quarta-feira, 31 de outubro de 2012

SÃO SÓ AGRICULTORES. NÃO SÃO TERRORISTAS....


Jones F. Mendonça

A GUERRA DA COLHEITA

Foto: Al Akhbar

De acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, mais de 7.500 oliveiras pertencentes a palestinos foram danificadas ou destruídas por colonos israelenses na Cisjordânia entre janeiro e outubro de 2012. A mídia ocidental insiste em retratar os palestinos apenas como terroristas e dá pouca ou nenhuma atenção ao sofrimento e humilhação aos quais esses indivíduos são submetidos diariamente. O conflito na Palestina faz vítimas inocentes tanto entre israelenses (como os habitantes do sul de Israel que convivem com os mísseis lançados de Gaza pelo Hamas) como entre palestinos (como estes plantadores de oliva da Cisjordânia). Não se trata de uma guerra entre Deus e o diabo como muitos querem nos fazer crer. É guerra de (des)humanos contra (des)humanos. Só.

Muitas fotos da colheita de azeitonas 2012 na Cisjordânia no jornal turco Al Akhbar.

Leia um pequeno relatório da ONU a respeito da colheita de azeitonas na Cisjordânia aqui. 


Jones F. Mendonça

TEOLOGIA DA REFORMA

No ano passado comecei a trabalhar numa apostila sobre a teologia da Reforma. Como tenho verdadeira obsessão pela boa aparência do material (layout, ilustrações, capa, etc.),  por referências bibliográficas diversificadas e pela busca de um texto ao mesmo tempo claro e conciso, o trabalho tem sido lento, muito lento. Considerando que hoje os protestantes comemoram o dia em que Lutero divulgou suas 95 Teses contra as Indulgências, vejo como oportuno publicar aqui no Blog a introdução da apostila, que ainda precisa passar por algumas revisões. Eis o material:

Teologia da Reforma (trecho de apostila)

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

OS FANTASMAS DA GUERRA



A historiadora holandesa Jo Teeuwisse teve a fantástica ideia de sobrepor antigas fotos de soldados tiradas na Europa, geralmente durante a Segunda Guerra Mundial, em fotos atuais nos mesmo locais em que eles apareciam. O efeito é surpreendente (na verdade, fantasmagórico). Um dos objetivos é fazer com que as pessoas reflitam sobre a guerra. 

Leia mais no Opera Mundi. 


Jones F. Mendonça

sábado, 27 de outubro de 2012

"CONVERSAS COM UM ESTUDIOSO DA BÍBLIA" - FRANK MOORE CROSS

A Sociedade de Arqueologia Bíblica está disponibilizando gratuitamente para download (em PDF, inglês) o livro "Conversations with a Bible Scholar" ("Conversas com um estudioso da Bíblia"). Na obra o famoso estudioso bíblico (falecido no sábado  passado - 17/10/12) Frank Moore Cross é entrevistado por Hershel Shanks, editor da Biblical Archaeology Review. A primeira pergunta é sobre as origens de Israel. Imperdível. 

Para baixar o livro basta fazer um rápido cadastro no site. Faça isso clicando aqui. 


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

RAGE AGAINST THE MACHINE - RENEGADES OF FUNK

Erick, meu amigo de bike, apresentou-me esta banda. Um som diferente, uma batida viciante, uma letra muito louca.  Gostei...



quarta-feira, 24 de outubro de 2012

SALVE JORGE, SALVE DAVI!

Davi e Golias, de Vecellio Tiziano (1542-44)
O brasileiro, seja ele evangélico, católico, budista, espírita ou de outra religião qualquer, adora novela. Mas muitos evangélicos têm uma atitude particularmente curiosa em relação a elas. Os mesmos que assistem são os mesmos que criticam. Esse comportamento contraditório talvez seja o reflexo da culpa que muitos fiéis carregam por não resistirem a uma trama global (ou Universal).

Os argumentos utilizados para que os crentes não as assistam são os mais variados: “o tal personagem da novela tem três mulheres” (como se Abraão, Davi e Salomão fossem monogâmicos); “a trama é muito violenta” (como se o livro de Josué pregasse o pacifismo); “há muito sexo” (como se Cantares fosse um livro sobre a castidade); “num dos capítulos há uma cena em que dois irmãos se beijam” (como se Amnon, filho de Davi, não tivesse estuprado sua irmã, Tamar); “o nome da novela é uma saudação pagã” (como se algumas narrativas presentes na Bíblia hebraica não fossem inspiradas em mitos pagãos, particularmente babilônicos).

Este último argumento tem pipocado no Facebook em relação à nova novela das 21:30: “Salve Jorge”.  A Record decidiu retransmitir a novela  sobre o rei Davi (sim, é uma novela!) no mesmo horário da novela da Globo. Como andam dizendo que a expressão “salve Jorge” é uma saudação a Ogum, na visão de muitos crentes o horário será disputado pelas emissoras como uma batalha entre Davi e Ogum (e, portanto, de Deus contra o diabo). Santo Platão...

A trama sobre Davi vai ter tudo o que as outras novelas também têm: violência, sexo, traição, incesto, vingança, ganância, abuso do poder, etc. Ah, mas é uma novela gospel, então pode.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

MULHER É PRESA POR ORAR NO MURO DAS LAMENTAÇÕES

Ainda que na declaração de independência de Israel conste que "O Estado de Israel [...] vai defender a plena igualdade social e política de todos os cidadãos, sem distinção de raça, credo ou sexo", Anat Hofmann foi presa na semana passada por orar no Muro das lamentações. O protesto de Anat foi publicado no The Jewish Daily (22/10/2012):
Eles me arrastaram no chão por 15 metros; meus braços estão machucados. Eles me colocaram em uma cela sem cama, com três outros prisioneiros, incluindo uma prostituta e um ladrão de carros. Eles jogaram a comida através de uma pequena janela na porta. Eu deitei no chão coberta com meu talit.
O incidente mostra o poder que a comunidade judaica ortodoxa detém em Israel. Eu aplaudo, de pé, a atitude de Anat Horffman. 


