quarta-feira, 16 de junho de 2010

A ARQUEOLOGIA E O ANTIGO TESTAMENTO

Atendendo o pedido de Valéria Costa:


Reconstruir eventos que ocorreram há mais de dois mil anos nem sempre é algo fácil. No que diz respeito ao Antigo Testamento, são inúmeras as dificuldades para que sejam identificadas  cidades, elevações, poços, cursos d’água, etc. A tentativa de encontrar a verdadeira localização do Mar Vermelho, por exemplo, enfrenta inúmeros problemas.

O primeiro deles é que o Antigo Testamento não cita Mar Vermelho, mas Mar dos Juncos (do hebraico yam suf). Quando a Bíblia foi traduzida para o grego, alguns séculos antes de Cristo, os tradutores entenderam que o tal Mar dos Juncos era o Mar Vermelho, por isso essa tradução se tornou corrente em nossas Bíblias.

Mas afinal, onde foi o local da travessia? Um arqueólogo adventista amador chamado Ronald Wyatt apresentou o que supôs serem provas da localização exata da travessia, mas não ele possui qualquer credibilidade entre os arqueólogos profissionais. As provas que ele alegou possuir jamais foram confirmadas por especialistas sérios. Recentemente (26-04-10) um grupo de amadores, como Wyatt, alegou ter descoberto a arca de Noé no Ararat. O assunto foi amplamente divulgado na mídia (apresentaram até fotos da suposta arca), mas até momento nenhuma prova foi apresentada (Clique aqui para ler o artigo que publiquei no Numinosum).

Fica a dúvida, o Mar dos Juncos é uma referência aos lagos amargos (na extremidade do Golfo de Suez, no Mar Vermelho) ou ao Golfo de Aqaba? A grande verdade é que até hoje ninguém conseguiu provar onde se deu a travessia. Um livro equilibrado e honesto sobre o assunto é “A história de Israel” de John Bright.

Outro problema é a localização do Monte Sinai. Ele é tradicionalmente situado na Península do Sinai, no Egito, mas há quem proponha a região de Mídiã, na margem oriental do Golfo de Áqaba. Recentemente um arqueólogo israelense tentou provar que na verdade o Sinai (ou Horebe) fica no deserto do Neguev, em Israel. Na minha opinião tudo não passa de uma tentativa de atrair os turistas do Egito para Israel (Clique aqui para ler o artigo publicado no Numinosum).

Situe-se geograficamente observando o mapa abaixo:
Há ainda um terceiro problema envolvendo os israelitas do Êxodo. A Bíblia fala de seiscentas mil pessoas saindo do Egito, sem contar as crianças (Ex 12,37). Por causa disso muitos supõem que o número de israelitas chegava a três milhões de pessoas. Acontece que o tempo de estadia dos israelitas no Egito não foi suficiente para que chegasse a um número tão alto. É bem provável que aqui também tenha ocorrido um erro de tradução. A palavra hebraica elef, traduzida por mil ou milhares, também pode ser traduzida por clã ou agrupamento de uma tribo. A tradução ficaria assim: “Assim viajaram os filhos de Israel de Ramessés a Sucote, cerca de seiscentos clãs de homens à pé, sem contar as crianças”. Assim, o número de pessoas seria bem menor. Isso explicaria a ausência de vestígios arqueológicos no itinerário percorrido pelos hebreus. Caso o número de pessoas fosse tão grande (cerca de três milhões) certamente teriam deixado marcas pelo caminho.

Apesar de não haver provas concretas a respeito da travessia do Mar Vermelho (ou dos juncos), a arqueologia pode nos ajudar em outros casos.

A invasão de Israel pelos assírios foi muito bem documentada nos anais de Sargão, soberano assírio. O documento fala da deportação de 27.290 samaritanos (ver 2 Rs 15,29).

A Estela de Merneptáh, documento egípcio do século XIII a.C. cita a cidade de Israel. É o documento mais antigo que fala da existência de um povo conhecido como Israel. A estela encontra-se atualmente no Museu do Cairo.

Em 1993 os arqueólogos encontraram num sítio conhecido como Tel-Dan, um monumento de basalto negro (ficou conhecido como Estela de Tel-Dan), que cita a existência de uma “Casa de Davi”, ou seja, de uma dinastia cujo fundador levava esse nome. 

Outro achado arqueológico importante é a Pedra Moabita, que registra a conquista de Moabe por Omri, rei de Israel (Reino do Norte). Atualmente a pedra encontra-se em exposição no museu do Louvre, em Paris.

O cilindro de Ciro, um artefato cilíndrico, registra a autorização deste soberano para que os povos exilados na Babilônia retornem para suas terras (ver Esd 1,2-3). O artefato está atualmente no Museu Britânico, em Londres.

Por fim, foi descoberto em 1880 o túnel de Siloé, que ficou conhecido como Túnel de Ezequias (ver 2 Rs 20,2; 2 Cr 32,2-4). Nele foi encontrada uma inscrição em hebraico que descreve a construção do túnel.

Você encontrará informações confiáveis sobre arqueologia bíblica nos seguintes sites:





Todos os sites são em inglês, mas caso você não domine o idioma, use o tradutor do google.