quarta-feira, 30 de abril de 2014

CONFLITO NA PALESTINA

Enquanto peças russas e euro-americanas dançam no tabuleiro de xadrez na Ucrânia, o líder da Autoridade Palestina (AP), Mahmoud Abbas, dá as suas cartas de forma muito racional e pragmática num conflito que já dura mais de meio século. Sua recente declaração, em três idiomas (árabe, hebraico e inglês), reconhecendo que o holocausto nazista foi o maior crime da história moderna revelou seu empenho em avançar nas negociações. Para quem não sabe (ou não se lembra), na tese de doutorado defendida em sua juventude (1984), Abbas sugeriu que o número de judeus mortos no holocausto poderia ser menor que um milhão e questionou a existência de câmaras de gás para matar judeus.  

Outro passo importante dado pelo líder palestino foi ter promovido a reconciliação entre o Hamas (Gaza) e o Fatah (Cisjordânia). O primeiro grupo, qualificado como terrorista por muitos países, deu carta branca para Abbas negociar. O Hamas ainda não declarou reconhecer o Estado judeu ou que irá abdicar do terrorismo, mas não tenho dúvidas de que o líder da AP se empenhará nessa tarefa (que provavelmente não será fácil e nem rápida).

Para quem não confia na disposição de Abbas em fazer concessões, lembro que ele aceitou a permanência de tropas israelenses no vale do Jordão por cinco anos após a criação de um Estado palestino, sendo substituída, numa transição, por forças da OTAN. Todo esse movimento de Abbas requer uma contrapartida do governo israelense sob risco de se tornar um Estado de apartheid, como declarou recentemente o secretário de Estado americano John Kerry.  

A negociação pelo processo de paz entre palestinos e israelenses tem sido marcada ora pelo enrijecimento da liderança palestina (negação do holocausto, não reconhecimento do Estado de Israel, terrorismo, etc.), ora da liderança israelense (ataques militares violentos e desproporcionais, ampliação de assentamentos judaicos, políticas de repressão, etc.). É bem difícil ser otimista na solução desse conflito, mas se todas essas barreiras foram transpostas restará aos negociadores a difícil tarefa de demarcar as fronteiras. Este talvez seja o desafio mais espinhoso.



Jones F. Mendonça