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

JERUSALÉM NO PENTATEUCO

Ontem, Geraldo de Araujo, via Facebook, após ler meu texto sobre o Pentateuco, perguntou-me se não é estranho que o nome “Jerusalém” não apareça no Pentateuco, caso consideremos que se trata de uma obra redigida no período da monarquia judaíta (séc. X – VI a.C.), como já sustentava Julius Wellhausen no final do século XIX. Em suma: se o Pentateuco é uma obra recente e não o produto do trabalho de Moisés, não seria de se esperar que o nome da capital de Judá aparecesse vez por outra na obra como projeção para o passado de uma condição presente?

Minha resposta é sim. Acho que de alguma forma os teólogos de Judá deixariam vestígios da crença que coloca Jerusalém como capital legítima do reino de Israel. Há, em minha opinião, pelo menos duas “impressões digitais” no Pentateuco que confirmam essa suspeita. A primeira é o nome “Salém”, em Gn 14,18, identificada pelo salmista (Sl 76,2) com Sião, local onde foi construída a cidade de Davi (cf. 2Sm 5,7). O rei de Salém é Melquisedeque ("meu rei é Tzedeq" ou "meu rei é justo"), um misterioso personagem que aparece no meio da narrativa. Você não acha estranho? Pois eu acho. A segunda “impressão digital” encontra-se em Dt 16, texto que insiste que as três festas anuais (Páscoa, Pentecostes e Tendas) devem ser celebradas num local específico (Jerusalém?) a ser determinado por Yahweh após a tomada da terra.  Curiosamente tal recomendação não aparece nos quatro primeiros livros do Pentateuco e coincide com as medidas tomadas no início do século VII por ocasião da reforma josiânica. Suspeito. 

Bem, isso é o que vejo. Mas há quem pense que estou vendo demais. Será?


Jones F. Mendonça
  

terça-feira, 16 de outubro de 2012

O TRABALHO DOS MASSORETAS [HEBRAICO]

Vez por outra alguém me pede informações sobre o trabalho dos massoretas. Um bom começo talvez seja consultar o site allepocodex.org. Seguem alguns trechos:
Um dos projetos importantes dos massoretas foi a invenção de marcas de vogais para o idioma hebraico. [...] Sistemas completos de vocalização foram aparentemente desenvolvidos nos séculos VII e VIII. Sabemos de três sistemas principais: o Tiberiano, que é usado ainda hoje [...] o Palestinense, que aparentemente foi criado no sul de Eretz-Israel, e o da Babilônia, que foi criado na Babilônia. 
[...] 
A maioria dos sinais do sistema Tiberiano indica vogais que provavelmente refletem a forma como foram pronunciadas em Tiberíades, no período dos massoretas. [...] Outros sinais que pertencem ao sistema de vocalização são o sheva, o dagesh, e o ponto que distingue o shin do sin.
Leia o texto completo aqui.


Jones F. Mendonça

sábado, 13 de outubro de 2012

O ESPÍRITO DE MENTIRA AINDA FALA

Yahweh precisava que alguém em sua corte celeste enganasse Acabe, induzindo-o a subir a Ramote Gileade (1Rs 22,20-21). Um clima de incerteza tomou conta do ambiente até que uma figura misteriosa se apresentou para a tarefa. Nas Bíblias evangélicas tal figura é identificada como “um espírito”. Na Bíblia de Jerusalém (católica) como “o Espírito” (sim, com artigo e letra maiúscula).

Quem tem razão? Leia o texto “O espírito de mentira na boca dos profetas”, do prof. Dr. Osvaldo Luiz Ribeiro e tire suas próprias conclusões.

Ah, compare as versões aqui (NVI, NTLH, ARA, ACF e BJ).


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

INTRIGAS NO REINO DE ISRAEL II

Quando Davi envelheceu surgiu uma disputa pelo trono. Adonias, o filho mais velho de Davi, aliou-se a Joabe, comandante do exército de seu pai, e ao sacerdote Abiatar. Salomão encontrou apoio do sacerdote Zadoque, do profeta Natã, de Benaia, chefe da guarda real de Davi, dos “valentes de Davi” e de Bat-Sheba, esposa do rei. Salomão, é óbvio, conseguiu aliados de maior peso.

Adonias organizou um sacrifício em En-Roguel (aqui, aqui e aqui), nas proximidades de Jerusalém, com o objetivo de que fosse declarado rei. Bat-Sheba descobriu o plano e levou suas queixas a Davi. Ela queria que seu filho Salomão sucedesse Davi e não Adonias, filho de Hagite. O profeta Natã chegou logo depois e também manifestou seu apoio a Salomão. Às pressas Salomão foi ungido rei em Gion (aqui, aqui e aqui), por Zadoque e Natã.

Adonias e seus aliados entraram em pânico. A tensão é compreensível na medida em que lemos os conselhos que Davi dá a Salomão antes de morrer. Em relação a Joabe ele diz: “não o deixe envelhecer e descer à sepultura” (1Rs 2,6). Quanto a Simei (que aparentemente apoiava Salomão, mas pertencia ao clã de Saul): “faça-o descer ensanguentado à sepultura” (1Rs 2,9). Não houve conselho em relação a Abiatar, o sacerdote traidor, e em relação a Adonias, seu irmão. Mas Salomão soube como lidar com eles. Davi derramava sangue por meio de Joabe. Salomão, por meio de Benaia:
E o rei Salomão deu ordem a Benaia e este feriu e matou Adonias. [...] Salomão expulsou Abiatar do sacerdócio do Senhor, [...] Então Benaia [...] atacou Joabe e o matou [...]. Então o rei deu ordem a Benaia e este atacou Simei e o matou (1Rs 2,25.27.34.46).
Mortos: Adonias, Joabe e Simei. Exilado: Abiatar, o sacerdote. Eliminados os opositores, Salomão teve paz para reinar: “Assim o reino ficou bem estabelecido nas mãos de Salomão (2Rs 2,46).  

