sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

CALVINISMO, ARMINIANISMO E TEOLOGIA DO PROCESSO - REFLEXÕES


Obra que influenciou
os teólogos do processo
Para ilustrar o que [não] é o calvinismo elaborei uma pequena história: 
Théo, rei que possui um vasto território sob seu domínio, enviou dois de seus súditos a uma cidade próxima a fim de que colhessem uma erva de poderes curativos. Antes de partirem, o bom e misericordioso Théo lhes deixou uma advertência: “não sigam pelo pântano, ainda que seja um caminho mais curto. Muitos já foram tragados pelo solo pantanoso daquele lugar”.


Os dois súditos, não dando crédito ao aviso do soberano, seguiram pelo território proibido e acabaram atolados até o pescoço. Os dois já estavam desmaiados quando Théo, que acompanhava ocultamente os dois descuidados súditos, chegou ao local. Ainda que Théo pudesse salvar os dois homens, ele misteriosamente escolheu apenas um para tirar do atoleiro. O outro, como era de se esperar, morreu tragado pela lama. A graça de Théo alcançou apenas um. O outro foi condenado por sua própria desobediência.
A história acima poderia muito bem ser utilizada como ilustração para a doutrina calvinista, não fosse um detalhe: na perspectiva de Calvino a queda dos dois súditos na areia movediça precisaria necessariamente ter sido preordenada (e não apenas prevista) por Théo. Neste caso, dizer que um dos homens foi condenado por sua própria concupiscência não condiz com a lógica dos fatos.  Se o governo de Deus sobre o mundo ocorre tal como Calvino supõe, somos todos personagens de um livro já escrito e fechado, sem possibilidade de correções. Para Calvino Adão pecou porque Deus preordenou. Até mesmo os criminosos cumprem os propósitos divinos. Fica a pergunta: se seus atos foram preordenados, como podem ser responsabilizados por eles? É neste ponto de Calvino apela ao mistério, recurso muito útil aos teólogos.

O arminianismo apresenta uma saída para este problema argumentando que Deus elege para a perdição e salvação baseando-se em sua presciência e não em decretos. Na perspectiva arminiana, indivíduos são salvos/condenados não porque Deus simplesmente quis assim, mas porque já sabia de antemão quem iria aceitá-lo/rejeitá-lo. Ainda que insistam que a salvação não pode ser alcançada sem a graça de Deus, os arminianos defendem que o homem desempenha um papel ativo, cooperando com a graça (como na teologia católica, respeitadas suas diferenças).  O arminianismo tenta conciliar soberania divina com liberdade humana.

Há quem argumente que no fundo o arminianismo não é muito diferente do calvinismo. Se Deus sabe que amanhã ao meio-dia serei atingido por um raio, não me torno, como no calvinismo, um personagem de um livro fechado e selado, condenado a seguir um roteiro cujas letras, escritas a ferro e a fogo, não se podem mover? Para resolver este problema e afirmar a autonomia e liberdade humana, seria necessário negar a onisciência divina. Assim nasce a teologia do processo.

Querendo enfatizar a autonomia e liberdade humana, a teologia do processo passou a defender que Deus simplesmente não conhece o amanhã. Para os teólogos do processo Deus é apenas persuasivo, nunca coercitivo. Ele é imutável apenas no caráter e intenção, mas mutável quanto a experiência e relações. Outra característica da teologia do processo é a ênfase na imanência de Deus: Ele e o mundo estão intimamente envolvidos, e se afetam mutuamente. Percebe-se nesta teologia certa tendência ao panenteísmo (Deus está no mundo, todavia, é mais que o mundo). Há quem acuse o teísmo aberto de ser uma adequação ao pensamento moderno sobre a natureza do mundo ou de buscar conexões com a filosofia. Mas é preciso lembrar que a teologia cristã, principalmente a partir de Paulo, foi fortemente influenciada pela filosofia platônica.  O próprio Calvino (como Lutero), que se diz essencialmente bíblico, bebeu em Agostinho, que por sua vez bebeu em Platão.

É, todo mundo bebe em algum lugar. Eu não sou diferente, confesso. O que eu acho sobre a relação entre liberdade humana/soberania divina? Ah, tenho mais o que fazer...

Jones F. Mendonça