sexta-feira, 25 de junho de 2010

NIETZSCHE, HITLER, MUSSOLINI E A MORAL CRISTÃ

Por Jones Mendonça

Nietzsche (1844-1900) denunciou que os valores não sem nem eternos, nem universais, nem transcendentes, nem metafísicos, mas meras criações humanas. Com isso pôs em xeque qualquer tipo de crença em fundamentos absolutos, tais como os presentes na religião e no positivismo científico. Considerado por muitos como uma das personalidades mais influentes do pensamento do século XX, a obra de Nietzsche tem provocado reações diversas. Para Claude Stainer, “o mais radical formulador da crise do racionalismo moderno”[1]. Na visão do teólogo e filósofo Paul Tillich “um dos mais importantes precursores da coragem existencialista de ser como si próprio”[2]. Ainda que seja possível colher muitas opiniões positivas a respeito do pensamento de Nietzsche, suas obras foram alvo de intensas críticas. Como escrevia de forma fragmentada, por aforismos, compreender suas idéias nem sempre foi algo fácil. A multiplicidade de interpretações que seus textos sofreram demonstram esse fato. Somando-se a isso sua crítica ferrenha ao cristianismo, muitas vozes se levantaram contra suas idéias.

O filósofo italiano Franco Volpi, falando sobre a repercussão que as obras de Nietzsche tiveram na Europa, nos diz que “durante o conflito de 1914-1918, em uma livraria de Piccadilly, estavam expostos na vitrine os 18 volumes das suas obras completas em inglês, com uma inscrição em letras enormes: ‘The Euro-Nietzschean-War; leiam o diabo para poder combatê-lo melhor!’”[3]. Quatorze anos após a sua morte ele já era pintado como um demônio.

De um modo não muito diferente do livreiro de Volpi agiu o ex-ateu e apologista cristão G. K. Chesterton no seu livro “Ortodoxia”, fruto de seu embate com o editor de um periódico socialista chamado Robert Blatchford: “O amolecimento do cérebro que no fim o atingiu [referindo-se à loucura de Nietzsche] não foi um acidente físico. Se Nietzsche não houvesse acabado na imbecilidade, o nietzscheanismo o teria feito”[4]. Neste livro, escrito em 1908, Nietzsche é apresentado como um embecil.

Há ainda os que buscaram ver na obra de Nietzsche o prenúncio filosófico do nazismo de Hitler e do fascismo de Mussolini[5]. Isso é o que pensa, por exemplo, Giovanni Martinetti: “Hoje todo mundo reconhece no nazismo, claramente inspirado por Nietzsche, a vergonha do século XX”[6]. Essa interpretação equivocada (e injustificável nos dias atuais) foi provocada Elisabeth Förster-Nietzsche, irmã do filósofo alemão, que manipulou seus escritos em benefício dos ideais da direita nacionalista alemã[7]. Elisabeth chegou a presentear Hitler com a bengala de Nietzsche [8] quando este visitou Weimar em 1932. Hitler, por sua vez, presenteou Mussolini com uma coleção de obras de Nietzsche em 1938 [9]. O filósofo, que não era nem nacionalista e nem racista acabou tendo seu nome associado ao nazi-fascismo.

Só a partir da década de 30, pensadores como Georges Bataille e Pierre Klossovski deram início ao trabalho de denúncia da falsificação de suas obras [10]. Nos anos 50, com Walter Kaufmann, seu pensamento finalmente recebeu o merecido destaque. Para Michael Tanner, “’Nietzsche’ é a figura em cujo nome pessoas das mais discrepantes e variadas visões procuraram justificação para elas”[11]. Demônio, imbecil, nazista, fascista, assassino de Deus e até mesmo anarquista são apenas alguns dos adjetivos emprestados ao filósofo alemão. Em certas ocasiões por ignorância, em outras por puro receio que os velhos odres da sociedade fossem rompidos pela agudez de suas palavras.

Apesar dos muitos pontos de vista antagônicos a respeito da filosofia nietzschiana, há algo que é unanimidade entre os estudiosos do seu pensamento: sua crítica ferrenha à moralidade cristã. Para Nietzsche, a criação de valores absolutos por filósofos como Sócrates e Platão foi popularizada mais tarde pelo cristianismo paulino (nascido a parir da pregação do apóstolo Paulo), subtraindo do homem seu instinto de criatividade. Para Nietzsche o cristianismo havia morrido na cruz, juntamente com o nazareno. O cristianismo nascido a partir dos seus discípulos, pregava, assim como a filosofia socrática e platônica, a existência de um mundo ideal, perfeito, verdadeiro, só acessível após a morte. Isso teria gerado o ascetismo, a negação da vida em detrimento de uma vida no além. Viver em função desse mundo "invisível" era o que Nietzsche chamava de niilismo, o desejo pelo nada. Mas esse estado de prostração seria notado não apenas no contexto ético religioso, mas também na arte, na política, na educação na ciência e na filosofia.

Nietzsche se debruçou sobre esse problema e iniciou uma busca pelos culpados pela morte do homem. Nessa investigação minuciosa da constituição dos valores que levaram o homem a renunciar a vida terrena, ele acabou por decretar a morte de Deus, ou seja, dos valores absolutos, do além, da metafísica. Para o professor da Universidade de Turim, Gianni Vattimo “A morte de Deus significa para Nietzsche que não há fundamento definitivo, e nada mais”[12].

Ao criticar a moral cristã Nietzsche não estava pregando a total ausência de regras ou valores. O que ele questionou foi a existência de regras e valores absolutos. Ao perceber o equívoco cometido por alguns de seus leitores, Nietzsche disse que essas pessoas estavam confundindo imoralismo com imoralidade [13]. Para Nietzsche os valores devem estar a serviço do homem e não o contrário. Neste ponto o filósofo alemão parece concordar com Jesus, que após ser repreendido por colher espigas num sábado, dia sagrado para os judeus, disse: “o sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado” (Mc 2,27).

Notas:
[1] REIS, José Carlos. História & teoria: historicismo, modernidade, temporalidade e verdade. p. 42.
[2] TILLICH, Paul. A Coragem de Ser. p. 91.
[3] VOLPI, Franco. Filosofia: tutta colpa di nietzsche? La Repubblica. p. 46.
[4] CHESTERTON. G. K. Ortodoxia. p. 71.
[5] GIACÓIA, Oswaldo. Nietzsche. p. 71, 72.
[6] MARTINETTI, Giovanni. Razões para crer. p. 87.
[7] DELACAMPAGNE, Christian. História da filosofia no século XX. p.156.
[8] SLAVUTZKY, Abrão; DINES, Alberto. O dever da memória: o levante do gueto de Varsóvia. p. 140.
[9] BRYAM, Magee. História da Filosofia. p. 177.
[10] GIACÓIA, Oswaldo. loc. cit. p. 73.
[11] TANNER, Michael. Nietzsche, mestre do pensar. p. 11.
[12] VATTIMO, Gianni. Depois da cristandade. p. 9.
[13] NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra, prólogo, III apud SUFFRIN, Pierre Héber.  “Zaratustra” de Nietzsche. p. 36.