quarta-feira, 3 de junho de 2009

PAUL TILLICH E O MÉTODO DA CORRELAÇÃO

 Por Jones Mendonça

Sem dúvida alguma Paul Tillich é um dos maiores nomes da teologia protestante do século XX. De maneira bastante original buscou um diálogo entre a teologia, a filosofia existencialista e a psicologia de profundidade. Mas toda essa bagagem cultural acabou contribuindo para que a leitura de seus escritos seja quase insuportável para os menos familiarizados com essas disciplinas. Sua erudição era tão ampla que o tornava capaz de discutir numa mesma obra idéias de pensadores como Hegel, Kierkegaard, Kant, Jung, Freud, Erich Fromm, Lutero, Calvino, Agostinho de Hipona e tantos outros mais.

Da psicanálise herdou a descoberta do valor do símbolo, que segundo ele é a melhor maneira de expressar a verdade revelada. Alguns de seus questionamentos são no mínimo inquietantes: “porque a Trindade não pode ser ampliada a ponto de se tornar uma quaternidade ou ainda mais que isso?”[1]. Será que Paul Tillich está defendendo a idéia tão discutida dentro do catolicismo de que Maria deveria ser elevada ao nível de divindade, sendo considerada co-salvadora juntamente com Cristo? Ou pior, será que está defendendo o politeísmo, já que levanta a possibilidade de uma ampliação ainda mais elástica? A quaternidade é um assunto caro a Jung, discípulo de Freud e conhecer seu pensamento sobre o tema é essencial para compreender o que Paul Tillich queria exprimir com esse questionamento.

E o que dizer dos termos “Ser”, “não-ser”, “Ser-em si” que constantemente surgem em suas reflexões embaçando a mente dos neófitos alunos de teologia? Para não considerá-lo um lunático imerso em devaneios sem sentido é preciso ter uma noção do que foi a filosofia existencialista, que aliás também influenciou o pensamento do não menos polêmico Rudolf Bultmann. Paul Tillich é assim, erudito, eclético, profundo. Certa vez ouvi de um pastor que é um herói aquele que ler seus escritos e permanecer “crente”. Será?

O seu linguajar quase hermético pode facilmente levar um leitor a considerá-lo um daqueles teólogos teóricos que nenhum compromisso tem com a igreja. Ainda que isso possa ser verdade, essa não parece ter sido sua intenção. Logo na introdução de sua teologia sistemática Paul Tillich enfatiza a necessidade de uma teologia prática: “A teologia, como função da igreja cristã, deve servir às necessidades da igreja.”[2]. Para ele, tais necessidades básicas consistem na “afirmação da verdade da mensagem cristã e a interpretação desta verdade para cada geração.”[3]. Ele propõe uma teologia dinâmica, que busca sempre confrontar as verdades fundamentais do cristianismo com a situação. Por “situação”, ele entende serem “todas as várias formas culturais que expressam a interpretação de sua existência do homem moderno”. Esse método ficou conhecido como método de correlação. Como nos diz Luana de Oliveira: “Tillich elabora um método de correlação que situa a teologia entre a mensagem (cristã) e a situação (contexto)”[4]. Para Paul Tillich a teologia deve funcionar como um elo de ligação entre as perguntas implícitas na situação e as respostas implícitas na mensagem. Caso não exista uma boa articulação entre esses dois pólos, essa mensagem corre o risco de perder seu poder profético. Quando dizemos que é preciso contextualizar a mensagem bíblica adequando-a a cada geração, estamos de certa forma fazendo aquilo que ele propõe.

Paul Tillich critica o fundamentalismo e a ortodoxia, pois considera que rejeitam a tarefa de buscar a mensagem eterna dentro da Bíblia e da tradição. Pela sua ótica, tais correntes tendem a transformar uma verdade teológica do passado em algo imutável, não permitindo que respondam às perguntais existenciais do presente e do futuro. Ele sustenta que uma verdade bíblica eterna deve ser apresentada por meio de símbolos e não por sistemas teológicos rígidos, pois só a expressão simbólica possui “uma base adequada para apontar para além de si mesma”[5]. Os símbolos, afirma Paul Tillich, “forçam o infinito a descer à finitude”[6]. Só através deles a mensagem eterna do cristianismo poderá atravessar os séculos sem perder a sua força, adequando-se de forma satisfatória a cada nova situação. Com esse argumento Paul Tillich demonstra que o fundamentalismo e a ortodoxia não apresentam métodos adequados para estabelecer uma relação eficaz entre a verdade eterna (o querigma) e a situação.

