segunda-feira, 18 de julho de 2016

O IRMÃO DO FILHO PRÓDIGO

Jacob Steinhardt, 1962
O capítulo 15 de Lucas conta a famosa parábola do filho pródigo. Talvez seja preciso lembrá-lo de que ela é contada para uma dupla plateia: fariseus e pecadores (15,1). O foco da parábola não é a natureza esbanjadora e irresponsável do filho mais novo (um típico pecador).  Tampouco a virtude do mais velho: justo, trabalhador, responsável e obediente (a imagem de um fariseu). Trata, todavia, do ressentimento do mais velho, orgulhoso de suas virtudes, sempre à espera de uma retribuição à altura de suas boas ações: “jamais transgredi teus mandamentos, onde está minha recompensa?” (Lc 15,29). Embora já tivesse tudo (v.31), via-se como um despossuído, como um injustiçado.

A reação do filho mais velho lembra o lamento de Jonas, indignado com o perdão divino concedido aos ninivitas: “Por isso fugi apressadamente para Társis; pois eu sabia que tu és um Deus de piedade e de ternura, lento para a ira, e rico em amor e que se arrepende do mal” (Jn 4,2). Vivem repetindo por aí que Jonas fugiu por medo dos “terríveis ninivitas”. Não era por medo, era por orgulho, por indiferença, por falta de compaixão por aqueles que ele via como inferiores, como “gentalha”. Jonas queria mesmo é que o fogo descesse do céu e consumisse aqueles “pecadores dos infernos” (como Tiago e João em Lc 9,54).

Tanto o livro de Jonas como a parábola do filho pródigo sofreram uma adulteração perversa. Originalmente criticavam a arrogância dos religiosos (judeus exclusivistas do período pós-exílico/fariseus). Mas ambos tiveram suas mensagens convertidas em sermões moralistas. Jonas tornou-se o pregador virtuoso que anuncia a mensagem divina apesar da dureza de seu coração. O filho pródigo geralmente é evocado para destacar o sofrimento experimentado por aqueles que ousam desafiar as regras morais impostas pela religião.

Puseram tudo ao avesso.


Jones F. Mendonça