quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A POLICIAL E O TERAPEUTA: REFLEXÕES SOBRE A MORAL


Questões de ordem moral pipocam todos os dias na mídia evangélica: “Vereador quer impedir que noivas se casem sem calcinha”, “Evangélicos lançam filmes e produtos sobre sexo”, “Pastores convocam evangélicos a boicotarem o Big Brother”. Lembrei-me de um texto sobre a moral que postei aqui no Blog em agosto de 2009. Eis o texto*:

Numa sala de consultório estão apenas um homem e uma mulher. Ele, um terapeuta. Ela, uma policial com sérios problemas ligados a área sexual. O consultório é agradável, com poltronas macias e aconchegantes. Quadros coloridos e um tapete felpudo dão um ar de informalidade. A policial, cheia de expectativa, imagina que o terapeuta terá ótimas respostas para o seu problema. Periodicamente ela vai ao consultório e lhe relata seus segredos mais profundos e íntimos. O terapeuta, muito atento, ouve com paciência todas as suas queixas e inquietações. O tempo passa e algo muito natural acontece. A paciente imagina que o terapeuta é o homem da sua vida. Ele é simpático, a ouve com paciência e ainda lhe transmite tranqüilidade e segurança. Os entendidos no assunto dizem que tal fenômeno tem nome, chama-se “transferência”.

Com o tempo a relação entre o terapeuta e a policial foi ganhando novos desdobramentos, pois o terapeuta também se sentiu profundamente atraído pela paciente. Isso o incomodou bastante, a ponto de pedir conselhos a uma médica de sua confiança. Ela lhe advertiu que a ética médica não permite esse tipo de relacionamento. Existem normas, regras a serem seguidas. O terapeuta ficou inconsolado e até pensou em deixar a profissão. O desejo pela paciente o consumia e um dilema passou a perturbá-lo dia e noite. De um lado os homens-encarregados-de-criar-as-normas, que lhe diziam: “Enquanto estiver no consultório você é apenas um terapeuta. Aprenda a se comportar como tal!”. Do outro lado seu coração que gritava: “tal qual um turbilhão é o amor, não há garras que o possam conter”. De um lado a norma. Do outro a subversão. Temos aí um sujeito tripartido. Ele é homem, imoral (já que tem forte tendência a romper com a moralidade vigente) e terapeuta.

Alguns amigos da paciente, que aprenderam direitinho as regras criadas pelos homens-encarregados-de-criar-as-normas, lhe disseram: “será que você não está confundindo o profissional-do-consultório com o homem-do-consultório?”. A mulher-policial-paciente ficou muito confusa, sem saber exatamente o que sentia e tampouco quem era. Como se não bastassem seus problemas de ordem sexual. Temos aí uma cidadã tripartida. Ela é mulher, moralista (já que tem forte tendência a não romper com a moralidade vigente) e paciente.

Há quem acredite na existência de uma moralidade absoluta, como se houvesse em algum lugar, num cofre distante, um modelo ideal de moralidade. Esse modelo ficaria lá trancado e sempre que precisássemos de uma certeza, o abriríamos e todas as respostas nos seriam dadas. Mas na verdade esse padrão normativo é criado pelos homens-encarregados-de-criar-as-normas. É um ofício importante, afinal o que seria de nós sem as regras? Até para construir este texto preciso de regras: regras ortográficas, de sintaxe, de concordância, etc. Não fazendo uso delas eu certamente não me faria compreender. Na sociedade elas funcionam como um freio. Na sua ausência correríamos o risco de produzir um mundo caótico. Mas será que essas normas devem ser seguidas de forma cega e inflexível?

Ter regras universais, eternas e inflexíveis torna mais fácil a vida de quem não se acha capaz de suportar as conseqüências de uma decisão errada. Lançar a responsabilidade pessoal sobre as normas pode trazer muito conforto para tais indivíduos. Por outro lado, a autonomia demanda responsabilidade. Romper com a norma padrão tem um preço e são poucos os que têm coragem de arcar com as conseqüências.

Voltemos ao caso do homem-bandido-terapeuta e da mulher-policial-paciente. A mulher tripartida quer carinho, quer ordem e quer cura para os seus problemas emocionais. O terapeuta tripartido quer paixão, uma aventura bandida e cura para a paciente. Todas essas divisões tornam o problema muito complexo. Como analisá-lo sob a ótica de uma regra cega, incapaz de lidar com sistemas complexos?

No final do episódio a mulher pesou na balança seus valores e entendeu que a ordem estabelecida era mais importante. Ela armou uma cilada e denunciou o terapeuta logo após ter sido assediada por ele. Os dois acabaram presos. Ele pelos moralistas. Ela, por sua própria moralidade.

*Esse texto é uma análise do episódio “Roma Isenta” do seriado “Picket Fences” transmitido pela CBS americana na década de 90.

Jones F. Mendonça