Mas o tempo passou e Jeroboão, um dos oficiais de Salomão, rebelou-se contra o rei, que tentou matá-lo. Com medo, Jeroboão fugiu para o Egito, permanecendo lá até a morte de Salomão.

Roboão assumiu o trono no lugar de sei pai Salomão, dando continuidade a dinastia de Davi. Jeroboão, astuto, voltou do Egito, se aproveitou da antiga rivalidade entre o Norte e o Sul e tornou-se rei em Siquém, ao norte de Jerusalém.  Mas Jeroboão tinha um problema. Como manter seu reino se o povo tinha que cultuar Yahweh na rival Jerusalém? Solução: criar novos locais de culto, nomear sacerdotes não levitas e fabricar um objeto (um bezerro de ouro) que servisse se assento a Yahweh, tal qual a arca da aliança. O resultado você vê abaixo:


Jones F. Mendonça

ELEPHANT GUN - BEIRUT


A CANDLE'S FIRE - BEIRUT


terça-feira, 9 de outubro de 2012

PAULO, O CRISTIANISMO PRIMITIVO, A TRADIÇÃO E A LEI JUDAICA


Quanto à sujeição dos cristãos à lei judaica, o Livro de Gálatas registra as seguintes palavras de Paulo: “nem mesmo Tito [...] foi obrigado a circuncidar-se, apesar de ser grego. [...] Não nos submetemos a eles [os judaizantes] nem por um instante“(Gl 2,3.5).  Em Gálatas fica nítida a oposição que Paulo faz a Pedro (2,12), a “alguns da parte de Tiago” (2,11) e a Barnabé (2,13), todos com tendências judaizantes. Supor que o motivo da separação ente João Marcos e Paulo na Panfídia tenha sido a tendência judaizante do primeiro não chega a ser um desatino.

Mas o livro de Atos mostra um Paulo mais ameno, longe da polêmica antijudaica. Em Atos 16,3 ele circuncida Timóteo, um cristão estimado em Listra, filho de mãe judia e pai grego. O motivo da sua não circuncisão  na infância Lucas não diz, mas o motivo da circuncisão tardia está lá: “por causa dos judeus que viviam naquela região”. A intenção não seria teológica, mas estratégica (Shaul entre os judeus, Saulo entre os gregos e Paulus entre os latinos). Em Atos 18,18 Paulo chega a fazer um voto de nazireu antes de embarcar para a Síria, no norte da Palestina (veja também At 21,26). Ainda que o apóstolo tenha dito em sua carta aos gálatas que não se submetera aos judaizantes “nem por um instante”, o livro de Atos parece registrar alguns momentos em isso aconteceu. O próprio Paulo explica o que o motivou sua sujeição à lei entre os judeus: “tornei-me como se estivesse sujeito à lei, a fim de ganhar os que estão debaixo da lei” (1Co 1,20).

Mas em diversas passagens a posição de Paulo em relação ao valor da lei parece ambígua. Apesar de afirmar que ninguém será declarado justo pela obediência à lei (3,20), ele insiste que a lei não é anulada pela fé (3,31). Ao mesmo tempo em que diz (citando Isaías): “apenas o remanescente [de Israel] será salvo“ (Rm 9,27), num outro momento declara: “Todo o Israel será salvo” (Rm 11,26). Confuso?

Há quem pense que algumas cartas de Paulo sofreram remendos, daí as “contradições” e “incoerências”. Outros defendem que Paulo jamais rompeu com o judaísmo. Suas cartas, particularmente Romanos, deixariam clara sua posição: judeus convertidos (como ele e Timóteo) devem seguir a lei, os gentios não. Por fim há os que entendem ser Paulo um sujeito confuso, atormentado pela tentativa de conciliar a prática da lei judaica com a salvação pela graça.   

Se você se interessa pela teologia paulina e pelas questões apresentadas acima, talvez queira de ler (em inglês) a última publicação da BAS (Biblical Archaeology Review): “Paul: Jewish Law and Early Christianity” (Paulo: lei judaica e cristianismo primitivo). Eis um pequeno resumo do conteúdo do Ebook apresentado pelo site da BAS:
Nesta última publicação da BAS os melhores estudiosos bíblicos examinam o papel controverso da lei e da tradição judaica no cristianismo primitivo. Paulo, o apóstolo que escreveu a maior parte do Novo Testamento, discutiu o papel do judaísmo entre os seguidores de Jesus em uma série de cartas. Embora Paulo tenha pregado a justificação pela fé em Cristo, ele era fariseu e abordou o papel das tradições judaicas e da condição de Israel na nova aliança.
Para baixar o ebook (e muitos outros) basta fazer um cadastro no site. Faça isso aqui.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

TIAMAT, TEHOM, MARDUK E O GÊNESIS

Poucas pessoas se dão conta, mas resquícios de antigos mitos babilônicos estão presentes  na Bíblia hebraica. A "impressões digitais" estão por toda a parte.  Durante o exílio (século VI a.C.) um exímio escritor israelita fez um trabalho semelhante ao de C. S. Lewis em "As Crônicas de Nárnia", inserindo teologia judaica em antigos mitos babilônicos (C. S. Lewis inseriu teologia cristã em mitos nórdicos). 

O The Jewish Daily Forward publicou um pequeno texto sobre o assunto, escrito por Philologos (07/10/12). 

