sexta-feira, 5 de junho de 2009

A BABILÔNIA QUE ESTÁ EM NÓS

Por Jones Mendonça


A opressão é algo que subtrai do ser humano um dos seus bens mais preciosos, a liberdade. Esse bem precioso foi, ao longo da narrativa bíblica, negado ao povo hebreu. O Antigo Testamento nos fala da opressão dos egípcios, dos assírios e finalmente da deportação dos judeus pela Babilônia. Mas o benevolente Ciro parecia surgir para reverter esse quadro. O profeta Isaías (Dêutero-Isaías, ou segundo Isaías) surge nesse contexto. Suas primeiras palavras, no versículo um do capítulo quarenta já dão o tom de sua mensagem: “Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus”. A iniqüidade já havia sido expiada e já era hora do povo voltar para sua terra, reconstruir seu templo e viver a tão sonhada shalom.

O profeta cumpriu o seu papel, anunciou a liberdade e lançou o seu oráculo condenatório contra a Babilônia: “Desce, e assenta-te no pó, ó virgem filha de Babilônia; assenta-te no chão sem trono, ó filha dos caldeus” (Is 47:1). A Babilônia, arquétipo da cidade promíscua era encarada como algoz, que apesar de ter sido instrumento na mão de Deus para punir os judeus, tinha que pagar pela sua arrogância. Já Ciro, rei persa responsável pelo fim do cativeiro, foi interpretado como “o ungido do Senhor”.

Sabemos como a história continua. Os judeus voltaram para casa e lá mais uma vez não tiveram paz. O povo da terra, liderado por Sambalate e Tobias não mediu esforços para impedir a reparação dos muros da antiga cidade dos judeus. O tempo passou e depois vieram os gregos e mais adiante os romanos, numa seqüência que parecia não ter fim. Surgiu então um personagem como nenhum outro na história desse povo: Jesus de Nazaré. Esse profeta de origem humilde trouxe uma mensagem inovadora. Ele ensinou que um reino não se construía com muros. Com a simplicidade de uma criança e com uma mansa voz Ele dizia: “o reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17:21). Não havia mais necessidade de se erguerem muros. Muito pelo contrário, era preciso derrubá-los! Se o reino de Deus está dentro de nós, porque erguer muros? Somos agora livres. Mas esse novo conceito trouxe consigo uma nova ameaça. A Babilônia, que antes representava um poder opressor externo passava agora a brotar no coração de alguns homens.

O tempo passou e por volta do século IV, algo inesperado aconteceu. O cristianismo tornou-se a religião oficial do Império Romano. Fustel de Coulanges, na sua célebre Cidade Antiga observou que: “A religião, não sendo terrena, deixa de imiscuir-se das coisas da terra. Jesus Cristo acrescenta: ‘Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus’. Foi a primeira vez que se distinguiu tão nitidamente Deus do Estado[1]. Essa distinção feita por Jesus e lembrada por Coulanges parece não ter sido levada a sério. O cristianismo, antes uma religião marginal e perseguida pelo Império, passou de vítima à vilã, de oprimida à opressora. Se na época do dêutero-Isaías era a Babilônia que representava o poder político opressor, agora ele vinha da própria “Igreja de Deus”. No ápice dessa perseguição, muitas pessoas foram torturadas e assassinadas de formas horrendas pelos motivos mais banais. Algumas delas pelo simples fato de terem apoiado a tese de que Jesus e os apóstolos não possuíam riquezas ou bens materiais.

A roda do tempo continuou a girar de forma impiedosa. Surgiu no século XVI a Reforma, e ela parece não ter sido capaz de mudar muito esse quadro. Edith Simon, referindo-se ao governo teocrático instituído por Calvino na Suíça, afirma que “O povo de Genebra, que tinha tanto orgulho de haver derrubado o domínio dos duques saboianos e dos prelados romanos, submeteu-se voluntariamente a uma tirania muito mais férrea e extensa[2]. Seria uma injustiça dizer que a reforma não teve o seu valor, mas como vemos os muros ainda não tinham sido derrubados completamente.

Toda essa história nos causa espanto e horror, nos fazendo lembrar do profeta Habacuque, que na sua angústia bradou: “Até quando Senhor, clamarei eu, e tu não escutarás?” (Hb 1:2). Angustiados nos perguntamos: De onde tirar esperança? Esse ciclo perverso nunca terá fim?

O mundo de hoje não é muito diferente daquele vivido pelo povo judeu no exílio. Há sistemas opressores que denigrem o homem, feito a imagem e semelhança de Deus. Muitos são os que correm desesperados para as igrejas, pois ouviram dizer que lá é um lugar de esperança e libertação. Na tentativa de escapar de terrível Babilônia, o cristianismo moderno parece se esconder, se enclausurar entre muros. Constroem-se castelos seguros, imbatíveis, mas para viver entre seus muros é preciso pagar caro (literalmente falando). Para receber proteção contra os “demônios” do mundo exige-se obediência e fidelidade incondicional. Lamentavelmente em muitas delas vale o dito espanhol: “Entre Deus e dinheiro, o segundo é primeiro”. Nelas já não reina Marduk, mas Mamon. É penoso dizer, mas Babilônia está em nós.

Jesus quis tornar o homem livre quando disse: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8:32), mas ele tem se tornado prisioneiro de si mesmo nesse eterno retorno à Babilônia. O que nos resta é lançar sementes. O salmista já enxergava o poder contido no pequeno, porém poderoso grão: “Aquele que sai chorando, levando a semente para semear, voltará com cânticos de júbilo, trazendo consigo os seus molhos” (Sl 126:6).

Lançar sementes é a nossa única esperança...

Referências Bibliográficas:
[1] COULANGES. Fustel. A cidade antiga. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996, p. 264.
[2] SIMON, Edith. A Reforma. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1971, p. 61.