quinta-feira, 30 de maio de 2013

O PALÁCIO ASSOMBRADO [ALLAN POE]

Em “A queda da casa de Usher”, Allan Poe expõe com muita maestria todo o seu talento para escrever histórias extraordinárias. Há no meio do conto um poema. Não é um texto que eu aconselharia a alguém em estado depressivo.  O livro, com uma coleção de contos, foi um presente de minha tia Lucia ao meu irmão mais velho (agosto de 1984). Hoje ele mora em outra cidade e o livro permanece em minha estante. Eis o poema:

O PALÁCIO ASSOMBRADO

I

No mais verde de nossos vales,
habitado por anjos bons,
antigamente um belo e imponente palácio
- uma palácio radiante – se erguia.
Nos domínios do rei Pensamento,
lá se achava ele!
Jamais serafim espalmou a asa
sobre um edifício só metade tão belo.

II

Estandartes amarelos, gloriosos, dourados,
sobre o seu telhado ondulavam, flutuavam.
(Isso, tudo isso, aconteceu há muito,
muitíssimo tempo.)
E em casa brisa suave que soprava,
naqueles doces dias,
ao longo dos muros pálidos e empenachados,
se elevava um aroma alado.

III

Caminhantes que passavam por esse vale feliz
viam, através de duas janelas iluminadas,
espíritos que se moviam musicalmente
ao som de um alaúde bem afinado,
em torno de um trono onde, sentado,
(Porfirogênito!)
com majestade digna de sua glória,
aparecia o senhor do reino.

IV

E toda refulgente de pérolas e rubis,
era a linda porta do palácio,
através da qual passava, passava e passava,
a refulgir sem cessar,
uma turba de ecos cuja grata missão
era apenas cantar,
com vozes de inexcedível beleza,
o talento e o saber de seu rei.

V

Mas seres maus, trajados de luto,
assaltaram o alto trono do monarca;
(ah, lamentemo-nos, visto nunca mais a alvorada
despontará sobre ele, o desolado!)
e, em torno de sua mansão, a glória,
que, rubra, florescia,
não passa, agora, de uma história quase esquecida
dos velhos tempos já sepultados.

VI

E agora os caminhantes, nesse vale,
através das janelas de luz avermelhadas, vêem
grandes vultos que se movem fantasticamente
ao som de desafinada melodia;
enquanto isso, qual rio rápido e medonho,
através da porta descorada,
odiosa turba se precipita sem cessar,
rindo – mas sem sorrir jamais.