terça-feira, 26 de março de 2013

O MESSIAS RÉGIO E O MESSIAS SACERDOTAL

Após a morte do davidida Zorobabel (neto de Jeconias, tido como o “anel de selar” em Ag 2.23) a figura do sacerdote foi ganhando cada vez mais proeminência. Sua não coroação e a conseqüente não concretização do tempo escatológico parece ter impulsionado um retoque no texto original de Zc 6,9-14, que substitui o descendente de Davi por Josué, o sacerdote. Nesse ambiente de expectativa escatológica frustrada surgiu a crença em dois messias. O primeiro viria de uma linhagem sacerdotal (messias de Aarão). O segundo seria um descendente de Davi (messias davídico).

Numa refeição comum mencionada em 1QSa 2,11-22 fica evidente a esperança de dois messias. Aliás, o texto deixa claro que o sacerdote desempenha um papel superior ao do messias davídico:
E [quando eles] estiverem juntos [à mes]a [ou para beber o vinho no]vo e (quando) a mesa estiver preparada e [o] vinho novo for [misturado] para beber, [nin]guém deverá [estender] a mão para as primícias do pão e [o vinho novo] antes do sacerdote; pois [ele é quem vai ab]ençoar as primícias do pão e o vinho nov[o e estenderá] a mão para o pão primeiro. Depois di[sso], o Messias de Israel [estender]á a mão para o pão (FITZMYER, 1997, p. 89).
Algumas diferenças entre o TM (texto massorético – séc. X d.C.) e os MMM (Manuscritos do Mar Morto – séc. I a.C.) parecem sugerir que o profeta Malaquias (Ml 3,1-2) também alimentava a expectativa por dois messias: o adonai e o mensageiro. Compare:

Há quem pense (Cf. TABOR, 2006, p. 165) que essa esperança, mantida viva pela comunidade de Qumran, teria sido lançada sobre a figura de João Batista (apresentado como sacerdote da tribo de Levi) e Jesus (tido como descendente de Davi da tribo de Judá). A separação entre as duas figuras (João – “movimento judaico” x Jesus – “movimento cristão”) teria sido feita mais tarde pela comunidade cristã.

Ao que aparece a tradição de um messias sacerdote deixou marcas bem visíveis no livro de Hebreus, que declara que Jesus é sacerdote da linhagem de Melquisedeque, ou seja, é sacerdote por unção divina direta e não por linhagem, da mesma forma que o rei-sacerdote jebuseu. Diz-nos ainda o autor de Hebreus: “sem derramamento de sangue não há remissão” (Hb 9,22). Jesus é visto como o cordeiro que entrega sua vida num sacrifício substitutivo. Mas a ideia de que Jesus tinha que morrer traz muitos problemas. Anselmo de Cantuária que o diga. 

Nas teologias sistemáticas o tema escatologia é apresentado como se houvesse coesão entre os diversos textos. Surgem, por exemplo, “modelos escatológicos”, como o amilenismo, pré-milenismo e pós-milenismo. Em minha opinião faz mais sentido pensar que a esperança messiânica foi sendo moldada de acordo com o contexto no qual estava inserida a população israelita. Então o que sobra? Só a esperança. Nada mais.


Jones F. Mendonça