quarta-feira, 10 de julho de 2013

PAPA DE TINTA: VERDADE EM GUACHE

O sujeito fica inconformado com o número absurdo de interpretações diferentes dadas a um mesmo texto bíblico. Ele pensa: “ora, o texto deve ter um sentido apenas. Devo me empenhar em descobrir seu sentido original, verdadeiro”. Então ele acaba conhecendo dois métodos de interpretação que o acaso lhe põe às portas: o método histórico-gramatical e o histórico-crítico. Abre parêntesis: há um grupo de exegetas que acha que o texto tem vida própria, fala o que der na telha dependendo do momento e do lugar. É como massinha de criança, ou boneco de ventríloquo, brinquedo maleável nas mãos do pequeno infante. Serve para divertir, não para interpretar. Desses nem vale a pena falar. Fecha parêntesis.

No âmbito protestante os que adotam o método histórico-gramatical possuem pressupostos metodológicos ancorados no dogma, verdade que nasceu do voto "inequívoco" dos antigos. O texto parece dizer “A”, mas na cartilha rota do dogma a orientação é que o texto diga “B”. Para estes não há o que discutir, o dogma tem sempre razão. Trata-se de um método bem parecido com o dos católicos. Entre eles se diz: Roma locuta, causa finita. No meio protestante, há os pequenos “papas de tinta”. São, como os de lá, “infalíveis”.  A diferença? Falam pela boca dos líderes denominacionais.

Os que adotam o método histórico-crítico buscam desnudar o dogma. Recusam-se a usar as lentes da tradição viciadas pelo uso. Querem lentes novas e límpidas, capazes de ver os pequenos fios entrelaçados que formam o texto. Desmontam, decompõem, fragmentam o texto em mil pedaços. Sugerem que ele possui muitas texturas, rica gama de cores, miríades de fios diferentes tecidos por uma centena de teares manipulados por hábeis mãos que atravessaram séculos no exercício da arte de fiar. O que descobrem geralmente não agrada os que foram iniciados no ofício de repetir, copiar e manter. A sombra do dogma lhes obscurece a vista. Onde parecia haver um camelo, vê-se que há um mosquito. Onde parecia haver um mosquito, vê-se que há um camelo.   Papa de tinta, verdade em guache.



Jones F. Mendonça