A teologia querigmática e a teologia apologética são postas por Paul Tillich em extremos opostos. Para ele os apologistas tendem a se apegar demais à situação, o que causaria o abandono do querigma. Tal erro seria notado nos cristãos do primeiro século, que na ânsia de encontrar pontos de contato entre a verdade bíblica e o pensamento da época, acabaram por dissolver a mensagem cristã. O contrário ocorreria com a teologia querigmática. Como para eles a situação não pode ser penetrada, restaria apenas a tarefa de repetir passagens bíblicas isoladas, negando-se a assumir a tentativa de dar respostas às perguntas formuladas pelo contexto contemporâneo. Para Paul Tillich Karl Barth deixa de ser um teólogo querigmático justamente porque tinha a coragem de se corrigir à luz da situação, conseguindo ultrapassar os limites da ortodoxia e estabelecer um diálogo entre querigma e apologética. Aliás, para ele sua grandeza consistia justamente nisso. O fato de ter conseguido criticar o governo de Hitler a partir da ressurreição de Cristo seria uma prova disso.

Toda essa discussão envolvendo a dialética entre mensagem e situação, feita por Paul Tillich, permanece em intenso debate. Apesar de não me parecer possível negar o valor do método da correlação, vale a pena estar atento ao alerta dado pelo próprio Paul Tillich: “esse método não um instrumento a ser manipulado a bel-prazer.”[7]. Ele nos alerta de que quando o método da correlação é empregado com o intuito de formular respostas a partir da pergunta, a mensagem cristã fica ainda mais comprometida. Se os apologistas erraram por valorizar demais a situação em detrimento do querigma, os que cometem tal inversão simplesmente ignoram a possibilidade de uma verdade imutável, já que apresentam uma nova verdade a cada nova pergunta.

É importante salientar que o conceito de “verdade imutável” em Paul Tillich não é o mesmo que se usa na teologia protestante ortodoxa. Segundo suas palavras: “um símbolo religioso é verdadeiro [quando] é a expressão de uma revelação verdadeira.”[8]. Tal modo de enxergar a revelação é bem exemplificado pelo mitólogo Joseph Campbell, que como Tillich, foi fortemente influenciado dela psicanálise junguiana:
a semente se tornou o símbolo mágico do ciclo infinito. A planta morria, era enterrada e sua semente renascia. Campbell mostrou-se fascinado pelo fato de esse símbolo ter sido incorporado pelas grandes religiões do mundo, como a revelação da verdade eterna a vida provém da morte, ou, como ele dizia: “A bem-aventurança provém do sacrifício”[9].
Assim como para os agricultores primitivos o que tinha valor não era propriamente a semente, mas o símbolo que ela carregava, para Paul Tillich o que vale na morte e ressurreição de Cristo não é propriamente a morte e a ressurreição como fatos históricos, mas o valor que carregam como expressão de verdades fundamentais. Tais símbolos podem ser respostas à perguntas feitas por grupos variados, satisfazendo suas perguntas existenciais de acordo com as mais diversas situações. O homem faz as perguntas, a teologia responde. Para Paul Tillich não basta desmitologizar, como fez Bultmann, é preciso aplicar o mito à situação.

Paul Tillich foi criticado por construir sua teologia a partir do homem e não de Deus, já que começa com as perguntas e não com as respostas. Mas se considerarmos que as respostas bíblicas são justamente aquelas que atendem as necessidades existenciais do homem essa crítica perde sua razão de ser. Se a revelação é uma resposta ao vazio existencial humano é natural que comecemos com as perguntas e não com as respostas. Afinal ninguém busca responder a uma pergunta não feita. A teologia de Paul Tillich é muito filosófica e racionalista, é verdade, mas não dá para negar o seu valor.

Referências bibliográficas:
[1] TILLICH, Paul. Teologia Sistemática, p. 608.
[2] Ibid, p. 13.
[3] Iden.
[4]OLIVEIRA, Kathlen Luana de. História como Contextualidade e Apatia Teológica. Protestantismo em Revista. São Leopoldo, v. 13, mai.-ago. 2007, p. 69. ISSN 1678 6408. Disponível em: Acesso em: 16/03/2009.
[5] TILLICH, Paul. op. cit., p.202.
[6] Ibid. p. 203.
[7] TILLICH, Paul. op. cit., p.17.
[8] Ibid. p. 203.[9] CAMPBELL, Joseph. O poder do mito. 1990, p.1
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Imagem:
Capa do livro "Outstanding christian thinkers" (eminentes pensadores cristãos"), de John Heywood Thomas.