segunda-feira, 13 de junho de 2011

ISAÍAS: NÚ, DESCALÇO E... COM FOME

"O profeta Isaías", de Raffaello
Sanzio (1511-12), Sant'Agostino,
Roma.

Fazendo uma busca no Google deparei-me com um artigo escrito por Luiz Sayão   destacando a importância do estudo do hebraico bíblico para quem deseja compreender o texto do Antigo Testamento. Até aí tudo bem. Percorrendo com os olhos as linhas do artigo, eis que Sayão diz o seguinte:
O hebraico é a língua antiga mais preservada que existe. Se Isaías ressuscitasse hoje teria condições de comunicar-se e de pedir um almoço em um restaurante de Jerusalém.
Aqui Sayão exagerou. Se no primeiro século o hebraico falado na Galileia já era ligeiramente diferente do falado em Jerusalém (os galileus tinham dificuldade com as consoantes guturais), imagina comparar o hebraico falado no século VIII (época em que viveu o primeiro Isaías) com o falado hoje em Jerusalém! 


É preciso lembrar que os sinais vocálicos presentes na Bíblia hebraica atual só foram inseridos por volta do século V d.C. por estudiosos que ficaram conhecidos como massoretas. Será que a vocalização das palavras hebraicas feita pelos massoretas era igual a de Isaías? E mais. Será que a vocalização atual corresponde à dos massoretas?

Mas e se Isaías entrasse no restaurante e escrevesse numa folha de papel o seu pedido? Ainda assim não seria compreendido. Os caracteres quadráticos, conforme aparecem na Bíblia hebraica e nos atuais jornais de Israel, só surgiram após o exílio babilônico (século VI a.C.). Isaías escreveu em paleohebraico. A menos que o garçom fosse um epigrafista experiente Isaías iria continuar com fome. E se estivesse nú e descalço como em Is 20,3 sequer teria chance de entrar no estabelecimento! 


Jones F; Mendonça