segunda-feira, 26 de outubro de 2009

OS MÍSTICOS MEDIEVAIS E SUA LINGUAGEM SEXUAL

Por Jones Mendonça

Não há dúvida do valor que tiveram os místicos medievais. Até Lutero foi influenciado por eles. A linguagem sexual era muito empregada pelos místicos para descrever o relacionamento entre o fiel e Deus. Teresa de Ávila foi uma dessas. Leia o texto abaixo e perceba nas entrelinhas a forte conotação sexual de sua visão:

Via um anjo ao pé de mim, ao lado esquerdo, em forma corporal [...] Não era grande, antes pequeno, muito belo, e o rosto tão incendido, que parecia ser dos anjos mais elevados – desses que parecem abrasar-se todos [...] Vi-lhe nas mãos um grande dardo de ouro, e na ponta da arma pareceu-me ver um pouco de fogo. E parecia que mo enfiava pelo coração algumas vezes e me chegava até as entranhas. Ao tirá-lo, cuidava eu que as levava consigo e me deixava toda abrasada num grande amor de Deus. A dor era tão forte que me fazia soltar gemidos; e tão excessiva a suavidade que me deixava aquela dor infinita, que não se podia desejar que me deixasse nem se contenta a alma com menos do que Deus. Não é dor corporal, mas espiritual, embora o corpo não deixe de ter participação e grande. É um trato de amor tão suave que passa entre Deus e a alma que, suplico eu à sua bondade, faça-o gozar a quem pensar que estou mentindo”[1].

Recentemente, com o chamado “louvor extravagante” a linguagem sexual dos místicos voltou a todo vapor. Como no passado o livro de Cantares tem sido a fonte de inspiração da grande maioria dos cânticos que seguem essa linha. Mas será que este livro fala mesmo do amor de Cristo pela igreja ou de um homem por uma mulher? Estou mais inclinado à segunda opção...


Nota:
[1] LEÓN, Luiz (Edit). Vida de Santa Teresa de Jesus escrita por ela mesma. Tradução de Rachel de Queiroz. São Paulo: Loyola, 1998, p. 171.


Figura:
Êxtase de Teresa d’Ávila, escultura de Bernini (1645 a 1652). Encontra-se na capela Cornaro, Igreja de Santa Maria Vitória, Roma. Teresa d’Ávila foi uma mística cristã do século XVI, autora da frase: “toda a miséria do presente é suportável pela esperança do beijo divino”.