quarta-feira, 24 de outubro de 2012

SALVE JORGE, SALVE DAVI!

Davi e Golias, de Vecellio Tiziano (1542-44)
O brasileiro, seja ele evangélico, católico, budista, espírita ou de outra religião qualquer, adora novela. Mas muitos evangélicos têm uma atitude particularmente curiosa em relação a elas. Os mesmos que assistem são os mesmos que criticam. Esse comportamento contraditório talvez seja o reflexo da culpa que muitos fiéis carregam por não resistirem a uma trama global (ou Universal).

Os argumentos utilizados para que os crentes não as assistam são os mais variados: “o tal personagem da novela tem três mulheres” (como se Abraão, Davi e Salomão fossem monogâmicos); “a trama é muito violenta” (como se o livro de Josué pregasse o pacifismo); “há muito sexo” (como se Cantares fosse um livro sobre a castidade); “num dos capítulos há uma cena em que dois irmãos se beijam” (como se Amnon, filho de Davi, não tivesse estuprado sua irmã, Tamar); “o nome da novela é uma saudação pagã” (como se algumas narrativas presentes na Bíblia hebraica não fossem inspiradas em mitos pagãos, particularmente babilônicos).

Este último argumento tem pipocado no Facebook em relação à nova novela das 21:30: “Salve Jorge”.  A Record decidiu retransmitir a novela  sobre o rei Davi (sim, é uma novela!) no mesmo horário da novela da Globo. Como andam dizendo que a expressão “salve Jorge” é uma saudação a Ogum, na visão de muitos crentes o horário será disputado pelas emissoras como uma batalha entre Davi e Ogum (e, portanto, de Deus contra o diabo). Santo Platão...

A trama sobre Davi vai ter tudo o que as outras novelas também têm: violência, sexo, traição, incesto, vingança, ganância, abuso do poder, etc. Ah, mas é uma novela gospel, então pode.


Jones F. Mendonça