sexta-feira, 4 de abril de 2014

O NASCIMENTO DE JESUS NUMA CAVERNA: JUSTINO, PROTO-EV TIAGO E ORÍGENES

Neste semestre estou lecionando teologia patrística. Como o Blog também funciona para mim como uma espécie arquivo, irei postando aos poucos alguns textos do período patrístico que considero relevantes para a compreensão do cristianismo ortodoxo e movimentos tidos como heréticos. No post de hoje três registros que situam o nascimento de Jesus numa gruta. Todos os três documentos são do segundo século:

Justino, em “Diálogo com Trifão”:
uma vez que José não encontrou um alojamento naquela aldeia [Belém], tomou como aposento uma determinada caverna que havia por perto; e enquanto eles estavam ali Maria deu à luz ao Cristo e colocou-o numa manjedoura. E foi neste lugar que os Magos que vieram da Arábia o encontraram (Dial., 78).

Orígenes escrevendo sua defesa do cristianismo contra o cético Celso: 
No que diz respeito ao nascimento de Jesus em Belém, [...] para ter a evidência adicional de outras fontes [além dos profetas e dos Evangelhos], que ele saiba [referindo-se a Celso] que em conformidade com a narrativa do Evangelho sobre o seu nascimento, é mostrada em Belém a caverna onde ele nasceu, e a manjedoura na gruta onde ele estava envolto em cueiros. E esta visão é muito conhecida na região. Mesmo entre os inimigos da fé é dito que nesta caverna nasceu Jesus, que é adorado e venerado pelos cristãos (Contra Cels., 1,51).

Proto-evangelho de Tiago (também conhecido como “Nascimento de Maria: revelação de Tiago”): 
José descobriu uma gruta por perto e introduziu Maria. Deixou seu filho com ela, indo ele mesmo à procura de uma parteira hebréia da região de Belém [...]. Quando chegaram à gruta [José e a parteira que ele encontrou], pararam, e eis que uma nuvem luminosa a encobria. [...] De repente, a nuvem retirou-se da gruta e dentro dela brilhou uma luz [...] que começou a dissipar-se até aparecer o menino para tomar os seios de sua mãe (Protev 18.1; 19,2).

É também neste último escrito que Maria é apresentada como virgem antes, durante e depois do parto (o dogma da Imaculada Conceição só foi definido em 1854). Após a parteira anunciar que uma criança havia nascido de uma virgem, a incrédula Salomé, como Tomé, duvida e põe o dedo na “natureza” de Maria. Assim que constata o milagre Salomé tem sua mão afetada por um castigo divino que é curado assim que pega o menino nos braços (Cf. Protev., 20).

Um trecho bem curioso nesse evangelho sugere que o autor acreditava que anjos podem engravidar mulheres humanas (inspirado em Gn 6?).  Mas este é um tema para o próximo post.


Jones F. Mendonça