quarta-feira, 29 de agosto de 2012

DEMITIZANDO BULTMANN

Sempre que leio uma crítica à teologia liberal o nome de Rudolf Bultmann aparece em destaque. Estranho. O teólogo da desmitologização (ou demitização) foi, ao lado de Karl Barth, um crítico da teologia liberal. Num ensaio de 1924 Bultmann escreveu: “O objetivo da teologia é Deus, é a acusação contra a teologia liberal é esta: ‘ela não tratou de Deus, mas do ser humano’”.

Possuo “Jesus Cristo e mitologia”, de Bultmann. O livro é uma tentativa de salvar o cristianismo da ameaça da teologia liberal com idéias tomadas do existencialismo de Heidegger. O próprio Bultmann admite ter recebido influência da filosofia de Heidegger no livro, afinal de contas, ele afirma “a exegese descansa sempre em alguns princípios e concepções que atuam como pressuposições do trabalho exegético”.  

Uns lêem o Novo testamento a partir do dogma e, portanto, a partir da interpretação que outros fizeram no passado. Outros buscam novos caminhos na tentativa de atualizar sua mensagem. Desmerecer o trabalho de Bultmann pela falta de originalidade ou por apoiar-se na filosofia é no mínimo ridículo. Como se Paulo não tivesse buscado elementos para sua pregação na mitologia judaica (que por sua vez tem raízes na Babilônia e na pérsia), no estoicismo, no epicurismo e no platonismo.

Mas este texto não pretende ser uma defesa de Bultmann. Os que já desceram à sepultura não precisam de advogado. Além do mais, sua teologia, como qualquer outra, não está isenta de críticas.  Seria um contrassenso criticar a ortodoxia por sua rigidez e permanecer atrelado a Bultmann. Mas citá-lo como o “pai dos liberais” é desconhecer a teologia do final do século XIX e seus desdobramentos no século XX.

Para que eu não seja acusado de ser um bultmanniano enrustido, deixo duas críticas ao teólogo de Marburg:

1. Ao demitizar algumas idéias mitológicas, consideradas como pré-científicas, tais como a existência de demônios, anjos, tronos celestes e curas milagrosas, Bultmann pôs o trem da teologia num trilho de uma via só. Duas questões: até onde a demitização deve ir? A crença em um Deus misericordioso e disposto a salvar o ser humano também não deve ser demitizada?

2. Bultmann recusou-se a substituir o mito pela história como queriam os liberais. Ele desprezou a história como fundamento da fé (para ele o importante é a história que se realiza hoje, uma fé existencial) e passou a valorizar o querigma. Novas perguntas: até que ponto a história de Jesus é irrelevante para a fé? Uma fé sem concreticidade histórica subsiste?

Bultmann tocou em feridas. E elas ainda estão abertas. Desconfio que a repulsa que alguns teólogos/pastores conservadores cultivam por Bultmann não é por discordarem de suas idéias. É por medo das desconfortáveis implicações que elas trazem. Muitos estão dispostos a aceitar que não há tronos no céu. Que o inferno não fica embaixo da terra. Que Deus não solta fogo de suas narinas e nem lança raios montado em querubins. Mas poucos estão dispostos a refletir honestamente sobre os questionamentos levantados por Bultmann.

Bultmann virou sinônimo de herege. Logo ele, tão crente.


Jones F. Mendonça