terça-feira, 20 de abril de 2010

ENTREVISTA COM ISRAEL FINKELSTEIN

O arqueólogo israelense Israel Finkelstein, professor de Arqueologia de Israel na Idade do Bronze e Idade do Ferro na Universidade de Tel Aviv, concedeu uma entrevista à Biblical Archaeology Review (mai/jun 2010). O título original da matéria é: The Devil Is Not So Black as He Is Painted. A reprodução da entrevista é parcial. A tradução foi feita pelo Numinosum.

Na entrevista, o editor Hershel Shanks, lhe pergunta sobre a historicidade do Êxodo (citando a Estela de Merneptah como evidência arqueológica da presença israelita na Palestina):
“A Estela Merneptah é realmente uma prova de que houve um grupo de pessoas chamado Israel no final do século 13 a.C. Não há como discutir sobre isso. [...] mas o que dizer sobre o Êxodo? Ou a ascensão de Israel em Canaã? Ou o tamanho e a localização desse grupo de pessoas?”.
Sobre o processo de formação do Antigo Testamento, Finkelstein explica que:
“...este é um processo longo. A arqueologia é estratificada e a história também é estratificada [...] No fundo, houve um movimento de pessoas dentro e fora do Egito no final da Idade do Bronze e da Idade do Ferro, e uma memória foi desenvolvida sobre um possível evento antigo, e depois essa memória ganhou importância e foi transmitida oralmente por várias gerações até que finalmente se tornou a história do Êxodo por escrito. Não estou dizendo que não há qualquer germe histórico nela. Você nunca vai me ver dizer isso. Mas eu não vejo isso como totalmente histórico também”.
Ele continua:
“Não há nenhuma evidência de um movimento de grandes grupos de pessoas. Não há possibilidade, no fundo da dominação egípcia de Canaã no século 13 a.C., de pessoas marchando para a terra, e assim por diante. A maioria dos israelitas vieram dos cananeus locais do segundo milênio a.C. Por um lado a história do Êxodo na Bíblia retrata realidades eternas, e por outro as realidades específicas da Idade do Ferro. É possível que haja algum tipo de memória por trás da história. Pronto, esta é a minha resposta”.
A falta de evidências arqueológicas que comprovem a permanência de um grande grupo de pessoas em Cades-Barnéia, por exemplo, é destacada pelo arqueólogo:
“Por exemplo, Etzion Geber, Cades-Barnéia, lugares que são mencionadas especificamente, que são fundamentais para a história da peregrinação no deserto e que não foram habitadas no Bronze Tardio”. 
Já no final da entrevista, Hershel Shanks lhe pergunta sobre as escavações de Eilat Mazar, que parecem ter desenterrado o palácio do rei Davi, construído no século X a.C.:
"Eu acho que suas escavações são importantes. Eles nos fornecem informações importantes sobre Jerusalém na Idade do Ferro. Mas não vejo qualquer ligação entre as escavações e o palácio do rei Davi. Eilat Mazar lê o texto bíblico literalmente. A Bíblia diz que Davi "desceu", e David "subiu", e David foi "para a esquerda", e David foi "para direita" e assim por diante. Eu não acho que se deva fazer isso. Há muitas camadas no texto bíblico. Não é um guia para a topografia de Jerusalém. Em minha opinião, ter a Bíblia como um guia para a topografia de Jerusalém no século X a.C. diminui o texto da Bíblia. Este é o tipo de arqueologia bíblica que não pode mais ser feito".