terça-feira, 21 de agosto de 2012

O MITO E A MORTE

A Ilha da Morte (1880), Arnold Böcklin
Tenho colecionado mitos mundiais que lidam com temas como a ressurreição, o juízo divino, o messianismo, a era de ouro, a origem do mal e da morte. Abaixo alguns relatos que buscam explicar a origem da morte. Começo com um mito kadiwéu registrado e preservado por Darcy Ribeiro:

Brasil
Num mito difundido entre os índios Kadiwéu, no Pantanal mato-grossense, o Criador, chamado de Go-noêno-hôdi, tinha a intenção de criar um “mundo bom, uma vida fácil para os homens e assim fez”. Mas Caracará não se agradou dessa ordem e o convenceu de que isso não estava certo, pois desse modo não poderia julgar qual a mulher trabalhadeira e a mulher preguiçosa, nem o bom caçador do mau caçador. Convencido pelo Caracará, Go-noêno-hôdi transformou aquela ordem idílica na atual. Caracará também convenceu Go-noêno-hôdi de que o homem não poderia viver para sempre, afinal não haveria no futuro espaço para tanta gente (RIBEIRO, Darcy. Os kadiweu: ensaios etnológicos sobre o saber, o azar e a beleza, 1980, p. 56.).

América do Norte
Entre os índios americanos o “Velho Homem” fez do barro uma mulher e uma criança. Após saber que viveria para sempre a mulher protestou indignada ao Criador: “Como é isso? Vamos viver sempre, não haverá fim?”. E ele respondeu: “Jamais pensei nisso. Temos que decidir. Pegarei este pedaço seco de estrume de búfalo e o jogarei no rio. Se ele flutuar, as pessoas morrerão, mas em quatro dias voltarão a viver novamente; elas morrerão apenas por quatro dias. Mas se ele afundar, haverá um fim para as pessoas”. Ele lançou o pedaço de estrume no rio e o estrume ficou boiando. A mulher pegou uma pedra e disse: “Não, não deve ser assim. Vou atirar esta pedra na água e se ela boiar, viveremos para sempre, mas se afundar, as pessoas terão que morrer para que elas possam ter pena umas das outras e umas lamentarem as outras”. A mulher atirou a pedra na água e a pedra afundou. “Muito bem!”, disse o Velho Homem: “Você escolheu! E assim será!" (CAMPBELL, Joseph. As máscaras de Deus, 1992, p. 224).

África:

Entre os lamba: “Os Lamba, da Zâmbia, afirma que o primeiro homem enviou um pedido ao Ser Supremo de algumas sementes, que foram logo entregues aos seus mensageiros em pequenos pacotes, com a instrução de que um deles não devia ser aberto. Mas os mensageiros sentiram curiosidade e abriram o dito pacote, do qual saiu a morte...” (PIAZZA, Waldomiro. Religiões da humanidade. São Paulo: Loyola, 1991, p. 64). 

Entre os kono: “Os kono, da Sierra Leona dizem que o Ser Supremo enviou peles novas para os homens e que as confiou a um cachorro. Mas quando este ia de caminho para a terra, abandonou o embrulho para tomar parte de uma festa. Explicou aos companheiros que tinha de levar peles novas aos homens, e a serpente, que tudo ouviu, saiu deslizando e roubou as peles, as quais repartiu entre os seus parentes. Desde então, as serpentes mudam de pele, são imortais, enquanto os homens tem de morrer...” (PIAZZA, Waldomiro. Religiões da humanidade. São Paulo: Loyola, 1991, p. 64).

Encontrei o final da história em outra obra:

“Desde então, o Homem guardou rancor pela serpente e ensaia, sempre, matá-la, em todas as ocasiões que a percebe. A serpente, por sua vez, evita o Homem e vive só. Justamente por ter guardado as peles, por Deus destinadas ao Homem, ela podia quando quisesse livrar-se de sua própria pele” (M. CAREY, 1970, PP. 18-19 apud MAZRUI, Ali A. (Edit.). História geral da África, VIII: África desde 1935. Brasília: UNESCO, 2010, p. 798).


Jones F. Mendonça