quarta-feira, 1 de maio de 2013

TEOLOGIA EM BOLHAS DE SABÃO

Bolhas de sabão, de Jean Baptiste
 Simeon Chardin (1733-34)
Calvino, teólogo francês dotado de uma incrível mente sistemática, defendia que todos os acontecimentos foram pré-ordenadas por Deus: a criação do mundo, o aparente caos da bolsa de valores de Nova York, a forma exuberante dos lírios, os espinhos dos ouriços, a gota de orvalho que cai de uma folha qualquer, a lâmina de sangue, a boca que morde, a mão que afaga. Linhas invisíveis escrevendo com muito arrojo e precisão o destino da humanidade.

Para o teólogo de Genebra, Adão pecou porque Deus quis que ele pecasse. Todavia, enfatiza o filho de Noyon, os descendentes de Adão e Eva foram entregues à danação eterna por seus próprios atos (uma antinomia). Decretum quidem terribile, ele mesmo confessa.  Para solucionar o problema que o próprio Deus criou, decidiu enviar num ato de “amor” seu próprio Filho para morrer por aqueles que de antemão decidiu condenar e depois salvar (amor está entre aspas porque para Calvino Deus não possui emoções). Antropopatismo, mero sentimento humano projetado no divino.

Na teologia de Calvino o primeiro Adão pecou porque tinha que pecar. O “segundo Adão”, Jesus, morreu porque tinha que sofrer. O mundo é uma espécie de trem criado por Deus com destino ao abismo. Os passageiros entraram no trem porque Deus quis que entrassem. Ainda assim são responsabilizados pela catástrofe que se aproxima. Alguns se esforçam por sair do féretro sob trilhos. Ajudam os mais fragilizados, consolam os desesperados, tentam, em vão, encontrar um freio. Mas o misterioso critério empregado por Deus para livrar os (poucos) eleitos da morte certa pode ser qualquer um, exceto o esforço individual. Decretum quidem terribile!

E assim vão sendo construídas as teologias sistemáticas. Mãos que tecem, com fios de névoa, sonhos surreais pintados em bolhas de sabão.  


Jones F. Mendonça