segunda-feira, 22 de junho de 2009

O PENTATEUCO - DAS ORIGENS DO UNIVERSO À MORTE DE MOISÉS

Por Jones Mendonça

Muitas pessoas não conseguem organizar os livros da Bíblia numa ordem cronológica. Na tentativa de resolver o problema optei por contar a história de Israel passando por cada um dos livros do Antigo Testamento. Fiz alguns comentários quando julguei necessário e pus em negrito algumas palavras importantes. Começo com o Pentateuco:

1. O livro de GÊNESIS, onde tudo começou

Este livro, que na Bíblia hebraica chama-se Bereshit[1], começa com o relato da criação do universo e dos seres humanos. Em seguida temos o relato da queda do homem, suas conseqüências e a perversidade crescente, que culmina num dilúvio. Ainda na primeira parte (cap. 10) há o relato do repovoamento da terra a partir de Noé e a dispersão do povo pelo mundo, após o famoso episódio da torre de Babel, onde a linguagem humana teria sido confundida (cap 11).

Na segunda parte do Gênesis (a partir do cap. 12) o foco da história se concentra em Abraão, um descendente de Noé que habitava numa cidade chamada Ur dos caldeus. A família de Abraão migrou de Ur, na Mesopotâmia, para uma região conhecida como Canaã, terra dos cananeus (atual Palestina). Esse movimento migratório, iniciado pela família desse caldeu, ocorreu, segundo alguns historiadores, entre 1950 e 1300 antes de Cristo. Abraão teve um filho e um neto muito conhecidos: Isaac e Jacó. Por causa da fome, os descendentes de Abraão acabaram indo parar no Egito, estabelecendo-se na região de Gosen, no norte dessa cidade (Gn 47:27). A recepção dos descendentes de Abraão no Egito foi boa, uma vez que José, bisneto de Abraão, havia se tornado um alto funcionário do governo egípcio, gozando de elevado prestígio perante o faraó. Mas com o tempo essa situação iria mudar drasticamente...

2. O ÊXODO, fugindo da opressão

Já no início do livro do Êxodo é relatada a difícil situação na qual se encontravam os descendentes de Abraão, Isaac e Jacó:

assim lhes amarguravam a vida com pesados serviços em barro e em tijolos, e com toda sorte de trabalho no campo, enfim com todo o seu serviço, em que os faziam servir com dureza” (Ex 1.14).

Após a morte do faraó e de José o povo acabou se tornando escravo no Egito. Lá a vida não era fácil. Os altos impostos que tinham que pagar e os trabalhos forçados tornavam a vida insuportável. A lembrança da antiga promessa feita a Abraão de uma terra boa para o cultivo onde teriam paz e justiça impulsionou uma revolta, e após inúmeras tentativas conseguiram escapar sob a liderança de um hebreu criado na corte egípcia chamado Moisés. Ao contrário do que muita gente pensa, o povo que saiu do Egito não era formado exclusivamente pelos descendentes de Jacó (israelitas). Vários grupos de pessoas insatisfeitas com a vida no Egito se uniram aos israelitas durante o Êxodo:

Também subiu com eles uma grande mistura de gente; e, em rebanhos e manadas, uma grande quantidade de gado” (Ex 12.38).

Os descendentes de Abraão, Isaac e Jacó tinham o seu próprio Deus, que inicialmente era identificado apenas como “Deus de Abraão, Isaac e Jacó” (Ex 3.6), com a finalidade de diferenciá-lo dos outros deuses. Após fazer a famosa travessia do Mar Vermelho (ou Mar dos Juncos – Yam Suf) e reafirmar a aliança abraâmica no Monte Sinai, o povo caminhou em direção à Canaã. Deus se apresentava agora não mais como El shadday ou como o Deus dos patriarcas, mas como Yahweh (Ex 6.3), um nome mais específico. Toda essa jornada do povo durou cerca de 40 anos, durante a qual recebeu vários códigos de leis civis e religiosas. Enquanto o povo caminhava nessa peregrinação rumo a Canaã, Deus se fazia presente simbolicamente num templo móvel desmontável, o tabernáculo. As leis recebidas pelo povo no deserto foram registradas nos livros de LEVÍTICO (trata quase exclusivamente dos deveres sacerdotais), NÚMEROS (narra alguns fatos que se ligam imediatamente aos acontecimentos narrados no Êxodo, além de conter leis semelhantes às do Levítico) e DEUTERONÔMIO (repete, acrescenta e modifica algumas leis existentes no livro de Levítico, além de narrar os últimos dias de Moisés).

Esse grupo formado por pessoas que fugiam da opressão tinha agora um Deus (Yahweh); um templo (o tabernáculo, símbolo da presença do seu Deus no meio do povo); uma lei (a Lei Mosaica) e um líder (Moisés). Numa próxima etapa estarão lutando por uma terra. Essa história, que será contada em seguida, tem sua narrativa registrada no livro de Josué, o primeiro dos livros chamados históricos (na Bíblia hebraica está entre os profetas - Nebiûm).


[1] Na Bíblia hebraica os livros do Pentateuco possuem como título suas palavras inicias: Gênesis, Bereshit – No Princípio; Exodo, Shemot – Nomes; Levítico, Vaikra – E Chamou; Números, Ba-midbar – No Deserto; Deuteronômio, Devarim – Palavras

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Continuação: "Os livros históricos parte I - da posse da terra ao exílio".