sexta-feira, 17 de maio de 2013

HERMENÊUTICAS

Durante toda a Idade Média só a Igreja tinha autoridade para interpretar a Bíblia. Quem discordasse dela geralmente recebia algum tipo de pena (podia ser lançado num caldeirão de azeite fervendo, por exemplo). O método de interpretação predileto era a alegoria (o texto era visto como tendo múltiplos sentidos). A Vulgata, Bíblia em latim produzida por Jerônimo no século IV, era considerado o texto oficial. Os livros de Macabeus, Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e as adições ao livros de Ester e Daniel eram lidos como se canônicos fossem.  E assim foi.

Lutero, influenciado por humanistas como Lourenzo Valla, Erasmo de Roterdã e alguns padres e eruditos judeus, começou a dizer que a Bíblia interpreta a si mesma e que o sentido literal, e não a alegoria, é o melhor método para extrair da Bíblia sua mensagem. Tomou decisões corajosas: Abandonou a Vulgata e incentivou a leitura da Bíblia a partir de textos nas línguas originais. Por fim defendeu uma coisa chamada “cânon dentro do cânon”. Pôs a igreja e o mundo de ponta à cabeça.

A falta de uma autoridade suprema que pudesse dar a palavra final em questões de interpretação bíblica gerou insegurança e discórdias sem fim. Seu “sacra scriptura sui ipsius interpres” deu ao indivíduo autonomia para interpretar, auxiliado pela luz do Espírito, as sagradas letras do livro divino. Mas a luz tinha cores e intensidades diferentes. Foi uma confusão só. O abandono da Vulgada e o crescente interesse pelos textos nas línguas originais (que chegavam aos montes vindos do decadente império Bizantino), gerou mais insegurança, afinal, os manuscritos não eram iguais. A imprensa, surgida na segunda metade do século XV e aperfeiçoada a cada dia, ajudou a espalhar as novidades anunciadas pelo “herege” padre agostiniano.

Depois apareceu Descartes achando que tudo tinha que ser submetido ao crivo da razão. Então vieram Spinosa, Richard Simon, Lessing, Reimarus, Schleiermacher...   Lutero questionou a autoridade da Igreja. Esses caras começaram a criticar o próprio texto sagrado. O ex-padre alemão lançou um caroço de feijão numa montanha recoberta de neve. Nos séculos que se seguiram a pequena semente foi crescendo enquanto rolava ladeira abaixo. Barth e Bultmann, no início do século XX, até que tentaram reduzir os efeitos destruidores dessa enorme e implacável bola de neve. Os liberais não gostaram. “São neo-ortodoxos”, disseram. Os fundamentalistas também reagiram: “são liberais enrustidos”, arremataram. No decorrer do século XX surgiram novas propostas de interpretação: estruturalismo, análise semiótica, análise narrativa, etc.

Século XXI. O que o futuro nos reserva?


Jones F. Mendonça