domingo, 20 de abril de 2014

CASTELLIO X CALVINO: TOLERÂNCIA E FANATISMO RELIGIOSO

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São bem conhecidos os embates entre Lutero e Erasmo, mas poucos conhecem os conflitos entre Calvino e Castellio, considerado o primeiro a elaborar um tratado de tolerância religiosa no período da Reforma. Sebastian Castellio foi amigo pessoal de Calvino até que passou a criticar a doutrina da predestinação e os rígidos preceitos morais de Genebra. 

Vendo como absurdo o apoio de Calvino à condenação de Serveto, escreveu em março de 1554 o tratado De haereticis na sint persequendi? (Os hereges devem ser perseguidos?). Não via razão para condenação dos hereges à morte uma vez que considerava que a Bíblia contém passagens difíceis, que constantemente deixam margens para dúvidas. Parafraseou Eclesiastes 3,2 assim: “há um tempo de dúvida e um tempo de fé; há um tempo de conhecimento e um tempo de ignorância”.

Theodore Beza, escolhido por Calvino para elaborar uma resposta, reagiu dizendo que a tolerância religiosa é impossível para aqueles que aceitam a inspiração das Escrituras. Castellio voltou à luta em Contra libellum Calvini. Mais tarde, em seu De arte dubitandi (A arte de duvidar”), antecipou-se a Descartes, colocando a dúvida como elemento fundamental na busca da verdade.

Castellio combateu o fanatismo religioso como nenhum outro de seu tempo. Sua postura lança por terra a tese que justifica os discursos de ódio de Lutero dirigidos aos judeus e a condenação de Serveto à fogueira pelo conselho de Genebra como sendo atitude normal naquele tempo. Com uma voz extraordinariamente dissonante Castellio morreu na miséria aos 48 anos (1563). Calvino, em seu conhecido fanatismo, declarou que a morte prematura de seu opositor fora o resultado de uma sentença divina...



Jones F. Mendonça