Leia em português com tradução do Google aqui. 
Em inglês aqui. 


Jones F. Mendonça

TRIKE DRIFTING


quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A GUERRA SIRO-EFRAIMITA

Estamos no século VIII a.C. Acaz reina em Judá (capital Jerusalém), Peca em Israel (capital Samaria) e Rezim na Síria (capital Damasco). Os assírios, povo mesopotâmico com elevado potencial militar, ameaçam toda a região com invasões, deportações e tributos. Peca e Rezim, temerosos, tentam forçar Acaz a participar de uma coalizão antiassíria, mas o rei de Judá prefere aliar-se à Assíria e lhe pagar tributo:
Sou teu servo e teu vassalo. Vem salvar-me das mãos do rei da Síria e do rei de Israel, que estão me atacando (2Rs 16,7).
Desesperado, Acaz chega a construir um altar de acordo com o modelo assírio (Rs 16,10). Oséias o condena: “Efraim se voltou para a Assíria, e mandou buscar a ajuda do grande rei” (Os 5,13). Além de Oséias (no Norte), o caos social e a infidelidade a Yahweh são denunciados por profetas como Miquéias e Isaías (no Sul). 

O clima no sul é de incerteza. Isaías quer que Acaz peça um sinal a Yahweh, mas o rei se recusa. Ainda assim o profeta diz: “a virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e o chamará Emanuel” (Is 7,14). Isaías afirma que Samaria e Damasco serão destruídas antes que este menino se torne adulto (7,16; 8,4). Mateus, numa exegese tipicamente judaica, verá na passagem uma profecia messiânica (Mt 1,23).

A campanha militar iniciada por Tiglate-Pileser (745-727) e seguida com Salmaneser V (726-722), termina com Sargão II (722-705). Em 722 Samaria sucumbe ao exército assírio. Muitos são deportados. Na terra devastada o rei da Assíria insere gente da Babilônia, de Cuta, de Ava, de Hamate e de Sefarvaim (2Rs 17,24). Povos diferentes, deuses diferentes: Sucote-Benote, Nergal, Asima, Nibaz, Tartaque, Adrameleque, Anameleque (17,31). Os samaritanos perdem sua identidade étnico-religiosa.

Pouco mais de um século depois, em 587 a.C., Judá cairá nas mãos dos babilônios, catástrofe que terá profundos impactos na teologia dos israelitas.

Abaixo meu mais novo mapa, que ilustra a aliança entre a Síria e Efraim (Israel):

Clique para ampliar (1076 x 898)

Jones F. Mendonça

domingo, 30 de setembro de 2012

INTRIGAS NO REINO DE ISRAEL

Quem faz uma leitura ingênua da Bíblia não percebe os diversos conflitos ideológicos, políticos e religiosos que emergem nas linhas e entrelinhas do texto sagrado. Um belo exemplo pode ser lido no segundo livro de Samuel. Com a morte de Saul, Davi é ungido rei de Judá em Hebrom. Em Maanaim assume um rei fantoche, Is-Bosete, filho de Saul. Mas quem governa Israel (do norte) de fato é Abner, o general do antigo rei. De um lado Davi, do outro os descendentes de Saul. 

Os obstáculos aos planos de Davi vão sendo eliminados, um a um: Abner (morto), Is-Bosete (morto), Mefibosete (exilado no palácio real), Urias (morto), Absalão (morto), Seba (morto). Quem suja as mãos é Joabe, general de Davi. O rei lamenta quase toda as mortes e nunca castiga Joabe. Não é estranho? 

Abaixo o meu último mapa que deve ser observado à luz do seguinte texto: 
2Sm 2,2.4.8.9 Então Davi foi para Hebrom [...] e ali ungiram Davi rei da tribo de Judá [...] Enquanto isso, Abner, comandante do exército de Saul, levou Is-Bosete, filho de Saul, a Maanaim, onde o proclamou rei sobre Gileade, Assuri, Jezreel, Efraim, Benjamim e sobre todo o Israel. 




Jones F. Mendonça

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

VIVA A LIBERDADE DE EXPRESSÃO, MAS...

O cartunista Carlos Latuff foi recebido nos estúdios da Globo News em agosto de 2011. A primeira pergunta (Jorge Pontual): "É válido fazer humor sobre o holocausto?". A pegunta provavelmente foi feita porque Latuff participou de um concurso de charges sobre o holocausto nazista promovido pelo Irã em resposta a uma charge de Maomé que gerou protestos no mundo árabe.  

Fica a pergunta: "há limites para o humor ou para a charge política?". Na prática, segundo Latuff, tudo depende de quem se critica. 


domingo, 23 de setembro de 2012

TRECHOS GNÓSTICOS: ENTRE TAPAS E BEIJOS

O beijo de Judas (1300-50) -
Italian Unknown Master
Diante da recente polêmica em torno do fragmento copta que sugere uma relação amorosa entre Jesus e uma mulher desconhecida, apresento abaixo alguns textos de cunho gnóstico que insinuam que a relação de Jesus com Maria Madalena tinha um caráter singular. Tais documentos não constituem prova ou evidência de que Jesus foi casado, mas refletem crenças e costumes de uma comunidade cristã que rivalizava com o “cristianismo ortodoxo”. Tal rivalidade é bem expressa no Apocalipse de Pedro, que chama os bispos e diáconos de “canais sem água”.

As citações vêm da seguinte obra:
PROENÇA, Eduardo de (Org.). Apócrifos e pseudo-epígrafos da Bíblia. São Paulo: Fonte Editorial, 2005.

Informações técnicas:
OTERO, Aurelio de Santos. Los Evangelios apócrifos. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 2005.

VIELHAUER, Philipp. Introducción al Nuevo Testamento, los apócrifos y los padres apostólicos. Salamanca, Ediciones Sígueme, 1991.

