terça-feira, 11 de setembro de 2012

MOISÉS ESCREVEU O PENTATEUCO?

Moisés com as tábuas da Lei -
Guido Reni (1624).  Até o he-
braico nas tábuas é anacrônico. 
Desde o século XVII, com o advento da crítica bíblica, alguns eruditos perceberam que o Pentateuco não pode ter sido obra de um único autor (na verdade, tal desconfiança é bem mais antiga). Até mesmo leitores menos atentos estranham o relato da morte de Moisés, no final do Deuteronômio. Teria o patriarca escrito o relato de sua própria morte antes de ter expirado no monte Nebo na margem oriental do Jordão? Pouco crível, não acha? Mas não é só isso.

O capítulo 11 de Gênesis narra a saída de Abrão de “Ur dos Caldeus”. Há um anacronismo aí. Ur, na segunda metade do segundo milênio era, talvez, “Ur dos sumérios” e não “Ur dos caldeus”. A expressão “Ur dos caldeus” pressupõe a ascensão ao poder dos caldeus, ou seja, babilônicos, que só ocorreu no final do século VII a.C. Tal anacronismo mostra que o autor do versículo deve ser situado numa época bem mais recente que a vivida por Moisés. É claro que a presença do anacronismo não constitui prova contra a existência de Moisés ou a uma possível contribuição sua para a obra. Apenas mostra que esse conjunto de livros conheceu um processo redacional. Sempre será possível dizer (mas não provar) que um personagem chamado Moisés foi o autor de um substrato que deu origem ao atual Pentateuco.

Outro anacronismo aparece no capítulo 12 do mesmo livro. O relato diz que após chegar a Canaã Abraão edificou um altar em Siquém e que “nesse tempo os cananeus estavam na terra” (v.6). O texto é contado na perspectiva que alguém que já vivia na terra, obviamente após o assentamento do povo na região. O mesmo tipo de anacronismo ocorre no capítulo 21, ainda no livro de Gênesis: “E morou Abraão na terra dos filisteus por longo tempo”. É bem atestado que os filisteus chegaram à costa de Canaã por volta de 1200 a.C. Ora, se o patriarca viveu na metade do segundo milênio, como pode ter morado na “terra dos filisteus” se eles ainda não haviam migrado para lá? Mas uma vez a perspectiva é a de que já está na terra. Esse redator, lógico, não pode ter sido Moisés.

Além dos anacronismos há ainda outros detalhes que chamam a atenção de um leitor mais cuidadoso. No Pentateuco o nome divino aparece ora como Yahweh, ora como Yahweh Elohim. O monte no qual Moisés recebeu a lei ora aparece como Sinai, ora como Horebe. Jetro, sogro de Moisés, também ganha nomes diferentes ao longo da narrativa. Ainda mais embaraçoso é notar que um mesmo tipo de situação se repete diversas vezes: Abraão mente para o faraó a respeito da condição Sara, sua mulher, apresentada como sua irmã (Gn 12,14-17). O mesmo Abraão mente a respeito da condição de Sara, agora com Abimeleque, rei de Gerara (Gn 20,1-3). Isaque, filho de Abraão, também vai a Gerara e faz o mesmo em relação à Rebeca, sua mulher (Gn 26,1-7). Coincidência? Sim, é possível. Mas entre o possível e o provável há um grande abismo. Penso que tantos problemas requerem uma solução mais plausível.  

Um tipo de duplicação particularmente interessante ocorre em Gn 6 e 7. Acho que é o melhor exemplo que posso apresentar a fim de que o leitor perceba que a obra não pode ser atribuída a um só autor. Em Gn 6,19 Yahweh ordena que Noé coloque na arca “dois animais de cada espécie, um macho e uma fêmea”. Em 7,2, “de todos os animais puros, sete pares, o macho e sua fêmea e apenas um casal dos animais que não são puros”. Como se pode ver, o segundo relato (que conflita com o primeiro) reflete a preocupação do redator em distinguir animais puros dos impuros. Indício de uma intervenção sacerdotal? É o que parece.

Desde Julius Wellhausen os pesquisadores têm buscado apresentar hipóteses que sejam capazes de explicar como o Pentateuco foi formado. Em linhas gerais as hipóteses podem ser reduzidas a três: um escrito básico (relato que foi crescendo ao longo dos séculos por meio de reelaborações e acréscimos), fontes (documentos independentes que foram costurados em determinadas ocasiões até formarem um único bloco) e círculos narrativos (relatos orais com sua própria história de crescimento, que mais tarde ganharam a forma escrita e foram unidos por um redator final). Nenhuma dessas hipóteses é capaz de resolver satisfatoriamente todos os problemas envolvidos na formação do Pentateuco. O processo de formação desse conjunto de livros parece ter sido bem mais complexo do que imaginava Wellhausen.   

Mas a ausência de um modelo que explique satisfatoriamente como se deu a formação do Pentateuco não implica no reconhecimento da autoria mosaica (já vi muita gente fazendo isso, acredite), apenas revelam o quão difícil é reconstruir a história de composição do texto dos primeiros cinco livros da Bíblia. Para finalizar, fica como sugestão de leitura a obra: "Introdução ao Pentateuco", de Louis Jean Ska (Loyola, 2003, 304 páginas). 


Jones F. Mendonça