terça-feira, 6 de outubro de 2009

HEBRAICO UMA LÍNGUA MUITO DIFERENTE


É muito comum, ao iniciarmos a leitura do Antigo Testamento, sentirmos estranheza diante de algumas passagens. Isso ocorre porque os judeus usavam uma linguagem muito concreta, quase sem termos abstratos


P
or exemplo, para um hebreu, a expressão “lançar a sandália” significava
exercer domínio ou tomar posse de algo (p. ex. Sl 108,9). Mesmo nos dias de hoje ainda usamos linguagem semelhante. Se alguém nos diz que “está na fossa”, “foi para o brejo”, “foi para o buraco”, entendemos logo o que quer dizer e não perguntamos qual a fundura do buraco nem onde é o brejo. Podemos citar ainda como exemplo uma frase dita por Salomão em 1 Rs 3,7: “Sou pequenino e jovem, não sei sair nem entrar”. Na língua hebraica “sair e entrar”, tendo ambos os verbos o mesmo sujeito, servia para exprimir toda a atividade de um indivíduo. Com essas palavras Salomão queria dizer que se achava incapaz para o trono. Há inúmeras expressões hebraicas difíceis de entender caso desprezemos o contexto ou a maneira como os hebreus empregavam as palavras.

A expressão “sentir-se feliz, alegre” podia ser substituída pelos dizeres “ter a alma saciada de gordura”, visto ser a gordura sinal de suficiência ou plenitude, ainda hoje o alimento predileto dos árabes da Palestina:
“Minha alma será saciada como que de alimento gorduroso, e de meus lábios alegres prorromperá o teu louvor”. (Sl 63,5; cf. Sl 36,8).
Quando alguém se julgava “em perigo de vida”, dizia concretamente que “trazia a sua alma nas mãos”, já que “ter nas mãos” é a atitude que imediatamente precede a entrega:
“Minha alma está sempre emminhas mãos, mas não esqueço a tua lei”. (Sl 119,109) Cf. Jz 12,3; 1Sm 19,5; Jó 13, 14; Est 14,4.
“Expor a própria vida” ou “estar decidido a morrer” era equivalente a “tomar a própria carne entre os dentes”, ou seja, morder-se:
“Tomo a minha carne entre os meus dentes,Coloco a minha vida em minha mão”. (Jó 13,14).
“Poder, força” era conceito expresso pelo vocábulo “chifre”, pois é neste que parece residir a força de muitos animais:
“(Deus é) meu escudo e o chifre de minha salvação” (= a força que me salva) (Sl 18, 2).
Essas são apenas algumas das dificuldades encontradas pelos tradutores. A tarefa de traduzir a Bíblia é algo bem mais difícil do que parece. As críticas são muitas. De um lado estão os que enfatizam a necessidade de uma tradução mais literal (como as feitas acima). Outros entendem que expressões hebraicas que não fazem sentido para nós hoje (p. ex. “lançar a sandália”) devem ser contextualizadas.

Fazer uma análise crítica das traduções é sempre útil. Mas acima de tudo é importante lembrar das dificuldades dessa tarefa. Pensemos nisso!







Bibliografia:
BETTENCOURT, Estêvão. Para entender o Antigo Testamento. Aparecida, SP: Editora Santuário, 1990.