1. O Evangelho de Felipe:

Informações técnicas
Escrito esotérico para iniciados na Gnose de corrente valentiana - Códice II de Nag Hammadi, fls. 51-86 - datado para o IV século, com origem no final do século II e início do século III (Otero, 2005, p. 387). Foi descoberto em Nag Hammadi, Egito, ao lado de outras obras autodenominadas “Evangelho”: o “Evangelho segundo Tomé”, o “Evangelho dos Egípcios” e o “Evangelho da Verdade” (VIELHAUER, 1991, p. 272).

Trecho:
[O Senhor amava Maria] mais do que a todos os discípulos [e] a beijou na [boca repetidas] vezes. Os demais [...] lhe disseram: “Por que a queres mais do que a todos nós”? O Salvador respondeu e lhes disse: “A que se deve isso, que não vos quero tanto quanto a ela”?
2. O Evangelho de Maria Madalena

Informações técnicas
Escrito gnóstico que considera Maria Madalena como depositária privilegiada das confidências de Jesus. Em diversos escritos gnósticos Madalena é a personificação terrena da gnose que se une ao masculino (Jesus). Os papiros de que dispomos, escritos em grego (fragmentos) e em copta (maior parte), são do século III, mas remontam a textos produzidos no século II (Otero, 2005, p. 39).

Trecho:
Depois de ter dito isto [revelações feitas por Jesus], Maria Madalena se calou, pois até aqui o Salvador lhe tinha falado. Mas André respondeu e disse aos irmãos: “Dizei o que tendes para dizer sobre o que ela falou. Eu, de minha parte, não acredito que o Salvador tenha dito isso. Pois esses ensinamentos carregam ideias estranhas”. Pedro respondeu e falou sobre as mesmas coisas. Ele os inquiriu sobre o Salvador: “Será que ele realmente conversou em particular com uma mulher e não abertamente conosco? Devemos mudar de opinião e ouvirmos ela? Ele a preferiu a nós? Então Maria Madalena se lamentou e disse a Pedro: “Pedro, meu irmão, o que estás pensando? Achas que inventei tudo isso no meu coração ou que estou mentindo sobre o Salvador?” Levi respondeu a Pedro: “Pedro, sempre foste exaltado. Agora te vejo competindo com uma mulher como adversário. Mas se o Senhor a fez merecedora, quem és tu para rejeitá-la? Certamente o Salvador a conhece bem. Daí tê-la amado mais do que a nós”.

Jones F. Mendonça

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

CRISTIANISMOS: CONFLITOS NA IGREJA PRIMITIVA

O beijo de Judas, de Giotto di
Bondone (1304-06).
Há quem fale em “cristianismo”, mas a religião dos seguidores de Jesus foi, desde os primeiros séculos, marcada pela diferença entre credos, costumes, cânon, disciplina, administração dos sacramentos e forma de liderança. Os primeiros problemas enfrentados pelos discípulos foram superados com certa facilidade. A substituição de Judas por Matias (At 1,26) e a nomeação de pessoas encarregadas de prestar assistência “às viúvas esquecidas na distribuição diária de alimento” (At 6,1) foi feita, pelo que nos conta Lucas, sem maiores problemas. Mas a entrada de uma nova figura, contada como apóstolo, mas que ao contrário de Matias não esteve com os Doze “desde o batismo de João até o dia em que Jesus foi elevado dentre nós às alturas” (At 1,22), logo suscitou problemas.

Paulo, que no início de Atos aparece ao lado de Barnabé (11,25; 13,12), em segundo plano, vai aos poucos ganhando proeminência. A dupla “Barnabé e Saulo (11,25; 13,12), torna-se, em 13,14, “Paulo e Barnabé”. Em listra, durante sua primeira viagem missionária o “apóstolo dos gentios” é comparado a Hermes, “porque era ele quem trazia a palavra” (14,12). Paulo é eloqüente, culto, dotado de um notável espírito de liderança e ainda possui cidadania romana. A sofisticação teológica de suas cartas não passou despercebida por Pedro, que chegou a confessar que possuem “algumas coisas difíceis de entender” (2Pe 3,16).  

O capítulo 15 de Atos marca a primeira grande controvérsia entre os cristãos. Na cidade de Antioquia, na Síria, alguns judeus convertidos estavam ensinando que os homens não circuncidados não seriam salvos. Uma reunião em Jerusalém (que ficou conhecida como Concílio de Jerusalém) com a participação dos apóstolos e presbíteros foi organizada a fim de resolver a questão.

O livro de Atos registra que Pedro e Tiago discursaram no concílio. O primeiro disse que o jugo da Lei não de deve ser imposto aos discípulos (At 15,10). Tiago segue na mesma linha, mas faz algumas ressalvas: “abstenham-se de  comida contaminada pelos ídolos, da porneia (termo de tradução difícil), da carne de animais estrangulados e do sangue” (At 15,20). Ele explica o motivo das proibições: “Pois, desde os tempos antigos Moisés é pregado em todas as cidades, sendo lido nas sinagogas todos os sábados". Ao que parece tais recomendações visam facilitar a convivência entre judeus e gentios convertidos ao cristianismo. Mas isso não fica claro. O apego de Tiago aos costumes judaicos deixou sua impressão nos textos no Novo testamento. Note que ele usa o termo “sinagoga” (Tg 2,2) e não “ekklesia” para se referir aos locais de reunião dos destinatários de sua carta. A ênfase que Tiago dá às obras também chama a atenção. Suas doutrinas parecem entrar em confronto direto com o ensinamento paulino (Lutero que o diga!). Mas Lucas não cita nenhum atrito entre Pedro e Tiago com Paulo. Após o concílio de Jerusalém os discípulos se deslocam para Antioquia (cf. At 15,30). Lá algo importante acontece. É preciso ler com atenção o que nos diz Paulo na sua carta aos gálatas.  

