segunda-feira, 11 de março de 2013

NIETZSCHE E O NIILISMO: RESSENTIMENTO, MÁ CONSCIÊNCIA E IDEAL ASCÉTICO

Prometeu acorrentado,
de JacobJordaens (1640). 
Nietzsche afirmou que os valores morais foram criados pelos próprios homens e não oriundos de um além mundo como anunciavam os religiosos. Ele iniciou sua investigação na Grécia pré-socrática, particularmente na tragédia grega, manifestação artística que expressava a forma positiva com a qual os gregos encaravam a existência. Os gregos desse tempo - defendia Nietzsche - afirmavam a vida a despeito das atrocidades e falta de sentido do mundo. Mas a partir de Sócrates e Platão, a ideia de um “outro mundo”, perfeito, ideal e pleno, teria se cristalizado na consciência dos gregos, dando início à decadência do espírito trágico. Se há um mundo perfeito, verdadeiro, ideal, teriam pensado os gregos sob a nova visão de mundo, é nele que o homem deve buscar o modelo do correto sentir, do correto pensar e do correto agir. Surgiam assim os fundamentos da moral judaico-cristã. Essa moral, anunciada pelos seguidores do Cristo (e não pelo próprio Cristo, insistia Nietzsche), particularmente por Paulo de Tarso, teria dominado a civilização ocidental por quase dois milênios, dando origem à “enfermidade do século”, o niilismo, negação e depreciação da vida em nome do além.

Nietzsche definiu o niilismo a partir de três figuras principais: o ressentimento, a má consciência e o ideal ascético. O ressentimento teria surgido a partir da busca dos “fracos” pelos culpados por suas mazelas. Tais pessoas, incapazes de enfrentar as atrocidades da existência, teriam interiorizado seus afetos e envenenado a si mesmo, dando origem à figura do ressentido, um indivíduo impotente diante dos “fortes”, que oculta sua amargura no comportamento humilde, submisso, obediente, paciente e perdoador. Esse movimento de introjeção teria como desdobramento a “má consciência”, ou sentimento de culpa, que faz com que o ressentido sinta-se culpado pelo que o faz sofrer e o mova em direção à autopunição. Para completar o processe Nietzsche acrescentou um terceiro e último elemento, “o ideal ascético”. Tomado pela má consciência e pela culpa, restaria ao ressentido a negação da vida e do mundo. Para justificar seu sofrimento o “fraco” teria optado por “desejar o nada” (cristianismo) a “nada desejar” (budismo), idealizando um “mundo imaginário”, puro, perfeito, belo, antítese da vida terrena. Esse modelo moral socrático-platônico-cristão, chamado por Nietzsche de “moral de rebanho”, teria se transformado num instrumento nas mãos do sacerdote, uma espécie de terapeuta perverso, domesticador por excelência, disposto a subjugar os mais fracos, que incapazes de se levantarem contra seus dominadores passaram a rotular como “mal” tudo aquilo que lhes causava dor e sofrimento.

Nietzsche via a necessidade do homem ocidental se desvencilhar da moralidade cristã a fim de que pudesse nascer o que chamou de além-do-homem (Übermensch), novo homem capaz de levar às últimas conseqüências a afirmação da vida, dando vazão a sua “vontade de potência”. O grau de afirmação seria tal que o além-do-homem desejaria o eterno retorno, ciclo interminável da existência, vivenciando-a novamente em todos os detalhes, tanto os agradáveis, como aqueles que lhe causam dor e sofrimento. Para Nietzsche, este homem estaria por vir. Este seria o homem do futuro.




Jones F. Mendonça