quarta-feira, 10 de junho de 2009

NIETZSCHE, JESUS E DIONÍSIO

Por Jones Mendonça

O filósofo italiano Franco Volpi, falando sobre a repercussão das obras de Nietzsche, nos diz que “durante o conflito de 1914-1918, em uma livraria de Piccadilly, estavam expostos na vitrine os 18 volumes das suas obras completas em inglês, com uma inscrição em letras enormes: ‘The Euro-Nietzschean-War; leiam o diabo para poder combatê-lo melhor!’” [1]. Menos de vinte anos após a sua morte Nietzsche já era pintado como um demônio.

Nietzsche foi um crítico ferrenho do cristianismo, particularmente da moralidade cristã, que segundo ele dominava de forma perniciosa a consciência do povo alemão, denegrindo-o. Algumas de suas afirmações são capazes de fazer estremecer até mesmo o cristão menos piedoso: “para mim ela [a religião cristã] é a maior das corrupções concebíveis”[2], ou ainda: “O cristianismo é uma sublevação de todas as criaturas rastejantes contra tudo o que é elevado” [3]. Logo ele, filho e neto de pastores luteranos, cuja infância foi acentuada por uma intensa piedade. Após a morte trágica de seu pai e de seu irmãozinho, por exemplo, o pequeno Nietzsche desabafou: “Depois dessa dupla desgraça, Nosso Senhor lá no céu foi nossa única consolação”[4]. Mas Nietzsche era ainda um menino e não tinha tido influenciado pela filosofia de Feuerbach e Schopenhauer, pensadores que lhe fizeram refletir intensamente sobre sua herança religiosa. Na flor da idade, aos dezoito anos, foi capaz de um poema belíssimo, que revela seu exímio talento para escrever. Revela ainda sua extrema devoção:

AO DEUS DESCONHECIDO:

Uma vez mais, antes de partir daqui

E de dirigir o olhar para a frente,

Ergo solitário as mãos

Para ti, meu refúgio,

A quem, no fundo do meu coração,

Solenemente consagro um altar,

Para que sempre

Tua voz me chame sem cessar.

Sou teu, ainda que a malta dos ímpios

Me considere neste momento como um dos seus.

... Quero conhecer-te, ó Inconhecível,

A ti, cuja mão penetra no fundo de minha alma,

A ti, que transtornas minha vida como uma tormenta,

A ti, inapreensível, de mim tão próximo! .

Quero conhecer-te, servir-te eu mesmo [5].

Seria Nietzsche um um ateu convicto? Para Osvaldo Giacóia sim: “Ateísta radical, ele atribui ao homem a tarefa de se reapropriar de sua essência e definir as metas de seu destino”[6]. Carl Jung tinha uma opinião diferente:

Nietzsche não era ateu, mas o seu Deus havia morrido. O resultado desta morte foi sua cisão interior que o compeliu a personificar seu outro ‘Si-mesmo’ (Selbst) como ‘Zaratustra’ ou, em outra fase, como "Dioniso". Durante sua enfermidade fatal ele assinava suas cartas como ‘Zagreus’, o Dioniso despedaçado dos trácios. A tragédia de Assim falava Zaratustra consiste em que o próprio Nietzsche, não sendo ateu, se transformou em deus, porque seu Deus havia morrido" [7].

Se era ateu ou não talvez nunca venhamos a saber. O fato é que Nietzsche era atormentado por duas personagens: Dionísio e o Crucificado. A vida de ambos resume-se numa paixão. Um e outro sofrem um martírio: Dionísio dilacerado por seus fiéis, Jesus crucificado.

Dionísio e Cristo se combatiam (ou se amavam) no misterioso e enigmático coração de Nietzsche!

Referências bibliográficas:

[1] Em artigo publicado no jornal italiano “La Repubblica”, de 10 de abril de 2009.

[2] NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo, p. 9.

[3] Iden, p. 88.

[4] HALÉVY. Daniel. Nietzsche: uma biografia, 1989, p.8

[5] Iden, p. 299, 300.

[6] GIACÓIA Jr., Oswaldo. Nietzsche, 2000, p.10.

[7] JUNG, Carl G. Psicologia e religião, 1965, p. 96, 97.