Paulo tem uma posição clara: “ninguém é justificado pela prática da lei, mas mediante a fé em Jesus Cristo” (Gl 2,16). Ele diz que enfrentou Pedro face a face por sua atitude condenável (Gl 2,11). O motivo: Pedro comia com os gentios, mas se afastava deles após a chegada de “alguns da parte de Tiago” (v. 12). Paulo diz mais: “até Barnabé se deixou levar” (v. 14). De um lado Paulo. Do outro Pedro, Tiago e Barnabé. Anote isso e voltemos a Atos.

Atos também fala de um desentendimento de Paulo com Barnabé em Antioquia (15,36), mas apresenta outro motivo: Barnabé queria levar João Marcos na segunda viagem missionária, mas Paulo se opôs, alegando que ele os havia abandonado na Panfília (15,38). Aqui algo fica evidente. Além de Pedro, Tiago e Barnabé, o “apóstolo nascido fora do tempo” também se desentendera com João Marcos. Paulo, um homem difícil.  O motivo da separação entre Paulo e Barnabé parece ser duplo: divergências (após?) o concílio de Jerusalém (Gálatas) e recusa da companhia de João Marcos (Atos).

Quando confrontamos o livro de Atos com as demais cartas do Novo Testamento notamos que a manutenção da unidade foi algo difícil. As comunidades cristãs primitivas foram ganhando características próprias, moldadas de acordo com o líder que as conduzia. Paulo tinha bons motivos para fazer um apelo à unidade diante dos cristãos que diziam “Eu sou de Paulo"; "eu de Apolo"; "eu de Pedro"; e "eu de Cristo" (1Co 1,12).

Quando os apóstolos morreram a situação ficou ainda mais grave. A falta de unidade doutrinária, da figura de um líder e de uma relação de livros considerados inspirados por todos os cristãos impulsionou a elaboração de um credo apostólico, a eleição de um bispo que pudesse governar a igreja com autoridade e a definição de um cânon (que ocorreu só no final do século IV).

No primeiro século a opinião de Paulo prevaleceu sobre os demais apóstolos. Os judaizantes deixaram de representar uma grande ameaça. Nos segundo século surgiu um novo inimigo: os gnósticos. Mas esse é um assunto para outra ocasião.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

OASIS - WHO FEELS LOVE


O MOVIMENTO DE JESUS E AS MULHERES

A Sta Maria Madalena, de Simon
Vouet (1523-27), está mais para a
Sulamita de Cantares. 
Tito Lívio, na Roma do primeiro século, fez um discurso no Foro Romano repreendendo as mulheres que se dirigiam aos maridos de outras. Em sua opinião as perguntas deveriam ser feitas me casa, aos seus próprios maridos (TAMEZ, 2004, p. 99). No cristianismo não foi diferente. Paulo, como Tito Lívio, recomendou que elas ficassem caladas nas ekklesias (1 Co 14,34-35). Perguntas só em casa, porque "é vergonhoso que falem na congregação". 

Mas em algumas comunidades primitivas as mulheres foram ganhando espaço. Em alguns textos apócrifos isso fica evidente, como nos "Atos de Paulo e Tecla" e no "Evangelho de Maria Madalena". Neste segundo documento Pedro, irmão de Jesus, demonstra ciúme de Maria Madalena, "a mulher que Jesus mais amou". No final do livro Levi repreende Pedro dizendo: "se o Salvador a fez merecedora, quem és tu para rejeitá-la?". 

A divulgação de uma papiro escrito em copta, datado inicialmente para o quarto século, tem apimentado a discussão a respeito do papel das mulheres nas comunidades cristãs primitivas. Num trecho do fragmento vem escrito: "Jesus lhes disse: a minha mulher...". 

Caso seja autêntico, o documento apenas expressa o que determinada comunidade cristã acreditava (ou queria fazer os outros acreditarem) e não uma verdade histórica. Aliás, o mesmo se pode dizer dos Evangelhos canônicos. Jesus teve uma mulher? Impossível responder. 

Se você é um daqueles sujeitos desconfiados, que gosta de buscar informações na fonte e não em jornais sensacionalistas, leia o trabalho acadêmico que deu origem a toda essa discussão.   A autora é Karen L. King. 

Em inglês (PDF) aqui. 
Em português (HTML) aqui. 

Jones F. Mendonça

sábado, 15 de setembro de 2012

OS PROTESTOS ISLÂMICOS: RELIGIÃO E POLÍTICA

O filme de 14 minutos que satiriza o profeta Maomé vem provocando protestos em todo o mundo árabe. O que impulsiona a revolta são apenas questões religiosas ou também políticas? Um artigo publicado no Portal Vermelho sugere que por trás dos protestos estão grupos muçulmanos radicais que ganharam força a partir da "primavera árabe". Segue um pequeno trecho:
De acordo com o presidente da instituição El Marada no Brasil e especialista em assuntos do Oriente Médio, Assad Frangieh, a reação em cadeia ao filme suscita desconfianças. “A primeira análise que a gente vê é que se começa a questionar se foi só uma manifestação popular. Na minha opinião, existem correntes políticas que estão fomentando isso daí de forma mais intensa”, avalia.
Continue lendo aqui.

Jones F. Mendonça

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

HEBRAICO: UMA SÍNTESE

No documento abaixo está uma síntese da matéria de hebraico bíblico apresentada em sala de aula aos meus alunos do STBC (2º período): consoantes, sinais vocálicos, transliteração,  flexão do substantivo, relação de construto, artigo, conjunção, preposição e sufixos pronominais. Em breve chegaremos aos verbos, a parte mais crítica no estudo do hebraico bíblico (principalmente os verbos fracos). 

