quarta-feira, 1 de agosto de 2012

COMO CRIAR UMA ÁSPIDE


Um policial atira na perna de um rapaz acusado de seqüestro. O povo grita: "morte ao malfeitor!". A turba enfurecida esbraveja: “Direitos humanos, para quê precisamos dele?”. Nem a lei de talião era tão cruel.

Compreendo o comportamento do policial, cansado de ver bandidos levados aos tribunais escaparem do martelo da condenação. Compreendo a aprovação do povo, indignado com a impunidade. Mas compreender não significa aprovar.

A culpa, dirão alguns, é do “Sistema” (com letra maiúscula mesmo!). O Sistema seria uma espécie de força oculta, com vida própria. Uma espécie de Satã que permeia todas as esferas da nossa vida, manipulando e corrompendo nossos belos projetos para uma sociedade perfeita. 

Admito que a sociedade se desenvolva num complexo sistema de forças. Reconheço que o policial, mal pago, mal equipado, mal formado e inserido num ambiente em que reinam a crueldade e violência sem limites, seja levado a descarregar seu ressentimento no gatilho de sua arma. É, aceito. Mas não estaríamos projetando no Sistema falhas que são nossas?

Ao dizer sim a comportamentos como este, a população estará dando ao policial o poder de julgar, condenar e em alguns casos executar indivíduos sem o direito de defesa.  Hoje o tiro atinge um bandido. Amanhã um inocente. Hoje a bala perfura a carne de um delinqüente. Amanhã o peito do seu filho.

Quando isso acontecer, a mesma mão que acariciou a áspide condenará o seu bote. E a culpa será sempre do Sistema.


Jones F. Mendonça