segunda-feira, 6 de junho de 2011

AS ESTRANHAS LEIS DO LEVÍTICO

"Porco abatido", de Joachim Beuckelaer, 1563.
Museu Wallraf-Richartz, Colônia
Explicar as restrições alimentares do livro bíblico de Levítico tem sido uma tarefa empreendida tanto de cristãos como por judeus. A proibição de comer carne de porco, por exemplo, geralmente é explicada como sendo uma maneira de preservar a saúde dos israelitas (pode hospedar vermes, difícil digestão, etc.). Mas como explicar, segundo essa lógica, a proibição da ingestão da lebre (Lv 11,6) e do avestruz (Lv 1,16)? E o que dizer a respeito dos animais aquáticos sem barbatanas ou escamas como o polvo, o marisco ou o camarão (Lv 11,10)?

O judeu Fílon de Alexandria (10 a.C. – 50 d.C.) dizia que Moisés proibiu a carne suína por ser a mais deliciosa de todas as carnes[1]. Abster-se dela seria um ótimo exercício para o controle dos apetites desenfreados. Será?!

Mas as polêmicas regras do Levítico não param por aí. Para comparecer diante de Deus com alguma oferta era preciso cumprir alguns requisitos:
Pois nenhum homem que tenha algum defeito poderá aproximar-se: ninguém que seja cego, ou coxo, ou de rosto mutilado, ou desproporcionado, ou homem que tiver o pé quebrado ou mão quebrada, ou corcunda, ou anão, ou que tiver catarata no olho, ou sarna, ou impigens, ou que tiver testículo quebrado (Lv 21,18-21).
Imagine um anão corcunda, estéril, cego e com a mão quebrada. Com certeza seria tratado como abominação das abominações. Mas deixando o lado cômico de fora, penso que buscar explicações lógicas para proibições tão estranhas não é um bom caminho.

Hoje muitas igrejas cristãs proíbem, por exemplo, o piercing, mesmo não encontrando nenhuma explicação lógica ou bíblica para isso. Usar brinco na orelha pode, mas no nariz ou no umbigo jamais! Vai entender. Quando uma coisa muito diferente surge, logo as pessoas sentem que a ordem estabelecida está ameaçada. Sou militar e sei como é encontrar um recruta com barba por fazer ou com um botão faltando na farda.  Neurose de milico!

Durante minha infância na igreja presenciei críticas mordazes aos homens que tinham cabelos compridos (o que era pior se usassem brincos), aos cabelos pintados das mulheres, ao uso de cordão com crucifixo, etc. Recentemente apareceu uma pastora dizendo que sexo oral é pecado. A explicação: o membro não foi feito para ser.... deixa para lá. Fiquei pensando no beijo. A boca não foi feita para comer? Que história é essa de ficar cruzando as línguas?

É muito mais honesto pensar que os tabus dos hebreus eram como os nossos. As regras davam segurança e coesão ao povo. Tudo o que era tido, digamos assim, como anormal por algum motivo, logo era visto como abominação. Mas esses motivos se perderam no tempo.  E eu nem sei se vale a pena buscar sentido para tais proibições. 

Façamos uma festa. Convidemos corcundas, aleijados, cegos e engessados. O prato principal: galeto de porco. E não esqueçamos do camarão.

Nota:
[1] VV. AA. Comentário Bíblico em 3 volumes, p. 124.