Tabelas de tradução II

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

THE CAT EMPIRE - NO LONGER THERE


DE TERRORISTAS E SACERDOTES

Arte: Carlos Latuff
Ouço aqui e ali que “aquele pessoal do Oriente Médio”, “os árabes”, ou “os muçulmanos”, são todos loucos. A crítica reflete um preconceito, está claro. Mas ainda que o alvo seja apenas os terroristas ou os baderneiros que atacaram a embaixada dos EUA na Líbia ou no Iêmem, discordo do adjetivo “loucos”. Não são loucos, são ressentidos manipulados. O instrumento de manipulação: a religião. O manipulador: o sacerdote.

A violência pode ter diversas motivações: ganância, desejo pelo poder, loucura,   ressentimento. Em algumas situações o sofrimento de um indivíduo ou de uma coletividade é o resultado de sua própria incompetência, de um desastre natural ou de uma série de fatores que lhes são desconhecidos. Mas é preciso achar um culpado. Acontece assim: um líder, fraco, porém dotado de grande poder de persuasão, "identifica" o responsável pelas mazelas do povo, o “Grande Satã”. Então ele percebe que a religião, com suas penas e bem-aventuranças, poderá ser o combustível da “revolução”. Eis o resultado: uma massa de terroristas. O que os move não é propriamente a religião, mas o ressentimento. 

O mecanismo descrito acima não é uma invenção dos “árabes”, ou dos “muçulmanos”. É coisa antiga, muito antiga. Hoje funciona bem no Oriente Médio. Amanhã, quem saberá. O mundo dá muitas voltas.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 11 de setembro de 2012

MOISÉS ESCREVEU O PENTATEUCO?

Moisés com as tábuas da Lei -
Guido Reni (1624).  Até o he-
braico nas tábuas é anacrônico. 
Desde o século XVII, com o advento da crítica bíblica, alguns eruditos perceberam que o Pentateuco não pode ter sido obra de um único autor (na verdade, tal desconfiança é bem mais antiga). Até mesmo leitores menos atentos estranham o relato da morte de Moisés, no final do Deuteronômio. Teria o patriarca escrito o relato de sua própria morte antes de ter expirado no monte Nebo na margem oriental do Jordão? Pouco crível, não acha? Mas não é só isso.

O capítulo 11 de Gênesis narra a saída de Abrão de “Ur dos Caldeus”. Há um anacronismo aí. Ur, na segunda metade do segundo milênio era, talvez, “Ur dos sumérios” e não “Ur dos caldeus”. A expressão “Ur dos caldeus” pressupõe a ascensão ao poder dos caldeus, ou seja, babilônicos, que só ocorreu no final do século VII a.C. Tal anacronismo mostra que o autor do versículo deve ser situado numa época bem mais recente que a vivida por Moisés. É claro que a presença do anacronismo não constitui prova contra a existência de Moisés ou a uma possível contribuição sua para a obra. Apenas mostra que esse conjunto de livros conheceu um processo redacional. Sempre será possível dizer (mas não provar) que um personagem chamado Moisés foi o autor de um substrato que deu origem ao atual Pentateuco.

Outro anacronismo aparece no capítulo 12 do mesmo livro. O relato diz que após chegar a Canaã Abraão edificou um altar em Siquém e que “nesse tempo os cananeus estavam na terra” (v.6). O texto é contado na perspectiva que alguém que já vivia na terra, obviamente após o assentamento do povo na região. O mesmo tipo de anacronismo ocorre no capítulo 21, ainda no livro de Gênesis: “E morou Abraão na terra dos filisteus por longo tempo”. É bem atestado que os filisteus chegaram à costa de Canaã por volta de 1200 a.C. Ora, se o patriarca viveu na metade do segundo milênio, como pode ter morado na “terra dos filisteus” se eles ainda não haviam migrado para lá? Mas uma vez a perspectiva é a de que já está na terra. Esse redator, lógico, não pode ter sido Moisés.

Além dos anacronismos há ainda outros detalhes que chamam a atenção de um leitor mais cuidadoso. No Pentateuco o nome divino aparece ora como Yahweh, ora como Yahweh Elohim. O monte no qual Moisés recebeu a lei ora aparece como Sinai, ora como Horebe. Jetro, sogro de Moisés, também ganha nomes diferentes ao longo da narrativa. Ainda mais embaraçoso é notar que um mesmo tipo de situação se repete diversas vezes: Abraão mente para o faraó a respeito da condição Sara, sua mulher, apresentada como sua irmã (Gn 12,14-17). O mesmo Abraão mente a respeito da condição de Sara, agora com Abimeleque, rei de Gerara (Gn 20,1-3). Isaque, filho de Abraão, também vai a Gerara e faz o mesmo em relação à Rebeca, sua mulher (Gn 26,1-7). Coincidência? Sim, é possível. Mas entre o possível e o provável há um grande abismo. Penso que tantos problemas requerem uma solução mais plausível.  

Um tipo de duplicação particularmente interessante ocorre em Gn 6 e 7. Acho que é o melhor exemplo que posso apresentar a fim de que o leitor perceba que a obra não pode ser atribuída a um só autor. Em Gn 6,19 Yahweh ordena que Noé coloque na arca “dois animais de cada espécie, um macho e uma fêmea”. Em 7,2, “de todos os animais puros, sete pares, o macho e sua fêmea e apenas um casal dos animais que não são puros”. Como se pode ver, o segundo relato (que conflita com o primeiro) reflete a preocupação do redator em distinguir animais puros dos impuros. Indício de uma intervenção sacerdotal? É o que parece.

