sexta-feira, 30 de abril de 2010

A EXEGESE CRISTÃ NA PATRÍSTICA E NA IDADE MÉDIA

Muitos dos primeiros cristãos, fortemente influenciados pela cultura grega, continuaram a alegorizar o texto bíblico como faziam os rabinos. Dentre os que se destacaram no método alegórico estão Orígenes (185-254), Clemente (150-250), Dionísio Magno (†264) Atanásio (296-373), Dídimo, o cego (313-398), Gregório de Nissa (330-395), Basílio (330-379), Cirilo de   Alexandria (†444) e Gregório Magno (540-604)[1].

Um exemplo clássico de interpretação alegórica é o livro de Cantares. Inicialmente o livro era interpretado de forma literal ou histórica, descrevendo a relação entre Salomão e Sulamita como um amor recíproco entre uma jovem e um jovem. Mas a partir da segunda metade do século I a interpretação alegórica passou a dominar a exegese judaica. Na literatura rabínica o esposo foi identificado com Yahweh e a esposa com Israel. Mais tarde a tradição cristã os identificou como sendo Cristo e a Igreja[2], interpretação que vigora até hoje na maior parte das igrejas evangélicas.

O suicídio de Saul (que causava escândalo aos mais piedosos) logo passou a ser interpretado como prefigurando Jesus, que parte voluntariamente para a morte a fim de nos salvar[3]. Essa interpretação segue a orientação de Agostinho: “O que quer que apareça na Palavra divina que não diz respeito ao comportamento virtuoso ou à verdade da fé deve ser tomado como figurativo”[4]. Com esse recurso a dificuldade em explicar o suicídio de um rei de Israel foi facilmente solucionada. Na segunda formulação do capítulo 10 da Epístola de Barnabé, livro apócrifo do início do segundo século, a alegoria é empregada para explicar as estranhas proibições de Lv 11,6 e  Dt 14,7:

“Também ‘não comerás a lebre’. Por que razão? Isso quer dizer: não serás pederasta, nem imitarás aqueles que são assim. Porque a lebre, a cada ano, multiplica seu ânus. Ela tem tantos orifícios quanto o número de seus anos”.
 Como podemos ver, as explicações eram bem criativas. É até difícil imaginar de onde o autor desta epístola buscou inspiração para formular essa interpretação.

Uma das características do método alegórico cristão era ver referências a Cristo em qualquer que fosse o texto do Antigo Testamento.  Um exemplo é a interpretação dada por Clemente de Alexandria ao cordão vermelho colocado por Raabe numa janela (Js 2,18). Por mais estranho que nos possa parecer, ele viu nesse ato uma profecia da redenção pela morte de Cristo[5]. Para ele, assim como o cordão de Raabe proporcionou o livramento da família da prostituta, o sangue de Cristo nos libertou do pecado.

Na Idade Média o método alegórico também fez escola. Para os exegetas medievais o texto bíblico possuía, além do sentido literal, mais três sentidos[6]:

Alegórico ou dogmático - Pergunta pela verdade de fé sobre Cristo.

Moral ou ético - Instrução de comportamento do cristão.

Anagógico ou escatológico – Busca indícios trazidos pelo texto para a comunhão dos perfeitos nos Reino de Deus.

A crença na existência desses quatro sentidos pode ser resumida no adágio: “Littera egsta docet, quid credas allegoria; moralis quid agas; quid speres anagogia” (A letra ensina o que aconteceu; a alegoria, o que deve crer;  o sentido moral da Escritura, o que deves fazer; o sentido anagógico da escritura, que esperança deves ter).

O método alegórico dominou a exegese cristã por mais de um milênio até que foi suprimido por Lutero, que preferia uma interpretação mais literal e simples. Na opinião de Jacques Liébaert, o método alegórico transforma a Bíblia numa “floresta de símbolos”[7].

Referências bibliográficas:
FITZMYER, Joseph. A Bíblia na igreja. São Paulo: Loyola, 1997.
O’COLLINS, Gerald. Problemas e perspectivas de teologia fundamental. São Paulo: Loyola, 1993.
KERMODE, Frank; ALTER, Robert Edmond. Guia literário da Bíblia. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997.
BULTMANN, Rudolf. Crer e compreender: ensaios selecionados. Tradução de Walter Altmann e Hélio Schneider. São Leopoldo: Sinodal, 2001.
GILBERT, Paul P. Introdução à teologia medieval. São Paulo: Loyola, 1999.
LIÉBAERT, Jacques. Os padres da Igreja, séc. I-IV. São Paulo: Loyola, 2000.


Notas:
[1] FITZMYER, Joseph. A Bíblia na igreja. 1997, p.91.
[2] É preciso destacar que alguns exegetas dos primeiros séculos se recusavam a empregar o método alegórico indiscriminadamente. Teodoro de Mopsuéstia (†428), considerado o maior comentarista bíblico da Igreja antiga, se recusou a interpretar o livro de Cantares alegoricamente. Cf. MATOS, Alderi Souza de. Fundamentos da teologia histórica, 2008, p. 71.
[3] O’ COLLINS, Gerald. Problemas e perspectivas de teologia fundamental. 1993, p.49.
[4] KERMODE, Frank; ALTER, Robert Edmond. Guia literário da Bíblia. 1997, p.687.
[5] 1 Clemente 17,7 apud BULTMANN, Rudolf. Crer e compreender: ensaios selecionados. 2001 , p. 268.
[6] GILBERT, Paul P. Introdução à teologia medieval. 1999, p. 40.
[7] LIÉBAERT, Jacques. Os padres da Igreja, séc. I-IV. 2000, p. 101.
Imagem:
Saul Atacando Davi (detalhe)
1646
Óleo sobre tela, 147 x 220 cm

Galleria Nazionale d'Arte Antica, Roma