quarta-feira, 30 de junho de 2010

EM BUSCA DE UTOPIAS: DOS HEBREUS AOS RACIONALISTAS DO SÉCULO XIX

Por Jones Mendonça

A idéia de um mundo utópico, onde não há dor, pranto ou fome, foi tematizada de forma poética pelo profetismo israelita:
“A criança de peito brincará sobre a toca da áspide, e a desmamada meterá a sua mão na cova do basilisco” (Is 11,8).
A figura do “bom selvagem”, homem e mulher sem mácula vivendo numa sociedade perfeita, foi idealizada pelo rousseaunismo[1] e mais tarde pelos romantistas. Tal concepção já se fazia notar de forma embrionária na época das grandes navegações, quando os europeus tiveram contato com os indígenas.  François Laplantine destaca três episódios:

Américo Vespúcio na América:
“As pessoas estão nuas, são bonitas, de pele escura, de corpo elegante... Nenhum possui qualquer coisa que seja, pois tudo é colocado em comum. E os homens tomam por mulheres aquelas que lhes agradam, sejam elas sua mãe, sua irmã, ou sua amiga, entre as quais eles não fazem diferença... Eles vivem cinqüenta anos. E não tem governo”[2].
Cristóvão Colombo no Caribe:
Eles são muito mansos e ignorantes do que é o mal, eles não sabem se matar uns aos outros (...) Eu não penso que haja no mundo homens melhores, como também não há terra melhor”[3].
Os Jesuítas entre os Hurons, tribo nativa dos EUA e Canadá:
“Eles são afáveis, liberais, moderados... Todos os nossos padres que freqüentaram os Selvagens consideram que a vida se passa mais docemente entre eles do que entre nós”[4].
No Brasil, a utopia do reino milenar era cultivada entre os Tupinanbás:
“[a] Terra sem Mal, núcleo da mitologia tupi-guarani [...] exprimia a expectativa do encontro de um lugar de extrema abundância, felicidade e eterna juventude, morada dos ancestrais e dos espíritos corajosos, onde todos viveriam a redenção das provações e se tornariam homens deuses”[5].
Mas ao contrário do que prega a religião cristã, o paraíso dos índios parecia ser aqui mesmo neste mundo infra-celeste. Moreau vê evidências de que: “a Terra sem Mal se situava num espaço real, que podia ser atingido em vida”[6].

No século XIX muitos imaginavam poder descrever todo o universo como se descreve um relógio de corda. Tendo a razão como guia, pensavam os otimistas racionalistas, levaremos todos os homens à liberdade, igualdade e fraternidade. Secularizaram a utopia judaico-cristã!

Nietzsche, geralmente lembrado apenas como crítico da religião, debochou do cientificismo moderno. Para ele, o idealismo, fosse ele religioso ou científico, era um indício da decadência. Suas idéias deixaram a humanidade sem horizonte... sem utopias.

Leonardo Boff, teólogo católico brasileiro perseguido pelo Vaticano por pregar uma Igreja menos hierárquica e voltada para os pobres, vê grande valor nas utopias:
“A utopia deslanchará sempre energias novas para transformações que se acercam dela e, ao mesmo tempo, permitem que se relativize toda conquista para que a história não se congele reacionariamente, mas se mantenha aberta a novos avanços e outras aproximações da utopia”[7].
Confesso que tenho cá minhas utopias. Mas não permito que se dogmatizem. Enfim, acho útil e desejável que o homem, individualmente ou coletivamente, seja capaz de “in-ventar”, des-inventar” e “re-inventar” suas  próprias utopias.

Notas:
[1] Movimento baseado nas idéias de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Sua ênfase no naturalismo levou Voltaire a dizer: “ler sua obra me faz querer andar de quatro patas”. Notas ao discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, in Escritos de combate, páginas 636 (ed. Francesa, pág. 1379) apud COBO, Rosa. Fundamentos del patriarcado moderno: Jean Jacques Rousseau. Madrid:  Ediciones Cátedra, 1995, p.50.
[2] LAPLANTINE, François. Aprender antropologia. Tradução de Marie-Agnès Chauvel. São Paulo: Brasiliense, 2003, p.32.
[3] Id. ibid.
[4] Id. ibid. p.33.
[5]HERMANN, Jacqueline. 1580-1600: o sonho da salvação. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 78.
[6] MOREAU, Felipe Eduardo. Os índios nas cartas de Nóbrega e Anchieta. São Paulo: Annablume, 2003, p. 136.
[7] BOFF, Leonardo; BETO, Frei. Mística e espiritualidade. Rio de Janeiro: Garamond, 2005, p. 50.