Desde Julius Wellhausen os pesquisadores têm buscado apresentar hipóteses que sejam capazes de explicar como o Pentateuco foi formado. Em linhas gerais as hipóteses podem ser reduzidas a três: um escrito básico (relato que foi crescendo ao longo dos séculos por meio de reelaborações e acréscimos), fontes (documentos independentes que foram costurados em determinadas ocasiões até formarem um único bloco) e círculos narrativos (relatos orais com sua própria história de crescimento, que mais tarde ganharam a forma escrita e foram unidos por um redator final). Nenhuma dessas hipóteses é capaz de resolver satisfatoriamente todos os problemas envolvidos na formação do Pentateuco. O processo de formação desse conjunto de livros parece ter sido bem mais complexo do que imaginava Wellhausen.   

Mas a ausência de um modelo que explique satisfatoriamente como se deu a formação do Pentateuco não implica no reconhecimento da autoria mosaica (já vi muita gente fazendo isso, acredite), apenas revelam o quão difícil é reconstruir a história de composição do texto dos primeiros cinco livros da Bíblia. Para finalizar, fica como sugestão de leitura a obra: "Introdução ao Pentateuco", de Louis Jean Ska (Loyola, 2003, 304 páginas). 


Jones F. Mendonça 

sábado, 8 de setembro de 2012

UM POEMA PARA SOFIA


Minha graça miúda está quieta, incólume, envolta num manto amor.
Então surgem, como águias que furtam um cordeiro na relva,
garras alvas que sem dó, a conduzem a um mundo povoado de vultos [sombrios.
Fios de aço rompem seu último laço com o antigo lar.
Mãos fortes a atingem de súbito, seu peito se agita.
Um odor inebriante invade o seu ser.
O grito da vida, os sorrisos, as lágrimas.
É Sofia que acaba de nascer.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A ROTA DO ÊXODO [MAPA]

No mapa abaixo indiquei a tradicional rota do Êxodo: o Delta do Nilo, o Mar Vermelho, o Sinai e a região da Siro-Palestina. 

Clique para ampliar

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A BOA E VELHA GUERRA FRIA

Experimente ler sobre o conflito na Síria em jornais como o The New York Times, J Post e até mesmo o Al Jazeera (cada vez mais pró-ocidente). Depois leia o RT (Russia Today) e o IRNA (Islamic Republic News Agency). A guerra é uma só. As visões sobre ela são múltiplas. 

A Síria (e todo o Oriente Médio) é um tabuleiro de xadrez (ou de gamão). Os principais jogadores são velhos conhecidos nossos. Uma plateia assiste a partida como se fosse uma batalha entre o bem e o mal. Há algo novo debaixo do sol? 

Charge: Carlos Latuff

Jones F. Mendonça

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

DEMITIZANDO BULTMANN

Sempre que leio uma crítica à teologia liberal o nome de Rudolf Bultmann aparece em destaque. Estranho. O teólogo da desmitologização (ou demitização) foi, ao lado de Karl Barth, um crítico da teologia liberal. Num ensaio de 1924 Bultmann escreveu: “O objetivo da teologia é Deus, é a acusação contra a teologia liberal é esta: ‘ela não tratou de Deus, mas do ser humano’”.

Possuo “Jesus Cristo e mitologia”, de Bultmann. O livro é uma tentativa de salvar o cristianismo da ameaça da teologia liberal com idéias tomadas do existencialismo de Heidegger. O próprio Bultmann admite ter recebido influência da filosofia de Heidegger no livro, afinal de contas, ele afirma “a exegese descansa sempre em alguns princípios e concepções que atuam como pressuposições do trabalho exegético”.  

Uns lêem o Novo testamento a partir do dogma e, portanto, a partir da interpretação que outros fizeram no passado. Outros buscam novos caminhos na tentativa de atualizar sua mensagem. Desmerecer o trabalho de Bultmann pela falta de originalidade ou por apoiar-se na filosofia é no mínimo ridículo. Como se Paulo não tivesse buscado elementos para sua pregação na mitologia judaica (que por sua vez tem raízes na Babilônia e na pérsia), no estoicismo, no epicurismo e no platonismo.

Mas este texto não pretende ser uma defesa de Bultmann. Os que já desceram à sepultura não precisam de advogado. Além do mais, sua teologia, como qualquer outra, não está isenta de críticas.  Seria um contrassenso criticar a ortodoxia por sua rigidez e permanecer atrelado a Bultmann. Mas citá-lo como o “pai dos liberais” é desconhecer a teologia do final do século XIX e seus desdobramentos no século XX.

Para que eu não seja acusado de ser um bultmanniano enrustido, deixo duas críticas ao teólogo de Marburg:

1. Ao demitizar algumas idéias mitológicas, consideradas como pré-científicas, tais como a existência de demônios, anjos, tronos celestes e curas milagrosas, Bultmann pôs o trem da teologia num trilho de uma via só. Duas questões: até onde a demitização deve ir? A crença em um Deus misericordioso e disposto a salvar o ser humano também não deve ser demitizada?

2. Bultmann recusou-se a substituir o mito pela história como queriam os liberais. Ele desprezou a história como fundamento da fé (para ele o importante é a história que se realiza hoje, uma fé existencial) e passou a valorizar o querigma. Novas perguntas: até que ponto a história de Jesus é irrelevante para a fé? Uma fé sem concreticidade histórica subsiste?

Bultmann tocou em feridas. E elas ainda estão abertas. Desconfio que a repulsa que alguns teólogos/pastores conservadores cultivam por Bultmann não é por discordarem de suas idéias. É por medo das desconfortáveis implicações que elas trazem. Muitos estão dispostos a aceitar que não há tronos no céu. Que o inferno não fica embaixo da terra. Que Deus não solta fogo de suas narinas e nem lança raios montado em querubins. Mas poucos estão dispostos a refletir honestamente sobre os questionamentos levantados por Bultmann.

Bultmann virou sinônimo de herege. Logo ele, tão crente.


Jones F. Mendonça