1. Os profetas bíblicos, cada qual a seu modo, expõem aos seus leitores uma visão ideal de mundo, construída a partir de suas próprias experiências concretas. O sacerdote Ezequiel, por exemplo, vê o mundo restaurado como um magnífico templo do qual brota uma fonte revitalizadora (40-48). Este é o paraíso sacerdotal: o “céu” é um culto perfeito-infinito.
2. Partes do livro do profeta Isaías evocam imagens rurais, com animais selvagens vivendo ao lado de animais domésticos (11,5-8; 65,25) e espadas transformadas em arado (2,4). Que cena extraordinária! Na Jerusalém recriada, sob novos céus e sobre nova terra, a duração da vida é “como os dias de uma árvore” (65,22). Este é o paraíso de quem sofre com a guerra e as feras selvagens.
3. Alguns textos anunciam coxos saltando como cervos (Is 35,6), praças repletas de crianças (Zc 8,5), virgens tendo prazer na dança (Jr 31,13) em uma sociedade capaz de garantir que todos colham os frutos do seu trabalho e usufruam do conforto da casa que construíram (Am 9,14). Este conjunto de imagens expressa um paraíso exuberante que ainda habita nossos sonhos.
4. Essas “visões”, no entanto, não são literais, mas representações simbólicas dos anseios humanos mais profundos: ausência de guerras, cura para enfermidades, vida comunitária abundante, longevidade. Podem funcionar, caso sejam assimiladas de maneira positiva, como alavanca para ações transformadoras. Passivamente compreendidas, convertem-se em meras muletas metafísicas.
"Na terra de Dilmun, o leão não mata e o lobo não rouba a ovelha" (Enki e Ninhursag, mito sumeriano do II milênio a.C. ).
Jones F. Mendonça