondo explicações para “supostas contradições”, Abelardo põe em relevo questões espinhosas, abrindo precedentes perigosos para a ortodoxia.  

O método de Abelardo para a busca da verdade consiste na confrontação de textos divergentes pelo questionamento (quaestio) e pelo debate e disputa de ideias (disputatio) sob a direção do mestre, a quem cabia a conclusão: 
Depois de colocar estas questões [os pontos de 1 a 4 expostos acima], gostaríamos agora de, como nos propusemos, reunir as sentenças divergentes dos santos padres das quais nos recordamos. Esperamos que estas sentenças, devido às dissonâncias que aparentam ter, suscitem algumas perguntas que provoquem os jovens leitores ao exercício supremo de procurar a verdade, e pela procura os tornem mais sagazes. [...] É que duvidando chegamos à procura, e procurando chegamos à verdade [...] (p. 129).

O retorno às fontes (ad fontes) feito sob a direção de humanistas com Lourenzo Valla e Erasmo de Roterdã e o livre exame e o abandono da alegoria por Lutero, no período da Reforma, dá novo impulso ao surgimento de um método de interpretação bíblica desvinculado da autoridade eclesiástica e cada vez mais comprometido com a razão. Em 1678, com a publicação da História Crítica do Antigo Testamento, por Richard Simon, o uso da inteligência para encontrar o sentido objetivo da Escritura finca definitivamente suas raízes no terreno da pesquisa bíblica. A razão, agora livre das rédeas da ortodoxia, inicia sua impiedosa cavalgada. Mas em pleno século XXI o homem ainda parece preferir a certeza do dogma, que a dúvida suscitada pela razão.   

Nota:
[1] DE BONI, Luis Alberto. Filosofia medieval: textos. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005, pp. 116-129.



Jones F. Mendonça