quinta-feira, 30 de junho de 2011

LUTERO E A REVOLTA DOS CAMPONESES

Lutero numa tela de Cranach,
1527 - Wartburg-Stiftung,
Eisenach
O desafio de Lutero à Igreja não atraiu apenas a burguesia e os príncipes. Os camponeses da Alemanha, enfurecidos com a desigualdade social, foram arrebatados por idéias utópicas de um mundo justo, governado pelo espírito de Cristo. Panfletos pregando a abolição das instituições capitalistas, a subordinação dos governantes a um conselho eleito pelo povo e o confisco da riqueza dos mosteiros alimentavam a chama dessa insatisfação. No fim de 1524 cerca de 30.000 camponeses na Alemanha meridional se recusavam a pagar imposto ao governo, dízimos ou direitos feudais. Sob influencia dos protestantes zuinglianos de Zurique, foram redigidos doze artigos propondo reformas radicais. Transcrevo abaixo o terceiro artigo, porque sobre ele Lutero fará uma declaração surpreendente:
Tem sido costume até agora que os homens nos detenham como sua propriedade, o que é lamentável, sabendo-se que Cristo nos redimiu e comprou a todos com o precioso derramamento de Seu sangue [...] portanto está de acordo com as Escrituras que sejamos livres, e assim seremos...[1].
Inicialmente Lutero apoiou o grupo, mas depois explicou que a liberdade que o cristão deve gozar é a espiritual. O recurso utilizado por Lutero é típico entre alguns "valorosos condutores de ovelhas": se a interpretação literal não agrada, espiritualize-a! Pois é, mas no texto abaixo, escrito pelo reformador alemão, a interpretação literal se mostrou muito conveniente: 
Abraão e os outros patriarcas não tinham escravos? Lede o que São Paulo ensina a respeito dos criados? Portanto o vosso terceiro artigo é inoperante face ao Evangelho. Esse artigo deveria tornar todos os homens iguais... e isso é impossível. Pois um reino terreno não pode sobreviver se nele não houver uma desigualdade de pessoas, de modo que algumas sejam livres e outras presas, algumas soberanas outras súditas [2].
Mas citações como essa a gente só encontra em livros escritos por quem está do lado de fora da igreja. Uma pena...

Notas:
[1] DURANT, Will. A Reforma, 2002, p. 322.
[2] Id. ibid., p. 323